Work Text:
A noite não foi… realmente boa, por assim dizer. Glam teve cochilos esporádicos, como ocorreu depois de o Haloperidol fazer efeito e bloquear as emoções. Dee o deitou de lado e, neste ponto, já havia uma mancha de saliva permanente no colchão. Então, de repente, acordava com um movimento do peito que mais parecia uma convulsão e olhos atentos, olhando para o nada.
Dee aproveitava esses momentos para sentá-lo e fazê-lo beber um pouco da mistura de água e isotônico. Encontrou um saquinho de gelatina incolor nas sacolas de mercado, o que foi muito mais útil quando Glam começou a ter um atraso longo para engolir. Na maioria das vezes, o pai o reconhecia e respondia às suas perguntas, embora com a expressão flácida e neutra que o antipsicótico induziu.
Mas o corpo começou a suar bastante. De madrugada, o termômetro começou a subir vagarosamente: 36,9 °C, 81 batimentos por minuto e pressão normal. Completamente desorientado, mas com parâmetros regulares.
— Dee, tem alguma coisa no teto.
Logo, Dee apontava a lanterna e tirava uma foto do que quer que Glam apontasse. Às vezes, abria as janelas e a porta para olhar ao redor e até fazia um vídeo curto, só para não ter que explicar, toda vez, que não havia nada lá.
— Tem alguém vindo.
— Quem?
— Eu não sei, mas é ruim.
Obviamente, isso significa que Dee teve pouquíssimo tempo para realmente dormir e, na maioria das vezes, estava apenas escutando sua respiração ou colocando uma luva e gaze na mão para varrer o excesso de saliva e jogar fora. Se houvesse som de engasgo, tirava o travesseiro e dava tapinhas leves nas costas. Tudo descrito, com detalhes, no caderno.
E complementado pela aula de primeiros socorros a que Glam o forçou a participar aos 11 anos, junto com toda a educação sobre interação química e biologia. Nunca precisou colocar realmente em prática — exceto naquele episódio de Lif, dois anos atrás, mas lá seu papel foi só segurá-la sentada e tentar conversar. Foi Glam quem tomou as rédeas depois.
Ele… espera que sua mãe ou Ches voltem logo. Tem sido um exercício de estresse.
Depois do Diazepam, à uma da madrugada, suspendeu a hidratação improvisada. Glam ainda despertava, mas estava grogue e incoerente, sem pensar em engolir. Ficava murmurando sobre rotina, música ou lugares para guardar itens de casa, mas nada por tempo suficiente para fazer sentido.
Dee não podia se mexer bruscamente ou fazer barulho, porque Glam acordava ao menor estímulo, e sempre dava para perceber pela movimentação inquieta na cama. A cada hora, ia checar os parâmetros. O pai começou a ter o reflexo de tentar resistir, mas o corpo parecia pesado demais para qualquer coisa ser realmente efetiva.
— Francamente, por que usar uma coisa que pode te matar se você perder a dose? Para um cara tão lógico, essa é uma falha grave. — Resmungou, frustrado e irritado. Não teve tempo de tirar a maquiagem ou se trocar na noite anterior e, com certeza, chorou em algum momento.
Mas Glam não está coerente o suficiente para realmente perceber, então não importa. O pai tinha a cabeça apoiada em seu ombro, como tem sido em quase todas as vezes de verificação, porque o corpo dele tombava para o lado errado e é mais fácil se fazer de cadeira se isso significar uma checagem rápida. E, se a saliva escorre em sua calça, significa que não está aspirando.
— Barulho… Dói… — Glam resmunga, com os olhos fechados com força.
Dee checa o oxímetro: 96%; a glicose em 94 mg/dL, o que é uma surpresa considerando que só comeu um pouco de biscoito, arroz e maçã no último dia inteiro. Pelo menos está respirando bem, mesmo que a pressão esteja um pouco alta, em 140/110 mmHg. 92 batimentos por minuto quando acordado e 80 quando consegue dormir.
Não está morrendo. Ótimo. Pequenas misericórdias.
Quando o sol começa a aparecer, faz pequenos testes com a água de gelatina. As perguntas voltaram assim que o torpor grogue diminuiu, o que, pelo menos, era um sinal de consciência.
“Dee, tem alguém mexendo no trinco?”; “Dee, há alguém atrás da porta.”; “Dee, a luz está piscando.”, “Dee, há um buraco no teto? É perigoso”; “Dee, as rachaduras nas paredes… Elas formam palavras?”; “Dee, o vento está rindo?”
Seis da manhã. É um pouco tarde, mas é o horário em que o reflexo de deglutição estava recuperado o suficiente para comer dois biscoitos antes do Propranolol.
— Dee, meu corpo está quente. — Murmurou, sentado na cama, com os pés descalços no chão. A parte de cima do corpo balança, quase como um pêndulo. Olhos estreitos, avaliando o chão e o ambiente com desconfiança.
Mas coerente. Coerente é bom.
— Sim, sua temperatura está em 36,9 °C. É febril. — Dee concordou. — Como está a deglutição? Precisa comer antes do Propranolol.
Um silêncio de alguns segundos. Então, a respiração é suspensa enquanto o pomo de adão balança. Para cima e para baixo, com um som engasgado e abrupto, para então ofegar, a cabeça baixando e o peito subindo um pouco mais rápido. Dee tem o reflexo de evitar olhar, como se não ver tornasse a situação ligeiramente menos desesperadora.
— Gerenciável.
De pé, Dee foi buscar o copo. Com água e isotônico na proporção de 3:1 e textura gelatinosa e líquida. Glam ficou olhando para a parede por um tempo, para as rachaduras de tinta, desconfiado.
Chamou sua atenção com um toque atrás da mão.
— Bebe. Faz cinco horas que você não consegue beber água. Vamos ter que ir ao hospital se não conseguir se hidratar em tempo hábil.
Finalmente, Glam olhou para Dee, tendo o reflexo de segurar o copo e a colher.
— Dee, tem um olho na rachadura da parede?
Dee olha: apenas rachaduras de tinta seca, comuns. Sem padrão específico.
— Não, não tem.
— Alguma câmera? Olhando pela fechadura?
— A chave está bloqueando a fechadura e a gente bloqueou as entradas de ar com fita, pai. Não tem como alguém ver alguma coisa de lá de fora. — Ele expira longamente. Cansado, com certeza.
— E se já estiver aqui dentro? Você abriu a porta várias vezes já.
Sim, porque você pediu. E não estariam enfrentando o Batman, daria para ver alguém entrando. Não faz sentido explicar isso agora. Ele quer chorar.
— Quer que eu olhe embaixo da cama e do guarda-roupa? — Um momento de silêncio confirma que, sim, é o que ele quer. — Tá, mas acaba de engolir enquanto eu faço isso. O pacote de biscoitos está na poltrona.
Dee realmente foi buscar o pacote e deixou três biscoitos separados em um recipiente na almofada da poltrona que, desde a noite passada, fora arrastada para bem perto da cama para facilitar a vigília. Pegou o celular e se abaixou para olhar, tirando fotos com a lanterna ligada.
O chão é um pouco empoeirado e cheira a desinfetante. Não há nada, como previu.
— Não tem nada, pai. Vê? Nem câmera, nem pessoa olhando.
Aconteceu de forma bem similar à noite passada. Glam olhou para o que deveria comer por um bom tempo, até superar a desconfiança inicial e começar a mastigar, fazendo um som sujo e engasgado, mas sem tosse. Dee leva seu tempo aproveitando que Glam se sentou para puxar o travesseiro sujo e o amontoado de gaze e lenço que gastou durante a noite para limpar o excesso de saliva.
Geralmente, quando se acaba de acordar, as pessoas parecem mais desnorteadas e bagunçadas. Glam nunca ficou assim por muito tempo, muito menos na frente deles. Podia estar de pijama e coque, o mais relaxado que se fica dentro da própria casa, mas ainda estaria de rosto lavado, cheirando a hidratante e roupa limpa. Dessa vez, a mancha de baba no canto da boca nem foi adequadamente limpa e passou trinta minutos tentando engolir dois biscoitos e um copo de água-gelatina.
Pensar demais é uma armadilha.
— Banheiro. — O pai respirou fundo, tocando o chão com os pés como quem espera ser imediatamente queimado. As pernas não se desequilibram, mas a cabeça pende um pouco conforme balanceia o peso para ficar de pé.
— Quer ajuda?
Dee paira, preocupado. O orgulho da própria funcionalidade sempre foi um dos pontos altos para Glam, e agora é possível saber o porquê. É diferente de ler uma lista de sintomas ou assistir a vídeos — a experiência prática é aterrorizante.
— Estou bem.
Alguns passos para perto da parede; então, a mão se apoia no material duro. Um passo após o outro, lentamente, mas realmente cumprindo o objetivo de ir ao banheiro. O som da pia é a primeira coisa que aparece. Dee se aproxima para espiar, as coisas parecendo suficientemente estáveis. Glam colocou as mãos debaixo da água, massageando os dedos lentamente. Portanto, tira as roupas de cama e as amontoa em uma sacola que esconde ao lado do guarda-roupa. Duas toalhas limpas são o suficiente para cobrir onde a saliva manchou o colchão e o travesseiro, que ele forra com lençol e fronha adequadamente limpos.
O lixo vai para outra sacola. Levará para fora assim que o pai dormir de novo. O Propranolol, deixa-o separado, com mais meio copo de água, no móvel da entrada. Vasculha as malas para tirar um conjunto de roupas limpas.
Glam ainda demora dez minutos no banheiro, a torneira ligada todo o tempo. Verificando, Dee sabe que estava lavando o rosto e o cabelo, água respingando na camisa. É um banho, porque há manchas maiores nas axilas. Deve ter percebido que suou por horas ou que o corpo estava quente. Ou é apenas seu reflexo de tentar parecer apresentável a cada instante do dia. Desfez o curativo da noite passada para lavar os cortes adequadamente. Ele massageia entre os dedos por um longo tempo, um hábito que o próprio Dee aprendeu para aliviar o estresse. E… Glam não parece muito incomodado com as gotas caindo nos ombros e costas. Neste caso, Dee busca uma toalha limpa nas malas e ataduras limpas para a mão.
Olhos caídos e expressão de peixe morto, cortesia do Haloperidol. Não há agressividade, não sem o próprio reflexo o provocando no espelho. Quando a pia finalmente desligou, ele esperou na porta, mimetizando uma frieza que não sentia.
— Tudo certo?
— …Sim. — Ele demora para responder, como se não tivesse certeza.
Dee suspira, tentando manter o medo longe da voz.
— Aqui, peguei uma toalha. Pro seu cabelo. Vai ficar agoniado se dormir com ele molhado. Tira a blusa, vai precisar resfriar o corpo.
O pai confirma com a cabeça, sem realmente verbalizar nada. É como voltar no tempo para a época em que o pai ainda tinha que segui-lo com uma toalha depois do banho, porque secar o corpo inteiro era entediante demais para uma criança.
Glam engoliu a saliva e voltou para a cama. Dee entregou o comprimido, o copo de água e passou a toalha em seus ombros, fingindo não ver a dificuldade que tinha para engolir. Ajudou-o a tirar a blusa manchada e suada. De início, o pai realmente tentou fazer sozinho. Mas as mãos e os cotovelos tendo espasmos atrapalharam no processo de realmente tirar o tecido do corpo. Parece frustrante.
O torso sobe e desce um pouco mais rápido. A pele parece brilhante e com espasmos regulares.
Dee realmente sente a garganta amarga agora e espera estar escondendo a ansiedade minimamente bem. Ou os dois estão em um pacto de ignorar quaisquer comportamentos estranhos. Provavelmente o segundo. Refez os curativos na mão direita — os cortes do dia anterior, de ter socado o espelho, não eram fundos. Apenas sangrou muito.
Ele faz a rotina com os medidores. Os parâmetros… estão começando a piorar. 37,1 °C na temperatura do corpo. É uma febre. A glicose marca 98 mg/dL. 97 batimentos por minuto e a pressão arterial em 144/98 mmHg. Suado. Acabou de lavar o rosto, mas ainda sua bastante. A saturação do oxigênio… 92%. Abaixo de 90% é para levar para o Posto de Saúde.
— Deita um pouco. A mãe já deve estar chegando.
Esperançosamente. Já faz muito tempo; alguém deveria ter chegado. A mãe ou o tio Ches, já faz tempo o suficiente para terem chegado. O pânico está começando a doer e é difícil ignorar o coração acelerado. - Informa, reembalando a mão com curativos novos.
Glam soltou um som pelo nariz que, se estivesse em sua capacidade plena, provavelmente seria uma risada. Resignada e exausta. Olhou para ele por um longo tempo, como se tentasse comprovar que Dee ainda é real. Então, com a voz estável e baixa:
— Você é um bom garoto, Dee. Está tudo bem. Você foi bem.
— Não diga coisas estranhas, pai. Foca em guardar energia. — Com uma mão no ombro e outra apoiando a cabeça, ajuda-o a se deitar. A pele está grudenta e gelada apesar da temperatura alta, o couro cabeludo úmido e emaranhado, apesar da singela tentativa de ordem há pouco tempo.
Um travesseiro no pescoço e um apoio nas costas para não se virar. A cabeça tem que ficar inclinada corretamente para a saliva não descer nas vias aéreas.
Um equilíbrio delicado. Glam não protestou ou resistiu, parecendo tão exausto quanto o corpo aparentava. Os olhos fecharam, não por sono, mas como forma de redução de estímulo. Parece… realmente velho. O autocuidado disfarça bastante a idade, mas agora é impossível não pensar que seu pai tem mais de cinquenta anos.
A respiração estabilizou. Inspirando e expirando por quatro segundos cada, sem falar ou olhar ao redor, sequer um de seus tiques motores insistentes. A única coisa indicadora de vida é a expiração cuidadosamente cronometrada e a movimentação dos pulsos e dedos acima do lençol.
Dee observa por alguns minutos e, quando conclui que o cenário não vai mudar nos próximos instantes, vai ao banheiro para lavar o rosto, as mãos e prender o cabelo. Não tirou a maquiagem do dia anterior e tampouco pensa em ajustá-la agora; então, só volta para o quarto depois de secar as mãos para preparar algo comestível.
Descascar a maçã, então fatiar, o menor possível. Uma banana também. É estranho ser a pessoa preocupada pela falta de apetite alheio — nunca esteve deste lado do dilema. Que incomum. Voltou para checar Glam mais duas vezes, enxugando o suor e verificando os parâmetros, o único resquício da resistência anterior sendo um solavanco e tensão nos dedos antes que o pai o reconhecesse. Tem demorado alguns segundos agora.
Ele… parou de perguntar sobre as coisas que vê ou ouve. De batucar ou mexer as mãos. Não há mais os longos monólogos do dia anterior, ou a aula prática assustadora e precisa. Não responde se Dee não tocá-lo ou se posicionar em sua frente. No máximo, toca os pulsos com as mãos, esfregando as cicatrizes antigas sem perceber ou cutucando o novo curativo com a ponta das unhas.
Não reclamou de não ter colocado pulseiras ou anéis. Parece muito simples e pequeno para ser a mesma pessoa que conheceu a vida inteira.
É depois das oito da manhã que decide molhar algumas toalhas e panos para resfriar suas articulações e pescoço. A temperatura atingiu 37,5 °C; não é a síndrome de que o pai estava preocupado. Mas febre é febre, e é melhor resfriar.
— Pai, sou eu. É Dee. — Informa; então, toca seus dedos para afastar o pulso e forçar o braço a se desenroscar de perto do peito. É uma posição ruim para dissipar calor, mas deixá-lo mais relaxado seria correr risco de aspiração de saliva.
Para evitar o cenário ruim, troca periodicamente toalhas nos cotovelos, testa, pescoço e cintura, onde consegue alcançar. Úmidas e frias.
Quando abre os olhos, parece perdido; demora para a visão se focar nele, e mais ainda para atingir a fração de foco e clareza que vem do reconhecimento. No geral, parece cauteloso e exausto de todo tipo de estímulo que Dee realmente não vê.
— Dee. — Repetiu, a voz baixa, quase não emitindo ar.
— Você tem que levantar para comer alguma coisa. Tem fruta cortada. Consegue se firmar?
Um resmungo. Glam fecha os olhos de novo, o corpo tremendo e parecendo tenso. Dee cronometra o próprio braço para firmá-lo nas costas e ajudar a sentar. As costas encurvadas e o pescoço rígido. Um arquejo dolorido e ofegante.
Dee não sabe que expressão está fazendo, mas é certo que quer muito chorar agora. Quer muito outro adulto no ambiente, mas só tem ele. Em vez disso, vai buscar a maçã e a banana que fatiou anteriormente em um prato de plástico e as leva para perto da cama.
Não durou nem três fatias. Glam parou de mastigar naquele ritmo lento e dificultoso. Ficou quieto, olhando para o pote por cinco segundos.
— Pai, o que foi?
— O balde. Eu vou vomitar.
Dee reagiu rápido, indo buscar um balde posicionado bem embaixo da pia. É o mais angustiado que a expressão de Glam poderia carregar agora, as sobrancelhas franzidas suavemente enquanto tensiona a boca em uma linha branca. Mal passou o item de mãos quando o pai o puxou para perto, debruçando-se na abertura para o jato sair na mira certa, muito rápido para quem ficou letárgico durante as últimas horas. É aquele som feio de contração muscular involuntária e engasgo, o cheiro acre e nojento de bile.
Ele se preocupa em manter a cabeça do pai angulada para baixo durante o momento para não engasgar. Também puxou o cabelo levemente para que parasse de cair sobre o rosto, apenas esperando o pior passar. O couro cabeludo é denso, úmido e quente, pingando de suor, e há fios grudando na sua testa e pescoço, como se tivesse mergulhado em uma piscina.
As contrações finalmente cessam quando os músculos do pai param de contrair como soluços, para relaxar os ombros, ofegante, sem levantar a cabeça. A voz virou um gemido rouco e exausto.
As mãos dele tremem de adrenalina. É como assistir a uma morte muito lenta, um passo por vez. Os dedos correm no cabelo loiro, organizando os fios para não caírem na testa ou nas orelhas. Vai ser ruim por causa do acúmulo de umidade, mas ele ainda amarra o cabelo com um elástico, apenas enquanto o pai continua apoiado no balde, o maior sinal de vida sendo a respiração um pouco mais rápida e o peito movendo-se em um ritmo corrido. Quando os segundos se tornam um pouco preocupantes, apenas o balança, devagar, apoiando sua testa para levantá-lo.
O suor realmente deixa a pele gelada. Bem gelada. O termômetro fala de febre, mas Glam parece frio demais. E grudento. O peso dele é transferido facilmente para sua mão, sem resistência; então, tem que reagir rápido para segurar os ombros dele e não deixá-lo tombar completamente.
— Ainda acordado?
Glam gemeu longamente, algum protesto que ficou preso na garganta. Olhos entreabertos e respirando pela boca, peito tenso. O corpo parece cansado demais para se mexer. Tem um filete de saliva escorrendo da boca para dentro do balde, melando o próprio torso e o lençol. É uma mancha grande demais, escorrendo ativamente.
— Pai?! — Estupidamente, o primeiro instinto de Dee é realmente olhar para o homem mais velho para pedir orientação, a voz saindo mais congelada e assustada do que antes. Dee separa o balde e desce para o chão, sem largar Glam, apenas para olhar dentro.
Não é vermelho nem borra de café. Que bom.
Ou nem tanto assim, porque o corpo do seu pai tombou facilmente para seu lado. Haver realmente um pouco de força e consciência no corpo é a única coisa que o separa de uma queda total.
— …Deitar. Agora. — O pai responde, a voz fraca e muito baixa.
— Vou medir seus parâmetros antes.
Um frio na barriga diz que o momento que Glam tentou treiná-lo no dia anterior chegou, mas ainda precisa da confirmação numérica. Ficou muito bom em fazer o manuseio dos aparelhos com Glam ainda encostado em seu corpo, respirando ruidosamente. Quase convulsivo. A pressão… Sim, isso justifica. Caiu para 88/54 mmHg; o vômito desencadeou uma hipotensão temporária.
Os batimentos aumentaram para 118 bpm, a glicose subiu para 114 mg/dL e… oxigenação em 87%. Uma queda de 5% na última hora. A temperatura continuou igual.
— Ok, pai. Vou pedir ajuda, certo? — Foi se inclinando e empurrando para frente, instigando-o a se deitar. De lado, cabeça apoiada e travesseiro nas costas para impedir que role. — Volto em alguns minutos.
A respiração perdeu o ritmo compassado que Glam queria manter. É curta e repetitiva. Engasgada. Dee sentiu as mãos tremerem de adrenalina enquanto se levantava para buscar a pasta e o caderno no móvel de entrada. Tanta instrução para ser vencido pela disfagia bruta que impediu a hidratação que manteve a vida toda. Fantástico.
— Fica bem, por favor.
No corredor, olhou ao redor, o mais próximo que já esteve de orar para uma força superior. Não trancou a porta, apenas guardou a chave no bolso. A pasta com as prescrições e suas anotações do caderno marrom embaixo do braço. Que, por algum milagre, a mãe ou o tio tivessem chegado naquele exato momento. O ponteiro parou de girar no momento em que desceu as escadas correndo, os passos barulhentos no corredor vazio. Rápido. Precisa ser rápido.
No balcão do recepcionista, o funcionário que os atendeu no dia anterior. Vai facilitar as coisas.
— Aí! — Quando o viu, o homem perdeu uns dois tons de cor. Talvez lembrando do aviso do pai.
“Se meu filho vier até você pedindo ajuda, rádio ou transporte de emergência, apenas execute o que ele pedir. Minha sobrevivência depende da ausência de burocracia desnecessária.”
Dee provavelmente parece uma bagunça. Não tirou a maquiagem de ontem e, com certeza, chorou um pouco; então, o rímel e o delineador devem estar mais próximos de hematomas do que de maquiagem agora. E não é como se tivesse tido tempo para se preocupar com a higiene menos imediata.
— Mantenha o elevador aberto e tire qualquer coisa que obstruir o corredor. Os outros hóspedes ficam nos quartos; se os socorristas não conseguirem passar, eu vou atrás de você. Não é ameaça, é promessa.
— Garoto, espera…
Não deu tempo. Ele saiu correndo pela porta de entrada como se realmente não tivesse pernas finas e o péssimo hábito de não se mexer se não for necessário. A adrenalina funciona como um impulso ótimo, mesmo que seus joelhos queimem e pareçam derreter em menos de quinze segundos.
Subir duas quadras, direita, última rua. Tem feito esse caminho mentalmente milhares de vezes há quase trinta e seis horas. Viu onde ficava quando foram ao mercado mais cedo. Há pessoas na rua olhando com estranhamento com aquele clima estúpido de cidade pequena, impulsionando a fofoca e a alheiedade.
Ele parou logo depois de entrar, porque os pulmões estavam explodindo e os joelhos tremendo. A adrenalina tem limites e, nesse caso, precisou ficar uns cinco segundos esbaforido como um cachorro.
É mais frio e limpo do que o lado de fora. Algumas cadeiras espaçadas perto de um balcão da recepção circular e em tom de azul-bebê. Aquela característica de prédio velho que sempre cheira a poeira.
— Ei, jovem, você não parece bem… — Uma velhinha simpática se aproximou assim que Dee recuperou o ímpeto, ignorando a gentileza para se aproximar do balcão em uma marcha de guerra.
Há um senhor com uma bolsa de gelo no rosto; um casal de meia-idade com uma criança febril com o nariz entupido; e mais alguns poucos grupos espaçados de pessoas com queixas mais leves. Ultrapassou a fila deliberadamente, suando como um porco.
— Preciso de uma ambulância para meu pai. Pousada, quarto 213. Status convulsivo iminente e queda de saturação.
— Jovem, não pode cortar a fila assim… — A moça do outro lado pareceu insatisfeita. Os outros pacientes também. Dee está cansado demais para se importar. — O clínico está em horário de café agora, então tem que esperar um pouco.
Racional. Dee deve ser racional e prático pela eficiência. A atendente não pareceu entender, provavelmente por só ficar na recepção. Ele bate com a pasta na mesa, não por intenção, mas por simplesmente ter esquecido de controlar a força, abrindo o caderno para mostrar os dados que anotou nos últimos dias.
— Meu pai está em curva de degradação… neuromuscular, a glicose está em 114, em jejum… a saturação… 87%. — Ainda ofegante, Dee apontou os dados. Porra, correr é ruim demais. — Os batimentos… pressão arterial não param de subir. — Ele sorri, mordendo o interior da bochecha para se aproximar do vidro de proteção, parecendo mais uma aberração do que qualquer coisa. — Eu juro que se você me pedir… para esperar ou pegar uma senha mais uma vez… a próxima coisa na sua carreira profissional vai… ser uma mancha permanente de ignorar um alerta com risco de vida. Se… meu pai morrer naquele fim de mundo, eu volto aqui pessoalmente só para quebrar tudo, e quando a polícia vier me questionar do motivo, direi que os imbecis negligenciaram um alerta oficial. E aí, qual vai ser?
A mulher empalideceu um pouco, olhando com a confusão de quem não entendeu nem metade das frases, mas compreendeu a ameaça.
— Eu posso… Chamar minha chefe para te orientar melhor.
Dee pondera. Isso o colocaria em uma posição de espera quando não tem tempo a perder.
— Sim, faça isso.
Outro funcionário acompanha o movimento pela visão periférica, o sussurro ambiental de pessoas sem nada melhor para fazer. A mulher disca um número pelo telefone embaixo da mesa. Há alguns pacientes entrando pela porta lateral e um segurança um pouco longe demais. A arquitetura desses lugares permite uma salinha de descanso escondida, mas não muito longe.
Dez segundos da mulher com o telefone na bochecha, parecendo ansiosa. O telefone finalmente bipou, mas, quando ela ia realmente começar a explicar, Dee contornou o balcão para puxar o telefone para si, em um ímpeto de ousadia antinatural.
— O quadro é de rebote colinérgico e toxicidade por Lítio. Preciso de uma ambulância, agora.
— EI! Não pode invadir assim… — A atendente reclamou, levantando-se. Dee não prestou atenção.
— Vocês são lentos demais. — Ele bufou, sem intenção nenhuma de largar o telefone. Desafiaria o próprio papa se fosse necessário. Enxugou os olhos com as costas da mão, o suor terminando de estragar a maquiagem de ontem. A mão fica manchada de preto e roxo.
A voz do outro lado hesitou.
— Você é… Dee Bolshoi? — Aqui, ele hesitou. A agressividade congelada pela breve surpresa.
— …Sim.
— Sua mãe ligou de madrugada pela regulação geral. Tem uma unidade móvel aguardando o sinal. Vou avisar a equipe, um instante. Pode transferir de volta para minha funcionária, por favor?
— Ah…
O alívio o inundou em ondas, cambaleando. Então, a mãe ainda está vindo, e não sofreu nenhum acidente ou briga de trânsito em todo esse atraso. E cortou a fila da burocracia para compensar. Porra, isso é bom.
Não tão bom quanto não passar por isso, mas é um obstáculo a menos.
— É pra você. — Ele devolve o telefone, mimetizando o comportamento do pai por um segundo, e se afastou do balcão para dar espaço para a recepcionista assustada. A pasta e o caderno embaixo do braço. Os pés ainda se movem ansiosamente, em uma corrida imaginária.
Rápido… Rápido…
— Ele realmente tem autorização? — A recepcionista escuta no telefone, os olhos arregalados, então de volta para Dee, apontando para uma porta lateral. — OK. Rapaz, pegue o corredor aqui do lado. O condutor vem te buscar, os socorristas vão te levar para a Unidade Móvel.
— Ótimo.
Atravessando a porta, um cara de uniforme escuro tinha despontado do fim do corredor, subindo as escadas correndo, mas, ao contrário dele, não estava muito cansado. Pela primeira vez nos últimos dias, alguém estava com pressa tanto quanto ele.
— Garoto, aqui!
O homem o segurou pelos ombros, empurrando-o para a saída, e Dee não se importou, considerando que o torna mais rápido. Só mais um pouco. Realmente tinha uma ambulância com a traseira aberta e dois outros funcionários preparando maleta e ampolas.
— É o caso da regulação! Saída imediata!
O homem tinha a chave nas mãos. Dee sente que poderia vomitar os próprios pulmões e o mundo parece muito confuso e borrado. Fazer mais exercícios. Deveria realmente ficar um pouco mais atlético.
Outra pessoa o abordou quando chegaram perto da unidade de suporte.
— São os dados do paciente? — Dee demorou meio segundo para perceber que se trata dos papéis que o pai separou para ele.
— …Sim. — Mal estendeu o arquivo e o enfermeiro o tomou de suas mãos bruscamente, entrando na traseira da ambulância.
— Vou precisar disso para separar as doses.
Dee não tem tempo de se recuperar. O condutor já abriu a porta do lado da frente e o está puxando para subir. Em qualquer outro motivo, a correria seria motivo para surto, mas, dessa vez, é até bem condizente com seu estado mental.
— Bora, mostra o caminho, garoto. Nada de desmaiar agora.
Porra, finalmente a tragédia parece real.
— Pousada. Sobe, reto, fim do morro. Quarto 213, não cabe uma maca no elevador, escadas têm largura de um metro e meio, sem rampas de acesso. Corredor tem um metro de largura.
— A recepção já deixou o caminho livre ou vou ter que arrombar a passagem?
— Eu avisei para ele deixar o corredor limpo e a porta do quarto está destrancada. A chave tá comigo.
O enfermeiro de antes abriu a portinhola de acesso assim que a ambulância derrapou e ligou a sirene.
— Garoto, foco em mim. Rigidez muscular?
— Torso, costa e ombros. Não consegue respirar fundo, a saturação estava em 87% na última checagem. — Um momento; então: — Vomitou faz menos de meia hora. Líquido biliar puro. Disfagia piorando, salivação excessiva. Pulso em 118 batimentos por minuto e pressão em 88/54; é hipotensão pós-enjoo. Antes estava atingindo 153/98. As pupilas estão pequenas. Não consegue comer e beber água direito, risco de falha renal por toxicidade do Lítio. A glicose subiu para 114. Temperatura parou em 37,5 °C.
— Quais remédios estão no sistema agora?
— Tomou o Diazepam oral às uma da manhã e o Propranolol às cinco. As últimas doses do Haloperidol e Biperideno foram ontem, às nove da noite. — É como responder em uma entrevista. Pelo menos, Dee realmente tem as respostas agora.
— Nível de consciência?
— Reage ao contato direto e parece coerente ainda. Mas não reage com outros estímulos ambientais.
— Entendi. Ok. — A portinhola foi fechada novamente. Há movimentação do outro lado que prova que, pela primeira vez, estavam levando suas informações a sério.
Vai ter que agradecer à mãe depois.
Responde a algumas perguntas, mas não se lembra mais de quais. O trajeto para a pousada foi notoriamente curto estando em uma ambulância — ele chegou ao Posto de Saúde em menos de cinco minutos, mesmo correndo. A agilidade de Victoria funcionou a seu favor; faz menos de dez minutos que saiu.
A ambulância não parou completamente, mas ele já havia arrancado o cinto de segurança e entrado no ambiente da pousada. Elevador aberto; o recepcionista o escutou. Ainda assim, corre mais rápido pela escada. Ele não se importa em como os paramédicos se mexem, apenas em chegar primeiro.
Não há outros hóspedes no corredor, mas um móvel muito perto da escada; então, Dee simplesmente o arrasta até passar da porta do quarto dele. Um rosto curioso aparece por uma fresta, mas fecha a porta rapidamente.
Abre a porta do 213 facilmente. Destrancada, como deixou. O bipe do elevador identifica que o médico e o enfermeiro chegaram no andar, mas Dee está focado demais agora, afastando a cômoda e o banquinho de perto da porta. Vê o pai pela visão periférica, do jeito que deixou — talvez um pouco mais encolhido. A toalha caiu dos ombros e um dos punhos fechado pressionando o peito, com os olhos fechados com força. A respiração ruidosa prova que ainda está vivo.
Botas táticas fazem som no caminho, anunciando uma intervenção oficial antes mesmo de Dee realmente se aproximar de Glam, apenas o suficiente para checar se as coisas não pioraram agressivamente ou por algum instinto de contato que vem de ver o pai morrendo.
Um deles foi direto para o pai, baixando um monitor ao lado da cama.
— É, garoto, você não exagerou na rigidez. Trismo em evolução. — Informa, de forma quase casual. O médico foi logo atrás enquanto seus sensores de monitoramento de última hora foram trocados por modelos profissionais.
Firmar a cabeça e checar a pupila. Há um breve murmúrio sobre mióticas, e Dee não precisa estar perto para saber que os monitores estão confirmando seus dados. Subitamente, não consegue mais se aproximar.
— Confirmado. Saturação caindo, taquicardia sinusal evoluindo. Prepare o ambu, ele não vai sustentar a mecânica respiratória por mais trinta minutos.
Dee perde o reflexo de se aproximar, sentindo um distanciamento quase defensivo. O pai abriu os olhos apenas um pouco, visualizando a equipe de socorro. Pareceu entender, porque não lutou, mas apenas murmurou alguma coisa que não deu para ouvir. Há eletrodos sendo posicionados no peito, e o médico posiciona um estetoscópio no peito, ouvindo com atenção por alguns segundos. O enfermeiro, que falou com ele antes, aspirou a saliva acumulada com um aparelho; é irritante e constante. Depois, conecta uma máscara transparente para cobrir seu nariz e boca, ligando-a em um tubo de oxigênio. Então:
— Ele vai fibrilar se a gente não diluir isso no caminho. Pode conectar o soro.
O enfermeiro aperta a parte inflável da máscara, então olha diretamente para o médico. Uma comunicação interna acontecendo ali e que Dee não tem capacidade de entender com profundidade.
— Ele vai ser sedado. — O condutor parou a seu lado, posicionando a prancha de plástico e as cordas de segurança no chão, traduzindo a interação. — Pulmões muito rígidos para receber oxigênio. Para aguentar a viagem, vão sedá-lo e assumir o controle da respiração.
— A succi… — Dee tenta voltar ao ritmo, relatando uma das preocupações que o pai soltou aleatoriamente no dia anterior.
— Fora de questão. Vão usar o rocurônio. Eles sabem o que estão fazendo, garoto, vê? A ajuda já chegou.
Deveria ser reconfortante. O enfermeiro dá alguns tapinhas no braço rígido para conectar um cateter e um extensor de múltiplas saídas, conectando o soro. Uma agulha consideravelmente grossa. O pai realmente reagiu durante a inserção da agulha, retirando o braço. Exatamente como antes de toda medição. Dessa vez, o enfermeiro apenas segura seu ombro e a mudança de posição não é mais relevante.
Uma seringa por vez. O conteúdo de uma ampola, então o mesmo volume de soro fisiológico, então limpar. Acontece mais duas vezes de forma metódica e padronizada. Glam não reage depois da primeira.
A visão dos próximos sessenta segundos assombraria seus pesadelos por anos depois disso: o pai apenas… derrete. Toda função muscular ou contração de desconforto é simplesmente desfeita. Os braços caem sem resistência nenhuma e o som estridente da respiração apaga completamente. Como um cadáver.
Dá para sentir o terror frio na ponta dos dedos. Não percebe quando dá um passo instintivo para perto, mas o condutor o segura no lugar.
— Deixe os profissionais trabalharem, garoto.
O médico se posiciona atrás do pai. Há um som metálico de metal contra os dentes, acompanhado de um tubo de plástico conectado à máscara de antes. É como se toda a tensão do pai fosse absorvida por ele, observando as coisas se desenrolarem com os olhos arregalados e atentos. O enfermeiro aperta aquela coisa inflável mais uma vez, e dessa vez ela se mexe. No monitor, os números de saturação sobem lentamente.
88%... 90%... 93%... 96%... 99%
Um bipe contínuo do batimento cardíaco. Dee sente as pernas tremerem de alívio. Um pouco mais de tempo; isso é bom.
Ele… não sabe muito sobre o que acontece depois. Os socorristas prendem seu pai na prancha e ele fica segurando a bolsa de soro e os cilindros de oxigênio na hora de voltar. Pela escada. Dessa vez, ele vai atrás de todo mundo.
A cabeça de Glam ficou virada para cima, e um deles estava exclusivamente firmando o tubo e mantendo-a firme. Significa que Dee teve uma visão panorâmica da expressão inconsciente do pai enquanto desciam aqueles degraus.
Olhos vítreos, fixos e sem foco nenhum, entreabertos. A pele cinzenta e suada. Não parece realmente vivo. Também tem algumas marcas vermelhas no peito, perto do eletrodo — ele provavelmente se arranhou tentando forçar a arritmia a recuar.
Não parece o pai dele.
Ele faz a menção de tentar entrar na traseira da ambulância, obviamente querendo acompanhar de perto. O condutor, no entanto, tem outros planos e o impede de subir assim que o enfermeiro tira as coisas de sua mão.
— Não, garoto. Vai na frente, como a gente chegou. Eles precisam de espaço para trabalhar.
Dee realmente quer resistir aqui. A parte lógica do seu cérebro diz que é uma conclusão racional e que funciona para o propósito geral; mas todo o resto está sendo inundado pelo medo de ser a última vez que vê o pai respirando, mesmo que por máquinas. Ele quer ficar perto, mesmo sabendo que seria inútil. Mexe-se para a cabine por simples urgência. Não pode demorar para decidir, a cabeça começando a querer oscilar em seu nível de consciência.
A sirene parece abafada. Dee prende o cinto mecanicamente quando a unidade sai em disparada, espiando pela abertura para tentar ver enquanto o pai é fixado. Glam sempre fora anormalmente alto, embora muito fino, mas ali parece espetacularmente pequeno. O médico, supostamente, fica bem de frente, monitorando o tubo.
— Ei, garoto. — O enfermeiro, no banco comprido do lado direito, mexia com as agulhas, o acesso venoso e o varal de soros. — Seu pai usa alguma coisa? Costuma beber? O metabolismo de quem consome muita cafeína altera a resposta a alguns sedativos, preciso saber se o que estamos dando vai durar o caminho todo.
Dee demora um pouco para responder, reunindo os dados na cabeça. É uma resposta muito óbvia considerando os hábitos de Glam.
— Não. Só toma os remédios dele, é metódico que nem um robô. A mãe e o tio Ches fumam, mas raramente no mesmo cômodo que ele.
O condutor o mantém na visão periférica, mãos fixas no volante.
— Entendi. Alguma alergia ou reação a esparadrapo ou iodo?
— Não. Ele não tem nenhuma alergia. Também fiz o curativo da mão dele ontem, não deu reação nenhuma nas bandagens.
— Certo, o curativo. O que foi que aconteceu ali?
— Ele deu um soco no espelho. Foi antes do Haloperidol fazer efeito, ontem… nove e vinte da noite, isso. — É um pouco mais fácil responder agora; desviou o olhar do peito nu do pai, saturado de eletrodos para monitoramento. Sobe e desce conforme o ar passa pelo tubo. Os olhos foram cobertos com gaze molhada em algum momento.
Nenhuma reação. As mãos estão relaxadas. Nas últimas horas, o pai parecia completamente tenso, até massageando os pontos de tensão dos pulsos e mãos, mas agora estão caídas, sem contração. Nem mesmo o espasmo constante dos últimos dias.
— Você disse que ele vomitou, certo? Antes disso, alguma melhora súbita ou uma ladeira abaixo constante? Estava suando antes da pressão cair ou foi só depois do vômito?
É quase como ser entrevistado. Provavelmente é assim que uma entrevista de emprego soa. É tudo tão iluminado e dolorido, um desconforto médico e eficiente, mas desconforto. O monitor tem três linhas de cores diferentes. Não dá para ler o que está escrito e há muitos bipes acompanhando. Verde para o coração, azul para a saturação de oxigênio e amarelo para a respiração pelo tubo.
Em teoria. Tem uma luz vermelha piscando também.
— Febre leve e suor a noite toda. Coerente e falando até antes de vomitar, umas nove da manhã. Foi quando fui convencer ele a comer.
— …Entendido. Última pergunta: Quando foi a última vez que o viu 100% lúcido, sem nenhuma interferência de pensamento?
— O chiado conta como interferência de pensamento? — Dee realmente não sabe, franzindo a testa em deliberação. — Ele ficava colocando o dedo no ouvido para isolar o som interno do externo, isso desde que acordou, ontem, quatro e meia da manhã. Mas a paranoia apareceu só depois das onze, quando a gente estava indo para o mercado.
Faz um bom tempo já. A mãe está atrasada. O silêncio significa que as perguntas acabaram. Ele volta a olhar o pai. A pele dele tem perdido toda a cor e parece um tanto cinza e porosa.
— Ei, garoto, quantos anos você tem? Vão pedir por um responsável para autorizar a diálise. — O condutor informa, com a voz baixa e constante. Certo, a burocracia.
Dee tem dezessete, quase dezoito. Mas não sabe quando a mãe vai voltar ou se o tio Ches está por perto; então, responde sem nem vacilar a voz:
— Dezenove. Eu posso autorizar qualquer coisa que for ajudar ele.
Provavelmente vai ser desmentido em algum momento. Desde que seja depois de tratarem seu pai direito, tudo bem.
— Bom, isso facilita as coisas. — O condutor confirma, sem realmente desconfiar. — Sua mãe pediu transbordo oficial. Foi pelo rádio da PRF que entraram em contato com a gente. A chuva causou uns estragos que devem estar atrasando o caminho de volta, mas estão a caminho. Esse seu tio… Ele é da área da saúde?
O adolescente irônico nele quer responder: “Só se for como paciente. Ou apoio emocional”. Em vez disso, acompanha a linha amarela do monitor. Subindo. Isso é bom. Sua voz parece distante até para os próprios ouvidos.
— Não, não é.
— Você comentou antes sobre a Succinilcolina. Boa sacada. Se fôssemos pelos protocolos padrão, a Succi ia fritar os receptores dele e causar uma hipercalemia fatal. O Rocurônio age mais devagar, mas é mais seguro agora. — Dee não responde, focado nas linhas do monitor. As mãos apertam a poltrona nervosamente, mas o pescoço dói pela posição meio contorcida. — Quando a linha amarela sobe, é porque ele está aceitando bem o ar. Você entende o monitor?
— Verde é o coração. Azul é a saturação e amarelo, capnografia. Verde tem que continuar se mexendo, azul não pode subir ou descer demais, e amarelo não pode ficar reto… — Uma pausa; ele finalmente olha para o condutor. — A febre dele. Era por causa do Haloperidol? Dá para saber agora? Se minha mãe chegar com a Clozapina e for extrapiramidal do antipsicótico, vai piorar.
— Então você sabe da Síndrome Neuroléptica Maligna… — Ele demora um pouco, organizando as palavras. Dee se vê pelo reflexo, parecendo ter acabado de sair de uma festa, completamente desnorteado. — Para evitar este cenário, vão dar uma dose pequena da Clozapina primeiro. Para dar tempo de consertar se a temperatura subir. Considerando a avaliação física, eu diria que a febre foi apenas efeito colateral do rebote. Você sabe bastante, garoto. Quer ser médico?
— Não.
Parece terrível ter que lidar com essa pressão todos os dias. De qualquer forma, só aprendeu um pouco por curiosidade e hiperfoco uns anos atrás, e Glam ensinou o que precisava quando toda essa situação começou, como um palestrante. É bizarro não ter o som da voz dele explicando tecnicalidades.
Um pesadelo. É como se tudo fosse um pesadelo que pudesse desaparecer a qualquer momento.
— Aqui é o condutor da USA-04. Recebemos o paciente, Sebastian Bolshoi. — O condutor informou com uma das mãos tocando o que parecia ser um fone Bluetooth em seu ouvido esquerdo, sem olhar para Dee. Respondendo a um questionamento pelo rádio, se pudesse supor. — Quadro de insuficiência respiratória, rigidez muscular e instabilidade cardíaca. Protocolo de ventilação assistida iniciado antes do deslocamento; não há margem para esperar no posto de saúde. Estamos indo direto para o Regional.
Não há o que fazer. Depois de tantas horas buscando um fluxo lógico de ações que minimizam os danos, a coisa saiu de suas mãos. O enfermeiro bateu na portinhola e passou o caderno que confiscou mais cedo de volta.
— Todo o importante está anotado, o quadro bate. Foi de grande ajuda, garoto.
Dee recupera o caderno, mãos trêmulas com força de preensão muito maior do que deveria. Todo seu processo de ação e tomada de decisão, o pai falou para anotar. É um protocolo de ação confiável. E insuficiente para lidar com mais de trinta horas de crise, aparentemente.
O enfermeiro não esperou sua resposta, fechando a portinhola e voltando ao trabalho com imediatismo profissional. Dee virou a cabeça, tentando acompanhar os valores nos monitores. A linha verde oscilando bem acima da estabilidade, alguns alertas piscando.
— O apartamento e as informações estavam bem organizados. É uma raridade em casos críticos. — O condutor diz, chamando sua atenção. Dee não desvia o olhar da linha verde. — Boas notícias para você: o transbordo de seu tio vai esperar pela gente no Regional.
Dee quer rir, irônico e ressentido. Agora? Precisava dele há três horas. Doze horas. De preferência ontem. Agora, o pai dele só está respirando por causa de uma máquina.
A linha amarela e a azul estavam quase estáveis, talvez com alguma dificuldade de pressão. O Complexo QRS se alarga em um verde monótono, um intervalo QT dolorosamente longo gradualmente se perdendo em novas sístoles cardíacas.
— A previsibilidade e eficiência são parâmetros essenciais. A desordem é uma variável de erro. — Repetiu as instruções que Glam forneceu no dia anterior. Não parece real. Sem algo para fazer ou adrenalina para bombear, a sensação de erro parece ressoar com os alarmes da traseira da ambulância.
— Manejar a desidratação com a disfagia deve ter sido difícil.
É uma entonação que sugere a necessidade de resposta. É feito para manter Dee falando apesar do trajeto. Dee consegue identificar os sinais no próprio corpo e o que estaria tentando evitar. Não acredita que esteja realmente entrando em choque, mas a cabeça continua procurando repentinamente a linha de código que poderia ter escrito melhor.
— Era para ser pelo menos 250 ml por hora. Água, isotônico e gelatina sem sabor. Ainda está no quarto. A gente precisou diminuir para não engasgar. Imaginei que ia precisar ir ao posto para a intravenosa em algum momento, porque não dava para fazer ele beber dormindo, mas isso… foi rápido.
A mãe já deveria ter chegado. Alguém com informações melhores ou que pudesse carregar o pai escada abaixo. Sozinho… não dá.
— É, costuma ser rápido, sim. Mas o tempo de reação foi bom. A maioria das pessoas só liga quando o coração já parou.
O estômago embrulha. O pai continua ali, parado como um cadáver e suplementado por máquinas. Se o ventilador parar, não vai haver reflexo de respirar. Glam só… morreria. Asfixiado.
Não sabe se respondeu mais alguma coisa, agarrado ao caderno e com o pescoço inclinado para ver a situação adequadamente, o máximo possível dado seu ângulo atual. Pelos espelhos retrovisores e janelinha, escutando o médico e o enfermeiro murmurando entre si sobre ampolas de magnésio e bicarbonato.
Em dado momento, a linha azul começou a descer, quase em sincronia com a linha amarela.
— A eficiência do ventilador diminuiu. A saturação está baixando, a expiração de gás carbônico… O corpo não está convertendo. Isso…
O batimento errático não melhora. Vai de 150 batimentos por minuto para, então, 110, e aí sobe de novo para 180… 60, 70, 210... Sem estabilidade nenhuma, uma linha confusa e errática. Dee quer vomitar, não tendo o privilégio da ignorância.
O aviso vem quando o condutor sinaliza para encostar e, realmente, desacelera até parar completamente. Ao contrário do motorista, os dois socorristas ali atrás não parecem nem um pouco calmos. A voz do médico soou pela portinhola, ao passo que o enfermeiro subitamente se apoiou na maca, sobre o peito nu de seu pai, mãos em concha, começando a manobra que só precisou ver em vídeos.
— É Fibrilação Ventricular. Iniciando manobras.
O peito continua subindo e descendo graças à ventilação mecânica. A linha amarela se torna retilínea e a azul é uma queda crescente, um alarme de alta pressão soando e sobrepondo-se ao som da máquina.
— Pai…!
Ele reage por um pânico cego, indiferente à coisa prática que a ambulância tenta performar, o coração batendo na garganta.
— Não. — O condutor avisa, e nem precisa tocá-lo. — Os profissionais estão lá atrás. Se você interferir, vai atrapalhar.
Só então, Dee percebe que moveu as mãos para o fecho de segurança do cinto, tentando desesperadamente ver um pouco mais, como se aquilo pudesse ser remediado apenas procurando um detalhe específico que talvez tivesse perdido. Um erro na máquina e não no seu pai.
— Ele… Porra, é meu pai ali!
O som do aspirador mudou, borbulhando um pouco. O médico ajustou a sonda de aspiração. O corpo de Glam balança como um boneco, sem resistência. Clack… É comum as costelas quebrarem em manobras de ressuscitação, mas não significa que seja menos repugnante. Um arrepio instintivo o percorreu na coluna.
O condutor tem a chave encaixada, o pé preparado para assumir o acelerador, expressão tensa. Do outro lado da parede transparente, dois profissionais estão tentando trazer seu pai de volta. Há um chiado, som de eletricidade.
O enfermeiro saiu de cima; o médico avançou com um desfibrilador.
— Carregado em 200 Joules.
O pior é que o corpo de Glam nem subiu. Um baque seco e um estalo metálico que reverberou no chassi da ambulância, o tórax apenas movendo-se sutilmente pelo impacto da energia. Três segundos; então, a mesma voz anuncia:
— Sem retorno. Iniciando as compressões.
— A adrenalina, o cérebro dele já está afogado em adrenalina. Aumentar os níveis…
— Eles estão fatorando para não intoxicar. A manobra e o ventilador mantêm a circulação do corpo. O choque reinicia o sistema. Você conhece as regras, garoto. Eles estão fazendo certo.
Dee percebe, vagamente, que é o único sentindo a variável emocional da situação agora. Os segundos continuam passando, médico e enfermeiro alternando suas posições para continuar manobrando, e o monitor simplesmente continua em um padrão errático e estúpido.
Seu cérebro parece repetir um mantra de negação apesar da clareza e urgência que o cenário passa. Não importa o quanto Glam o estivesse preparando para a independência, ou falando da própria morte com afastamento clínico. É muito emocional e cru; a vontade é de gritar e a sensação é de ouvir cada batimento próprio em um contraste muito forte com a barulheira no monitor.
Alguém só… faça alguma coisa. Mas eles estão fazendo, e não está dando certo.
Os segundos continuam se agrupando e formando minutos, um por um, enquanto afundavam o peito do seu pai repetidamente, revezando. Há pelo menos mais dois Clacks, mas Glam não se mexe ou reage de forma alguma. Dois minutos, quatro… cinco minutos inteiros.
O médico carrega o desfibrilador de novo, um chiado estático de carregamento e voltagem. Baque seco, o tórax se move apenas um pouco sob o impacto da energia. Por um segundo, o monitor pareceu hesitar, exibindo uma linha plana e chata que fez o estômago de Dee despencar, a própria respiração suspensa em expectativa.
Seis minutos inteiros. O relógio no painel acabou de mudar para 10:51 quando a linha do monitor, que antes era um chiado elétrico e errático, subitamente desenhou um complexo. Bipe; uma oscilação larga, bizarra e completamente deformada, mas rítmica. Bipe, Bipe.
— Ritmo sinusal, complexo alargado. — O médico checou pelo pulso, suado e com expressão séria. — Ele voltou! Acelera!
O condutor não esperou o fim da frase. O motor rugiu e as rodas cavaram na brita do acostamento com uma força que jogou Dee contra o encosto da poltrona. A sirene voltou, mas não parecia a mesma de antes.
Dee soltou o ar, tremendo e sentindo-se como uma criança assustada, apertando o caderno contra o peito com força o suficiente para suas unhas cravarem na capa.
— USA-04 para Central e VTR 201. Atualização de status. — O motorista começou, novamente apertando o fone no ouvido esquerdo. — Paciente entrou em parada cardiorrespiratória às 10:45. Manobras de reanimação bem-sucedidas, retorno de circulação espontânea às 10:51. Retomando trajeto, previsão de chegada: trinta minutos. QSL?
Algo frio e vazio borbulha em seu próprio peito: ódio e frustração. A irritabilidade se misturando com a ansiedade e o pânico que estão crescendo a cada segundo que passa. O rosto esquentou, a garganta ardendo no que ele sabia ser a vontade de gritar ou chorar. A lama, a chuva, o atraso tão ridículo das suas opções de suporte…
Seguiu todas as regras. Leu e estudou os manuais e as bulas, mesmo sem ter internet ou contato com ninguém. E, ainda assim, o resultado foi uma ausência de batimentos por seis minutos inteiros.
“Está tudo bem. Você foi bem”
Esse idiota estava prevendo isso, não é? A falha completa. Mais de quatro horas atrás. O pai percebeu que o reforço estava muito atrasado para fazer alguma diferença no resultado final. Ridículo. As unhas arranham a capa. Puxou e expirou o ar em intervalos de quatro segundos, exatamente como Glam estava fazendo de manhã, empurrando o ar para fora com o diafragma. Não é hora de surtar, não é hora…
— Garoto…
— Eu não vou desmaiar ou entrar em choque, pare de perder tempo falando e acelera essa coisa. — Dee interrompeu, a voz saindo muito firme para seu nível de ruído interno.
O motorista não se importou. A unidade de suporte já estava em sua velocidade máxima, desviando dos obstáculos de estrada com a agilidade de quem já está acostumado a dirigir em emergências. A informação continua rodando em looping na sua cabeça: seu pai acabou de morrer. Ele voltou, mas morreu.
Bipe, Bipe, Bipe…
Quando a ambulância para e a sirene cessa, é um vácuo de sons que Dee mal pode processar. Desce por instinto, obedecendo à recomendação verbal de manter a porta aberta enquanto descem com seu pai pela porta traseira.
Cinzento, suado e com os olhos cobertos. Parece um homem morto. O peito é inflado pelo sopro do tubo.
— Parada cardiorrespiratória em Fibrilação Ventricular às 10:45. Seis minutos de manobra, 2 choques de 200 joules, retorno de circulação espontânea às 10:51. Atualmente sedado com Rocurônio, Fentanil e Midazolam. Intubado, ventilado, recebendo expansão volêmica e bicarbonato. Lesão renal aguda. Intoxicação por Lítio e rebote de Clozapina. Recebeu Sulfato de Magnésio devido ao risco cardíaco.
Inspirou líquido e os rins levaram dano pelos seis minutos sem batimentos. O sangue está ácido. O corpo ainda não entendeu que sobreviveu. Há sons e alertas de erro se sobrepondo, quase nublando a voz do médico que explica o quadro para os encarregados do hospital com precisão cirúrgica.
Dee sai de seu transe temporário quando o homem gesticula para ele.
— O garoto tem o prontuário doméstico completo, protocolou a última dose de benzodiazepínico e frequência respiratória antes da intubação. Escutem o que ele tem sobre o cronograma de Lítio, as informações batem com o quadro de intoxicação.
Ah, isso… não foi o suficiente. É óbvio que não foi o suficiente se o cenário ruim ainda aconteceu. Os olhos acompanham a maca, o corpo seguindo atrás, querendo desesperadamente saber o desfecho dessa história. O enfermeiro de repente está em sua frente, a mão em seu ombro e o corpo barrando sua passagem enquanto a maca desaparece pela entrada da emergência.
— Garoto, você fica na espera. Agora é com eles, você fez o que deu pra fazer.
Não o suficiente. Nunca o suficiente.
— Dee? É… Oi.
Há um súbito vácuo de som enquanto Dee vira a cabeça para ver a nova figura. Alguma coisa estala; fúria transbordando. Tão atrasado, é inaceitável. Foram trinta e seis horas até os sintomas piorarem; trinta e nove para conseguirem chegar ao hospital. Quase trinta horas sob comando de um adolescente, de todas as coisas!
Não se importa em processar a aparência desnorteada e imunda de Ches; ninguém está realmente apresentável neste ponto. Apenas avança com passos de elefante, o enfermeiro que o bloqueou antes parecendo completamente surpreso.
— Mas que inferno, Ches! — Gritou, e o som parece em carne viva, a garganta fechando. — Quanto tempo leva para tirar o rabo da lama e trazer umas caixinhas de remédio? Porra!
Só levaram dez horas para chegar. Como a ajuda levou mais que o triplo desse tempo? É tão… injusto. Estúpido. Quer gritar, ofender, entrar em alguma briga que sabe que vai perder. O mundo parece quente e colaborativo às emoções faiscando, alimentando a raiva cega.
Gesticula e brande o caderno como se fosse um martelo ou facão. As ofensas não param de surgir, e ele não tem vontade real de contê-las.
— Você tá parecendo um espantalho que escapou de um aterro sanitário, puta que pariu! Trinta e nove horas sem essa porcaria, Ches! O cronômetro estourou faz tempo! Ele morreu! Caramba, morreu por seis minutos inteiros!
Ainda não tinha verbalizado a informação. A voz racha, e tenta compensar com alguns golpes do caderno no peito alheio. Por algum motivo, este imbecil ainda não falou nada; então, Dee continua, tentando conter o choro e a histeria que estavam vazando cada vez mais.
— Pra casa do caralho com essa cara de quem ‘fez o que pôde’. Meu pai é um projeto de defunto intubado agora! É uma falha crítica, e você só chega agora? Agora?! — Estúpido, tão abertamente estúpido e injusto. Uma falha. De todos eles. Sua cabeça troveja, bagunçada e confusa. — Porra, seis minutos! Você tem noção do que isso faz com um cérebro? Um dia e meio. Você levou um dia e meio para atravessar o estado, mas que porra! Eu contei cada maldito minuto até o sistema dele fritar. Puta que pariu, eu assisti meu pai morrer. Ele parou! Porque você resolveu ser o “Ches” e se perder no caminho! Não é o momento de se atrasar! Ah, francamente!
A falta de reação é tão anormal. Ches apenas segura suas mãos, aquela cara cansada e imunda olhando para ele com uma preocupação altruísta e desnecessária agora. Precisava disso antes; agora é completamente inútil.
— Eu sei. Eu entendi, Dee.
A garganta dói, o ar parecendo escasso. Qualquer caminho, uma opção para um cenário relativamente melhor… Ele funga e soluça. Devia ter chegado antes. Só um pouco mais cedo.
Não deu para segurar. A falta de reação não alimenta sua raiva e agora, sinceramente, Dee só quer chorar. O soluço infla seu peito; então, ele agarra o peito que estava batendo apenas dez segundos atrás para esconder o rosto.
— Você foi bem, Dee. Cê fez tudo o que conseguiu. Agora, deixa com os profissionais.
Isso é tão injusto.
