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Relationships:
Characters:
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Language:
Português brasileiro
Series:
Part 3 of Geometria do Caos
Stats:
Published:
2026-03-25
Words:
3,536
Chapters:
1/1
Comments:
2
Kudos:
10
Hits:
108

Paradoxo de Teseu

Summary:

Em 1989, Glam bebeu um pouco. Para se divertir com os amigos, após uma apresentação fantástica. Quem diria que o filtro de realidade, justamente a única coisa que o mantinha funcional diariamente, seria o primeiro afetado? Ou que as coisas evoluiriam ao ponto de um agente dar-lhe o ultimato de passar um tempo em tratamento intensivo para que episódios assim não se tornem recorrentes

Em 2023, Glam acaba de passar por uma experiência ruim. Seu próprio corpo e rigidez agora são nutridos por tubos e sensores externos e, como alguém que se orgulha de sua autonomia, não recomenda este tipo de experiência para ninguém.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

As falhas de tinta na lataria… estão se aprofundando. Luz e sombra interagem para formar rostos familiares, mas que, por algum motivo, não se consegue absorver os detalhes — a luz muda, colorida, em flashes irritantes que fazem a pressão atrás dos olhos baixar. É barulhento. Um zumbido elétrico que já foi música e conversa, mas que agora só faz abafar os próprios pensamentos.

Rindo. É aquela descarga de adrenalina que afrouxa os filtros e faz o corpo balançar livremente. Um copo ou outro de qualquer coisa que Ches ou Bob ofereceram. Fantasiado de vagabundo e baderneiro. É maravilhoso. Você se acha tão livre, mas é a frequência dele que te faz tocar assim. É o combustível para que possa fingir não ser nada mais que uma marionete oca e sem cordas.

As cores vazam. Estão voltando, cambaleando e contando piadas, depois de uma apresentação ótima. Maravilhosa. A eletricidade vibra debaixo de sua pele.

— Então, Glam. — Ches fala, com um cigarro entre os dedos e olhos caídos, abrindo as portas para entrar no trailer. Quase caiu, mas a mão que estava segurando a maçaneta esqueceu-se de soltar para deixá-lo cair com a cara no chão, então ficou apenas ligeiramente pendurado; a ponta acesa do cigarro caiu inofensiva no chão. — Sabe, as portas são só paredes com crise existencial, consegue acompanhar o raciocínio? Elas abriram, aí não dá mais pra voltar a como era antes.

A porta rangeu ao abrir.

— É um Lá natural. Parece triste, é um suspiro. — Glam concorda, balançando a cabeça. Consegue visualizar bem o momento: a parede de repente percebe que há dobradiças e um mecanismo de abertura disponíveis. Então, abre. Mas agora é madeira ou metal e não dá para voltar a ser só parede, porque agora é porta. — O mito da caverna? Você não finge que não sabe o que sabe.

— Agora tá me acompanhando, cara!

— Que fome! — Lordi resmungou, subindo os degraus pra entrar na sala bagunçada. O cabelo bagunçado como um ninho de pássaros e o top que usou para se apresentar frouxo e caindo pelo ombro. Foi um dia legal. Farsa. — Alguém comprou algum tipo de comida?

Não foi feito para durar.

Eles se apresentaram na abertura de uma boate. As pessoas gostaram. A música evoluiu para a bagunça e, apesar de ser muito tumultuado e claustrofóbico, é como sentir insetos debaixo da pele, forçando o corpo a se mexer e realmente aproveitar.

— Quem compra comida quando sai pra beber, cara? A graça é ficar bêbado com pouco esforço. — Bob articulou, o maior deles, lá detrás.

Ches entrou. Então Glam, Lordi e, por fim, Bob, que, depois de fechar a tranca, resolveu deitar no chão e ficar por lá mesmo. Lordi olhou para aquilo com ceticismo, tentando fingir que o mundo não gira para ele também, nem conseguindo focar a visão direito sob o peso da própria cabeça.

— Cê desistiu de andar, né não?

— O mundo é um navio andando.

— Tem macarrão! — Ches gritou, lá da cozinha, o que não é muito longe já que estão em um trailer, erguendo um pacote de macarrão instantâneo como se fosse ouro.

Glam olhou para aquilo. Para o chão que parecia ondular e engolir seus passos, como lama densa. Utópico. Nada disso é real. Dê a um rato um botão que estimule o prazer e ele o apertará repetidamente até a própria morte. Você é o rato. Fugindo de toda a bagunça que te representa em troca de prazer temporário; é inevitável que a ilusão se quebre.

Dá para ouvir a chuva, mas o tempo está seco e não tem umidade. Um passo atrás do outro, toda a concentração para conseguir alcançar o sofá. Barulhento, os amigos riem e trocam farpas; este deveria ser um momento bom. É um momento bom. Uma falha sistêmica. Seus amigos eventualmente vão se perder em seu efeito dominó; perceberá que não há forma de fugir de sua herança. Degradante, é tão…

— Barulhento, isso é barulhento, droga. — Um rascunho mal acabado de um homem que odeia. Não te assombra ter os mesmos traços? Conseguir reconhecer Gustav no espelho? Glam se senta, encurvado, e pressiona a palma das mãos nos olhos, optando por uma cegueira temporária. Vai vomitar. Está balançando e há um zunido em suas orelhas.

Uma sensação de frio na testa. Ele se assusta e levanta a cabeça em um solavanco, pronto para revidar. Lordi tinha um daqueles copos de água lacrados que se vendem em lojinhas, com cerca de 200 ml de água destilada. Armadilha. A gentileza sempre tem um preço.

Lordi tem um sorriso enorme e completamente diferente da imagem assustadora que sua cabeça tenta projetar, alegre e relaxado como nunca esteve sóbrio. Veneno.

— Líquidos, cara... Cê é o único que ainda parece inteiro, mas água é importante.

É veneno. Vai queimar, obstruir, atrapalhar. Qual é a condição?

— Não gosto de álcool. Parece… A tinta da parede tá descascando. Derretendo.

— São as luzes do palco, tudo fica meio bagunçado por um tempo, relaxa. Amanhã as coisas voltam a ter sentido.

Tira o lacre e bebe um pouco. É refrescante e neutro. Você é o veneno. A armadilha. Deveria fazer alguma coisa.

Lordi dispensou-o e foi garantir que Ches não estivesse pondo fogo na cozinha, mesmo que só tivessem uma chaleira elétrica e um micro-ondas. Há um breve diálogo: “Só falando, mas se a gente acender um isqueiro no gás, não é só uma viagem no tempo pra gente chegar no hospital bem rápido?” e “O gás acabou mês passado, mas se colocar essa colher no microondas vai dar no mesmo.”

A maquiagem pinica na pele. Os pulsos parecem quentes e gosmentos, as antigas cicatrizes doendo instintivamente por um impacto que não vai chegar. É como se as faixas de tecido grudassem na pele da mesma forma que o sangue seco. É só suor. Tem certeza?

— Cale a boca, só por um instante… — Murmura. Aquela vozinha interior estúpida e irritante tem valsado com uma enxaqueca durante horas.

— Ih, cara, tem ninguém falando contigo não. — Bob chama, do chão na frente do sofá. Esparramado. Tirou a camisa em algum momento.

— Desculpe, não é com você. É só… Barulhento.

— Cê nunca bebeu, não é? Só tá fraco. Vai passar.

— É o som do rock, brother. Ta emulando pelos poros, a gente foi foda pra caralho. — Ches informa, saindo da cozinha com um pote grande e que cheira a macarrão instantâneo. — Senhores, o banquete está servido. Só tinha dois pacotes, se virem.

Glam olha para o macarrão. É amarelo e ondulado, bem vivo. Parecem fios de cabelo ou minhocas se mexendo. O estômago embrulha. Há padrões, palavras que ele poderia identificar. A cabeça lateja; está esperando uma mudança de cenário que pode simplesmente não acontecer.

— Então, quero ver quem vai acertar: Por que o esqueleto não foi à festa? — Ches grita, de repente, segurando um garfo no alto. A panela foi pra mesinha, mas apenas Lordi começou a comer, o que faz sentido. Ele só fuma. É o menos chapado daqui.

— Porque ele não tem um sistema circulatório para processar o etanol e a pressão social seria irrelevante para alguém sem sistema nervoso central?

— Você é literal demais, cara.

Os tendões. Os ossos. Cada gota circulando neste seu corpo em decomposição. São dele. Um presente das pessoas que odeia. Não é gentil?

— Se liga, é porque ele não tinha corpo pra isso. Há! — Ches ri sozinho da própria piada ruim.

Mary sempre teve aquela paciência infinita. Com Gustav, não com vocês. Lydia, pelo menos, soube processar a falha genética a seu favor, mas você só era um bode expiatório conveniente, não é? Castigado pelos céus, uma punição divina. Aborto da natureza, não é mesmo? Só tinha que dizer o que ela queria ouvir, mas não consegue, não é?

Para alguém tão decidida a ficar em silêncio, Mary sempre grita bem alto. Inútil. Sua única função deveria ser continuar útil, não estragar as coisas, mas nunca funciona, não é? Uma versão maltratada e mal programada de Lydia, você só existe porque Gustav queria um menino. Decepcionante. Seu código-base sempre esteve corrompido; você sabe que está piorando, então será uma decepção para eles também.

Isso não importa. Foi embora agora, por que continua pensando em coisas ruins? É um lugar seguro, está com os amigos agora. O problema sempre foi você, Sebastian. Qual o sentido de golpear os pulsos de um músico? Ele te odiava, assim como Mary. E, assim que Lydia percebeu que você a puxaria para baixo também, qualquer tipo de afeto foi completamente apagado. Ela contou para ele; é a ilusão narcisista do controle. Gustav só queria alguém para controlar. Não faz sentido continuar essa linha de pensamento. Silêncio. Precisa de um pouco de silêncio. Estática nos ouvidos. Como tem certeza disso? Você nem se lembra. As memórias que vêm à sua cabeça agora, como sabe que não são apenas o que quer ver? Talvez diminuindo seus defeitos meticulosamente para suportar se olhar no espelho.

Vai envergonhá-los. Ou pior: arrastá-los para o mesmo estado lamacento e podre que você.

— É sempre a mesma linha de pensamento genérica, as variações do mesmo argumento… — Baixinho, apenas balbucia sem emitir som, sentindo o rosto esquentar conforme a vontade de retrucar ou lutar de volta apareciam. Em vez disso, só levantou e disse, um pouco mais alto: — Eu vou pro quarto. Preciso dormir.

É como um túnel escuro. Seus pés seguem a memória muscular, mas as paredes borram. Focar a visão é exaustivo. O ruído de fundo é sobreposto e não dá para entender se algum dos amigos realmente respondeu alguma coisa; só sabe que, quando fecha a porta — Ré. Ré sustenido, dá para identificar ainda —, nem consegue avançar para o colchão que tem sido seu lar permanente desde que se mudou.

Podemos ir ao médico para consertar o que há de errado em sua cabeça; foi o que ele disse, não foi? Se tivesse ficado… Já viu parentes o suficiente, relatos o suficiente. A proibição da lobotomia não ocorreu nem há cinquenta anos e a internação… nunca era realmente boa. Apenas um descarte do parente defeituoso. Você errou o suficiente para Gustav renegar o próprio orgulho e admitir que o próprio filho é um defeito. As pessoas saberiam que ele não conseguiu te controlar em casa. Consegue imaginar este homem deixando o orgulho de lado? Qual foi a passagem que o convenceu?

Desliza para sentar no chão, abraçando os joelhos e enterrando o rosto. As sombras… A luz entrando pela janela. Formam pessoas. Sente-se observado; há olhos em cada fechadura, analisando. Procurando suas falhas. É repulsivo. Foi mesmo a passagem sobre amarrá-lo na cama e espancá-lo com um taco de beisebol? Ou talvez aquela onde fantasia esfaqueá-lo com o arco de violino. Talvez haja uma falta de impacto dramático, mas cogitar abrir a válvula de gás e voltar a dormir foi brilhante. Sabemos agora: ele valoriza mais a própria vida do que o orgulho.

Uma risada borbulha na garganta. Aquele verme, completamente irracional. Como você. Deveria agradecer por ter encontrado uma válvula de escape na música antes de usar toda aquela raiva reprimida contra a família. Exigindo uma perfeição que nem ele consegue alcançar, o bastardo. Você almeja aquele nível de violência, o poder de executá-la. É a prova viva de que o sonho do oprimido é se tornar o opressor; não há memória borrada que disfarce o potencial que tem para ser um completo executor.

Não sabe se dormiu. Dedos enfiados no próprio cabelo, puxando sem perceber. Mas quando percebe, há movimento da porta atrás dele.

— Glam, cê tá ligado que é meu quarto também, não é?

Ah. Ches. É um choque de realidade útil que o faz apenas se arrastar para fora do caminho da porta e deixá-lo entrar, parando de puxar o cabelo e deixando apenas a cabeça com nova sensibilidade. Segurança não existe, nunca existiu. É uma farsa que sempre te machuca no final.

— Cê tá bem? Achei que ia tá dormindo nesse ponto.

Ches entra, e é uma silhueta difícil de reconhecer. A frequência das vozes é tão… confusa. O amigo boceja, olhando para ele com algo que não consegue identificar.

— Sim, eu… Acho que me distrai um pouco.

— Devia ir lavar o rosto antes, cara. Ou vai acordar com um retrato no travesseiro.

A cabeça dói. A prova de que ainda está vivo, que saiu. Mas deveria? Aquele lugar deveria ser uma quarentena, cercando toda a radioatividade e impedindo-a de causar dano aos outros. Agora, é como se pudesse causar um surto. Todos ficando doentes e sem saber que a culpa é do egoísta e estúpido Sebastian.

É Glam. Ele levanta, olhando para a parede com cautela, como se fosse se transformar repentinamente em areia movediça.

— É uma boa ideia, Ches. Vou fazer isso.

De frente para a pia, com a torneira ligada, Glam se olha no espelho. A maquiagem borrou um pouco e ele parece desnorteado, como esperado para um pós-show. Por que ainda tem que ouvir essas coisas? Nunca quieto, sempre repetindo o mesmo padrão de autoaversão, completamente sozinho. Pode trocar de roupas e se embonecar como o enviadado que Gustav sempre temeu que fosse, Sebastian, mas o DNA não é uma sugestão.

Se pudesse… descascar a própria cabeça, pegar a maldita fita VHS ou vinil que fica repetindo o mesmo padrão de repulsa. Apenas para quebrar ou jogar fora. Pode imaginar isso detalhadamente: o alívio imediato. Por que ainda permite que este invasor more debaixo da sua pele? O reflexo… parece lento. Glam chega a uma conclusão assim que vê a lâmina de barbear jogada em um porta-copos. Se o problema é o sangue… é só tirar. Devolver. Simples assim.


Barulhento. Há um som alto e repetitivo — Si e Fá sustenido. Repetitivo, Moderato. Cerca de… 109 batimentos por minuto. Outros sons sobrepostos, sempre em staccato. Si, Lá, Sol sustenido. Em andamentos próprios. É difícil identificar. Hostil. Algo está vindo.

Há um instinto enraizado de quando era criança e qualquer barulho pudesse sinalizar um Gustav muito furioso e bêbado invadindo o quarto para esbravejar. Muito mais alto que um bebê chorando, por sinal. Não mexa um músculo. Não respire, não desvie o olhar. Quieto, você tem que ficar quieto.

Pressão no peito, empurrando. Pela visão periférica, parece haver uma figura de matéria escura o mantendo imóvel e deitado. O cérebro oferece a associação: Paralisia do sono. Consegue sentir o bufar de uma fera bem perto do corpo. Imóvel. Talvez não perceba se fingir que não notou. Isso…

— Bom dia, Bela Adormecida. — Cabelo castanho, se inclinando direto na sua visão direta. Desgrenhado, com olheiras e olhos de peixe-morto, o sorriso leve. A única coisa realmente nítida no ambiente. Ches. — Olha, sua dose de remédio pra coisa da sua cabeça tá baixa, então seja lá o que tiver vendo, não é real. Exceto eu, eu sou a assombração legal, tá ligado?

Assombração legal? É infantil e simples demais. Uma sequência de erros estatísticos. Cada luz é um lembrete da falha, do momento em que você ousou ser vulnerável na frente de predadores.

— Cê ta num respirador. É um hospital. Cê precisa acordar pra respirar sozinho, brother.

Geralmente a recomendação é respirar profundamente para se acalmar, mas a opção não parece existir agora. Seu peito infla e desinfla independente do comando. Tanto esforço para terminar exatamente no mesmo lugar. A visão fica oscilando, as cores vazando em tons de branco, amarelo e azul, mas… Há outras pessoas, sim. Figuras de branco. Ele lembra da primeira vez que a coisa ficou realmente ruim. Um corte no pulso que rendeu meses de internação por um ultimato de seu agente da época. Um erro de julgamento grosseiro e passivo de repetição.

Lento, é tudo tão lento. O tempo é uma ilusão, as coisas nunca mudaram para começo de conversa. Está dopado outra vez? Foi horrível conseguir desintoxicar o suficiente para interagir com outras pessoas como um ser humano. É um delírio, não há como saber que as coisas são reais. Com dezenove anos, sem a noção de hoje, pensou que seria uma boa ideia parar com o Haloperidol em menos de uma semana e se controlar apenas com o estabilizador de humor e um benzodiazepínico para o controle colateral. Demorou para as coisas fazerem sentido; esta é outra dessas vezes? Você fez uma cena? Outra vez?

— Tá, tá. Aperta minha mão.

Chiado nos ouvidos. Há novos sons. Precisa… organizar, sim. Pensamentos, quais são os seus? Seria bom conseguir controlar a própria respiração agora, mas a mandíbula apenas tensiona um pouco, dentes roçando em algo. As formas de se acalmar, aqueles truques de controle de ansiedade… Na maioria das vezes, contam com a respiração voluntária. Estragando as coisas, apenas se provando outro fardo. Um cadáver químico que sequer consegue manter as funções mais básicas. Não consegue controlar as variáveis necessárias, como um imprestável.

— Ok, os bipes tão pulando para um Allegretto e eu realmente não quero que precisem te dopar de novo, então vou falar. Foca na minha voz, beleza? — Ches não esperou muita coisa, desviando o olhar e cruzando os braços com falsa seriedade. — Vocês foram viajar, brincar de faculdade com o Dee. Você lembra do seu filho, né? Dezessete anos. Inteligente demais para o próprio bem, tipo você. Cês acabaram num lugar ruim, numa hora ruim, com a natureza resolvendo testar sua resistência. Aí, então, cê ficou sem suas drogas e o socorro demorou. Socorro vulgo, eu. Desculpa, cara. A estrada já não tava legal, aí veio um pombo e fez o motor fundir. Eu tava cantando na hora, seria uma cena de filme besteirol. Enfim, só queria dizer que, se estivéssemos competindo sobre quem permanece morto por mais tempo, eu ainda teria vencido. Meus vinte minutos são intocáveis, tu só conseguiu seis. Mas tem a desvantagem do seu cérebro descalibrado, então dá pra considerar que a gente empatou, que tal?

Piscou lentamente, sentindo a exaustão e os pensamentos desacelerarem, embolando. É cansativo pensar ou manter o estado de alerta cravado em seu subconsciente. É tão pesado. A maioria das vezes em que parou no hospital foi por lesão física, não química. Estudou como um psicopata para não voltar para essa posição. A perfeição que Gustav queria: um objeto inanimado, movido por engrenagens, que só permite som quando o mestre permite. É sua nova coleira, Sebastian.

— Mas sabe, o karma tarda, mas não falha. Cê lembra de 2003? Tu ficou mais de um ano me ensinando a usar o braço de novo, mané. Tu trocou a minha fralda! E eu te xingava a cada respiro, a coisa na sua cabeça não pode ser pior que um viciado deprimido, né? Te falar, eu era chato pra um cacete, não sei como não me chutou pra fora no primeiro mês.

Gratidão barata. É um dever, não afeto. Vocês são ambos destroços do mesmo naufrágio. Seis minutos? Não basta talento musical nato, mas este vagabundo consegue te vencer até em morrer.

É só… fechar os olhos. Ele consegue fechar os olhos. Então dá para fingir que nada é real; não é como se soubesse em um dia ruim. Quieto, esperar pela mudança de cenário. Algum pensamento para focar… Poderiam trocar todo o fluido do seu corpo e, ainda assim, acordaria como a mesma marionete quebrada; isso, o navio de Teseu. Se pudesse trocar todas as tábuas… ou reconstruir com a madeira descartada.

Seriam dois barcos. Provavelmente a única variável importante é em qual Teseu velejaria ou se patenteou o modelo original. O navio construído com a madeira descartada ainda poderia ficar sobre a água? A madeira velha… quebra, deixa a água infiltrar-se. Se foram descartadas, é porque não servem ao propósito de ser um navio; então, nesse caso, não seria só uma casca ou lembrança? O navio com as peças novas, pelo menos, serviria ao propósito de velejar e boiar na água. O importante é não afundar.

— Tá todo mundo legal, cê não precisa se preocupar com isso não. A única vítima aqui foi o Muquifo, mas ele já tava acabado antes. Dee e Heavy estão na casa daquela amiguinha de escola deles, porque Vicky tá tentando limpar a bagunça que fez no seu carro. Mas não conta pra ela que fui eu que te contei, beleza? Certeza que tava dirigindo como se fosse um kart. Aquela mulher é pirada… Já tem uns quatro dias, quase cinco. A gente ta revezando pra dar tempo de tomar banho e resolver burocracia… É chato, não sei como cê aguenta, tem letrinhas miúdas pra todo canto. Tipo, eu sei ler, letra de música e placa de trânsito, mas o cara das palavras complicadas e correção gramatical é você. Tem um livrinho de palavras cruzadas aqui, vai ser nossa diversão quando tu tirar essa coisa e voltar a conversar…

É aquele tipo de deliberação de bêbado. Ches gesticula e muda o tom de voz, com a informação cantada, emendando em outros assuntos e raciocínios que apenas o cérebro dele entende direito, acelerado e criativo. Como… ruído branco. Inofensivo. É uma trilha sonora melhor que a dele. Menos opressor.

Apenas alguns segundos antes de se preocupar de novo. Ignorando a valsa da desrealização ou ruído interno — fugindo, incapaz de encarar a própria falha mecânica. Grande teatro este seu, comovente, já começou a contaminar as pessoas ao seu redor —, é apenas… esperar. Sim, esperar. Pensamentos seguros.

Notes:

Eu adicionei tanto trauma nesse homem, só por achar fascinante desenvolver seus mecanismos de enfrentamento.
Para esclarecer: A voz hostil da cabeça dele não é ele. É um sintoma psicótico (Que interage com a normalização de violência que experimentou na primeira infância, em sua casa de família; e a inaptidão social típica do autismo.)
Fiz o menino fugir em 1985 e o evento do flashback em 1989. Curiosidade: Sabiam que a maior parte do movimento pela psiquiatria humanizada vem de depois da década de 1990? Contexto histórico importante. Um hospício em 1989 pode até não ser brutal ou cenário de barbariedades, mas há um limite para o quão humano teriam tratado seus pacientes.

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