Chapter Text
Tempo.
O tempo.
Aquilo que foi.
Aquilo que não volta.
Aquilo que não se recupera.
Depois de um longo tempo...
Tudo retorna ao zero.
Os ponteiros giram.
Nos ciclos...
Tempo.
O que se repete é permanente, invariável. O esquecido fica, porém, nunca perdoado. Aquele remorso amargo perdura, independentemente de quão lambidas foram as feridas. Nos anais da história... o que é certo? E o errado?
Nesse ponto... nada se faz verídico. Apenas termos sem valor.
Só ecos e ruínas de um povo amaldiçoado, alucinado pelos fantasmas da ganância–perpetradores desse ciclo.
O céu borrava entre labaredas de sangue e fogo, as fulvas muralhas do Império Equidna totalizadas, reduzidas ao zero. Escombros, fragmentos da glória furtada, levados pela enxurrada do dilúvio. As vias, antes fervilhantes, eram meros canais para os riachos de ossos.
Erguendo-se das montanhas enquanto ofusca o próprio sol, nasce o Deus da Destruição. Aquele que foi traído pelo tempo, vitimou-se da própria ira e, agora, personifica a natureza cíclica–anjo guardião moldado aos chifres de Ixis.
Nos olhos vazios, nem misericórdia ou ódio–apenas escamas convictas de inevitabilidade. Um dragão líquido, botava medo nas mais gananciosas das criaturas. Não há espada ou flecha que penetre sua pele, mais firme que aço.
Templos e palácios antigos ruíam diante da juvenil maré do caos, desmanchando como papelão. Apenas gritos restavam entre sobreviventes, abafados pelos trovões.
Guerreiros desabaram um por um, lanças evaporando diante da imensidão de um deus sem desejos. Estudiosos nada podiam fazer além de rezar por Gaia ou piedade divina...
Eram arrebatados, seus pedidos calados.
Se continuar nessa destruição, o mundo inteiro poderá ruir. Apenas restava uma única criatura...
Tikal. Viu seus irmãos marcharem e, deles, apenas voltarem os ecos. Ela sabia que aquilo já não se tratava mais de vingança pessoal, que aquilo não era retaliação divina. O que poderia ser impedido, tornou-se inevitável... cíclico, inerente ao tempo. As mortes... todas elas podiam ter sido evitadas...
Com um diálogo.
Mas não, usaram da violência, como sempre.
Isso não mudaria agora... talvez, nem nunca.
O que resta é tentar protelar a continuidade do ciclo o máximo possível...
E distribuir este peso para a próxima geração de sofredores.
“Os servos são...
O tempo passa, carregando consigo todas as mortes, feridas e tristezas. Com isso, também se perdeu a história, apenas restando retratos falsos do que se dizia correto ou errado...
Já não há mais ninguém nessa terra abandonada. Guerreiros de pé diante das próprias covas.
Da antiga cantiga dos equidnas, somente restou um solitário guardião.
– Atualmente –
“Pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade – engrandecendo a ação”
“Chuva, Trovões e Raios”
Infeliz coincidência ou coisa do destino, essas palavrinhas jogadas ao vento descreviam esboço perfeito desta noite.
23:18 - Ilha dos Anjos
18 de dezembro, domingo
“Os servos são os sete caos”
Imersa na mais profunda das trevas e na densa das névoas, manifestava-se, entre relâmpagos e clarões violentos, uma massa flutuante.
Ilhéu abençoado, encobertado por sombras esotéricas... como é possível tamanha façanha? Não há lei da física que explique fenômeno desses!
A resposta pro seu voo balança ao misticismo. Conhecida como “Ilha dos Anjos”, aninhava a enigmática Esmeralda Mestra, maestrina da ópera noturna.
Seu poder mantinha-a inerte nos céus, além de exercer controle sobre o septeto das Esmeraldas do Caos: pedregulhos brilhantes e superpoderosos, sementes de discórdia e desordem.
É dito que, quando reunidas, seu usuário tem quaisquer desejos garantidos. Ainda assim, não chegam aos pés da “controladora”.
Dissimular este poder audacioso num recanto paradisíaco atrairia as mãos gananciosas e porcas da humanidade, sem dúvidas. Em toda Mobius, destaca-se um “serzinho” curioso...
O magnífico e genial (adjetivos concebidos por si) Dr. Eggman!
Vilão caricato de renome mundial, seus vistosos bigodes e a brilhante... calvície chamavam atenção
Dotado de QI impressionante e falta de noção em moda, Ivo Robotnik declara-se inimigo dos justos–combatentes de suas ideologias–e aquele que tem os planos mestres.
Que, inclusive, desenrolavam-se nesse exato momento.
Sua gigantesca nave de guerra, Egg Cargueiro, pairava sorrateiramente acima da Ilha desolada. Excelsa entre as nuvens, tinha as medidas de uma cidade mediana e era fortificada como fortaleza medieval.
Blindada por casco vermelho, amarelo e cinza, ostentava armas até os dentes e um poderosíssimo canhão.
Suas asas, reclusas, ativavam-se exclusivamente quando a evolução da fortaleza é atingida. Dois motores a jato mantinham-na sempre em movimento.
Os milhares de canhões e torretas miravam em um único lugar essencial...
O altar da Esmeralda Mestra.
Alheio ao que o futuro lhe reservava, Knuckles, o equidna–último herdeiro dessa linha de pecados–descansava.
Costas vermelhas relaxadas nos degraus arruinados, pálpebras vacilantes e mente vagante, caía no sono. Ou, quiçá, aprofundava-se nas dúvidas e pensamentos profanos.
– Knuckles –
... Já perdi a conta das horas, talvez dos dias. Sei lá... essa chuva está tão boa... mas tão boa... que eu adormeceria a qualquer momento.
O cheiro da terra molhada poda meu nariz, minha cabeça enfim desconsidera o peso de cem anos em solitude. A tempestade, desordenada e caótica esbanja significado e ritmo... que confusão.
Há algo especial nessa noite. O que me espera? Provavelmente nada. Nada acontece aqui, nesse fim de mundo. Às vezes, dormir é a melhor opção...
Mas não posso, preciso preservar a integridade da minha ilha. Sou seu guardião, afinal.
Admito que, ainda assim, me falta algo. Uma hora, você se acostuma com a penitência... Porém, o jeito como Sonic vive é invejável.
Ir para onde desejar, desprovido de preocupações ou compromissos. Seguir o vento, se aventurar e relaxar... seria ótimo.
Invejo também como aquele miserável não pensa duas vezes... ficar regurgitando reflexões a torto só piora as coisas, Gaia!
Quem sabe, agora, eu possa galhofar. Tantos meses se passaram sem um sinal de Eggman... Não aparecerá justo hoje, né? E se...?
Um “e se” acaba com qualquer felicidade.
Devo me atentar, não importa o quão tentador pareça a... liberdade? ... ah... eu...
Posso não saber de muitas coisas e ser ingênuo, mas um fato me movimenta… e não há liberdade alguma que me faça tirar o foco do...
Meu dever.
Onde a pior parte é nem ao menos saber as razões pelas quais este eterno fardo foi a mim concebido.
O que está ao meu alcance são tentativas falhas de interpretar as justificativas do passado.
Murais antigos indicam que um misterioso acidente e a sede interminável de poder extinguiram minha raça...
Além disso, são mistérios inexplicáveis.
Talvez, alguns mistérios não devam ser desvendados. Qual o sentido de ir contra o destino, nadar contra a correnteza? Tudo deu certo até agora, por que falharia? Isso tudo só pra buscar uma liberdade que talvez nem exista ...
... Olhe só... entrando em devaneio... de novo...
Os olhos pesando, a cabeça flutuando... os degraus cada vez mais macios... eu bem que podia... apagar.
...
O vento está inconstante... inquieto. Há uma presença estranha por aqui...
CRASH–
Acompanhado de terrível trovoada, um ruído estoura em meu ouvido, feito vidro estilhaçado.
Martelando sem controle o coração, levantei, usando o resto de minha valentia. Há algo errado... eu... tremia? Percorrendo minha espinha, chegou uma conclusão...
Existe um invasor nos arredores. Pensa... sozinho, quem ou o que poderia causar este barulho? Isso é indicativo que—
AH, NÃO, A ESMERALDA MESTRA!
Meu peito estilhaçou em milhares de pedacinhos soturnos... a integridade da Esmeralda Mestra foi violada! O ar me faltou, a garganta fechou, a visão vacilou...
Meus olhos não acreditavam!
Onde anteriormente residia a joia, apenas sua base e estilhaços flutuantes. No topo das escadarias, foi quando percebi... nada podia ser feito. Fragmentou-se...
Não pode ser... em todos esses anos... falhei minha missão desse jeito? Deve haver alguma maneira de resolver isso, né? TEM QUE TER!
VOU ENCONTRAR QUEM FEZ ESSE ESTRAGO E—
O que... Está acontecendo? Dentro dos destroços, jorrou um líquido estranho, à aparência “duma” poça d’água. Junto de si, cintilou por instantes ínfimos uma luz vermelha que evaporou.
O mais bizarro disso era que... O licor ganhava forma?! Como Ixis isso era possível?
Esquece, não tenho tempo para pensar, preciso agir! Coloquei os punhos de frente “pro” rosto, posturado para combater o que quer que fosse.
Crescia feito tumor, transfigurando-se em formato humanoide e escamoso. Os braços e pernas imensos, desproporcionais se comparados com o torso, balançavam ao vento... que... nojento.
Entre as saliências, nadadeiras e o cérebro curiosamente exposto, o que de fato me fisgou atenção foi...
Aqueles olhos...
Aqueles malditos olhos verdes!
Brilhavam unicamente no meio do rosto oculto pelas trevas, vibrantes como energia do caos.
Ultrapassavam meu corpo e encaravam a alma ardida... distorciam minha psique.
QUE SENSAÇÃO BIZARRA! Recuei de imediato, balançando a cabeça igual pêndulo. Não sei o que esperar... não aparenta ser hostil... muito menos pacífico...
Sinto que já ouvi sobre...
— Tudo bem, você me deve explicações, não...? — esbravejei, jogando meu corpo para frente com contato visual constante. — Dá pra começar dizendo... Quem é você... E o que raios de Ixis pensa que tá fazendo?!
Nada, não ganhei resposta alguma. Somente o vento batia naquele silêncio esquisito. Meu ódio só crescia...
Nem... preciso me segurar. Revoltar-se agora não levaria a nada.
Mas o ser... ele... se mexeu. Veio até mim com passos largos, sem soltar única palavra. Tsc, então, estes serão nossos termos?
— Okay, você não é bom com palavras… — estalei meus pulsos, saltei para trás e preparei-me para o duelo. — Vai ver é melhor assim… Odeio gente que fala muito!
Arranquei num rugido primal, punhos tremendo como se carregassem a força de uma montanha. Sem estratégia, abaixei-os e atingi seu ombro, o ar assobiando. Não sei como, porém, ele não sofreu lesões.
Na verdade, o prejudicado fui eu–o líquido gelatinoide engoliu as mãos, gorgolejando feito influxo!
Torci os pulsos, porém, quanto maior minha força, maior a sensação de dormência. Criatura maldita, quem é você?!
O desgraçado ainda se aproveitou da fragilidade! Levou o braço amorfo e viscoso até meu rosto lentamente, brincando comigo. Abaixei a cabeça numa tentativa de resistência... e o gancho subiu, marreta translúcida dotada da força de mil touros.
CRACK–bem no queixo, reverberou meu crânio com estalidos.
Nem tive tempo de sentir a dor se espalhar pelo corpo–a visão e consciência caíram num limbo branco, dissolvendo o mundo num clarão. Meus músculos fumegavam em dor ardente... as vértebras contorceram... tudo doía simultaneamente.
Um mero golpe... Um único golpe...
Me botou de joelhos? E eu sei que ele nem usou toda a força. Humilhante.
Saí rolando pelas escadas, cada degrau uma facada nos flancos latejantes. Essa tortura não findava, partindo músculos e ligações diferentes a cada segundo...
Mas eu não desistiria!
Finquei os carpos na terra, cancelando tal trajetória. A visão ainda fraquejante, levantei-me, suprimindo as dores crescentes com bufadas irritadas.
Criatura, você me pag...
Quando me dei por conta, liquefazia-se. Tornou-se nada mais que pequena e indefesa algiba...
Fugiu dali antes que eu pudesse processar os acontecimentos. Que droga, não consegui fazer nada! Fracassei na minha missão e ainda fui vexado em minutos...
Humilhado, jogado na lama, destruído com um golpe...
QUE MER—
...
Ficar de birra não me levará para lugar algum... Devo focar no que farei em breve.
Respirei profundamente, buscando calmaria nas solenes gotas que despencavam. Fechei os olhos e refleti...
Indivíduo curioso... o que seria? E... por que sinto que o conheço? Será qu—
Tremulações intensas tomam conta da ilha de uma hora para a outra, cortando meu pensamento.
Impossível, isso não pode acontecer de novo, né?! Sem o poder da Esmeralda Mestra, Angel Island desmorona em pedaços! É como tirar o coração de um organismo ainda vivo... Para de funcionar instantaneamente!
Em poucos dias, a ilha afundará! Como previsto pelos tabletes... “Ao se quebrar o ovo, nasce o dragão”...
Os manuscritos proféticos estavam corretos... ESSE É O TAL ACIDENTE?!
Decolei até a borda da ilha, visando confirmar minhas dúvidas. Vai ver, fosse coisa da cabeça, né?
Não, não era. De coração palpitante, percebi naquele momento... Que perdi.
Minha casa, minha honra, minha vida... tudo desabou ao oceano... e eu ali, paralítico, incapaz de salvá-las. Ou, será que...
Quase jogando a toalha, notei os fragmentos da Esmeralda Mestra:
Oito pontinhos verdes, cruzando os infindáveis oceanos abaixo sem rumo algum. Se eu conseguir juntá-los... existe uma chance de retorná-la ao normal?
Metade moveu-se para uma cidade, enquanto a outra se perdeu na selva...
Vou para a civilização primeiro... vai saber, eu não encontre alguém para ajudar?
Dei alguns passos para trás, visando pegar velocidade e, sem pestanejar, saltei o mais alto possível.
O que eu faria? Há, bem... vamos dizer que tenho umas habilidades especiais! Dependendo do ângulo, posso usar meus dreads para planar e manejar meu trajeto. Deve ser algo da minha raça, nem ideia.
Nesse ritmo, chegarei lá antes do amanhecer!
Apesar da catástrofe... Eu tô... feliz? Talvez animado, até. Depois de tanto tempo preso nessa monotonia, ganhei um novo objetivo, mesmo que forçado.
Finalmente, fugir da rotina de solidão. Minha nova missão?
Recuperar os pedaços da Esmeralda Mestra!
