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floresfloresflores e café

Summary:

“Preciso alimentar os meus gatos. Eles ainda não almoçaram.” Aaron não foi liberado da aula porque se tratava de uma matéria optativa de biologia, e Betsy saía cedo para trabalhar. Podia ter pedido a Nicky, se o primo não estivesse na Alemanha com o noivo.

“Meus filhos.” Andrew tossiu, pressionando as mãos nos ombros de Neil, que apoiou o queixo no abdômen de Andrew para encará-lo com os olhos azuis.

“Meus gatos, Neil. Você não é o pai deles.”

“Eu sou. Eles me adoram. Somos pais de duas crianças.” Teimoso. Andrew revirou os olhos e empurrou sua bochecha com a mão direita. Neil se deixou levar antes e voltar para a posição inicial, com um sorriso ainda maior nos lábios.

“Pare de falar como se fôssemos casados há anos.” Não pare, era o que Andrew queria dizer.

“Você quer? Se casar?” Neil rebateu, e Andrew desistiu dele.

Notes:

oi! isso aqui é só uma bobagem que me veio na cabeça e eu precisava escrever sobre andreil sendo um casal de adolescentes que só querem se beijar depois da escola e tem famílias saudáveis <3 é um grande emaranhado de apelidos idiotas, gírias e dois garotos completamente apaixonados. ah! aqui, neil josten sabe usar um celular e está planejando pedir seu namoradinho oficialmente em namoro.

Chapter 1: beijos e pais de gatos

Chapter Text

A aula havia acabado mais cedo. Desde que começou o último ano da escola, Neil aprendeu a ficar muito, muito agradecido por qualquer horário livre que surgia em sua semana. Wymack dizia que eram as consequências de querer “meter o nariz” em toda e qualquer atividade extracurricular que aparecia, já que Neil sempre tivera um complexo de querer ser bom em tudo que tivesse a chance de experimentar, unido ao fato de ser um dos melhores jogadores do time de exy da escola, sua segunda maior obsessão. 

Neil teria dado uma gargalhada se alguém, algum dia, ousasse dizer que o esporte deixaria de ser sua paixão número um. Agora, com olhos castanhos caídos o encarando tão de perto, Neil se pergunta como viveu por tanto tempo sem conhecer o que é paixão de verdade, recíproca; uma raquete jamais poderia retribuir a animação de Neil ao segurá-la, não como Andrew faz ao reprimir um sorriso quando entrelaçam os dedos para atravessar a rua.  

O crepúsculo atravessa a cortina fina do quarto sem muito esforço, criando um reflexo brilhoso que transforma as íris castanho-café em cor de mel. Andrew está o encarando com seus olhos de mel, e Neil não consegue fazer nada mais que derreter no carinho gostoso que recebe nos cachos ruivos.  

Wymack fingia não saber, mesmo que Neil não escondesse. Na verdade, ele pouco se importava com nada disso. Chamava Andrew para casa sempre que tinham um tempo a mais antes de se afundarem em trabalhos escolares e semanas de provas, sem entender por que Kevin arregalava os olhos sempre que Andrew descia as escadas com o cabelo bagunçado e os olhos sonolentos. O que diabos ele estava pensando? 

“Renee disse que as tortas são gostosas.” Andrew murmurou, desenhando o queixo de Neil com o indicador com uma das mãos, enquanto a outra permanecia ondulando entre as mechas do cabelo macio. Neil estava deitado de costas na cama, com o rosto inclinado para vê-lo. Andrew estava meio de lado, com uma das pernas jogadas por cima do quadril de Neil, o prendendo ali, e a bochecha amassada contra o bíceps dele.  

Neil não respondeu sobre as tortas, entretanto. Estava com um sorriso de canto nos lábios, os olhos azuis relaxados e uma necessidade inexplicável de ronronar com o cafuné que recebia no cabelo. Como alguém conseguiria falar em uma situação como essa?  

Andrew franziu o cenho e prendeu as mechas da nuca de Neil entre os dedos, puxando de leve. Neil resmungou baixinho e piscou os olhos, acordando do transe. 

“Sim. Sim, as tortas. Bem doces.” Sua voz saiu em forma de murmúrio. Neil não era o maior fã de coisas muito doces; preferia azedo, cítrico ou salgado. Era engraçado pensar na quantidade de doces que começou a comprar desde que começou a sair com Andrew, todos para ele. “Parece um lugar confortável.” Neil lembrava da fachada da nova cafeteria que havia aberto na esquina da escola. 

As paredes eram divididas entre tons de creme e azul marinho, com detalhes em marrom e muitas plantinhas decorando a entrada. As mesas eram de madeira clara, cada uma com seu próprio guarda-sol azul. Nunca tinha entrado lá, mas podia ver através da vitrine que as luzes eram amareladas, tinham quadros espalhados pelas paredes e a decoração consistia em mais plantas, placas e pequenas lâmpadas penduradas no teto. Na primeira vez que passou por ali, quando foi acompanhar Matt até seu novo emprego meio-período de barista, Neil só conseguia pensar em como gostaria de entrar lá com Andrew. Seus pensamentos sempre voltavam para ele, afinal. 

“Parece, Neil.” Andrew disse, com os olhos franzidos, a voz levemente incisiva. Neil umedeceu os lábios e passeou a atenção mais uma vez pelas bochechas macias e o rosto pálido, brincando com os dedos, esquecidos sobre a própria barriga. Era uma mania já involuntária; Andrew estava tão relaxado largado sobre os lençóis que Neil não queria correr o risco de deixá-lo desconfortável. Seu carinho era mais do que o suficiente. “Você gostaria de ir?” Direto como sempre. 

Para Neil, as coisas eram um pouco mais complexas. Se não explicadas como para uma criança de três anos, ele interpretaria do modo mais literal possível. 

“Ah, acho que sim. Um dia.” Ele não era tão chegado a cafeterias, costumava beber muitos sucos naturais e lanchar qualquer besteira de mercado, como biscoitos sem recheio e barrinhas de cereal — influência de Kevin, seu irmão desde que se entendia por gente, o que queria dizer alguns bons anos. Andrew arqueou uma das sobrancelhas com a resposta desatenta, pressionando os lábios em uma linha e secretamente desapontado. Deveria ser um encontro, mas talvez Neil tivesse apenas interpretado como se ele, a pessoa menos fã de cafeterias superfaturadas, fosse lá sozinho para fingir ler um livro e reclamar que o café está sem açúcar. Maldito ruivo bobo. 

Antes que a cabeça de Neil conseguisse fugir da aspiral Andrew, olhos de mel, cafuné, Andrew, perfume tangerina, Andrew... As batidas na porta foram altas o bastante para quebrar a bolha dos dois. Andrew lançou uma olhada para a porta trancada, diminuindo o cafuné nos cachinhos ruivos até parar de vez. 

“Neil! A gente vai se atrasar para o treino! Você ainda está dormindo!?” Kevin gritou do lado de fora, mas com a voz levemente emburrada. Neil conseguia visualizar seus braços cruzados e olhos verdes irritadiços mesmo através da madeira maciça. “Vou esperar lá embaixo! O papai vai nos dar carona, esqueceu? Caramba, você é péssimo com horários. Toda vez que...” E continuou resmungando, enquanto se afastava da porta. Neil estalou a língua no céu da boca e girou o corpo na cama, apoiando o peso nos braços para não depositar o peso sobre Andrew.  

“Dei sorte dele não saber que estou aqui.” Andrew resmungou com desdém. Diante da chatice interminável de Kevin Day com atrasos, ele agradeceu mentalmente por não ouvirem reclamações em dobro, como aconteceria se o atacante soubesse que seu melhor goleiro estava igualmente atrasado depois de passar umas duas horas de chamego com Neil em seu quarto.  

Ele jamais reclamaria. Tinha aprendido que o toque físico pode sim fazê-lo sentir amor, quando pela pessoa certa, e a companhia de Neil e seus posters de tubarões colados pela parede o deixavam relaxado de uma maneira que pensou nem ser possível, para alguém com tantos monstros fundidos aos ossos.  

“Ele vai descobrir, a não ser que você prefira pular a janela do que enfrentar Kevin Day.” Com a voz brincalhona, os olhos de Neil fecharam levemente ao sorrir, mudando o foco das íris azuis para os lábios de Andrew, inclinando a cabeça de leve, com o nariz pairando sobre o dele. “Sim ou não?”  

“Sim.” Andrew sussurrou de volta, abraçando a cintura covardemente delineada de Neil para demonstrar que podia soltar o peso ali, caso quisesse. O sorriso de Neil se alargou um pouco mais antes de finalmente colar os lábios aos dele, soltando devagar o apoio dos braços para os cotovelos, com o peito colado ao de Andrew e os joelhos apoiados nas laterais de seu quadril.  

O beijo de Andrew era gentil. Neil tinha aprendido a diferenciar cada um dos beijos que recebia de Andrew, sejam os intensos e famintos ou saudosos. Ali, depois de conversarem sozinhos por tanto tempo, com o cheirinho gostoso de camomila que emanava do cabelo de Neil, toda sua linguagem corporal o puxava para um poço de conforto e carinho. As mãos de Andrew deslizavam pela pele desnuda de suas costas, vendo com as pontas dos dedos as ondulações das cicatrizes já tão conhecidas, e Neil sentia que derreteria a qualquer instante com a língua macia deslizando sobre a sua. Quando Andrew prendeu seu lábio inferior com os dentes e afundou levemente a cabeça no colchão, Neil franziu as sobrancelhas, o seguindo como um... 

“Viciado.” Andrew murmurou, sorrindo com os olhos, mesmo que sua expressão continuasse consideravelmente neutra. Neil cresceu os olhos para ele, daquele jeito que o azul parecia ficar mais azul e seus lábios se curvavam em um beicinho, e Andrew o beijou outra vez, pressionando os polegares de forma carinhosa nas covinhas do fim de suas costas.  

“Você está tão cheiroso.” Neil confessou, esfregando o nariz na bochecha de Andrew, que revirou os olhos e o empurrou de cima dele para levantar. Kevin tinha gritado mais um turbilhão de xingamentos no andar debaixo e a paciência de Andrew não era a melhor coisa do mundo. 

“Vai me cheirar depois das duas horas de treino na quadra?” Estava só implicando, mas Neil riu mesmo assim, rolando no colchão ao se espreguiçar, ajeitando o elástico da bermuda laranja curta na frente. Ele tinha deixado Alysson costurar a bainha porque, nas palavras dela, ‘suas coxas grossas precisam respirar’.  

“Você sabe que eu vou. Vou lamber o seu suor.” Como sempre, Neil não tinha problema algum em responder um absurdo com outro absurdo. Andrew fez uma careta para ele e pegou a mochila esquecida no chão, ao lado da cama. Não tinha tirado muitas coisas dali, com exceção do porta-escova-de-dentes — tinham almoçado yakisoba na volta para casa — e um caderno para terminar de escrever uma redação. Ele não escreveu nada, aliás. Neil choramingou até que Andrew voltasse a prestar atenção nele e largasse a caneta.  

“Nojento.” Reclamou, apoiando a alça da mochila no ombro. Neil não respondeu, mas o encarou com uma das sobrancelhas arqueada, e Andrew girou o corpo para não encarar a expressão ridícula de ‘você sabe que gosta’ que aquele imbecil estava fazendo. Como Neil conseguia pensar tanta besteira e mesmo assim não saber responder um convite para um encontro romântico? Bee tiraria sarro outra vez do garoto que o coração de Andrew tinha escolhido gostar — Ela o adorava, e adorava ainda mais os dois juntos. Tudo que fizesse seus filhos felizes, ela adorava com toda a alma, e isso incluía uma das melhores amigas de Neil, igualmente ruiva, bocuda e competitiva, que namorava com Aaron, irmão gêmeo de Andrew.  

“Vou descer. Vai me deixar enfrentar Kevin sozinho? Talvez ainda dê tempo de escolher o irmão certo.” Ele não falava sério, mas a expressão emburrada que Neil fazia sempre que Andrew mencionava a possibilidade absurda e inexistente de se envolver com Kevin Day valia a pena.  

Era uma história engraçada: Andrew demorou muito, muito para criar coragem de falar com Neil. Tinham amigos em comum, Andrew ia todos os dias no pet shop onde Neil trabalha só para vê-lo, fingindo que seus gatos quebravam um brinquedo por dia, e se viam constantemente na escola. Mesmo assim, Andrew congelava toda vez que Neil o fitava com os olhos azuis. Neil não daria o primeiro passo, conhecia Andrew o suficiente para saber que ele acabaria se afastando caso não sentisse o mesmo, então tinha medo. Tinha medo de perder o pouco que tinha com Andrew, que consistia em cumprimentos curtos durante a semana, olhares amigáveis sempre que se encontravam em alguma festa ou reunião de fim de semana dos amigos e conversas longas até demais quando estavam esperando no ponto de ônibus. Neil deixava passar os três primeiros ônibus só para ouvir mais da voz de Andrew.  

Andrew se aproximou muito de Kevin Day no primeiro ano do ensino médio, quando entrou no time e se destacou sem fazer esforço. O que muitos não sabiam é que ele não estava caidinho por Kevin, como todo mundo, mas porque estava doido pelo irmão dele. Dito e feito, Kevin faltou explodir quando descobriu que Neil, seu irmão protegido e que não reconhecia quando alguém flertava com ele, tinha roubado o coração de Andrew Minyard. Quando Andrew finalmente colocou um bilhete escrito ‘quero te beijar, ruivo idiota’ no armário dele, depois de Kevin explicar que ele precisava ser direto, mais direto do que nunca tinha sido, Neil não precisou de muito para saber quem era. 

Allison insistiu que poderia ser qualquer pessoa, já que, de acordo com ela, boa parte da escola tem ou já teve uma queda por Neil, mas que culpa ele tinha? Sua cabeça só tinha Andrew, Andrew, Andrew. De início, Neil entrou em curto-circuito só de pensar em beijá-lo. Tinha beijado algumas pessoas, mas nunca uma que fizesse aquelas borboletas teimosas se debaterem em sua barriga como Andrew fazia — Como Andrew faz. 

“Boa sorte com isso.” Apesar da voz irritadiça, Neil rolou até sentar na beirada da cama, chamando Andrew para perto outra vez. Andrew reprimiu a risada satisfeita e se posicionou entre as pernas dele, assentindo com a cabeça para os olhos azuis inquisitivo, permitindo que Neil deixasse um beijo demorado em sua barriga, por cima do moletom macio. “Você podia pegar carona conosco.” Neil relembrou, com as mãos cuidadosamente apoiadas nas laterais de seus joelhos. Andrew nunca comentava sobre o jeito cuidadoso de Neil, mas seu coração aquecia tanto que quase virava manteiga. Ele gostava tanto disso, seja lá o que fosse, que era fora de cogitação esquecer a conversa de mais cedo. Ainda levaria Neil em muitos encontros românticos formais.  

“Preciso alimentar os meus gatos. Eles ainda não almoçaram.” Aaron não foi liberado da aula porque se tratava de uma matéria optativa de biologia, e Betsy saía cedo para trabalhar. Podia ter pedido a Nicky, se o primo não estivesse na Alemanha com o noivo.  

“Meus filhos.” Andrew tossiu, pressionando as mãos nos ombros de Neil, que apoiou o queixo no abdômen de Andrew para encará-lo com os olhos azuis. 

“Meus gatos, Neil. Você não é o pai deles.” 

“Eu sou. Eles me adoram. Somos pais de duas crianças.” Teimoso. Andrew revirou os olhos e empurrou sua bochecha com a mão direita. Neil se deixou levar antes e voltar para a posição inicial, com um sorriso ainda maior nos lábios. 

“Pare de falar como se fôssemos casados há anos.” Não pare, era o que Andrew queria dizer.  

“Você quer? Se casar?” Neil rebateu, e Andrew desistiu dele.  

Quero te levar para a cafeteria, em um encontro romântico, e segurar sua mão.  

“Idiota. Você é um idiota. Viciado.” E o soltou, ignorando a voz no fundo de sua mente e sem sentir resistência alguma das mãos de Neil em deixá-lo ir. A gargalhada de Neil ecoou no quarto, entretanto, e Andrew precisou de muito para fingir que não queria pedi-lo em casamento ali mesmo.  

Como sempre, Kevin arregalou os olhos assim que viu os dois descendo a escada. Ele estava bebendo seu suco verde horrível de atleta de alto rendimento, como Neil gostava de chamar, e quase cuspiu aquela gororoba na pia da cozinha. 

“Não bastava um jogador atrasado. São dois!” Histérico, Andrew pensou. 

“São três contando com você, imbecil.” Andrew rebateu, fazendo Neil rir baixinho. 

“Preciso te amarrar para deixar Andrew sair, Kevin?” O atacante revirou os olhos e deu mais um gole do suco, fazendo um sinal dispensatório com a mão. Andrew aproveitou para dar um pescotapa nele ao passar ao lado do balcão da cozinha, para ir em direção a porta, e Neil deu uns passos apressados para alcançá-lo e pedir um selinho de despedida.  

Parecia uma piada: Andrew Minyard, que já havia aceitado que não nasceu para namorar, dando selinhos de despedida em um garoto atleta ruivo e que só tinha olhos para ele. Seu passado parecia sentir raiva, como se fosse injusto que tudo parecesse tão bem. Uma casa saudável, com uma mãe que os obrigava a sentar na mesa para jantar conversando sobre o dia de cada um, ainda era tão inesperado quanto todas as outras coisas boas que surgiram ao redor de Andrew como nuvens carregadas, prontas para despejarem cada vez mais tempestades quando voltasse para o fundo do poço. Sempre voltaria, não é?  

“Já sinto sua falta, meu xuxuzinho!” Neil gritou da porta de casa, como se soubesse que Andrew estava pensando coisas ruins. As pessoas que caminhavam na rua o olharam como se ele fosse louco, outras deram risadinhas pelo romance, e Andrew só conseguia pensar em como ele é sem noção. Sem noção! 

 

.・。.・゜♡・ꨄ・♡・゜・。.

 

“Eu não tenho como ser mais direto que isso.” Andrew nem sabia se estava tentando convencer a Renee ou a si mesmo. O treino já tinha acabado, Renee e Andrew revezaram no gol durante os arremessos e se dividiram no jogo de treinamento, então estavam menos cansados que os demais jogadores, que correram de um lado para o outro por duas horas. Andrew detestava correr, aliás, diferente de Neil. O viciado correria uma maratona sem sequer notar.  

“Acho que você só está delimitando demais as caixas.” Foi o que Renee respondeu, como se não estivesse falando outra língua. Andrew a fitou por alguns segundos em silêncio, tempo o bastante para ela rir e decidir explicar. “Ser direto com o Neil não quer dizer ser totalmente verdadeiro sobre seus sentimentos.” 

“Ainda estamos falando sobre a porra do encontro na cafeteria?” Andrew resmungou, com um desdém alheio ao tapa na cara que acabara de levar. Gostava de receber conselhos de Renee. Conversar com ela, no geral. Tinha sido sua primeira amiga desde que Betsy adotou oficialmente os gêmeos e se mudou para a cidade, dizendo que fazia questão de dar aos meninos a chance de recomeçar; ‘fantasmas nos perseguem na memória, não precisamos de uma cidade inteira fantasma’

“Quero dizer que talvez ele passasse a entender melhor que o namorado dele quer sair em um encontro romântico se pudesse te chamar de namorado.” Ela concluiu, guardando a garrafinha de água no bolso lateral da mochila. Allison chegaria logo para buscá-la, agora que passava mais tempo na casa dela no que na sua própria. 

“Até parece.” Andrew resmungou, virando o rosto na direção oposta. Chamar Neil de namorado implicava em assumir para si mesmo e para o mundo que seu coração havia sido entregue a alguém, e ele não sabia se sentia confortável em reconhecer que gostava daquilo. Que adorava beijar Neil, sair com Neil, não só dormir com ele, mas dormir tocando nele. O que ele era sem a barreira que criava? Que pegadinha o universo pregaria assim que Andrew admitisse que tinha algo tão precioso quanto um relacionamento em mãos? 

“É esse o meu conselho. Você começou essa conversa, Andrew.” A voz de Renee era doce, seus olhos sorriam e o cabelo arco-íris estava um pouco desbotado. “Minha namorada chegou.” Anunciou, vendo o Porsche cor de rosa desacelerando até parar em frente a calçada que estavam. “Me avise quando chegar em casa, certo?” Renee se inclinou para estalar um beijo na testa de Andrew, parcialmente coberta pela franjinha curta até demais — franja vegana, nas palavras de Katelyn. 

Não demorou muito para Neil aparecer na entrada do ginásio. Estava com o cabelo úmido da ducha recém tomada depois do jogo, e Andrew tinha cansado de o esperar no vestiário, já que ele não parava de dar conselhos para os novatos esbanjando seus sorrisos charmosos — tinha os dentes levemente tortos e um deles tinha um quebrado que o deixava mais bonito do que deveria, além de caninos compridos.  

“Drew.” Neil o chamou, pairando ao redor de Andrew como o astro rei de um planeta frio e distante. Andrew o seguiu com os olhos, assentindo com a cabeça num gesto sutil, e Neil finalmente apoiou as mãos em seus ombros, se inclinando para roubar um selinho de seus lábios. Neil era assim: gostava de beijos de ‘oi, que bom que você chegou’ e ‘tchau, já quero te ver outra vez’. Andrew não costumava gostar, mas parou de fazer comparações desde que entendeu que Neil era diferente de tudo que ele já tinha visto, tocado e sentido. Como poderia comparar um lance sem sentido e para distrair a cabeça com Neil, que lhe comprava bombons todos os dias? 

“Você parece um cachorrinho quando está com o cabelo molhado.” Foi a primeira coisa que Andrew disse, bagunçando a franja ruiva com os dedos gentis. Neil abriu um sorriso largo, se inclinando para roubar outro beijo, agora em uma das bochechas de Andrew.  

“Gosto quando você mexe no meu cabelo.” 

E então, uma chave girou em Andrew. Gosto quando você mexe no meu cabelo, simples assim. Direto, sincero, uma confirmação carinhosa de algo que Andrew faz e Neil aprecia.  

“Eu...” Andrew tentou dizer, franzindo o cenho de leve ao se perder nas palavras. Gosto quando você me dá selinhos, quando espera até que eu concorde para que coloque suas mãos tão gentis em mim, quando me olha nos olhos antes de me segurar. Andrew gosta de tantas coisas, por que é tão difícil admitir em voz alta? A possibilidade de assumir que ele finalmente, depois de tantos anos assombrosos, quer que um garoto bonito cuide de seu coração pe tão assustadora assim? 

“Drew?” Neil chamou, tombando a cabeça para o lado. “Tudo bem?” Como mágica, Neil ameaçou afastar as mãos dos ombros de Andrew, um passo para trás depois do mínimo sinal de dúvida. Andrew sentiu que poderia explodir. 

“Não.” Foi rápido em dizer, apoiando os dedos nos pulsos de Neil, cobertos pelas braçadeiras, para que ele não se afastasse. “Gosto quando você faz isso.” Sua voz saiu embolada de tão rápido que Andrew cuspiu as palavras. Em uma única lufada de ar. Seus ombros relaxaram, e Neil pôde sentir as palmas abaixarem ali na medida que Andrew esvaziava os pulmões, respirando devagar.  

“Isso?” Neil franziu o cenho, acariciando os ombros fortes com os dedos cuidadosos. “Isso o que?” Idiota. É claro que ele complicaria ainda mais, não havia chances de Neil entender uma simples frase sem que Andrew precisasse desenhar.  

“Isso. Quando você...” Andrew umedeceu os lábios, se arrependendo imediatamente quando puxou a atenção dos olhos azuis para sua boca. Neil o olhava com tanta adoração, se inclinando involuntariamente para frente, que Andrew podia jurar que esquecera todos os idiomas que falava. “Quando você espera para encostar em mim.” Explicou, finalmente.  

Neil afastou um pouco o rosto, com as orelhas vermelhas, os olhos arregalados e a boca aberta em uma surpresa singela. Ele não falou nada por algum tempo, mas subiu uma das mãos pela nuca de Andrew, serpenteando os dedos pelas mechas loiras e curtinhas. 

“Me sinto mais seguro com você.” Ele murmurou, fazendo Neil lutar consigo mesmo para reprimir um sorriso enorme. Ele perdeu; já estava sorrindo como um bobo.  

“Ah, você gosta, é?” Agora Neil estava provocando. Andrew bufou e revirou os olhos. Tinha ficado tão derretido com seus toques e o cheiro do sabonete frutado de Neil que esqueceu como ele podia ser um pé no saco. Será que o imbecil percebia que estava usando todos os seus dotes de flerte? 

“Não se ache, Josten.”  

“Prefiro ‘viciado’.” 

“Você não tem que preferir merda nenhuma.” 

“É mesmo?” E lá estava. A risada arrastada e zombeteira, os olhos neutros e ainda mais azuis, guiados pela noite que já tinha tomado conta da cidade. As estrelas se tornavam menos brilhantes no céu quando Neil decidia encarar Andrew com as íris cor de mar. “Eu prefiro você a qualquer outra pessoa.” Não estava mentindo. Neil podia se sentir deslocado em diversas ocasiões, podia lidar com os problemas de confiança e a dificuldade para entender o que era ter uma rede de apoio, mas jamais conseguiria ver Andrew de outra forma. Não era só único garoto por quem ele já se apaixonou, mas a única pessoa que lhe fez entender o que era aquilo tudo. A vontade de estar perto, o nervosismo com a ideia de ficarem sozinhos, a tensão gostosa que o fazia trocar as palavras, mas não sentir vontade de fugir.  

Andrew estava tendo um colapso mental. Então era isso? Ele dizia algo que sentia e Neil o fazia querer explodir a própria cara? Renee tinha razão? Andrew só precisava ser sincero sobre os próprios sentimentos que Neil se sentiria mais confiante? O efeito cascata se desenrolando bem na frente de seus olhos estava o deixando louco. Simples, confortável, do jeito que sempre foram. Maldita cafeteria. 

“Quem sou eu para questionar suas escolhas.” A voz ríspida era a única coisa que Andrew tinha a oferecer, ou seu corpo iria derreter e derreter e derreter até se tornar uma poça na calçada. Ainda estavam em frente ao ginásio, as poucas últimas pessoas foram saindo gradativamente, embora nenhum dos dois tenha desviado o olhar um do outro para lhes dar algum grau de relevância.  

“Eu preciso ir. Meus pais querem sair para jantar em família.” Neil explicou, e o coração de Andrew aqueceu com a maneira que ele os chamou. Quando se conheceram, Neil alternava entre Wymack e treinador. “Devo avisar aos seus sogros que você mandou um abraço?” Bingo.  

Sim, avise. Estamos namorando. Simples. 

Andrew revirou os olhos, entretanto, inclinando a bochecha contra um dos pulsos cobertos de Neil, se esfregando ali como um King fazia sempre que queria comida. 

“Você nunca me pediu em namoro.” Era uma piada, Andrew não passou semanas inteiras se martirizando com o desejo de namorar Neil Josten para falar sobre isso tão tranquilamente, mas era melhor do que ficar com a cara toda vermelha por uma timidez que ele sequer conhecia antes do ruivo teimoso chegar. Além de saber, obviamente, que o idiota do Neil Josten não nasceu para pedir ninguém em namoro. Porém, Neil congelou, olhando para ele como se tivesse visto um fantasma. 

“Não pedi.” Constatou, confessando seu crime prestes a ir para a forca. Andrew arqueou uma das sobrancelhas, mas não teve tempo de dizer mais nada antes de ter outro beijo estalado nos lábios e ver Neil se virar e sair correndo. 

O maluco saiu correndo. 

O mullet laranja cortando a rua ao atravessar, sem olhar para trás, atrasado para sabe-se-lá-o-que. Andrew bufou, ajeitando a mochila no ombro antes de começar sua caminhada para a direção oposta. 

Em casa, Bee o esperava com um tabuleiro montado na mesa de jantar e um Aaron bicudo porque preferia quebra-cabeça para a noite saudável de família.  

 

.・。.・゜♡・ꨄ・♡・゜・。.

 

Pirralho: daí ele disse isso tlg 

Pirralho: foi um fora né falou na caruda que n pedi ele em namoro 

Pirralho: eu nem sei o q q fala num pedido de namoro mané 

Jean meawrou: O que significa “tlg”? 

Pirralho: foco jean 

Pirralho: como que cê pediu o jeremy em namoro? 

Jean meawrou: Foi ele quem pediu. 

Jean meawrou: Com fogos de artifício. 

Jean meawrou: E flores.  

Jean meawrou: Exagerado. Estávamos na praia. 

Pirralho: aqui nem tem praia 😭 

Jean mearow: Você aprendeu a usar emojis? 

Pirralho: alli disse pra usar esse quando quisesse chorar 

Pirralho: posso arranjar flores, mas se pá ele nem curte muito 

Pirralho: será? 

Jean meawrou: Todos gostam. Ele pode fingir que não. Eu também fingia que odiaria ganhar flores. 

Pirralho: isso foi antes de ficar caidinho por um loiro do clube de teatro 

Jean meawrou: Foi. 

Pirralho: agora cê admite que gosta dele, é? 

Jean meawrou: Gosto muito. Compre flores para o seu monstrinho em miniatura. 

Pirralho: visitar casas abandonadas é um bom encontro? 

Jean meawrou: ? 

Jean meawrou: O chame para tomar um café. Ou um cinema. 

Pirrallho: affff 

Pirralho: tá! tmj miaumiau 

Jean meawrou: Patético.