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Epílogos Não São Pontos Finais - Billy Summers (AU/Canon extendido)

Summary:

Alice termina de escrever o livro de Billy, mas não encontra uma dedicatória à altura enquanto pensa numa forma de seguir em frente...junto a Dalton

Ou: Billy Summers faz seu melhor truque para desaparecer, e Alice o ajudou o tempo todo.

Notes:

Escrevi isso aqui como tanto exercício de escrita quanto para acabar com minha carência. O quanto o final me destruiu... bem, aí eu "retorci" ele, de uma forma que não desrespeitasse o Cânon original do Stephen King. Espero que tenha ficado bom :)

Billy... essa é pra você, que merecia um final feliz. Alice também, e Bucky, e toda a vizinhança. Obrigada por terem sido meus companheiros por quatro longos dias de leitura!

Written in Brazilian Portuguese. Feel free to use browser translation if you'd like to read it! Google Translate... I believe in you, my friend ¯\_(ツ)_/¯

Work Text:

“Ela fica olhando através do golfe de ar frio entre o lado dela e o outro, as mãos nos bolsos, pensando que poderia criar mundos. Billy lhe deu essa chance. Ela está ali. Ela foi encontrada.”

Alice solta um suspiro ao rever o último parágrafo do livro. É 16 de dezembro, e tem de assumir que o luto e o tempo frio agregaram em sua produtividade. Como o próprio Billy dissera há tempos antes, uma história assustadora deveria ser escrita em uma sala assustadora.

     E aquela escrivaninha, que parece ter saído de uma venda de garagem, carrega tantas marcas invisíveis de uso quanto a um novo usuário. Algumas que ela nem gostaria de admitir, outras até se orgulharia.

     Pensa no caminho que percorreu até então. As noites em claro, a dor que sofrerá, toda aquela sensação de perigo que sentiu depois que o destino acabou os esbarrando numa noite aparentemente qualquer.

     Quem visse na rua, não diria que foi uma vítima de estupro. Nem que houvesse matado um homem com um revólver enquanto fingia ser sua adolescente de programa. Muito menos que eu conhecesse um certo William Summers, que mesmo longe de ser um porto seguro, faria mais bem a ela do que qualquer uma série capaz de imaginar. Eis o lado bom de ter uma identidade falsa.

     Ele está em alguma música do Nebraska. Repousando. Em um lugar bonito e digno dos livros de faroeste que Billy tanto gosta. É bom pensar no tempo presente; o passado soa disforme demais nesse contexto.

     Rola o cursor do Word até a primeira página, encarando o “[dedicatória/escrever em breve]” que deixou quando começou a dar continuidade no arquivo. Tinha que pensar numa coisa que ficasse bem ali, algo que o próprio Billy gostaria de ler. Afinal, o livro é sobre ele, até as partes que Alice complementou entre sua escrita, na terceira pessoa. As coisas que ela sabia, e ele não escreveu.

     O livro todo era enorme, mas a versão condensada acabou com quatrocentos e setenta páginas. Foi doloroso tirar alguns capítulos de Billy para não ficar repetitivo junto às partes que ela narrou, mas guardou aquelas palavras no coração. E em outro arquivo, como consolo.

     Se lembrava perfeitamente de quando chegou na casa de Bucky aquela manhã, depois de ter chorado rios e se entupido de Adderal. Lembrava do aperto com que ele a abraçou ao entender que Billy tinha partido.

     Alice preferiu escrever que ele tinha ido embora. Carregado seu MacBook no ombro, jogando as armas fora, indo rumo a uma nova vida. À redenção, talvez, se fosse possível. Precisou escrever que Billy tinha partido, que morrera às cinco da manhã de um dia qualquer, num estacionamento de Walmart, no banco de trás de um Mitsubishi roubado. Talvez assim aceitasse de uma vez a falta que ele fazia.

     O final feliz seria páginas antes da realidade que ela escreveu. A realidade que conheciam. Se soubessem que Billy Summers, o assassino de aluguel, veterano do Exército, havia morrido, ninguém o procuraria. A última coisa que queria era conspiracionistas ou o próprio FBI batendo em sua porta todo dia em busca do paradeiro dele, acreditassem ele estar vivo ou morto.

     — O livro não é meu, é nosso — pensa em voz alta, baixinho. — Gostaria de saber o que se passa na sua cabeça. Não queria decidir sozinha. Eu consigo, mas...

     Fita a página quase em branco, o espacinho delimitado a ser preenchido a encarando com um ar irônico. Alice decide esperar alguma inspiração. Acaba divagando rumo ao passado, tanto o que aconteceu quanto o que escreveu.

     Porque Billy não está enterrado nas montanhas, perto do velho hotel Overlook, nem nas terras de seu amigo Bucky. Isso foi o que ela quis contar, porque era sentimental, simbólico, quase difícil de se localizar.

     Ao contrário da versão que gostaria de entregar ao público, ela chegou nas montanhas sem um corpo. Apenas sangue no banco de trás e uma pá no bagageiro, a voz de Billy ecoando em seu ouvido e a tranquilizando:

     “Quero um lugar bonito, Alice. Um lugar bonito... está livre agora.”

     E ela escolheu. Não contou para ninguém. É melhor assim, tinham de admitir. Mesmo entre tantas discordâncias, foi o que mais pareceu plausível.

     Aquele fora o melhor truque dele. Melhor do que qualquer fuga ou serviço anterior, e Alice tinha ajudado, do jeito que sabia. Só assim ele encontraria paz no outro lado, onde quer que estivesse.

     Billy tinha desaparecido, e dessa vez, para sempre.

     Ela escuta a porta do banheiro abrir atrás de si. Olha rumo a movimentação de imediato, se entortando na cadeira e apoiando o cotovelo na escrivaninha. O notebook continua aberto, o tanto que ele apelava por atenção sendo nada suficiente para distraí-la de novo.

     Alice se levanta. Um homem louro a fita do lado de dentro do banheiro, saindo dele com um semblante irresoluto. Se não o conhecesse, diria que apenas estava cansado, mas era outra coisa. Frustração também.

     — Eu estou parecendo um idiota — fala. — Não deveria ter descolorido as sobrancelhas.

    Ele se lembra do quanto Alice tinha ficado bonita quando passou por algo parecido. Suas madeixas voltaram a ser negras depois dela assumir a identidade de Elizabeth Anderson, e ficava pensando no quanto a preferia assim.

     — Bem, veja o lado positivo — diz Alice, analisando-o dos pés ao cabelo. — Não vai precisar mais daquela peruca que vivia caindo, ou da barriga de grávida.

     Billy dá de ombros, passa reto e arrasta uma cadeira para perto da de Alice, mas não se senta. Quase ri da lembrança que ela resgatou.

     Ele encara a tela fria do seu Mac; uma máquina robusta, mas que implorava por mais cuidados depois de tanto.

     — Revisando mais uma vez? — pergunta ele, notando que a dedicatória ainda jazia em branco.

    — Eu não resisti.

     Se pôs perto dele, lhe empurrando uma xícara de chocolate quente. Estava completa, intocada. Não conseguiu apetite o suficiente para tomá-la, mesmo que estivesse com vontade quando a serviu. A escrita realmente cumpria seu papel de tirar seu sono, e mais outras coisas também.

     — Se foi capaz de fazer o Bucky acreditar que eu realmente fui dessa pra melhor, acho que está bom — comenta Billy. — Dizem que se revisar demais, talvez enxergue defeitos onde não tem.

     — Como na cena da Marge — lembra. — A versão original, que você leva o tiro de raspão, ficou meio confusa. Tipo, pro tom.

     — A parte que você falou do meu “enterro”, dizendo pro Bucky que escreveu para completar um vazio em si porque, em teoria, não teve corpo para enterrar ficou convincente — aponta para a tela, os fios de cabelo ainda molhados carentes de um secador. — Mas tem muitas exclamações em partes que eu não colocaria. Melhor arrumar, ou deixa assim?

     Alice sabe que, se ele não der jeito naquilo, ficaria com um resfriado no dia seguinte. Mas não quis dizer. Billy logo se lembraria.

     — Eu ainda acho estranho.

     — O que?

     — Isso tudo — olha para a xícara. — Da Marge não ter atirado. Ela estava na minha frente, mirando em mim, e travou.

     Já isso foi o que houve de verdade. A história que apenas Billy e Alice conheciam. Para o mundo, Summers estava fugindo. Para Bucky, Georgio e Nick Majarian, morto. Ninguém mais sabe sobre seu paradeiro.

     — Você deu duzentos mil dólares para o tratamento do filho dela — diz Alice.

     — Mesmo assim, é estranho — deixa escapar uma careta, inconformado. — Não deve ter sido por isso.

     Alice se lembrava bem de quando seu olhar se cruzou com o de Marge, bem no momento em que ela saiu do matagal com uma arma. Ao contrário do que escrevera e adotara como o véu superficial de sua nova realidade, estava ao lado de Billy, quase tremendo de tanta adrenalina.

     Acredita que também tenha sido isso; o olhar entre duas mulheres, que eram tão diferentes, mas marcadas pela violência. Foi uma concordância silenciosa, frágil, mas tênue o bastante para manter o dedo de Marge parado contra o gatilho antes de Billy apontar seu revólver a ela. Mãos ao alto, arma no chão, e ela saiu correndo em retirada pela mata, os três ainda com muito o que viver.

     — Independente do que foi ou não, você está aqui — diz ela. — Ninguém precisa saber disso.

     — Além de você, e isso já te coloca numa posição complicada — respira fundo. — Sabe que, a partir daqui, eu não posso te dar garantias. Na verdade, em momento algum pude dar.

     Alice se encosta pesadamente na parede. Ela temia que ele lhe dissesse aquelas palavras, e quando finalmente as escutara, a ficha mal havia caído. É difícil fingir que uma pessoa amada morreu por dias e dias para, quando encontrá-la com vida, ter que se despedir para sempre.

     Soava como um luto, de qualquer forma. Billy Summers tinha morrido no Nebraska. Agora, Dalton Smith vive, e ele não poderia repetir os erros do passado. Colocar Alice em perigo era um deles, mesmo que ela nem se importe mais com isso.

     — Eu vou embora — Billy assente. — Umas cinco, seis da manhã. Não precisa se preocupar. Está cansada de tantas viagens, então tudo bem dormir até tarde.

     No fundo, Billy torcia para ela dizer que acordaria para vê-lo uma última vez. Talvez lhe dar um abraço de despedida. Desejar tudo de bom, um “se cuida” ou “que Deus te abençoe nessa jornada”. Depois de tanto tempo sem sequer se sentir em casa, ela parecia fazer qualquer lugar ter o potencial de ser um.

     Talvez ele admita que a ama de verdade. Quem sabe. Ainda havia uma noite toda para pôr as mãos por baixo do travesseiro, sentir aquele frio debaixo dele e pensar no assunto. Achava errado pela diferença de idade gritante dos dois, mas não queria guardar isso de Alice. Também seria errado, e ela merecia saber.

     — Eu vou com você — ela diz, num tom tímido, mas resoluto.

     Billy nem consegue acreditar no que escuta. Passou a tarde inteira tentando convencê-la do contrário, e quando toca no assunto, ela continua com a mesma opinião de um mês atrás. Ele nem tinha terminado de “morrer” e ela já decidira que continuaria ao seu lado.

     Por que? Ele se pergunta. Não faz sentido, mas muita coisa da vida nunca fez. Summers tentou, ao menos. Ainda dá tempo dela mudar de ideia.

     — Não.

     — Não o que? Eu já arrumei as minhas malas.

     — Você não vem comigo.

     Alice conhece a mesma conversinha de sempre. Mas ela não queria ficar, e ponto. Não bastava palavra a mais ou a menos. Já se decidira.

     — Vou sim, e estou ciente de todos os riscos, problemas e dificuldades dessa escolha — fala, confiante. — Para todos os efeitos, sou sua enteada, e você um viúvo. Precisa de termo de responsabilidade para dizer que eu estou a par de tudo?

     — Deu certo ontem, mas de resto... não sei. Melhor não. Jamais me perdoaria se te colocasse em perigo de novo.

     Ela leva sua mão até a dele, tão devagar que Billy nota, mas não impede. Alice percebe o quão quente estava sua pele. Ele está ali. Vivo e bem. Não acha justo perdê-lo outra vez.

     — Me promete uma coisa?

     — O que?

     — Se formos juntos, e nós dois vamos, não vai me deixar com a desculpa de que é perigoso demais. Como pensei que fosse fazer comigo, lembra?

     Ele suspira, desviando o olhar. Ainda sente sua mão junto à dela. Mesmo tentando de um tudo para não ceder naqueles últimos dias, Billy finalmente desiste. Ela não iria mesmo mudar de opinião.

     Summers fica em silêncio durante alguns segundos. Não vê muitas saídas além de desvencilhar sua mão da de Alice. Um vislumbre de desesperança surge rapidamente em seu olhar até que Billy oferece seu dedo mindinho.

     — Acho que nós dois estamos cansados disso — diz. — Então, eu juro... mas ainda dá para mudar de ideia. Pense bem. Por mim, por você.

     Ela não espera. Enlaça seu dedo ao dele, com uma tenra vontade de não soltar. Abre um sorriso de canto, tão espontâneo quanto o gesto. Billy fica sem jeito.

     — Já está tarde — fala, se afastando alguns passos devagar, mas sem romper o juramento bruscamente. — Melhor ir nos adiantando. Cada um pro seu quarto, e eu te levo até o seu, se quiser.

     Isso é o suficiente para Alice sentir uma pontada em seu peito. Algo dentro de si diz que ele vai embora sem ela. Deixá-la naquele motel de beira de estrada com um envelope de dinheiro e o coração partido. Como fizera em um dos finais daquela mesma história.

     Os dois andam pelo corredor. Alice destranca a porta, mas não entra. São umas dez da noite, e entendia porque Billy disse que a acompanharia. Os quartos deles estavam um pouco longe dessa vez, mas ela não queria que o motivo fosse apenas esse.

     Tomou coragem. Se ele fosse mesmo fazer isso, não poderia ter mais arrependimentos. Acumulara tantos que havia perdido a conta, e mesmo com tudo de ruim, seguir com ele não era um deles.

     — Antes que vá, se ainda pensar em quebrar a promessa, eu queria que soubesse uma coisa.

     — Não confia em mim? — pergunta, num tom compreensivo.

     Alice fica em silêncio, fitando seus olhos castanhos imutáveis que pareciam um tanto perdidos no novo visual. Era muito o que se acostumar, porém o mais difícil passara.

     — Se quer se arriscar, e abrir mão do passado para isso, eu não posso impedir.

     — Jura mesmo?

     — Juro — assente. — Mas se qualquer coisa de ruim te pôr em perigo, já sabe. A prioridade é você.

     Ela não consegue disfarçar o sorriso, o que faz Billy perder a seriedade. Alice diz que tem um secador de cabelo na mala, que é para ele se cuidar, que a última coisa que precisavam era Summers doente numa viagem de sabe-se lá quantos quilômetros.

     Agradece por toda a atenção, e ela diz que era o mínimo, o fitando de uma forma que faz Billy não querer desviar o olhar. Ele pensa bem no que vai fazer e falar, e dá toda a autonomia à Alice se ela não gostar.

     Entre um silêncio e outro, Summers a abraça. A garota sorri, esta sendo a visão dele após se afastarem um pouco. Com isso, ela se sente à vontade para finalmente se expressar da forma que há tempos se perguntava se era errado ou não.

     — Dalton.

     — Sim?

     — Se lembra que eu queria que soubesse uma coisa? Antes de ir?

     Ele assente em silêncio. Alice respira fundo, aproveitando para se pôr nas pontas de suas botas de salto e se aproximar. Deixa um beijo em seus lábios. Nem breve, nem demorado demais. Durou o suficiente para ela transmitir o que tanto remoera dentro de si sem dizer, ou escrever, palavra alguma.

     Percebeu que pensava tanto naquele momento que, mesmo com todo o embaraço de ambos, prosseguiu. Ela arruma o colarinho do casaco dele, Billy ainda sem reação. Está com medo do que passa em sua mente.

     — Nossa, eu...

     — Boa noite — diz ela, com um sorrisinho tímido. Se sente corar, mas não se importa. Bom que ele veja.

     Bom que ele saiba. Apesar da idade. Dos fios grisalhos discretos que despontavam em sua barba. De tudo que tinham passado até ali. Da nova e assustadora vida que Billy representava para ela.

     Mentiria se dissesse que não estava com medo. Mas aquilo não poderia a impedir de seguir suas vontades.

     — Então, aquilo que você escreveu...

     — Sim — o fita com certa dificuldade. Não deixa isso transparecer, mas ele percebe. — Foi tipo isso que eu imaginei.

     Ele desvia o olhar durante alguns segundos. Algo dentro de Alice estremece.

     — Não quero que se sinta obrigada a nada — diz.

     — Não fiz isso por me sentir obrigada. Fiz porque quis. É simples.

     Billy decide não dizer nada. Se lembra do resto da cena. “Posso ter idade para ser sua filha, mas os meus sentimentos por você não são sentimentos de filha” ou algo assim. Ele não se recorda com todas as nuances, mas entende o que ela quer dizer.

     — Não é tão simples, Alice.

     — Eu tento fazer ser, mas você tem que me ajudar. Não me deixar aqui seria uma ótima tentativa.

     Summers solta um suspiro e assente. Não tinha jeito. Alice iria mesmo com ele. No fundo, era o que queria. Mas não deveria convencê-la a entrar em qualquer saia justa. Alice que quis.

     — E está tão desconfiada por que? — diz. — Já te dei motivos para não confiar em mim?

     — Muitos, mas vamos relevar — dá de ombros, com uma sinceridade que o faz sorrir. — Esse é outro assunto.

     Ele se permite arrumar uma mecha do cabelo de Alice, de jeito tão sutil que ela mal sente o toque. A moça o abraça de novo, dessa vez por um bom tempo, num silêncio particular só deles. Billy pensa e pontua a si mesmo que não deveria mais se sentir tão culpado. Isso só pioraria as coisas.

     — Eu te amo — ele diz, sentindo o peso da fala se acumular sobre o peito. Soa mais difícil do que a primeira vez.

     — Eu também, Billy.

       Notando o erro, ele levanta as sobrancelhas. A emoção até fica em segundo plano por um instante. Ela entende na hora.

     — ... Dalton, Dalton — quase se desespera. Soa até cômico. — Perdão!

     Ele abre um sorriso. Pergunta se vai ficar tudo bem. Que ela ficasse a vontade para chamá-lo qualquer coisa que acontecesse. Que se preocupava com o fato dos quartos estarem mais separados que o de costume em outras paradas.

     Alice o tranquiliza. Diz que se lembra do que fazer se tiver um ataque de pânico. Também pergunta, como em uma outra vez, se ele queria dormir no mesmo quarto que ela. Talvez isso o preocupasse menos.

     Por seus próprios motivos, ele diz não. Alice já previa isso, sabendo que Billy nunca fora muito com essa ideia. Não acha certo depois de tudo o que ela passou, admite. Ela não põe pressão, mas ele cede ao lembrar de tudo. Principalmente do tiro em Klerke. Ainda dói nela, dá para notar. Fazê-la sentir um pouco mais de segurança não seria mal.

     Poderia bem perguntar à recepção se deixavam pegar o colchão de solteiro de seu quarto e pôr no chão do dela. Inventar uma desculpa besta para o funcionário. Algo que o convencesse de que tinha de ficar perto da suposta enteada. Não dormiria com ela, afinal. Apenas lhe daria confiança de que não a deixaria, se sua preocupação fosse essa.

     Combinaram assim. Ele se perguntou se o louro do cabelo pareceria natural ao recepcionista, mas o cara nem nota sua presença. Billy gosta disso tanto quanto sua ignorância; apenas diz “Sim, mas ainda assim cobrarei duas reservas, senhor Smith” e nem olha em seu rosto.

     Passa direto para seus aposentos, entrando neles com certa objetividade. Se o cabelo fosse diferente da peruca, mesmo que da mesma cor, poderia dizer que cortou por conta própria. Se perceberiam a mudança, aí eram outros quinhentos. Pela forma que o rapaz da recepção o atendeu mal, talvez só semana que vem.

     A primeira coisa que vê ao percorrer atentamente o ambiente com o olhar é o MacBook ligado sobre a mesa. Só aí nota que o tinha esquecido aberto, e quando menos percebe, está encarando aquela mesma incógnita que Alice tentava resolver.

     Antes de pensar numa solução, ele salva o arquivo no Word e desliga o notebook, suspirando enquanto vê o computador desligar. Acaba por pensar em Alice, e nele também. Era uma situação complicada de várias formas, mas ele tinha feito sua parte. No que dependia apenas dela, Alice tomou partido.

     Ela é diferente de outras garotas com quem havia feito alguma coisa, por mais clichê que soasse. Sabe bem disso, e quais motivos o fazem acreditar em tal conclusão. Porém, não quero ficar ruminando tudo naqueles próximos momentos. Coloque o Mac dentro de sua capa e pegue o colchão, tendo o cuidado de reunir seus poucos pertences pessoais e levar para o quarto dela. Não queria esquecer nem uma só escova de dentes, pois isso por si só já era capaz de ruir sua nova identidade.

     Volta para o silêncio de sua suíte e se vê olhando o notebook mais uma vez, no que voltou para buscá-lo. Quantas memórias, quem diria. Nem ele acreditou que aquele computador durasse tanto na sua mão, muito menos nas de Alice, que o surpreendeu positivamente com todo o cuidado que tinha com o dispositivo.

     Acaba por refletir por fim, se lembrando do que aprendeu com sua própria versão de “ filme noir de último serviço ”. O personagem de Robert de Niro disse uma vez, em " Fogo Contra Fogo ", que o estilo de vida de uns não possibilita raízes. Que, se for necessário, uma pessoa como ele deveria ser capaz de largar tudo para trás em, no máximo, cinco minutos e desaparecer. Nessa última parte, Billy sempre foi bom.

     Sem apegos. Sem nada em que se ancorar. Entende bem como era isso, mas não quer mais viver assim. Está livre agora.

     Vê o rosto de Alice quando ela abre a porta com um sorriso. A forma como ela ou faz Summers retribuir o otimismo, talvez até acreditar que poderia dar certo. Talvez por mais tempo do que ele pensaa de início, quem sabe.

     Até gosta da ideia, mesmo que os prós não passem aos pés dos contras, mas o que poderia fazer? Nada. Apenas entra no quarto de Alice com o colchão e fecha a porta.

     No fim das contas, o desfecho acabou sendo outro. Um que apenas duas pessoas sabem, e é melhor assim. Tinha que dar créditos a Alice, pois fazia tempo que não vivia por um motivo digno.

     Não desejo admitir em voz alta ainda, mas sente em cada uma de suas estruturas que não apenas seu nome mudará o princípio. Ele foi encontrado.