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Relâmpago

Summary:

Normalmente, o Sr. Lancer já estaria em casa àquela hora, mas entre um aluno que nunca apareceu para a aula de reforço e a tempestade lá fora, bem, ele ficaria na escola mais um pouco.

Tradução autorizada da obra original "Lightning" de Marsalias. Todos os créditos pertencem à autora original.

Work Text:

​Normalmente, o Sr. Lancer já estaria em casa àquela hora, mas ele tomou a péssima decisão de concordar em dar aulas particulares para um aluno naquela noite, e o garoto nem sequer apareceu. Para ser sincero, ele não tinha certeza do que esperava. Se fossem responsáveis, não precisariam de reforço.

​Lancer apertou a ponte do nariz entre os dedos. Não era como se ele nunca tivesse oferecido aulas extras antes, mas os outros alunos costumavam marcar os encontros logo após a escola e avisavam com antecedência se fossem faltar. Até mesmo Daniel Fenton fazia um esforço para, de fato, aparecer. Isso quando não estava distraído jogando videogame.

​Pelo menos Daniel se esforçava quando estava na sala. Mas aquilo...

​O Sr. Lancer suspirou, irritado. A essa altura, ele só estava se estressando à toa. Precisava ir para casa. Ele começou a se levantar da cadeira.

​Como se para zombar de sua decisão, um relâmpago brilhou através da janela, seguido pelo estrondo profundo de um trovão.

​Hm. Dirigir naquilo seria bem desagradável. Seus planos de aula podiam receber um pouco mais de atenção. Só até a tempestade passar. Ou até ele não suportar mais ficar ali. Ou até a tempestade derrubar a energia de vez.

​Ele voltou a se sentar de forma pesada. Pelo visto, o jantar daquela noite seria comida para viagem.

​Relâmpagos e trovões continuavam a explodir lá fora, a chuva martelava contra o telhado e o vento uivava pelos cantos do prédio. Era, em uma palavra, barulhento. As luzes também tinham a tendência de piscar levemente após cada clarão no céu.

​Por isso, ele não notou de imediato os pequenos gemidos que se seguiam a cada estrondo e estalo dos trovões. Mas, às vezes, um padrão se torna óbvio demais para ser ignorado, até mesmo para professores sobrecarregados, mal pagos e exaustos como o Sr. Lancer. Ele fez uma pausa em seu trabalho, prestando atenção.

​Sons estranhos à noite podiam significar perigo real naquela cidade. Lancer abriu cuidadosamente a gaveta de sua mesa e tirou de lá o minúsculo ectoblaster que ele finalmente havia convencido a escola a deixá-lo ter, depois de ser forçado a espantar o Fantasma da Caixa usando apenas um jornal enrolado.

​O som provavelmente era apenas o vento soprando por uma janela mal ajustada ou algo parecido, mas não custava nada estar preparado.

​O Sr. Lancer moveu-se com cautela pela sala, parando para ouvir quando o trovão estalou. Ele rastreou o ruído até o pequeno armário de suprimentos da sala de aula.

​Provavelmente não era uma janela solta, afinal.

​Preparando-se para o pior, ele escancarou a porta.

​Apesar das luzes estarem apagadas, um brilho suave emanava do canto do armário. Um fantasma havia se espremido debaixo das prateleiras, com os joelhos encolhidos contra o peito, as mãos cobrindo as orelhas e os olhos apertados com força.

​E não era um fantasma qualquer. Era o Phantom.

​Um relâmpago clareou intensamente pelas janelas da sala de aula, e Phantom recuou visivelmente. Quando o trovão rugiu um momento depois, ele encolheu-se mais uma vez, produzindo o som que havia levado o Sr. Lancer até ali.

​Lancer ficou sem saber o que fazer. Phantom era um fantasma altamente perigoso, mas já havia protegido a escola em inúmeras ocasiões, e naquele exato momento...

​Bem. Se ele ignorasse a luz ao redor do garoto, Phantom tinha idade para ser um de seus alunos. E, claramente, estava apavorado.

​Lancer ajoelhou-se na soleira do armário.

​— Phantom? — ele chamou, com a voz suave.

​Os olhos do fantasma se arregalaram imediatamente. Um som estrangulado escapou de sua garganta.

​— Eu... — ele gaguejou. — Eu não sabia que você... que ainda tinha alguém aqui.

​Ele deu um pulo com outro clarão de relâmpago.

​— Eu geralmente não estou — respondeu Lancer, sem saber ao certo como abordar o assunto que lhe interessava no momento. — Eu deveria dar aula de reforço para um aluno esta noite, mas ele não apareceu.

​Algo parecido com culpa cruzou o rosto do fantasma.

​— O Fenton? — ele perguntou.

​— Não — disse o Sr. Lancer, deixando de lado por um momento o fato de que a delinquência de Daniel Fenton era conhecida até mesmo pelos fantasmas. — Phantom, por que você está aqui?

​— Eu posso ir embora, se você quiser — ofereceu o fantasma, imediatamente. Porém, ele não fez o menor movimento para sair do seu esconderijo debaixo das prateleiras.

​— Não, eu estou apenas... curioso — respondeu Lancer.

​— Ah — soltou Phantom. — Bom. Eu estava... — ele sobressaltou-se com mais um clarão. — Eu estava lutando contra a Ember no parque, aí a tempestade começou e... e este foi o prédio mais próximo que eu conhecia, que eu achei que estaria vazio. Tempestades e coisas que voam, sabe como é? — Ele deu de ombros. — Não combin...

​O trovão estourou e Phantom deu um pulo tão violento que bateu a cabeça na parte de baixo da prateleira. Ele soltou um gemido de dor.

​— Phantom — disse Lancer, sentindo-se por um instante estupidamente ousado —, você... tem medo de raios?

​O fantasma o encarou de forma sombria por uma fração de segundo, e Lancer temeu ter passado dos limites, mas logo o garoto desviou o olhar. Havia, o professor notou agora, um leve tremor nos membros de Phantom.

​— Eu não costumava ter — disse o fantasma, baixinho. — Antes... Isso me lembra de como eu morri.

​— Você foi atingido por um raio?

​— Não. Só, sabe, eletrocutado. — Ele estremeceu. — Eu não quero falar sobre isso.

​Mais um relâmpago, outro sobressalto.

​— Olha, eu não vou incomodar você. Só quero ficar aqui até a tempestade acabar.

​Um trovão rolou pelo céu.

​— Pelos Anciões, está chegando mais perto.

​— Eu também costumava ter medo de tempestades — confessou o Sr. Lancer.

​— Todo mundo tem, no fundo — resmungou o fantasma. — Elas são imensas, barulhentas e imprevisíveis. As pessoas... as pessoas só crescem e superam.

​— Às vezes — ponderou o Sr. Lancer.

​— Por f-favor, não venha me dar um sermão sobre enfrentar meus medos — pediu Phantom. — Tipo, metade dos meus inimigos tem poderes elétricos. Eu lido com isso. Eu só... Se você... Podemos falar sobre outra coisa? Alguma coisa... Me distraia.

​A última frase soou no meio do caminho entre uma ordem e uma súplica. Lancer vasculhou a própria mente e se agarrou aos planos de aula que estava escrevendo momentos antes. Afinal, ele era um professor.

​Aquela pareceu ser uma ótima escolha, pois Phantom foi se acalmando à medida que ouvia. Ele até conseguiu soltar algumas perguntas e um par de piadas.

 


​

​Eventualmente, a tempestade passou.

​— Eu devo ir, agora — disse Phantom, arrastando-se para fora de debaixo das prateleiras.

​Lancer levantou-se também, com os joelhos protestando alto pelo movimento brusco.

​— Você deveria ir para casa também. Já é tarde.

​O garoto começou a desaparecer, as bordas de sua forma tornando-se transparentes.

​— Obrigado por me ajudar — ele agradeceu, logo antes de desaparecer por completo.

​O Sr. Lancer piscou para o armário vazio.

​— De nada — ele respondeu.

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