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Language:
Português brasileiro
Series:
Part 5 of Estabilidade química, Part 4 of Geometria do Caos
Stats:
Published:
2026-06-04
Updated:
2026-07-12
Words:
57,940
Chapters:
4/5
Comments:
1
Kudos:
12
Bookmarks:
1
Hits:
397

Cinética de um Colapso

Summary:

Um acidente logístico separa a família no meio de uma viagem, agora Glam deve aproveitar cada segundo que resta de sua sanidade para ensinar Dee a não deixar uma bomba biológica explodir.

Um detalhe: A bomba é ele.

Ou: A autora parou de projetar seus próprios traumas em "Geometria do Caos" e veio corrigir alguns furos de roteiro gritantes.
Ano: 2023

Notes:

Eu realmente precisei corrigir isso. O problema de escrever personagens absurdamente inteligentes, é que você precisa ser inteligente também!
No meu caso, só percebi que Glam havia cometido alguns erros de iniciante só depois de mais de duzentas páginas no Docs. Mas já tinha um apego enorme à "Geometria do Caos", foi divertido.
Alguém ia reclamar? Não.
Mas eu ia saber. Ia ser imperdoável não escrever isso aqui.
Curiosidade: Minha mãe teve uma parada cardiorrespiratória quando eu tinha 16 anos e estava sozinha em casa. Eu realmente só projetei minha experiência em Dee e fiquei tentando dar um desfecho menos trágico. Foi terapêutico :)

Chapter 1: Lógica Corrompida

Chapter Text

— Isso aí é coisa de segurar bicho bravo, senhor...

— E a olanzapina? A disponibilidade comercial é maior. Caixa do genérico, com cinco ou dez miligramas. — Glam puxou seus papéis pela grade baixa, folheando até encontrar a folha certa.

Há algumas possibilidades neste ponto. O melhor cenário é retornar com a medicação original o mais rápido possível, mas, considerando a improbabilidade...

O farmacêutico parece estar devidamente assustado pela mulher atrás dele. Victoria ainda segura a grade até o ponto de os nós dos dedos ficarem brancos.

— ... Dá pra encomendar de manhã, o estoque local é pequeno... senhor.

O respeito é adicionado como uma reflexão tardia. Glam sente o calor na nuca, um chiado agudo nos ouvidos que ameaça formar frases recheadas de hostilidade, apenas ligeiramente mais alto.

— Suponho que chegue em vinte e quatro horas, se não houver intercorrências no caminho, mas que só possa ter o pedido formalizado pela manhã? — Glam arqueia a sobrancelha, familiarizado com o processo. Há uma calma falsa, mesmo com a ponta dos dedos tendo espasmos e sentindo o coração bombear adrenalina.

Não está em seu pior. É... gerenciável. Há um plano, sempre há um plano. Não ser uma ameaça ou fazer uma cena, nada que o coloque em apuros juridicamente depois... É tão incompetente.

A sombra do farmacêutico recua e olha para Victoria, prevendo a hostilidade automática.

— É sério isso, porra? Tu tá ligado no que tá em jogo nessa merda?! — Ela reage, rosnando como um verdadeiro bicho bravo. Glam se desvencilha com um suspiro longo. Devolve a receita antiquada, uma das primeiras que obteve e renovou apenas por causa da disponibilidade massiva de antipsicóticos de primeira geração.

Uma das primeiras que conseguiu, lá em 1989. Quase o mesmo combo de remédios que tomou em sua estadia de internação psiquiátrica. Teve que continuar com alguns por meses mesmo depois da alta, porque se recusava a tomar o antipsicótico da época. O haloperidol é um desastre para um músico e para qualquer tarefa que exija atenção real.

Logo depois começou a estudar a área e procurar artigos de neurobiologia. Nunca parou de verdade; é um assunto conveniente. O hiperfoco funciona bem quando se trata de independência forçada.

Glam sorri, o rosto esticando-se em uma máscara de plástico. A voz sai polida, como se estivesse apresentando uma conclusão de um trabalho formal.

— Vou querer o “combo de bicho bravo”.

— Certo... — O farmacêutico passa por debaixo da grade uma nota com os detalhes de cada caixa. Preço por unidade, quantidade, dosagem. Uma cópia da receita retida com a forma de administração de cada um. Ele pega a sacola como se estivesse segurando o Santo Graal; são resquícios de sua sanidade.

Apenas a garantia de que não será um perigo para os outros.

Victoria saca o dinheiro para pagar, enquanto Glam se afasta alguns passos, com o cérebro acelerado e alerta. Zumbindo em alta frequência. Demoraram dez horas para chegar; mesmo considerando alguma possível intercorrência, deveriam conseguir chegar a alguma cidade relativamente grande ou voltar para casa em tempo hábil.

A boca parece seca. Mandíbula com uma tensão localizada e real.

Há um período de silêncio tenso enquanto voltam para o carro. Glam busca sua última dose no porta-luvas, engolindo com um pouco de água morna e sentindo o peito subir um pouco mais rápido. As receitas de contenção e laudos médicos depositados inutilmente em seu colo.

A decisão para ganhar mais tempo deveria ser cortar a dose, não consumir o comprimido inteiro. Mas, então, sua funcionalidade no dia seguinte seria prejudicada. O tempo de reação é uma variável preciosa, e ele não pode sacrificá-lo neste ponto.

— Amanhã, vou precisar que leve o Heavy ao posto policial. Deve haver algum sinal ou rádio independente. Se não conseguir pelo celular, o telefone fixo deve conseguir ligar para a Polícia Federal. É por onde vai saber se a maleta foi encontrada em algum lugar da estrada ou por onde passamos. Se conseguir, ligue para o Ches, peça para que traga as medicações que tenho em casa. Os números de emergência funcionam independentemente do sinal da operadora, então provavelmente vai conseguir acionar as equipes de emergência, não importa onde esteja...

É importante sinalizar a necessidade formalmente. Mesmo que a autoridade não seja confiável todas as vezes. As ligações são gravadas e funcionam todas no mesmo modelo de evitar problemas jurídicos.

— Cê tá maluco? Não dá pra te deixar aqui apagado, só com o Dee! E se tu travar? Parar de respirar? Brincar de detetive com o moleque não resolve o problema, cacete!

Realmente não há surpresa. O cravo de um piano, um metrônomo constante. Escala de Sol, diatônica maior: tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom. Sol, lá, si, dó, ré, mi, fá#.

É ruído ambiental. Não importa. Vai passar, pelo menos por hoje.

— Vicky, eu sei o que acontece quando uma criança precisa carregar o fardo de um pai descompensado. Eu estive lá; não posso deixar o Heavy ver o que vai acontecer se eu precisar usar o haloperidol. Ele é novo demais para ser enfermeiro de hospício.

Ele se lembra de ser pequeno. Mary às vezes ia ajudá-lo depois de ele ser "corrigido" por Gustav, mas ela estava igualmente pressionada e quebrada. Nenhuma criança consegue consertar um adulto, e ele percebeu isso antes dela. Percebeu cedo que era mais simples limpar as próprias feridas sozinho.

— E quanto ao Dee? Ele também é seu filho, porra! — Ela mantém a boca em uma linha fina e branca, o corpo todo tenso como se pudesse entrar em uma corrida a qualquer momento. — Por que ele tem que ficar?

Victoria obviamente quer gritar, mas controla o tom de voz com uma habilidade formidável, apenas soltando um sussurro exclamativo, hiperativo e esganiçado. É uma preocupação justa e a parte que mais deixa Glam insatisfeito com o arranjo atual, sentindo a garganta amarga.

— Olha... se conseguir a olanzapina, é uma opção melhor para lidar com o rebote. — Ele levanta a folha correspondente, carimbada e validada pelo seu neurologista padrão. — Quanto ao Dee, eu não posso morrer engasgado no meu próprio vômito se tiver uma convulsão enquanto vocês estão fora. É uma questão de gerenciamento de danos, querida.

Crianças não deveriam ter que lidar com o problema de adultos.

Victoria dá partida no carro. É muito mais suave do que a saída abrupta da pousada mais cedo, um ritmo constante e quase gentil. Há um impulso interno de se sair bem, de tentar mover o arranjo de todas as células do mundo ao ponto de o resultado final ser invariável.

Qualquer um sabe que não se pode lutar contra a biologia, principalmente se for um período de degradação neurológica e química. Glam sabe melhor do que teimar com a própria incapacidade.

— Eu vou anotar tudo que precisarmos de manhã — murmurou, a voz baixando. A cabeça pendeu para se apoiar na janela. A contagem foi temporariamente resetada; é gerenciável.

Os olhos pesam, a adrenalina despencando assim que os objetivos são definidos, mesmo que mentalmente. Victoria parou de responder e ele fechou os olhos, então não poderia pensar nas nuances de expressão ou tom de voz. Mas pode imaginar. Nenhum deles gosta disso.

— Dee... não deixe ele sentir que é culpa dele. Vai ser só... seguir as anotações.

A conversa acabou. Pode sentir o líquido auricular balançando como se estivesse em alto-mar, sem lutar mais contra o sono e o cansaço que parecem vir dos ossos. O corpo parece genuinamente mais pesado; ele não percebe quando voltam para a pousada.

Tique-taque, tique-taque, tique-taque

Não sabe como voltou para a pousada, mas certamente voltou. Seus olhos abrem, arregalados, encarando a escuridão úmida do quarto. O barulho... é como se pudesse atravessar a cabeça. Cada repetição faz parecer que seus nervos estão sendo puxados e esticados até o limite; uma contração muscular na pálpebra.

É como arranhar paredes de pedra. Riscar vidro, estar coberto de areia, agulhas debaixo das unhas. Tique-taque, tique-taque, tique-taque; presumivelmente um relógio. O padrão se repete a cada segundo.

Arame farpado enrolado no corpo. Talvez seu cérebro realmente absorva o som e exploda, vibrando como se fosse uma caixa de som aumentada até o último decibel.

Glam puxa o ar pelo nariz, expande as costelas e sente a pressão no pulmão. Acordado. Expira lentamente, sentindo o peso do corpo. A medicação... Dormiu a noite inteira, então a tomou, sim. Continua encarando o escuro como se contivesse as respostas do mundo, identificando os contornos do quarto. Uma lâmpada; a janela é na parede oposta. O colchão tem a roupa de cama limpa e a fronha de travesseiro é a sua.

Puxa o corpo para se sentar antes de perder a coragem. Por via das dúvidas, fecha os olhos e leva um dos dedos ao ouvido, fechando a entrada de som. O “tique-taque” continua, ininterrupto. Mas o volume abaixa, e ele realmente pode identificar que o som tem direção.

É bom. Mesmo que os ouvidos estejam cheios de estática e notas musicais intrusivas, e consiga ouvir todo o chiado de eletricidade do prédio. O micro-ondas, o frigobar, a gaiola com a televisão que nem liga. É frequência contínua, de funcionamento.

Não é real ainda. Melhor ainda, seu peito enche com um objetivo muito claro. Glam mexe o corpo para fora da cama, direto para a parede onde o estúpido relógio parece esfaqueá-lo a cada segundo. Os pés dançam por um segundo antes de se endireitarem em passos decididos.

Tique-taque, tique-taque, tique-taque

Não precisa de iluminação para isso. Desencaixa o aparelho do prego na parede. Tem cheiro de poeira. Tateia com as unhas até encontrar a entrada das baterias; metal frio tocando a palma das mãos. Seus ombros relaxam no primeiro segundo em que a onomatopeia falha em se repetir.

Ótimo. É silêncio. Na medida em que o silêncio é real.

Glam esfrega os olhos e o nariz, andando até a parede para encontrar o interruptor de luz, mas fecha os olhos antes de apertar a alavanca. Só por um segundo, o suficiente para a luz cercar o quarto e não atingir seus olhos de repente, mas ainda precisa esfregar os olhos e respirar fundo até se acostumar. As paredes desbotadas, o cheiro de poeira e umidade, o beliche com seus filhos e a cama de casal ligeiramente desarrumada. Um gemido vindo do beliche o lembra de que não está sozinho no quarto.

— Ah, olá, Dee.

A cama de cima é do Heavy, que está coberto até a cabeça, com a cara enfiada rudemente no travesseiro. Mas seu filho mais velho estava com as pernas cruzadas na cama de baixo, acompanhando seus movimentos com olhos atentos e a testa franzida. Um movimento de cabeça indica que o cumprimento foi recebido, então Glam simplesmente vai até a cômoda, para a sacola de remédios que foram as recompensas do dia anterior.

Organizado, mas os lacres foram rompidos e revirados. Não foi assim que ele deixou. De qualquer forma, localiza a caixa do propranolol e deixa um único comprimido separado ao lado de uma garrafa de água que sobrou da viagem. Tira dois biscoitos de um pacote que estava no fim e os enfia na boca, mastigando e engolindo por protocolo.

Não há prazer em comer, apenas necessidade biológica. É necessário estar com o estômago minimamente revestido antes de inserir a carga química. Mesmo que seu cérebro costumeiramente tente convencê-lo de que a comida é uma armadilha, e de que há uma similaridade enorme entre arroz e larvas de insetos.

O corpo dói, pesado e grudento. Não se lavou, escovou os dentes ou vestiu um pijama limpo antes de dormir. Um arrepio na coluna o faz arrumar a postura e endireitar os ombros, sentindo instintivamente o resto do corpo incomodar; o objetivo está definido. Move os pés para o banheiro, passos longos e decididos.

Duas das toalhas deles estão penduradas perto do box. As outras duas estão perto da janela, úmidas e usadas. Há pelo menos mais três nas malas. Começa a arrancar a roupa assim que fecha a porta, mas desvira e dobra a camisa longa, a cueca e a calça jeans, deixando-as perto da pia para colocar em uma sacola separada de roupas sujas. As pulseiras e anéis removíveis ficam acima da tampa do vaso sanitário, para não molhar ou cheirar mal.

Xampu e condicionador estão dispostos no chão do box. Apenas a esponja e o sabonete estão no suporte, perto das torneiras de água quente e fria.

Teriam tempo para ir a uma lavanderia? Ele realmente espera resolver as coisas antes de precisarem de uma lavanderia. Teria que checar se as máquinas são realmente higienizadas adequadamente. Eles estão em quatro; haveria muita roupa suja.

Gira a torneira, enfiando-se debaixo do chuveiro antes de a água esquentar. Os músculos retesam e ele arqueja, o corpo inteiro arrepiando antes de a temperatura começar a melhorar. Esqueceu de considerar o tempo de ajuste, mas foi eficiente para afastar a névoa de sono e a letargia que sempre assombram as primeiras horas da manhã. Apenas porque está há dezesseis anos tomando a mesma medicação, não significa que esteja completamente livre do impacto sedativo.

É mais fácil escutar a água caindo, batendo no chão. O som do chuveiro funcionando. Tem que ficar um pouco curvado, ou esbarraria com a cabeça no aparelho. Infelizmente, a altura do box e a instalação hidráulica não são amplamente divulgados em sites de hospedagem. No mínimo, a pressão das gotas nas suas costas é suficientemente forte.

Faz questão de ajustar a temperatura para o mais quente possível. Vai precisar de alguma ancoragem para passar o dia, e não faz mal começar cedo. A pele sai um pouco vermelha e ressecada, mas este não é seu pior problema agora.
Realmente espera que Victoria consiga pelo menos a olanzapina. Comprou o haloperidol no dia anterior como um plano B, mas a gestão de riscos é exaustiva. Considerando que seu auxiliar é um adolescente que demonstrou pouco interesse em medicina até o momento — embora seja qualitativamente brilhante e a criança mais inteligente da escola —, ele tem... algumas horas para formular algo realmente plausível.

Cerca de vinte e quatro horas da última dose. Os sintomas iniciais do rebote começam a partir de dezoito horas; é um prazo de segurança. Considerando que vai encarar simultaneamente a falta do lítio, a psicose vai começar a escapar no começo da tarde, mas só piorar à noite. É matemática simples. Ele sabe exatamente o que esperar.

Já se passaram oito horas; é o tempo que se perdeu dormindo. Dez horas para a situação começar a piorar, quatorze horas para o gerenciamento doméstico perder a eficácia. Deveria considerar a unidade de saúde local se o reforço não chegar até a noite. O diazepam de madrugada tem a função de evitar crises convulsivas, mas certamente vai detonar sua capacidade de hidratação voluntária.

É desconfiança instintiva, cautela e hostilidade contra o sistema de saúde mental. Sabe que as leis mudaram, mas até que ponto pode confiar no sistema de saúde de uma cidade do interior? Não é mais tão jovem; se resolverem dopá-lo com antipsicóticos típicos, é mais provável que tenha uma convulsão ou queime de febre até seus órgãos cederem.

Demorou para conseguir um atendimento confiável perto de casa. Mas o único motivo pelo qual realmente procurou ajuda formal foi porque os bebês não conseguem se defender se Glam tiver um surto.

Victoria consegue, Ches consegue. Bebês não.

Toma alguns instantes para se ensaboar e limpar cuidadosamente, fazendo alongamentos curtos e massageando os músculos tensos com o polegar. Em círculos na ATM, atrás das orelhas, nuca, pescoço, ombros e quadril. Quando desliga a torneira, imediatamente dá para notar o som estático que permanece, como se ainda houvesse gotas caindo contra o piso; a respiração está alta demais para seus próprios ouvidos, embora esteja respirando uniformemente desde que acordou. É barulhento existir.

Para sair, puxa a própria toalha pendurada perto do box, enxugando cada parte do corpo individualmente antes de realmente secar o cabelo, tirando o máximo de umidade possível antes de enrolar a toalha na cintura.

Usou um rodo que estava perto da parede para puxar a água que escapou por cima para dentro do box antes de sair do banheiro e buscar o comprimido que deixou separado. Exatamente como deixou, o engole junto do resto de uma das garrafinhas de água. Sem o lítio, provavelmente terá algumas horas de precisão motora até a produção de adrenalina e cortisol ultrapassar esta barreira também.

— Pai, tá tudo bem?

Certo, não deveria perder tempo apenas pensando. Sempre há alguns cadernos em branco e materiais de escrita em suas malas; precisa anotar tudo o que puder lembrar para cobrir o que não conseguir passar oralmente. Procedimentos de segurança e manejo de crise.

— Estável o suficiente. Desculpe, vamos ter que reagendar o resto da viagem.

É realmente uma pena. Os prédios que Dee escolheu eram bem distantes de casa, mas é sempre interessante saber no que seu filho se interessa. Glam não perde tempo nesta linha de pensamento, voltando ao banheiro para escovar os dentes e o cabelo.

Sem o estabilizador de humor, a carga de estresse vai ser crescente. Mais do que nunca, a sujeira ou o desarranjo se tornariam um estímulo aversivo. Mesmo que perca alguns minutos, é uma rotina necessária. Ou a ansiedade e a acatisia teriam um motivo mais do que puramente químico para aparecer.

Os dedos passam entre os fios, desembaraçando e desfazendo nós, aplicando só um pouco de creme, vagarosamente, empurrando os fios juntos para ficarem presos por um elástico e adequadamente alinhados, sem causar incômodo. O espelho é um pouco baixo, não pega nada acima de seu nariz na imagem, e isso provavelmente é bom. Reflexos são provocativos se não estiver preparado.

Ser alto pode ser inconveniente — como precisar dormir na diagonal quando não se dorme em casa ou ter que se abaixar para tomar banho. Porque a maioria dos chuveiros é instalada a dois metros do chão e os espelhos são projetados para alturas padrão de no máximo cento e oitenta centímetros. Não importa se o box do banheiro está fechado, a água sempre respinga em sua cabeça e molha o piso; mas, se o objetivo é não começar a distorcer o reflexo ou vocalizar pensamentos intrusivos, funciona bem.

Termina de prender o cabelo. O próximo passo foi aplicar o hidratante, o antitranspirante, e recolocar as faixas de tecido, pulseiras e anéis nas mãos. Voltou para o quarto. A mala com roupas está sobre a cama, aberta e facilmente acessível — Victoria não está e é pesado demais para o Heavy, então o culpado é o Dee. É uma informação importante. Começa a vasculhar para encontrar uma roupa limpa e vestir uma cueca, suéter e calças limpas, calçando um chinelo para evitar andar descalço. A toalha fica sobre os ombros enquanto tira um dos cadernos vazios e um estojo fino, com duas canetas, lápis e borracha.

Quando seu hábito é o de escrever pensamentos, você acaba precisando de alguns cadernos limpos e material de escrita, não importa para onde vá. É especialmente útil para organizar pensamentos ou, neste caso, escrever instruções enquanto ainda consegue.

Dee acompanha o movimento, aparentemente também em suas próprias tarefas autoimpostas. Trocando as coisas de gavetas e separando as sacolas no armário em algum sistema organizacional que entenda.

Pendura a toalha de volta no banheiro e afasta as coisas da cômoda, conseguindo espaço para apoiar o caderno. Arrasta um banquinho para se sentar, pacientemente; apoia a caneta no início da folha, começando a escrever.

Por etapas. O primeiro ponto não é a interação medicamentosa, mas o que vão precisar para passar mais alguns dias no lugar. Estender a reserva, comprar comida e água, passar na farmácia para comprar alguns itens de medição a fim de conseguir mapear o colapso sem depender da agenda do funcionário público destreinado.

Vai deixar os cartões de débito e crédito com Victoria; é mais confiável do que dinheiro para percorrer distâncias maiores. Estreita os olhos; a letra deve ser legível e clara, sem dar espaço para mal-entendidos. Quando Dee passa atrás dele, tentando sondar o que fazer, é que Glam informa:

— Quando as lojas abrirem, vamos comprar o que precisarmos. Onde está sua mãe?

— Saiu de noite pra buscar sinal de rádio ou celular. Deve estar voltando.

A caneta para. É simples calcular que Victoria provavelmente não parou depois de deixá-lo na pousada, noite passada. Estava dirigindo desde a metade do dia anterior, quando revezaram até chegar no local. É um resultado... insatisfatório.

— Acordada há mais de um dia. A privação de sono mimetiza os efeitos do álcool no sistema nervoso central. O cérebro pode simplesmente desligar por três a cinco segundos enquanto estiver a 100 km/h e...

Não há margem de negligência quando se trata de trânsito e atenção. É por isso que costumam revezar antes de ficar pesado para qualquer um dos dois. Naturalmente, ela ainda é a motorista mais confiável neste cenário, mas não deixa de ser imprudente. A falta de descanso adequado ainda é uma das maiores causas de acidentes de trânsito ao redor do mundo.

— Farei ela dormir por duas horas antes de sair, então.

Ah, tão prático.

Glam volta a olhar para a folha, a caneta dançando ao redor de novas palavras. Ocasionalmente, frases e conclusões aparecem sem serem convocadas, e há um chiado irritante bem no fundo da audição, mas ainda são construções sintáticas úteis. Então não precisa lutar contra.

Fez a manutenção preventiva no carro e tem certeza de que não havia nenhuma luz vermelha ou amarela piscando fora da visão. Um sedan não foi feito para serras e estradas de terra, mas deveria estar tudo bem se estivessem andando devagar e com prudência, o que costuma ser o parâmetro quando se tem crianças no banco do passageiro. Se considerar os parâmetros emocionais, todavia, a possibilidade de uma falha estrutural crítica ou biológica...

— O que está fazendo? — o garoto pergunta novamente.

Glam responde antes de pensar, sem parar de mexer as mãos, o cérebro evocando percentuais e considerações de risco personalizadas.

— Análise de risco periférico. — Se a falta de sono impacta na agilidade física e mental, é aproximadamente três quintos da habilidade com a direção. — Sua mãe está operando com privação de sono acima de vinte e quatro horas. Se não dormir em um ciclo de pelo menos noventa minutos, a probabilidade de uma falha estrutural no carro, ou em nós, sobe para 65%...

Idealmente, seriam pelo menos seis horas de sono. Infelizmente, este tempo não está disponível no cronograma; é tempo de trajeto e transporte. Mas, se acabarem se acidentando como vítimas das circunstâncias, o reforço ainda não chega. É uma chance de 0% de cumprir os prazos definidos.

Cento e vinte minutos na cama. É inegociável. Para outros fatores...

— Precisamos de um estoque de base: água para lavagem renal, eletrólitos para estabilidade neuromuscular, instrumentos de medição digital. Sensores externos confiáveis. Há o ciclo de manejo residual do lítio, os riscos típicos da medicação de controle e...

As mãos não param. Poderia deliberar em duas conversas ao mesmo tempo, sem perder o fio da meada. A dificuldade pode variar dependendo de Victoria conseguir ou não pelo menos a olanzapina antes de sair.

A disfagia, xerostomia, sialorreia, sensibilidade sensorial, instabilidade emocional. Deveria adicionar alguns adendos para garantir que não vai machucar o Dee, certo? Raramente se envolve em confrontos físicos, mas é muito ruim ter fantasias de violência estando perto de uma criança. Se regredisse aos hábitos dos pais, seria um desarranjo criminoso. Dee... não tem massa muscular ou a firmeza necessária para segurá-lo em caso de convulsão.

— Não o caderno, pai.

Ah, não?

Glam para de escrever para olhar para Dee, com um pouco mais de atenção. Sua capacidade mental ainda deveria estar preservada; as doses de emergência ainda estão no sistema. Suas últimas horas, mas estão.

— Você mexeu no ouvido três vezes no último minuto.

Ele arqueia a sobrancelha e olha para a mão. De fato, não estava segurando o caderno como foi o comando inicial. A atenção consciente faz perceber a estática um pouco mais agressiva... É estresse? Uma variável biológica. Mais simples: sem a dose matutina do estabilizador de humor, os níveis de neurotransmissores...

O lítio não causa uma abstinência física. É um íon, não uma molécula orgânica complexa. O corpo não sente falta, apenas perde estabilidade. Somado ao rebote, é um risco de descompensação psiquiátrica. A impulsividade... em que ponto vai deixar de ser gerenciável? O tempo de eliminação varia entre dezoito e trinta e seis horas, mas o pico de ação aconteceu apenas durante a noite.

Estimou vinte e quatro horas. É suficiente? O cenário ideal é conseguir a dose antes da marca das dezoito horas. Até, no máximo, três da tarde. Considerando o tempo que levaram para chegar, mais o tempo para chegar a qualquer civilização mais desenvolvida, é uma expectativa improvável.

— O ruído branco não tem fonte acústica externa. O volume real diminui quando tampo os ouvidos, mas o chiado permanece no mesmo decibel. Consigo isolar o que é real das falhas de processamento do meu cérebro — explica. A voz baixa e bem modulada, tentando clarificar o que é um mecanismo de aterramento há décadas. — Quando o chiado não reduz, é sinal de que é interno.

Também funciona quando a psicose se torna barulhenta o suficiente para ser hostil. Costuma ser o primeiro sintoma depois que o tempo de vida útil das últimas doses termina. Consegue se apoiar bastante no lítio para não ter que fracionar a dose do antipsicótico — que tem uma meia-vida plasmática de no máximo doze horas. Tecnicamente, lida todos os dias com algumas horas de abstinência controlada antes da dose noturna. Mas o estabilizador de humor evita o estresse e gatilhos que costumam acionar a psicose, então é só um período de mais atenção durante a tarde.

É uma manobra um pouco perigosa, mas a sedação é completamente irritante se ele precisa ficar acordado. Há momentos que exigem um tempo de reação minúsculo; ele é pai e professor — crianças são inconsequentes e a música exige um dedilhado hábil.

Comparativamente, quando teve alta nos anos noventa, passou meses controlando os surtos e a abstinência do haloperidol só com diazepam, valproato e propranolol. A cognição é a única coisa que o faz sentir mais humano, mesmo se tiver que lidar com um pouco de psicose. É uma constante de longa data; o estranho seria ficar completamente lúcido.

Efeitos extrapiramidais continuam sendo a pior parte dos remédios de uso crônico.

É um pouco curioso. Deveria sentir medo, mas há uma sensação mórbida de antecipação. O tipo que realmente quer ver o que acontece depois. Não que realmente vá dar muitos ouvidos à possibilidade; as consequências de um surto psicótico ou maníaco costumam ser terríveis de limpar depois.

Glam voltou ao caderno, sentindo que a necessidade de participação na conversa acabou. Dee pareceu esperar por mais alguns segundos antes de bufar e ir tirar a fronha do travesseiro. Há o som da água da pia ligando. Geralmente Glam cuidaria disso um pouco mais tarde, mas é bom que as crianças consigam se ocupar enquanto ele está ocupado.

A psicose vai ser mais intensa se tiver que optar pelo haloperidol. Isso porque precisa preservar a funcionalidade motora o máximo possível; isso significa que administrar o antipsicótico muito cedo vai deixar um adolescente de dezessete anos e um inválido sozinhos e longe de casa. É uma manobra imprudente, e ele não está ansioso pela sensação. Mas é imprescindível tomar uma dose no fim da tarde e início da noite, antes que possa se tornar minimamente violento.

O beliche range, arranhando os ouvidos. É o momento em que seu filho mais novo desceu as escadinhas da cama de cima devagar, traído pelo rangido da madeira velha, embora esteja fazendo um esforço considerável para andar sem chamar a atenção. Infrutífero, mas considerável.

— Pai, a gente não pode só dirigir de volta para casa? Tem comida no carro.

Glam não se dá ao trabalho de parar de escrever. Três doses de propranolol diárias, considerando a reaplicação a cada oito horas. Não muito forte, vinte miligramas são o suficiente se não estiver em um pico hipertensivo. O coração precisa de certa margem de manobra para compensar a falha biológica, ou morreria antes de conseguir pedir ajuda.

A presença de Heavy para do seu lado, emitindo calor. O garoto pode estar ansioso, então Glam se dá um segundo para reorganizar os argumentos que ele e Victoria compreenderam no dia anterior.

— Dez horas de estrada, Heavy. Sem a medicação correta, eu entraria em colapso antes de cruzarmos a segunda divisa de estado. Seria um passageiro inviável e um risco para a segurança de vocês.

A opção de voltar para casa, do mesmo jeito que chegaram, foi zerada no dia anterior. Já haviam perdido horas desde a perda da maleta e quase completando vinte e quatro horas desde a última dose. A meia-vida curta tem suas desvantagens; por isso costuma ter pelo menos um comprimido de cada medicação de uso contínuo escondido no carro.

Deveria ser o suficiente para comprar tempo até encontrar uma solução.

Nesta situação em específico, precisaria tomar o remédio de qualquer forma para não entrar em colapso no caminho. Com Victoria exausta, ele apagado e babando — mesmo no banco do passageiro — e duas crianças no banco traseiro, estariam implorando pela ocorrência de um acidente de trânsito longe de qualquer unidade de atendimento de saúde.

— Então, e o hospital? Você só foi à farmácia... e os médicos deveriam ajudar a gente. Eles ajudaram a Lif daquela vez. Você vai morrer?

O movimento da caneta para. A voz do pequeno começou a ficar amarga, e Glam não é insensível o suficiente para ignorar a pergunta mais delicada. Qual seria... o protocolo adequado? Ele não mente. Não tem paciência nenhuma para pensar nas variáveis que viriam de uma mentira “inocente”.

De qualquer forma, se é uma possibilidade, seria irritante insistir em frases genéricas e sem fundamento.

— O risco de vida existe, mas está sendo gerenciado. Já estive em situações de falha química piores. — Poderia enumerar, mas é perigoso se perder em memórias. — Hospitais, principalmente um que eu não conheça ou frequente, podem tentar ajudar com protocolos genéricos cujo potencial maior é o de causar danos permanentes. Será de utilidade quando as funções básicas não estiverem sendo supridas de forma autônoma, mas não antes disso.

É simplesmente imprudente sair exigindo auxílio em um posto de atendimento padrão. Mesmo as menores cidades têm uma unidade de atendimento local, com equipamento básico, como funções de soro, medicação simples e ecocardiograma. Mas, se olhou bem o mapa, o trajeto até um hospital grande o suficiente para incluir uma UTI é de pelo menos duas horas.

A unidade local deve cumprir o papel de suporte básico se for realmente necessário. Mas Glam tem confiança o suficiente nas próprias habilidades para saber que ainda se sairia melhor ganhando tempo com o Dee do que dependendo de funcionários públicos destreinados.

— Eu não quero que você morra...

Oh, certo. Estava conversando com o filho. Heavy ainda parece que vai chorar, o que não é realmente muito útil agora. Glam costuma se sair melhor oferecendo conforto, mas atualmente é realmente... inconveniente.

Há um certo instinto em lutar contra a falência biológica, e uma lógica por trás do luto. Glam entende objetivamente que é normal uma criança se angustiar se acaba no meio de um incidente biológico, e é completamente plausível que estejam preocupados. Mas há um distanciamento, como se a proximidade humana pudesse ser resumida em números e intenções. Utilidade, favor, merecimento. A mentira da meritocracia em um contexto no qual consegue abordar relações humanas com precisão.

O que ele quer? Qual a condição? A armadilha?

Ele tem treze anos. Não tem armadilha.

Aquela parte tóxica, hostil e perigosa dele, que sempre quer convencê-lo de que o afeto é condicional. Heavy está murmurando sobre tentar ajudar, mas Glam não acompanhou todas as palavras, um pouco focado demais em não respingar veneno.

— Você está ajudando, Heavy. Você que tirou as coisas da cama ontem, não é? Obrigado.

Isso não foi ruim. Glam desvia o olhar de volta para as folhas, um plano que consiga prever sem as variáveis emocionais estressantes. É um esforço consciente. Dee saiu do banheiro, completamente resignado para falar com o irmão. Glam volta a focar nas interações medicamentosas previsíveis, um plano de alimentação decente.

Hipoglicemia pode ser um falso surto psicótico. A sialorreia provavelmente vai piorar, independentemente da xerostomia que o biperideno causar, o que deixa a saliva com a textura grudenta e dificulta a deglutição. Alimentos devem ser macios, fáceis de engolir e difíceis de engasgar.

A comida tem que ser de cores claras, de fácil digestão, com poucos estimulantes ou processos de industrialização envolvidos. Nada que possa empurrar outro pico hipertensivo ou adrenérgico, mas que possa compensar os eletrólitos e evitar um colapso por inanição.

Precisa deixar bem explicados os sinais de alerta para pedir ajuda de terceiros. A possibilidade de engasgo, ineficiência no gerenciamento doméstico, aumento de temperatura corporal, risco neuromuscular, convulsões, insuficiência cardíaca ou respiratória, comportamento agressivo... Não importa se é a melhor opção ou não: se chegar ao ponto de bater no Dee ou representar um risco para as outras pessoas, ele deve ser isolado e contido.

Relembrar os conceitos de manobra de Heimlich e reanimação cardiopulmonar. Sinais clínicos da pneumonia aspirativa. É tecnicamente uma matéria que já ensinou quando as crianças completaram onze anos; mais conceitual do que prática. Primeiros socorros básicos, interações químicas, limite biológico, janelas de segurança e como a genética deles pode e vai atacá-los se caírem na armadilha do consumo recreativo de substâncias.

Apenas o tipo de recado que as crianças precisam saber antes de terem mais liberdade. Assim como limites do corpo, educação sexual e privacidade. Naturalmente respondeu a qualquer pergunta antes e depois disso com a didática de um artigo científico, foi o período certo para introduzir conceitos de segurança.

Um breve e raro silêncio na cabeça. Na verdade, foi o chiado sintonizando com a série de passos brutos e pesados do lado de fora, ao ponto em que sua mulher abriu a porta como um guerreiro viking depois de voltar da batalha, coberto de sangue e vísceras — ou, neste caso, graxa, suor e cinzas de cigarro. 

— Consegui. — A voz é rouca e acelerada, trazendo um breve momento de alívio. De fato, tem uma sacolinha pendurada no pulso, muito pequena para o diâmetro do braço, balançando com os movimentos do corpo. Ela mal solta o primeiro fôlego e já emenda, mexendo-se no quarto: — O cara do rádio soltou um alerta informal para os caminhoneiros e patrulhas. Se alguém achar a maleta, a gente vai saber. O Ches também tá vindo. Mas tá descendo uma tempestade de merda a uns quilômetros daqui, o asfalto vira sabão se desaguar pesado, então...

Glam desvia o olhar para o chão, franzindo a sobrancelha. Uma dor local na têmpora, o início de uma enxaqueca. É como tentar ter uma conversa séria em uma caverna com eco; as palavras ficam voltando e reverberando, confundindo a sentença final. É tentar identificar a sequência de palavras certas em um ambiente lotado de conversas paralelas. Não sabe o que é pensamento e o que é informação real neste ponto, por pura sobrecarga.

É errático, rápido e hiperativo. Francamente, dói.

— Victoria. — Interrompe, a voz mais grave. Um pouco irritadiço, o que torna a expressão mais tensa. Reverberando, as palavras e sons continuam vibrando e ecoando. Atrapalha a pensar. — Chega.

Ele precisa pensar.

Aproveita o silêncio da interrupção para apontar para os ouvidos, o peito batendo um pouco mais rápido pelo estresse de sincronização. Não é proposital, não é uma armadilha.

Quando olha para ela de novo para entender a situação, ela está perto do guarda-roupa, uma mão enfiada até a metade no tecido da mochila.

— O som está realmente confuso agora.

Ela não dormiu. Esse é o ponto principal. Suas palavras ecoam seus pensamentos, nítidos e afiados. Acelerados. Trazendo novamente a possibilidade de um acidente de trânsito na conversa. Se estava dirigindo desde o meio do dia anterior, mas acordada em viagem desde a madrugada, são vinte e quatro horas de descanso insuficiente.

— Suas frases estão sobrepostas e sua coordenação motora é errática. Durma até o horário de abertura da delegacia; é uma ordem de segurança. É olanzapina?

Seus olhos fitaram diretamente a sacolinha de plástico. A linguagem corporal de Victoria é como um gorila inflando o peito para gritar, mas, em vez disso, ela se vira para ele, o nariz enrugado como um coelho. Tirou a sacolinha do pulso e deixou na sua frente, inclinando-se e gesticulando brevemente.

— Dormir? Que diabos, Glam, já faz um tempo do alerta, tem que ter algum tipo de resposta. Você ouviu alguma coisa sobre o asfalto virando sabão? A gente não pode ficar ilhado nesse fim de mundo! — O tom de voz baixou bruscamente, aquele tipo de sussurro hiperativo, muito mais fácil de entender.

Apenas sua doce e adorável esposa. Glam sustentou o olhar, sem medo nenhum, já que os dois sabiam que a agressividade não era direcionada a ele. Apenas uma forma bruta de cuidado, muito fácil de perceber. Este é o momento em que Dee interrompe, cabeça erguida e ombros relaxados, como quem carrega a verdade do mundo.

— Ele tem razão. Se você apagar no meio da estrada ou tiver um microssono a cem por hora, perdemos nossa única motorista funcional. Só vai chegar ao necrotério, não à farmácia.

Dee sempre foi bom em aprender, mesmo que seja consenso comum que privação de sono e trânsito não se misturam. É um garoto inteligente. Glam usa o tempo para desembalar a caixinha. De fato, olanzapina, 5 mg.

Isso garante uma transição mais suave ao estado de letargia. É quimicamente próxima da clozapina e tem uma ação anticolinérgica moderada. Se sincronizar adequadamente com o propranolol e o biperideno, ainda manterá a capacidade de engolir e se comunicar durante a maior parte do dia.

O haloperidol é empurrado oficialmente para escanteio.

Considerando a meia-vida de eliminação — cerca de trinta e três horas para sair do corpo, pico plasmático em até oito horas. Readministração duas ou três vezes ao dia, sempre acompanhada do biperideno. Costumeiramente, prefere tomar as coisas mais fortes à noite, quando tem permissão para apenas dormir, mas, considerando o cronograma...

Duas e meia da tarde. Depois outro às nove da noite. O custo metabólico por existir, a névoa mental e o corpo pesado são previsíveis. Vai ser lento. Se chegar ao ponto de precisar da dose noturna, deveria deixar o Dee em um ambiente supervisionado até Victoria ou Ches chegarem.

Vai ser ruim, ele entende. Pode detalhar cada interação química do coquetel e usar como base sua própria experiência. Apesar de toda a morbidez, há a arrogância e a confiança inquestionáveis de quem sabe estar certo.

Glam estudou por décadas; não há nenhum miligrama da ignorância convencional. A adrenalina faz o coração bater mais forte, quase antecipatório.

É gerenciável.

Apesar de o tempo ser uma variável indispensável no momento, não consegue prestar atenção nos minutos se movendo. Sem o tique-taque agonizante do relógio, é como se estivesse em quase completa paz. Um esboço e manual de instruções dos instrumentos de medições, parâmetros de alerta, frases para pedir ajuda.

Um desenho de como chegar à farmácia, ao posto de saúde local e à unidade médica básica. Números de emergência, como lidar com os números de emergência, reaver as principais manobras de primeiros socorros, uma lista dos itens de farmácia de que precisariam, os horários de medicação e alimentação, cálculo de necessidades nutricionais, manobras de contenção.

Um capítulo dedicado principalmente aos erros médicos que poderiam matá-lo. Um resumo dos protocolos oficiais das unidades de saúde e das ligações oficiais, incisos das leis que podem usar para se blindar juridicamente. Um espaço com as tabelas e significados das alterações nos parâmetros de saúde, e o que isso significa no impacto cognitivo e comportamental.

O que costumeiramente significa violência e impulsividade. Se chegar nesse ponto, o melhor é simplesmente trancá-lo no banheiro.

As bochechas parecem um pouco mais quentes graças ao foco intenso e, sinceramente, é bem cansativo, sim. Mas há algo no início do hiperfoco que torna o cansaço irreal.

O zumbido vindo bem do ponto atrás da nuca até reduz de frequência. Não há neurônios disponíveis para prestar atenção no ruído intrusivo. É uma das versões mais suaves da desrealização, e o mais útil de se utilizar nas últimas horas com a medicação original no sangue.

Só percebeu a realidade quando o Dee começou a se mexer. Indo para o banheiro para escovar e trançar o cabelo, o estojo de maquiagem apoiado na pia branca. Glam olhou para o estojo de cosméticos na extremidade da cômoda. Então, para as próprias mãos.

Levantou o braço da mesa, tirando o apoio do cotovelo. Observou os dedos tremularem apenas pela sustentação do peso. A maquiagem é uma escolha imprudente. Em vez disso, procurou na bolsa mais duas faixas de tecido, pulseiras com costura e elásticos para mexer e proteger o pulso. A reconstrução de camadas de pele em tecido cicatricial costuma pressionar os nervos, principalmente em momentos de tensão ou frio. Alguns anéis de metal para servir de contrapeso.

Levantou-se para reaplicar algum hidratante e protetor solar no pescoço, rosto e pulsos, encontrando os frascos certos no fundo da mala de roupas. Devolve os frascos, como se nunca tivesse mexido neles, e começa a organizar as mochilas. Uma cópia de seus laudos e documentos, assim como as receitas de horários de medicação e alguns papéis com métodos de aterramento; tudo disposto em uma pasta, deixando a maior parte da mochila vazia. Separar as notas de dinheiro e cartões de crédito para que ninguém fique sem recursos a quilômetros de pedir ajuda.

A garrafa de água que sobrou do dia anterior. Vão precisar comprar mais.

Há calor vindo de suas costas, e ele nem precisa se virar para saber quem é.

— Tudo bem...?

É tão pequeno e incerto; não combina com sua mulher. Ele olha para ela, uma ruga entre as sobrancelhas. Agora há uma certa agitação no peito, embora possa ser apenas a frequência das lâmpadas do corredor. Novamente. A pele parece... desconfortável. Removível.

— Qual a estimativa de tempo?

A voz não treme; não há motivo para entrar em pânico. É um fato conhecido que sua estabilidade biológica não é uma constante. Victoria parece entender isso; não teriam se casado se ela não pudesse compreender. Independentemente da racionalidade e da lógica, sentimentos ressoam por questões fisiológicas e de instinto.

Glam para de mexer na mochila, virando-se para ela em um movimento fluido. Os ombros relaxados, cabeça bem alinhada e os braços cruzados. Nenhuma ruga ou marca de expressão tensa; é importante internalizar antes de performar, mesmo que Victoria não acredite em nada neste tipo de postura. Não é a ela que ele tem que convencer.

— Devo conseguir voltar até de noite ou madrugada. O Ches precisa atravessar a tempestade, já avisei a equipe médica. Se o Dee precisar de ajuda...

— Vou para a unidade de saúde local se não chegarem até as dezoito. Para hidratação intravenosa e monitoramento — informa, simples assim. — Deveria manter a Federal atualizada nesse caso. Com o sinal de celular fora de jogada, nosso contato será basicamente por rádio ou telefone fixo. Deixe o número do protocolo das ligações de emergência anotado; peço para o Dee ligar se precisarmos de novas informações.

Ela paira perto dele, a mão alcança sua cintura e Glam apenas se inclina para o toque. É seguro e quente. Victoria sempre foi como uma piscina de lava cercando qualquer ameaça; é adorável. É bom. O cérebro costuma sinalizar qualquer carinho ou afeto como suspeito, mas Victoria sempre foi mais tátil. Um padrão conhecido.

— Não vai nem perceber que eu saí.

Biologicamente impossível, mas a intenção foi compreendida. As promessas de recuperação, bem-estar e otimismo supérfluo parecem mentirosas e estúpidas. Não faz sentido, então não vale a pena considerar.

Oito horas em ponto, Victoria jogou o Heavy sobre os próprios ombros para saírem, e Glam foi com o Dee para o elevador. Há aquele zumbido estúpido de eletricidade interferindo em sua frequência mental; a caixa de metal descendo até o térreo em uma constância que leva o estômago até a boca.

Foco. Ombros para trás, postura, nariz em pé. O medo pode funcionar a seu favor. Ninguém quer ficar perto de um vira-lata agressivo.

O início do horário comercial marca o declínio do nível plasmático do antipsicótico. Os dedos puxam e arranham suavemente o tecido da calça onde consegue tocar com as unhas, sentindo a mudança de peso dos anéis. É ritmo. Há um funcionário diferente no balcão da recepção em sua máscara de atendimento ao público e curiosidade de cidade pequena.

— Bom dia! — o jovem sorri. O crachá nomeia ‘Tiago’. Apenas um abutre; o olheiro. — Sou o Tiago, muito prazer. Soube que tiveram uma noite... agitada? O pessoal comentou sobre a correria. Está tudo bem? Precisam de algum auxílio?

Ele... pode usar isso, sim. Dee fica um pouco atrás conforme Glam se aproxima do balcão, indiferente. O impacto dos sapatos no chão fazendo um ritmo fácil de conduzir. Apenas o objetivo, nada além disso. Puxa a mochila para a frente do corpo para tirar a carteira e sacar um maço de notas.

— Desejo estender a reserva por mais quatro dias. Pagamento em espécie, agora.

É uma previsão. Estimativa simples. Em quatro dias, ou o rebote terá saído de controle e o empurrado para uma morte precoce, ou o seu corpo terá começado a se acostumar à falta do antipsicótico padrão e, se tiver a sorte de não ter evoluído para nenhuma intercorrência, seria seguro voltar para casa. Torna-se uma questão de adaptação psiquiátrica e não de sobrevivência bruta.

Glam não confia na sorte.

Não sorri ou tenta ser gentil; a maioria das pessoas costuma achar isso enervante. Embora costumem sempre achá-lo um animal exótico, a atitude amigável é eficiente para garantir o atendimento público e evitar inconvenientes.

Além disso, a ferramenta de contraste quando a atitude muda é fascinante.

— Ah, claro! Com certeza, Sr. Sebastian.

Ele tensiona a mandíbula e os dedos têm um espasmo instintivo para cobrir a orelha. É real; é seu nome de batismo. Não mudou porque nunca foi necessário, porque todas as pessoas que importam chamam pelo nome certo. “Sebastian” é, puramente, uma formalidade documental.

É claro que o recepcionista não se contentou em apenas fazer o seu trabalho e estender a reserva, não. Como uma criatura estúpida que não percebe o perigo ao passear perto de predadores. Porque a vida aqui é tão medíocre que precisam se agarrar a qualquer novidade como se fosse o elixir da vida.

— É que, sabe, é cidade pequena. A gente se preocupa. Se houver algum problema de saúde, o posto local é limitado; então, como vimos a correria...

Glam geralmente gosta da atenção, da desconfiança. Das emoções que evoca na plateia simplesmente existindo. É um manejo delicado, mas que o enche de confiança. É bom estar certo, é bom ser extravagante e é bom ser tão competente que as pessoas não conseguem causar problemas. A ansiedade, a pena, o ressentimento e a vulnerabilidade não são sentimentos programados para o público; atraem a atenção indesejada.

É onde poderia descobrir que toda a plateia fugiu ou que é apenas um grande espetáculo de arena e que ele não está no topo da cadeia alimentar. Exige outro tipo de performance, o tipo mais contido, invisível e calculado.

— Escute, Tiago. — Glam pode trabalhar com a atenção. A estranheza que qualquer um pode ver nele é sempre muito útil. Ele se inclina 45º, olhando para o recepcionista nos olhos, sem piscar. A mão apoia no balcão, apenas roçando no espaço pessoal do homem. — Sou um paciente instável em regime de medicação contínua. Devido a um erro logístico, estou sem acesso aos meus fármacos habituais. Meu sistema nervoso entrará em curva de degradação nas próximas horas.

Glam observa a pele do homem empalidecer alguns tons. Não precisa gritar ou mostrar raiva, apenas falar — o tom de voz normal e articulado.

— Se meu filho — uma das mãos aponta para o Dee atrás dele, suavemente — vier até você pedindo ajuda, telefone, rádio ou transporte, apenas execute o que ele pedir. Minha sobrevivência depende da ausência de burocracia desnecessária. Agora, tenho coisas a fazer, e minha janela de funcionalidade motora está diminuindo. Então, por favor, tenha pressa.

Glam não piscou ou recuou de sua abordagem, mesmo quando o recepcionista realmente fez seu trabalho. Expressão cética e arrogante enquanto esperava o homenzinho terminar de ajustar sua estadia pelo computador e imprimir o recibo.

— Aqui está, senhor... — Tiago tinha as mãos trêmulas quando entregou o recibo. Parece doente.

— Ótimo.

Glam aceitou o papel, dando meia-volta para andar até a saída. Os pés se movem sem dar descanso. Primeiro, a farmácia. Tem os itens de que precisam anotados no caderno — tanto para paz de espírito e controle individual quanto por informações completas na hora de ter que confiar no sistema de saúde pública.

É um acordo de transferência de responsabilidade: se algum enfermeiro resolver ignorar sinais de alerta protocolados, não é mais responsabilidade do Dee.

— Ele vai contar para a cidade inteira que você é um louco perigoso em menos de dez minutos — seu filho acompanhou por trás dele, com aquele tom de voz desinteressado e debochado que adolescentes gostam de emitir quando querem fingir que não se importam.

— Ótimo. Obediência e distância são duas variáveis úteis no nosso cronograma. — Era a intenção de toda forma. Não teriam tempo para fazer o gerenciamento de crise se tivessem que se preocupar com sutilezas sociais desnecessárias.

É melhor que não interfiram mais que o necessário.

De qualquer forma, tem as informações na cabeça. Esfigmomanômetro e oxímetro para estimar o estresse cardiovascular e respiratório; termômetro digital para o risco de síndrome neuroléptica maligna e monitoramento de colapso autonômico; glicosímetro para diferenciar o surto psicótico de hipoglicemia.

Para intercorrências físicas ou delírio de contaminação: gaze, anti-inflamatório em spray, soro fisiológico, faixas de curativos, alguns vidros de suplementos prontos, soro oral...

— Pai. — Dee chamou sua atenção de novo. Glam estava um pouco focado demais nos próprios pensamentos conforme fazia o caminho até a farmácia. A paisagem da cidade passa pela visão periférica, mas ele só raciocina o suficiente para saber que não está perdido e que o Dee ainda o está acompanhando, apenas alguns passos atrás e... estranhamente suado. Ele está andando rápido? — O que você escreveu antes? Não sobre os riscos, mas o que eu deveria saber.

Ah, sim, claro. A explicação oral ainda é mais esclarecedora do que um manual de instruções. Dee tem mais chance de entender se puder tirar dúvidas.

— Bom, foquei na logística de contenção — explica, calmamente. Os passos não diminuem de ritmo, mas ele é um professor; consegue clarificar qualquer assunto sobre o qual tenha domínio real. — Tem o intervalo e a forma de administrar os fármacos. O conceito de empilhamento plasmático e interações químicas entre os remédios disponíveis. A teoria por trás dos instrumentos de medição... estes vou te mostrar como medir assim que os comprarmos, não se preocupe. A evolução sintomática esperada em um período de horas, com e sem a medicação apropriada, o índice terapêutico... ah, mas você precisa entender os pontos de “não retorno” — Glam faz aspas com os dedos, gesticulando com a mão. — Ou seja, como meu corpo pode falhar e precisar de intervenção profissional. O hospital fica a duas horas daqui; há um posto de saúde a três minutos de distância e a unidade médica em cinco minutos, do lado da Secretaria de Saúde municipal. Você vai à unidade médica para solicitar o transporte por ambulância e notificar a emergência.

Os olhos passeiam rapidamente pelo ambiente, a pressão no diafragma constante e a respiração uniforme. Glam não para de falar, deixando os tópicos importantes aparecerem enquanto ainda tem coerência para entendê-los. Dee, por outro lado, está ofegante e sempre alguns passos atrás.

É um pouco preocupante que se canse tão rápido.

— O que necessita de gerenciamento constante é o risco de falha renal — enumera com o dedo indicador. — O lítio é um íon eliminado exclusivamente pelos rins. Compete com o sódio para reabsorção no túbulo proximal e tem uma janela de segurança muito curta. Isso quer dizer que, em contexto de desidratação, ele cristaliza nos rins e é reabsorvido, o que eleva seus níveis no sangue até a toxicidade. É uma questão de horas. A cor da urina é seu principal indicador; se ficar muito escura, é porque o filtro renal está falhando. Por isso, se nem sua mãe ou o Ches chegarem até o fim da tarde, nós vamos até a unidade médica solicitar hidratação intravenosa. Há um coquetel de sedativos previstos para o período da noite que vai derrubar minha capacidade de engolir voluntariamente.

Outro dedo; Glam estudou a própria biologia por anos e não pode negar que adora falar de assuntos que conhece. Todas as palavras saem em tom neutro e confiante, como se recitasse um artigo científico.

— Há a Síndrome Neuroléptica Maligna. É uma possibilidade se a temperatura subir acima de 38ºC, mesmo que a olanzapina tenha um risco muito menor de efeitos extrapiramidais adversos. Em temperaturas muito altas, o cérebro frita. O protocolo é de resfriamento e dissipação do calor e hidratação monitorada. Se a febre não ceder, é onde você pede ajuda. — Desce um terceiro dedo, diminuindo o ritmo quando chegam na frente da farmácia. O mesmo lugar onde estiveram na noite anterior, mas agora em horário comercial. — O risco de disfagia e pneumonia aspirativa. Embora a desregulação de acetilcolina e adrenalina possa causar rigidez, estado de alerta e convulsões, a possibilidade de engasgo é mais pelo rebaixamento no nível de consciência. Esquecer como engolir, aspirar minha própria saliva ou vômito. Morte por afogamento, Dee. Silenciosa e rápida.

O quarto dedo e o último entre as maiores probabilidades de causar uma morte precoce. Demoraria horas para enumerar todas as possíveis complicações; o corpo humano é uma máquina excessivamente complexa e fascinante.

— Claro, por último, o risco tradicional derivado da psicose. Eu posso realmente tomar decisões imprudentes não motivadas por lógica e forçar um desligamento definitivo.

Há uma sequência de acontecimentos que corroboram com isso, embora o termo mais preciso seja “lógica corrompida”. Mesmo que vá tomar a olanzapina, ainda é uma dose baixa. Sua psicose é uma cicatriz em seu Sistema Nervoso Central graças à superexposição ao estresse em sua primeira infância; medicamentos não conseguem reverter algo que cresceu e piorou junto dele.

Mesmo sem considerar a hereditariedade, porque obviamente sua família biológica tinha um histórico de histeria, delírio e neuropatologias que nenhum deles se preocupou em diagnosticar — mesmo que se lembre de alguns parentes internados em asilos, clínicas psiquiátricas ou igrejas, abandonados longe dos olhos das outras pessoas —, o fator agravante é que sua amígdala e hipocampo se desenvolveram em um contexto extremamente disfuncional e a psicologia humanizada só foi uma opção depois de seus trinta anos.

O dano já era permanente. O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, a regulação de resposta ao estresse, já tinha desenvolvido uma hiperatividade crônica.

Enfim, a olanzapina vai garantir que ele não entre em surto, mas não vai segurar tudo. Sem a estabilidade emocional que o lítio força, gatilhos para a desrealização vão aparecer. É uma certeza.

Assim que Dee alcança seus passos, Glam se vira em noventa graus, batendo uma palma unicamente com a ponta dos dedos para adentrar no prédio aberto. Iluminadas, fileiras de medicamentos com cheiro de antisséptico, prateleiras com produtos genéricos e utilidades.

— Estou ficando genuinamente preocupado com a forma como você descreve a própria morte.

Há um lampejo de confusão conforme olha para o filho, parado na porta com as mãos nos joelhos, como se tivesse corrido uma maratona. Parece um desperdício de energia se preocupar com uma situação em andamento, embora talvez seja hipocrisia pensar assim.

— Prioridades, Dee — repreende, simples assim. Então vai direto para o balcão.

Um homem de meia-idade, cabelo grisalho e óculos tortos apoiados nos ossos nasais. Olhando para eles como se fosse uma invasão em período de guerra, o que faz bastante sentido considerando suas últimas aparições públicas. É uma demonstração prática do impacto social, que costuma ser muito mais útil e fácil de lidar do que simples gentileza e empatia.

— Inventário de monitoramento clínico — declara assim que chega à frente do homem, os olhos passeando para visualizar as marcas e características das prateleiras visíveis. — Esfigmomanômetro digital de braço, validado pela Sociedade Nacional de Hipertensão. Oxímetro de pulso com amostragem de fótons de alta frequência e um termômetro digital de ponta rígida. Não o infravermelho.

O farmacêutico piscou lentamente, então olhou para Dee, que, como um jovem prestativo, tirou o celular do bolso para anotar os detalhes da conversa. Absolutamente atordoado, como se tivesse levado um choque.

— Bom, temos este em promoção — o homem disse, tirando um modelo de debaixo do balcão, uma caixa cúbica para a qual Glam não deu nenhum olhar sequer. — Funciona no pulso, prático, cabe na bols...

É, já chega. Este falatório está insultando o seu QI. É um teste de paciência que ele não quer exercer, e pode muito bem utilizar a oportunidade para ensinar sobre modelos comerciáveis com pouca precisão diagnóstica.

— A praticidade é inversamente proporcional à fidelidade do dado. A artéria radial sofre interferência da posição do braço em relação ao eixo do átrio direito. Em uma crise convulsiva, a necessidade se torna a artéria braquial. O modelo de braço com manguito de nylon balístico e sensor oscilométrico duplo; entende?

Ele ignora o farmacêutico assustado para olhar para o filho e informar, com a voz neutra e bem clara:

— Modelos de pulso são para amadores e hipocondríacos de escritório, Dee. A distância entre a artéria radial e o coração introduz uma variável de erro de até dez milímetros de mercúrio dependendo da angulação do braço, o velcro cede sob pressão de duzentos milímetros de mercúrio e o manguito pode escorregar e interpretar uma arritmia falsa; é completamente enganoso.

É realmente ético vender essas coisas?

Enfim, Glam localiza a marca desejada e aponta para a caixa no topo de uma das prateleiras.

— É um Omron; é linha profissional. Vai ser ele.

Quando a caixa é disposta à sua frente, o farmacêutico tenta intervir, a expressão cautelosa. Glam puxa a caixa para verificar as especificações e chama Dee para seu lado, para apontar os detalhes importantes.

— Senhor, se não se importa, para aparelhos dessa qualidade, não é melhor ir ao hospital?

Há algo completamente redundante em usar a expressão “se não se importa” e não esperar a outra pessoa responder se importa ou não. É apenas uma imposição de vontade sem sentido. Glam ignora, voltando a falar, o tom didático e formal:

— Não preciso de um visor colorido, mas de um transdutor de pressão que mantenha a calibração do ponto zero mesmo após mil ciclos. — Se estivesse com seus aparelhos, aqueles contidos na maleta perdida, teria os dados de calibração mais recentes. Porque é Glam quem calibra e ajusta os parâmetros; mas não há tempo de fazer isso com estes; portanto, precisam de padrões de fábrica confiáveis. — Verifique a vedação da entrada da mangueira. Plástico ABS suporta melhor o calor do que polímero reciclado.

Desliza o modelo para o filho verificar, então se vira novamente para o farmacêutico pálido e confuso.

— Modelos de oxímetros de pulso. Não, eu não quero o de uso comum, seja rápido.

Obviamente o homem não aprendeu nada com os modelos de medidores de pressão, porque, entre as cinco opções que oferece para os oxímetros de pulso, três são modelos chineses, baratos e sem certificação. A qualidade é ruim; não precisa nem abrir para checar.

Antes que pudesse formular uma frase decente para expressar o absurdo, o farmacêutico fala, devagar:

— Sabe, o Dr. Hélio atende ali no posto de tarde... Talvez seja melhor uma consulta antes disso tudo?

É tão prepotente; como diabos conseguiu seu diploma? Este imprestável sequer sabe fazer o próprio trabalho? Menosprezando-o. Está o desprezando descaradamente, como um verme patético.

— O Dr. Hélio trabalha com patologias sazonais e trauma de baixa complexidade. A não ser que neste lugar haja um paciente de complexidade química similar — o que considero duvidoso, porque meus remédios de uso padrão não estão nestas prateleiras —, uma consulta com ele seria uma perda de quarenta e cinco minutos de uma janela de funcionalidade que está diminuindo exponencialmente. Agora. — Ele respira fundo, apontando para as caixas no balcão. — São modelos chineses? Sequer têm certificação profissional?

Separa os três mais fraudulentos com um suspiro frustrado para verificar as duas caixas restantes. Não são de marca tão conhecida, mas não parece haver mais disponibilidade de variedade local, então o teste de campo vai servir para decidir qual levar para casa. A mediocridade induzida pelo mercado de consumo em locais de pouco estudo é aversiva.

— A maioria dos sensores de prateleira usa diodos emissores de luz de baixa fidelidade. O comprimento de onda deve ser de exatamente 660 e 940 nanômetros. Se o chip de processamento for medíocre, não conseguirá distinguir a hemoglobina oxigenada de luzes fluorescentes, Dee.

Conta os segundos para o resultado aparecer. Seis e oito. Igualmente desqualificados.

— E se ele quebrar? — finalmente o garoto está entrando no ritmo e fazendo as perguntas certas.

— Neste caso, meça pelo meu pescoço. O pulso carotídeo não precisa de pilhas. Observe a mecânica: o corpo humano é uma máquina pneumática. Se a saturação de oxigênio cair, a musculatura intercostal começa a trabalhar em regime de sobrecarga. Não espere meu rosto ficar azul; é o último sinal que o corpo mostra. — De volta para o homem no balcão, finalmente quieto, sem adicionar ruído de informação a uma sequência planejada: — O tempo de reação tem que ser inferior a quatro segundos. Traga outros modelos.

Foram vários e preciosos minutos explicando cada termo. A influência da durabilidade da mola do prendedor na medição, a diferença entre a enzima da glicose oxidase e a desidrogenase, e como termômetros infravermelhos só servem para triagem de aeroporto e não funcionam em casos de sudorese. Informações que acumulou em três décadas de estudo de campo e tentativa e erro.

É útil, e o Dee é um bom aluno. Quando se trata de teoria, consegue pegar os pilares rapidamente, mesmo com poucas aulas. Todavia, não é o suficiente em casos de saúde. Precisa de demonstração prática e aprender enquanto Glam ainda está cooperativo.

— Agora? — hesitação. Não é hora de hesitação.

— Prefere aprender a usar o aparelho enquanto eu estiver em convulsão?

Enfim, não é uma tarefa difícil fazer a demonstração prática, mesmo que estejam em público. A opinião externa nunca foi uma variável com muito peso mesmo em seus dias normais, embora as crianças sejam um pouco mais sensíveis à aceitação social. É melhor se manter falando para não perder a linha.

Conforme o filho tira os aparelhos da bolsa, Glam o auxilia a ajustar no braço, sinalizando com a mão livre para manter o alinhamento adequado.

— Dois dedos acima da fossa cubital, Dee. A mangueira de ar deve estar alinhada com a artéria braquial. Se o manguito ficar frouxo, o sensor oscilométrico vai inflar além do necessário, o que eleva artificialmente a pressão diastólica em até dez milímetros de mercúrio.

Quando o aparelho começou a zumbir, narrou de forma descritiva o que cada número e letra significa.

— O algoritmo está procurando o ponto de oclusão. Se eu estivesse em pânico, o sensor detectaria a variabilidade da frequência e daria erro, mas o propranolol ainda está segurando o nó sinoatrial abaixo de oitenta e cinco batimentos por minuto.

O aparelho apita. 128/82 mmHg. Glam desfez o velcro para guardar o aparelho adequadamente.

— Também vou levar: gaze, anti-inflamatório em spray, soro fisiológico, faixas de curativos, alguns vidros de suplementos prontos, soro oral e espessante. Mostre as variações de marca e preço... um omeprazol e três copos de água mineral lacrada.

Ainda foi algum tempo até ter um estoque razoável e que ainda assim pudessem levar rapidamente. Há uma certa agitação em não estar se mexendo; inquietação. Os dedos começaram a batucar um por vez no balcão enquanto escolhia e fazia o cálculo mental para pagar. O ruído que saía da boca do funcionário passou a ser categorizado como “inútil”, então apenas fez suas exigências sem considerar a preocupação alheia.

— Baterias e pilhas de lítio para todos os aparelhos, mesmo os que vêm com bateria de fábrica — o tom sai seco, impaciente e irritado.

Por algum motivo, o farmacêutico olha para o Dee em uma mistura de pena e medo completamente desnecessária. Glam olha para o próprio filho, apenas para se certificar de que não está ignorando um ataque de pânico ou crise de ansiedade acidentalmente. Não está; é a mesma expressão tensa, com o celular na mão e a sobrancelha arqueada.

Não consegue decodificar exatamente os sentimentos e nem tem tempo para isso agora. O importante é que Dee não está em colapso e ainda parece o mesmo adolescente que vê todos os dias, embora um pouco ansioso. Sentimentos são fisiológicos e não são evitáveis; é sempre bom lembrar. Limitações emocionais são comuns.

— Você ouviu o cara. — O garoto dispensa tanto o olhar do farmacêutico quanto a atenção de Glam com um gesto, mas se aproximou assim que o homem foi pegar as pilhas, querendo parecer desinteressado, mas a voz traindo o interesse: — Você sabe bastante.

Curiosidade. Tudo bem; a curiosidade é bem-vinda durante as aulas.

— Passei seis meses em uma clínica psiquiátrica quando jovem; é uma questão de fazer perguntas e consultar fontes confiáveis.

Enfim, eles pagaram. O primeiro objetivo foi riscado da lista de tarefas, e o próximo ponto é o mercado. A mochila é um pouco mais pesada, mas não atrapalha o ritmo da caminhada.

— Os dados são importantes, Dee. Se minha temperatura subir mais de um grau em uma hora, é uma questão de superaquecimento. Aplicar gelo e o antipsicótico. Exceto no caso de a dose programada ter sido efetivada há pouco tempo; neste caso, suspender a dose. Se não funcionar, chame uma ambulância. A frequência cardíaca deve estar estável graças ao propranolol, mas se ultrapassar os 120 batimentos por minuto, pode desencadear um ataque de pânico. A saturação de oxigênio abaixo de 92% indica que a rigidez muscular está afetando a mecânica respiratória; os dois devem ser controlados pelo diazepam. Exceto pelo oxímetro, a medição pelos outros deve ser o suficiente se for feita a cada quatro horas; vai precisar manter os dados anotados. Vou te ajudar nas primeiras vezes e...

Um arrepio na base da coluna. Os passos pararam subitamente conforme raciocina um novo vulto. Pontos de luz uniformes, debaixo de um carro. A sombra parece um pouco maior do que a iluminação externa e a posição do sol colocam, quase como... alguma coisa espiando lá debaixo. Documentando seus passos, observando. Relatando cada mudança de ritmo e...

Se luz e sombra trocam o sinal matemático, as leis da trigonometria foram rescindidas em favor de um registro punitivo. É a arquitetura se retraindo para medir sua incapacidade de antecipar o pavor.

— Dee, tem alguma coisa embaixo daquele carro?

Mantém os olhos estreitos. É suspeito. Pisca algumas vezes e mexe a cabeça suavemente para ver se a criatura acompanha os movimentos. Uma prova definitiva seria ir até lá e tentar agarrar; alucinações não têm matéria tátil. A mão passaria direto.

— Não, pai. É só asfalto e terra.

— Certo, entendi.

Isso funciona melhor. Não é real se o Dee não vê. Demora meio segundo para suprimir o reflexo de manter a ameaça em sua linha de visão, acidentalmente visualizando o letreiro desbotado de uma padaria: “Virgem Maria”.

O desenho caricato da santa, como uma manobra de marketing extremamente repetitiva. Os pensamentos, ainda um tanto hiperativos pela armadilha debaixo do carro, evocam uma lembrança. É enevoado e embaçado, sem clareza de pensamento, como lembranças de infância. Ela quer ser como a Virgem Maria, Sebastian.”

— ... Lydia dizia que a mãe queria ser como ela. Virgem Maria. — É uma conclusão fácil. Somente Lydia teria dito algo assim.

Especificamente quando os pais brigavam do lado de fora do quarto e Sebastian ficava angustiado sobre intervir. Lydia estaria sentada na cama, fazendo as tarefas da escola, mas Sebastian teria ficado na frente da porta, com as mãos sobre o peito e olhos arregalados, respirando baixo e sem coragem para chorar. Os pais sempre discutiam aos berros e desfechos com violência eram comuns.

Se não se engana, não intervinha porque Lydia avisou que iria apanhar dos dois por ter a ousadia de interferir. Ela cometeu este erro antes mesmo de ele nascer.

— O que isso quer dizer? Ela era devota?

Certo. Há um objetivo aqui; é mais fácil mandar os pés se mexerem, de volta ao objetivo original.

— Uma matemática do sofrimento, Dee. — Não evoca mais a angústia ou medo. Nem mesmo a raiva da hipocrisia ou frustração. A fúria do incoerente. Faz algum tempo que não sente muita coisa ao se lembrar dos pais; é quase como ler um livro de história ou assistir ao noticiário.

A hipérbole do sacrifício para justificar a inação perante fúria sistêmica. O panteão do fracasso, este letreiro bícromo e gasto, não representa o mesmo? A dialética do convencimento de que a erosão da dignidade gera um bônus ontológico no pós-vida. O martírio absoluto é a inflação sobre uma moeda que não existe. Mary amava a ferida mais do que o tecido sadio; é profundamente poético.

Uma lembrança distante demais para causar impacto emocional. Faz realmente muito tempo. Ele responde à questão do filho, pacificamente e sem alterações emocionais:

— Acreditava que, se suportasse os abusos e adversidades com um silêncio piedoso, ganharia uma espécie de iluminação. Não funcionou. O martírio é uma transação inútil quando o agressor não reconhece sua humanidade.

Os seres humanos vivem sob a fantasia de que o sofrimento tem que ter uma razão, que coisas boas viriam depois de décadas de inferno simulado. Acreditam em libertação espiritual ou nirvana, almejando a paz e a felicidade. Buscar sentido na infelicidade e submissão.

Há milhares de vertentes e crenças ao redor do mundo. Objetivamente, o modelo de pensamento da abnegação serve mais para disfarçar o controle das massas populacionais por um grupo minoritário e para romantizar a pobreza e a miséria. Os seres humanos se beneficiam de um parâmetro moral e ideológico que é completamente corrompido pelas pessoas que repassam a palavra.

É apenas para disfarçar que todas as questões socioeconômicas e criminais advêm, unicamente, do ser humano. Atribuir a culpa da própria vida a um ser mitológico tira o peso de suas próprias decisões.

— Vamos precisar de um carrinho. Um grande, para poder colocar sua mochila também; suas costas vão doer se ficar carregando isso por muito tempo.

Foco. Não há tempo para isso; a matemática roda mais facilmente na cabeça. A mochila do filho está mais arredondada e realmente parece um pouco mais pesada. Ele não se exercita; é um adolescente sedentário e magro, vai sentir dores depois. Glam tira a garrafinha de água morna do dia anterior e termina de beber, ao passo que entrega um dos copos de 200 ml que comprou na farmácia para o Dee, uma exigência silenciosa. Muito tempo conversando sem se hidratar.

O adolescente ainda obedece. Que bom. Glam joga a garrafa vazia em um balde de lixo assim que se aproximam do mercado depois de beber.

— São duzentos e cinquenta mililitros de água mineral por hora. Dois litros para mim, mais a sua meta diária de pelo menos dois litros e meio. Considerando que vamos para a unidade médica depois, considero apenas a sua meta diária amanhã, sendo sete litros de água ao todo. Aproximadamente seiscentos mililitros de isotônico para equilibrar os eletrólitos proporcionalmente.

A proporção é de 1 g para 1 ml, o que já faz o carrinho pesar quase 8 kg. Claro, há algumas variações de densidade, mas sequer chegou a considerar os outros tipos de alimentos. Iogurte natural, suplementos lacrados. Recipientes pequenos.

É barulhento. Quase consegue ouvir o zumbido sibilante da acetilcolina saltando das fendas sinápticas. Como milhares de serpentes se emaranhando em um poço, esperando uma única falha para devorá-lo. Abutres esperando a próxima refeição cometer um erro ainda em vida.

— Não é muita água?

— Já reduzi bastante o peso graças à hidratação intravenosa. — Se mantivesse sua capacidade de deglutição intacta, seriam entre cinco e seis litros de água só para Glam. — É o mínimo. A proporção de água para isotônico é de três para um para equilibrar a depuração renal. Apenas água elimina o sódio muito rapidamente e aumenta a concentração do lítio, o que é risco de toxicidade e psicose; o isotônico sozinho sobrecarrega os rins com a carga osmótica de glicose e sais minerais.

Há uma dor formigando perto do cotovelo, o tipo que faz os dedos contraírem. Pressão invisível nos nervos. O tremor fino é uma constante neste ponto; espasmos esporádicos que podem ser pela carga adrenérgica crescente ou puramente psicológicos.

Glam vai para a fileira de carrinhos e tira uma moeda para alugar o espaço para carregar as compras. A visão periférica acompanha o Dee, mas os detalhes de interação estão começando a parecer nublados, não processando completamente as variáveis de ambiente. É um sintoma conhecido, eles ainda têm tempo; apenas significa que estão chegando na marca das dezoito horas.

Eles passam pela porta automática e quase automaticamente Dee parece ficar interessado naquelas grandes geladeiras perto dos caixas, com sorvete, refrigerante e energético. As opções que geralmente parecem mais tentadoras antes de pagar, mas que, no caso, a resposta é apenas uma:

— Não.

Há um momento de frustração infantil e dócil quando o filho olha para ele — mais porque, graças à falha de interocepção dele e à raridade de realmente querer consumir qualquer coisa, geralmente Glam e Victoria acatam qualquer pedido dentro do razoável que tenha a ver com expressar vontade de comer. Um pouco mimado, sim.

É seu primeiro filho. Merece ser um pouco mimado.

No atual momento, besteiras industrializadas não estão dentro do razoável para nenhum deles.

— É só um, pai. Para acalmar.

— O xarope de milho de alta frutose causará um pico glicêmico seguido de uma resposta insulínica que drenará sua reserva de glicogênio em quarenta e cinco minutos. Não é uma opção, Dee.

É um hábito previsível buscar glicose e dopamina rápidas quando ansiosos. Glam naturalmente veta rapidamente qualquer tentativa de considerar chocolate, balas ou cereal. Gordura hidrogenada, excesso de sódio. Tiramina, cafeína, estimulantes. Ruído nutricional.

Ele apenas vai adicionando as opções menos arriscadas, enquanto lê as embalagens para encontrar a menor interferência metabólica. Discursando sobre propriedades nutricionais e aplicação na medicina sempre que seleciona algum item ao carrinho. A água e o isotônico chegam primeiro por ocupar mais espaço, mas depois é apenas a tradicional seleção de compras em corredores com muito mais pessoas do que seu cérebro considera aceitável. É ruído, apenas ruído.

Biscoitos de arroz, de água e sal. Alguns pacotes selecionados cuidadosamente pela composição simples.

— Alto índice glicêmico e baixa complexidade. Vão ajudar a revestir e preparar o estômago para a carga química. Há um adendo no caderno, mas vale reiterar: aplicar medicações em jejum expõe a mucosa para erosão imediata. Mas vão ser difíceis de engolir durante a noite; precisamos passar na fileira de laticínios para conseguir algumas opções pastosas e fáceis de digerir.

Na seção de frutas, as bananas foram selecionadas por serem uma fonte fácil de potássio, que atua na prevenção de arritmia e cãibras; as maçãs são uma manobra lógica contra o peristaltismo intestinal, embora devam ser consumidas sem casca para prevenir a obstrução.

Estavam quase finalizando, finalmente chegando na fileira de laticínios para ler as embalagens menores e verificar o lacre. Ao contrário da água, que não vai estragar se for aberta algumas vezes, produtos fermentados costumam ser mais confiáveis se forem doses pequenas o suficiente para serem consumidas de uma vez.

Não dá tempo de estragar. Fácil de engolir e funciona para neutralizar parte do ácido clorídrico que estará sendo produzido em massa em seu sistema gástrico.

— Bom dia, rapazes! Compras de última hora?

Glam contém um sobressalto quando uma velha senhora vira um corredor, carregando uma bandeja de amostras grátis. É propaganda para uma pequena barraca perto dos frios, com queijo e café. Direto para ele, com um sorriso enorme e... suspeito. Predatório.

Armadilha.

— O senhor me parece tão pálido. Não quer levar um pedaço do nosso queijo? Ajuda a dar sustância. Temos amostra grátis do café também; está quentinho, acabei de fazer...

“Sustância” é um eufemismo arcaico para inflamação e vasoconstrição induzida. Erro estatístico em busca de confirmação por volume de consumo.

As pessoas não precisam ter más intenções. Embora, mesmo que tenha sido interferência no pensamento, “armadilha” descreva bem o cardápio oferecido. Maus hábitos socialmente aceitos. Glam levanta a mão, tanto para estipular uma distância mínima da senhora quanto para fazê-la parar de falar.

É tão inconveniente. Interrompendo o fluxo cinético; o próprio lobo em pele de cordeiro.

— Sua oferta é um erro no cálculo nutricional para meu quadro atual, senhora — informa, verificando a posição do Dee e do carrinho. Dee está observando com uma expressão cansada e resignada desde que suas primeiras sugestões foram vetadas, apenas interagindo para ajudar a colocar as coisas no carrinho. Ele... ótimo, também está vendo.

É realmente uma inconveniência social; nada evocado aleatoriamente por detestar trocar sutilezas e conversa fiada.

— O queijo contém tiramina; é um estimulante que desencadearia uma crise hipertensiva. Eu mal tolero café em dias comuns; a cafeína, além de acelerar as interações enzimáticas, é um irritante gástrico direto. Meu sistema nervoso e digestório considerariam isso um ataque de péssimo gosto.

É decadência processada sob o verniz da amabilidade servil.

Talvez tenha deixado escapar um pouco de desprezo. Não é mais culpa dele se as pessoas não têm o bom senso de se manterem longe durante dias ruins; então Glam se inclina um pouco, dando apenas um passo à frente, fazendo contato visual direto.

É uma perda de tempo e de energia.

— Sua gentileza é socialmente aceitável, porém estatisticamente irrelevante e fundamentalmente desgastante.

Cada segundo que perde com interações supérfluas e irrelevantes é um minuto precioso a menos que poderia gastar sendo útil de alguma forma... Por exemplo, produtos de higiene. Precisam de toalhas e papel higiênico.

Considerando que a hidratação se mantenha constante, a sudorese excessiva é uma certeza. Sem contar os acidentes com saliva ou refluxo. Sacos de lixo, desinfetante, lenços umedecidos. Um balde para deixar perto da cama, obviamente. Não quer acabar vomitando no próprio peito porque não teve tempo de chegar ao banheiro. Luvas de borracha e estéreis; a higiene é um fator indispensável.

Havia acabado de tirar um pacote com sacos de lixo do lugar, deixando um espaço vago na prateleira. É como se as luzes falhassem, zumbindo em seus 60 Hz de frequência incessantes. A prateleira sólida pareceu borbulhar, como se estivesse derretendo e esfumaçando sob efeito corrosivo.

Os pulsos doem. Isso é uma armadilha. A fumaça parece cercar todo o ambiente e de repente o ar não parece tão respirável, aquela maldita falha podendo muito bem se expandir para o mercado inteiro, engoli-los todos como areia movediça. Líquido radioativo.

Chega.

Morde a língua. Fechou os olhos, afastando a imagem mental e piscando para não deixar nenhuma construção imaginária se solidificar na cabeça. É como se as lâmpadas tivessem o volume de um órgão instrumental em um ambiente com a acústica excelente, reverberando em cada canto e voltando para ele. A cabeça poderia muito bem explodir.

Respira fundo, sentindo como se estivesse enfiando a mão no fogo, arriscando-se estupidamente por um sintoma que sequer sabe se é psicológico ou não. Enfim, o coração bate mais forte e é como se tivesse esquecido como respirar, mas coloca a ponta dos dedos onde deveria haver uma mancha corrosiva e perigosa.

Se fosse real, os dedos afundariam. Ou derreteriam ao ponto de sequer sobrar o osso. Seria uma dor excruciante que o faria se arrepender imediatamente, então o pânico se justificaria. Mas, em vez da expectativa doentia do cérebro, as unhas só tocaram a prateleira inofensiva. É metal, ligeiramente frio e cheirando a ferrugem.

Não há gás tóxico. Nem veneno ou radioatividade. Sem ácido, areia movediça ou perigo iminente. Nada aconteceu; não está pior do que já estava há dez minutos.

O ambiente retorna ao foco, percebendo as pernas finas do filho se aproximando pelo lado. Hipervigilante, o cérebro sinalizou uma conexão falsa.

— Você realmente se parece com a Lydia.

Não, isso é estupidez. É apenas pelo cabelo longo, tipo corporal e formato do rosto; Lydia usava pouquíssima maquiagem para agradar aos pais. O Dee tem mais liberdade de se enfeitar do que a irmã tinha naquela época. Talvez tenham alguns pensamentos similares; o perfil psicológico costuma ser bem parecido.

Lydia não era terrível, apenas uma oportunista. Ela não o odiava; a existência de um bode expiatório era conveniente. Ao contrário da mãe, que visava à salvação da alma, Lydia sempre mirou no dinheiro, como uma indenização pelo tempo desperdiçado. Pelo menos é o que consegue concluir depois de décadas sem conviverem adequadamente.

— Quem é Lydia?

— Minha irmã. Ela era perfeita, sabe? Nossos pais a adoravam. Roubou toda a saúde que o útero de minha mãe poderia produzir.

De volta para o carrinho, encaixa o pacote de sacos de lixo e um vidro de desinfetante perto de alguns paninhos de microfibra e lenços umedecidos. Continua falando, tendo realmente esquecido de terminar o assunto por ali. Apenas deixando as palavras caírem enquanto se reorganiza mentalmente.

Costumava ter muita inveja da Lydia. Ela sabia como agir em situações sociais e como falar com os pais instintivamente, enquanto Sebastian estava preso e tentando aprender por tentativa e erro, tentando desenvolver uma consciência que a irmã simplesmente tinha. Em um ambiente no qual o amor é condicional e utilitário, era como se ela estivesse monopolizando uma mina de diamantes enquanto o irmão mais novo tinha que ficar peneirando areia atrás de migalhas.

Mas nada iria mudar, independentemente da intromissão dela. O problema nunca foi Lydia e Sebastian, mas Gustav e Mary. O teriam odiado só por nascer, porque seu cérebro sempre foi descalibrado.

Vai andando para o setor de higiene para selecionar o papel higiênico. Folha dupla, sem cheiro ou perfume. Apenas papel de qualidade aceitável. Toalhas de rosto e de corpo, preferencialmente mais grossas porque absorvem a umidade melhor, mas não grossas o suficiente para ficarem muito pesadas para o Dee carregar.

— O único defeito que tinha era ter nascido mulher. O pai não queria uma herdeira mulher, então me tiveram. Deve ter sido uma decepção dupla, considerando que a mãe tentou me abortar.

Essa informação parece natural, mas não consegue evocar os detalhes de como Mary o informou. Ela sempre ficava chateada com algo; não é difícil de imaginar que tenha começado a gritar suas frustrações. É um motivo até bem plausível; outra variável naquela toca de ratos seria obviamente indesejada.

Pode não se lembrar bem da situação, mas lembra de ser mais novo, o rosto contorcido de fúria, mimetizando os próprios pais. De esperar todos saírem para jogar os lençóis e travesseiros longe e gritar que Mary era incompetente demais até para impedi-lo de nascer. Que, talvez, o ato mais “santo” que aquela mulher patética deveria ter cometido fosse justamente se matar antes de empurrar outras pessoas para sua bagunça.

Antes de Sebastian, antes da Lydia. Antes do Gustav. Um corte limpo que teria evitado muito estresse. Naquela época, Sebastian simplesmente odiava todos.

— Quem te falou isso? — Glam olhou para o filho, um alerta invisível soando no fundo de seus ouvidos.

Por algum motivo, Dee parece assustado, embora esteja tentando manter a expressão indiferente. Não sustenta o contato visual. Glam não tem certeza de quanto de seus pensamentos foram realmente verbalizados, então não sabe exatamente qual foi a parte errada. Ele apenas respondeu a uma pergunta.

— Ela própria. Não queria outra boca para alimentar, e Gustav já era um fardo grande o suficiente sozinho.

É um perfil previsível. Se estivessem em um ambiente controlado, Glam poderia montar casos clínicos reais. Livros inteiros tentando dissecar onde esta árvore genealógica deu errado e porquê. Apenas... não é tão interessante assim. A exposição ao risco não vale o recebimento de dados.

Apenas uma curiosidade mórbida.

Depois de selecionar os itens de higiene e conseguir encaixar um balde no carrinho, trocou novamente de corredor. Mesmo que tenha comprado espessante na farmácia, é preciso ter uma variabilidade de alternativas, então para em frente aos pacotes de gelatina.

Os dedos fecham em um pacote de gelatina sem sabor, estreitando os olhos para encontrar a lista de ingredientes, tabela nutricional e data de validade. Os olhos parecem vagar sem ler nenhuma palavra, mesmo passando por cima das linhas nas quais as informações deveriam estar sendo contidas.

Ele pisca, tentando ler novamente. As palavras parecem flutar do pacote, boiando no ar como um saco plástico na água. Quando finalmente consegue juntar uma letra à outra e formar algum tipo de palavra ou contexto, é justamente: Ele sabe.

Duas palavras, uma afirmação genérica e, definitivamente, não real. Seus neurônios se agitam como um enxame de vespas. Ele precisa... se mexer. Fazer alguma coisa. As cores estão mudando, tudo parece exigir uma reação desproporcional.

— Pai? — decisão tomada. Glam estende o pacote para Dee.

— Leia o pacote para mim, por favor. As letras estão mudando. Se a validade estiver adequada, não pode conter estimulante nenhum. Cafeína, tiramina, frutose; verifique se não tem sabor, posso confundir os ícones na embalagem. O objetivo é que funcione como um simples emulsificante se eu parar de comer ou engolir. Nenhum tipo de corante também.

É um tanto quanto irritante. Para todo lugar que olha, o cérebro parece encontrar algum motivo para se colocar em alerta. Tentou afastar as letras da visão, mas terminou por trocar olhares com um senhor em um corredor paralelo, perto dos enlatados. O próprio homem segura uma lata de extrato de tomate, mas não está virado para as prateleiras como um cliente comum.

Olhando direto para Glam. E Dee, por adição. Ele sabe. “Ele”? Nunca viu este homem na vida; embora talvez possam ter se cruzado na rua, não é como se Glam se desse ao trabalho de decorar todos os rostos por quem cruza.

Há um nome. Ele sabe o que é, estudou sobre o assunto. Delírios de perseguição. “Não é paranoia quando realmente querem te pegar” parou de funcionar há décadas.

Quando finalmente consegue parar de olhar, a posição na visão periférica muda novamente. Agora o homem parou de olhar, até está com o rosto realmente direcionado para a lata na mão, mas a mão livre mostra o dedo do meio. As rugas parecem se multiplicar e derreter, deformando a humanidade, mas a posição do corpo permanece inalterada.


É hostilidade. Glam quer revidar, mostrar que também sabe ser perigoso, mas aprendeu há muito tempo que causar uma cena não ajuda.

— Dee, aquele senhor segurando o molho de tomate... está me mostrando o dedo do meio?

— Não, pai.

É como tentar encontrar som debaixo d’água. Precisam acabar isso logo e voltar para a pousada.

— Entendi, tudo bem.

Foco, uma linha de pensamento segura que não pareça remeter à desfragmentação da realidade.

— Se eu começar a vomitar, vai precisar prestar atenção na cor. O rebote vai fazer meu estômago começar a produzir ácido clorídrico como uma usina desgovernada; se a mucosa falhar, o sangue aparece. Vermelho-vivo é um rasgo no esôfago pelo esforço. Se parecer borra de café, é sangue digerido pelo ácido estomacal. Para ambos os casos, o hospital deixou de ser uma opção para ser o único destino viável.

Glam consegue dar palestras. Como a visão começou a pregar peças, parou de prestar atenção nos dados que obtém visualmente, apenas resignando-se ao mínimo de saber para onde está indo e se manter perto do filho. Com todos os itens de que consegue lembrar no carrinho e a pressa de se isolar em um quarto aumentando de intensidade, olhos de outras pessoas o acompanhando de todos os lados, curiosos murmurando e sussurrando sobre a aberração no caminho e...

Bipe, bipe

Uma poluição sonora e ambiental completamente desnecessária. Inspirar pelo nariz, expandindo as costelas; expelir o ar com o diafragma. Durante quatro segundos. Repetir, sequencialmente. Hiperventilar não vai ajudar.

Os pulsos doem, e não sabe se é uma queixa real ou psicológica, mas sabe que, se olhar por muito tempo, os cortes vão reabrir e sangrar como se fossem recentes. Bipe, bipe, bipe

— Pai, você está em algum risco imediato? Tipo, nos próximos dez minutos? — Glam olha para baixo. Dee estava em seu espaço pessoal, mas sem contato visual. Apenas comentando, sem fazer alarde.

— Ainda tenho algumas horas de estabilidade autonômica, Dee — diz, tomando cuidado com o som da própria voz. A expressão neutra, os ombros relaxados. A linguagem corporal vulnerável atrai predadores; é bom senso.

Não se deve parecer assustado ou intimidado. Embora esteja mais frustrado e irritado do que realmente com algum medo, é um inconveniente que aprendeu a esperar desde sempre. Nada aqui é uma surpresa, apenas é estúpido e irracional.

É barulhento. Apenas barulhento.

Poluído, em todos os sentidos da palavra. Bipe, bipe, bipe...

— No entanto, a frequência de 2 kHz destes bipes é poluição sensorial desnecessária.

— Neste caso, quer me passar o dinheiro e esperar na porta? — Dee sugeriu, mas já moveu a mão para pedir pelo maço de notas que Glam segura dentro dos bolsos.

Há um segundo de hesitação. Ele definitivamente odeia a desconfiança que aparece instintivamente ao ser cuidado; mais ainda porque o papel de “cuidador” deveria ser dele.

É apenas seu modulador de pensamentos defeituoso o estressando por motivos inúteis. Um fardo. Um peso desnecessário atraindo a atenção por nada.

Caminhar sobre seringas desencapadas e contaminadas, em que cada movimento é apenas uma nova forma de se machucar.

— O volume ambiental é menor. Finalizo a transação e levo o carrinho pra você.

Do que adiantou tanto tempo se mantendo estável se apenas algumas horas de abstinência colocam tudo a perder? Não dá para lutar, ele sabe disso. Deveria pelo menos ter a decência de não contaminar seus filhos com sua bagunça epidêmica. Estragar apenas o próprio futuro não é o suficiente, Sebastian?

Bipe

— Ajuste tático aceitável, Dee. Verifique o troco; estarei no quadrante externo, à esquerda da entrada.

Antes de fazer alguma coisa que não consiga reverter, Glam apenas entregou o dinheiro, deu meia-volta e foi para a saída em passos apressados. A mão esquerda se fechou rapidamente no pulso direito, começando a esfregar o tecido das pulseiras na pele. Não está grudando, não tem sangue. Mas dói, dói como se fosse recente.

É pele em decomposição, apenas assumindo sua verdadeira forma.

Impulso nervoso agitando seus movimentos. Sente cada comando ou pensamento enxameando suas emoções e sem dar espaço para planejamento sequencial. É barulhento, tão barulhento. Nunca quieto; é tão frustrante...

Umidade. Cheira a terra e grama molhada. No tempo em que se focaram em comprar mantimentos, um chuvisco começou a cercar a cidade com uma brisa fresca, afastando o calor do interior do mercado e da movimentação humana.

É como um segundo raro de silêncio, as pontas de seus dedos gelados tocando a própria palma da mão quente. É contraste térmico. Foi acidental, mas funcionou bem o suficiente.

Foca em respirar conforme encontra o lugar em que falou que estaria para o Dee, parando perto de um poste, facilmente visível. Respiração diafragmática e nasal, ritmada. Estressar-se não muda a sequência de eventos.

O som da chuva é quase suave em comparação com a baderna da convivência humana; há algo poético em observar a água cair. Um pingo por vez, suavemente, sem causar dor a ninguém. Repetidamente, respingando em seus ombros e suéter.

Sempre gostou bastante de chuva. O efeito de isolamento sensorial e sonoro, quase te fazendo acreditar que é o único ser existente no mundo. Ele... foi embora em um dia de chuva, não foi?

— Pai? Podemos ir agora.

Gustav estava gritando lá atrás. Ele começou com aquele tom contido e autoritário, mas era óbvio demais que não tinha volta. Alguma coisa sobre ser um bastardo ingrato, uma cadela desonrada, o fardo de que ele se arrependeu de manter vivo por tanto tempo. “A ralé ou a família”, ele disse.

É divertido de lembrar. Teria morrido se tivesse voltado, com certeza. Sobreviveu por tanto tempo apenas graças ao orgulho hipócrita do pai — os antipsicóticos da época o teriam lobotomizado em vida, embora talvez Gustav tivesse conexões o suficiente para realmente conseguir um médico ilegalmente apenas para silenciá-lo de vez. Mas tudo isso incluía admitir que Sebastian era um erro, um erro de Gustav. Teria que olhar para seus colegas de elite e admitir que fez um filho defeituoso e inútil.

Nós vamos encontrar um médico que conserte esses defeitos que tem em sua cabeça, huh? Provavelmente foi o parágrafo no qual fantasiava espancá-lo com um taco de beisebol. A autopreservação falou mais alto, não foi? Naquele tempo... Gustav tinha realmente começado a ter medo dele.

Mas foi o orgulho do homem que salvou Glam no fim do dia. Porque, obviamente, ter seu filho preferindo morar em um trailer e consertar lixo do que voltar para casa é um golpe de reputação enorme. Fingiu que Sebastian nunca tinha nascido, e foi a melhor coisa que recebeu do pai em toda sua vida.

— Estava chovendo bastante antes... quando eu saí de casa — menciona, apenas porque os pensamentos parecem lentos depois de muito tempo. Quase pacífico, é uma lembrança crua e quase sem alteração.

Os pingos não eram tão finos. Ficou encharcado até o último fio de cabelo; o som dos respingos no asfalto e cascalho eram a única coisa minimamente perceptível depois que parou de correr. Um universo inteiro, só dele.

Era miséria e hipotermia, mas, de alguma forma, foi a melhor sensação que já evocou em toda a sua vida.

— Foi bom. Não precisei andar muito para os gritos de Gustav desaparecerem.

Movimento. Seu braço é puxado levemente pela manga, atraindo um pouco da necessidade de reorientação. Ali, seu filho. As sobrancelhas e queixo tensos, enrugados; lábios finos e brancos enquanto reorganiza a expressão no rosto.

— Pai, sou eu. É o Dee. O carrinho está pronto e precisamos voltar para a pousada agora.

Claro.

Glam fecha os olhos, afastando a névoa com um balançar suave da cabeça. O corpo obedece, mas é quase como controlar um robô. Assistir a um filme em uma sala de cinema, longe de todos os impactos reais.

— Você está certo, vamos.

É apenas ficção. Glam se move para perto do carrinho, agarrando a barra para empurrar, mesmo que Dee esteja fazendo todo o trabalho. É desconforto térmico, ancoramento sensorial. Torna mais fácil continuar andando, tentar afastar as lembranças e interferências.

Ainda assim, não é difícil enxergar os pingos de chuva um pouco mais grossos, a roupa pesando um pouquinho mais. Com o ambiente um pouco mais escuro e ofegante. Estava... voltando para casa, sim. Foi um pouco antes do ultimato.

Qual é mesmo o objetivo? Deveria voltar, se secar. Se recompor. Não é adequado voltar para casa tão eufórico; desconfiariam de imediato. Ele não pode perceber, então precisava de uma desculpa adequada. Uma mentira, apenas para manter o pai longe de seu rastro.

Como foi mesmo?

— “Como foi o ensaio, filho? Foi bem. Tocamos Mozart.”

Ele balbuciou, quase sem emitir som. É uma coisa estranha de se lembrar. Nunca precisou continuar com essa história.