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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Series:
Part 2 of Estabilidade química , Part 1 of Geometria do Caos
Stats:
Published:
2026-01-11
Completed:
2026-02-24
Words:
102,301
Chapters:
5/5
Comments:
2
Kudos:
24
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1
Hits:
600

Geometria do Caos

Summary:

Tudo estava perfeitamente planejado. Glam planejou tudo: O mapa de papel que não pode ficar fora do ar, e todas as variáveis que poderiam dar errado.
A primeira turnê universitária de Dee deveria ser um empolgante passeio em família. Tudo correu bem, até um esbarrão banal deixar Glam sem sua medicação vital no meio do nada.
Agora, é uma corrida contra o tempo para navegarem em uma realidade onde Glam se torna o epicentro de uma tempestade biológica.
Ano: 2023

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Chapter 1: Variáveis fora do mapa

Chapter Text

Glam calcula milimetricamente como colocar as malas no porta-malas do carro. A maleta de remédios vai no banco de trás, fácil acesso, para qualquer emergência. A bolsinha com os carregadores de celular, tablet e fones de ouvido vai embaixo do banco. Os travesseiros vão no banco de trás, junto das crianças. Roupas, livros, instrumentos e brinquedos devem ir no porta-malas.

— Heavy! Se você não estiver neste carro nos próximos segundos, eu vou te levar no capô! Amarrado! Com fita adesiva! — Victória grita, saindo de casa com uma caixa térmica gigante, contendo as bebidas e lanches para a viagem.

Encaixou uma maleta pequena na fresta entre duas grandes. Glam inclinou a cabeça para enfiar o estojo no ângulo exato para que não acabasse danificado. É satisfatório e o faz permanecer alegremente indiferente à sua família barulhenta acordando os vizinhos com gritos.

— Mãe, onde tá meu tênis!? — Heavy gritou lá de dentro. Vicky soltou a caixa térmica no chão do banco do passageiro com um estrondo, vermelha e furiosa.

— Eu juro que se eu for aí e achar, vou fazer tu engolir! Desce logo!

Felizmente o carro tem bastante espaço. Glam fecha o porta-malas com um estrondo suave e vai para o banco da frente verificar o conteúdo do porta-luvas: carteira de motorista, documentos do carro, documentos de identificação deles e das crianças… Alguma papelada que pode ser útil, um maço de dinheiro em real, dólar e rublos, só por via das dúvidas.

— Tô aqui, mãe! — Aparentemente, Heavy finalmente se dá ao trabalho de descer as escadas. Tropeçando.

— Heavy, que porra é essa? — Vicky parece estupefata por um instante. Glam para para verificar o que está acontecendo: Heavy está com dois tênis diferentes. Um vermelho e um verde, os dois são para o pé direito.

— Pô, você me apressou! A gente vai ficar sentado mesmo…

— Eu juro por Deus, vai trocar essa merda antes que eu te esgane…

Dee passou por eles. Cabelo penteado para trás e enrolado em uma trança. Mais alto, a maquiagem e as unhas impecáveis em preto e cinza, com uma pasta fina e mochila. Ele ignora Vicky e Heavy gritando na porta de casa e vai direto até o carro.

— Olá, Dee. — Glam cumprimenta enquanto Dee entra no banco de trás, voltando a conferir os papéis. Sua carteira tem os cartões de identificação e receituários para emergências.

— Eu disse que podia ir de ônibus, sozinho. Como qualquer pessoa normal. — Com a expressão de puro sofrimento existencial. Glam realmente acha fofo, mas oferece um ramo de oliveira com um sorriso.

— Pode escolher a primeira música.

— A faculdade é chata pra caramba, quem liga pra sapato? — Heavy argumentou. Vicky resolveu sair da base do argumento e simplesmente gritar até assustá-lo para subir as escadas correndo.

— Tão barulhento — seu mais velho reclamou, revirando os olhos. Colocou os fones de ouvido e provavelmente ignoraria a família pelo resto da viagem, exceto no momento de escolher a primeira música. Provavelmente algum rap alternativo. Mas se Heavy reclamar da escolha, será música Pop genérica, porque ele pode não gostar muito, mas Heavy sempre odeia, e irmãos agem assim.

Glam senta no banco do motorista, acabando de guardar os documentos para abrir um quadrado minúsculo de papel em várias partes, revelando um mapa realmente grande. Afinal, mapas não perdem o sinal e nem te distraem enquanto dirige. Traçou o caminho pela décima vez naquele dia, planejando conforme tempo e locais de parada. Vicky entrou do lado do passageiro, bufando.

— Esse moleque… A próxima parada fica a quatro horas e, se pegarmos trânsito, alguém vai se machucar aqui.

— Claro, querida. Não se preocupe, ainda temos tempo.

Glam se planejou cuidadosamente desde que a viagem se tornou um tópico de mesa — Dee está quase se formando e tem uma lista de faculdades e internatos em que pode querer entrar. Um pouco longe demais de casa para seu gosto, mas se é o que ele quer, não vai protestar. Cada parada ou variável possível está marcada atrás do mapa. Planos de contingência sobre planos de contingência para que a pequena viagem fosse um sucesso.

Heavy corre para fora de casa. Lembra-se de fechar e trancar a porta só quando já está quase entrando, então dá meia-volta, no mesmo pique. Volta para a fechadura, gira a chave, a guarda no bolso e corre de volta para o carro.

— Só não perde a cabeça porque tá grudada no corpo — Vicky resmungou.

Glam move cada dedo individualmente para checar a própria coordenação motora antes de realmente dar partida no carro — precisou tomar os remédios um pouco mais cedo para dar tempo de o seu corpo estabilizar antes de realmente precisar dirigir. Heavy empurrou a caixa térmica para o meio do piso do carro para que pudesse posicionar as pernas adequadamente. Dee olhou para o irmão e perguntou:

— Esta camisa é minha?

— Cinto — interrompeu, sorriso agradável e feliz. Glam colocou o próprio cinto com um clique rítmico. — Dee, me passe uma garrafa d’água, por favor.

— Não — o adolescente respondeu, mas ainda entregou a garrafa obedientemente em suas mãos. Dizer “não” é mais um hábito e não uma declaração no contexto dele.

Glam checou o retrovisor, passou o mapa para Vicky e o carro começou a se mover, apenas o som suave do motor preenchendo o ambiente.

— Então, qual playlist vai ser? — Heavy perguntou alto.

Dee sorriu, como o próprio Glam. O filho mais novo reclama, empurrando um travesseiro para o lado de Dee. Pela reação de Heavy, provavelmente vai ser My Little Pony.

De toda forma, a playlist deles está misturada e tocará aleatoriamente depois que escolherem o ponto de partida para não haver nenhuma guerra de comida dentro do carro. Glam ignora o caos residual para focar adequadamente no trânsito e ambiente.

Asfalto corria sob as rodas em um ritmo hipnótico. A playlist da família acabara de saltar de um death metal nórdico para um remix pop de “Lambada”, para profundo desgosto de Heavy. Apesar do drama, ainda sabia a música decorada.

Apesar do caos inicial, depois de duas horas, Vicky já estava quase entregue ao sono e Dee não fez questão de manter a conversa, olhando para as próprias unhas e parecendo pensativo. O seu alarme do celular tocava vez ou outra e era quando pedia que um dos filhos lhe passasse a garrafa d’água. Há uma pilha de garrafas vazias gradualmente sendo empilhada em um saco plástico entre os bancos.

— Pai, estamos chegando? — O único ativo era Heavy, fazendo perguntas para o resto da família aleatoriamente.

— A primeira faculdade fica a seis horas daqui.

— Dee, por que escolheu cursos tão longe? O que vai fazer se não tiver Wi-Fi? — Ele mudou de alvo. Dee nem se deu ao trabalho de responder, ajustando o fone de ouvido justamente para não deixar o som entrar.

A primeira reação visível do mais velho só veio quando, meia hora depois, o sinal de internet baixou um único indicador — por isso Glam usa papel. O papel não tem sinal ruim. Heavy aparentemente estava empurrando o banco de Victoria com os pés enquanto cantava a plenos pulmões uma estrofe da música.

— Heavy, se você chutar meu banco mais uma vez, eu vou te jogar pela janela sem parar o carro — a voz de sua esposa ecoou, interrompendo o pequeno show. Heavy parou por alguns segundos, pensativo, então:

— Pai, eu quero ir ao banheiro.

— Não foi antes de sair de casa? — Vicky pareceu acordar, olhando para Heavy pelo retrovisor.

— Você ficou me apressando, o que acha?

— Quem te ensinou a responder assim? Tá perdendo o amor à vida.

Glam viu uma placa indicando a entrada de uma cidade. Consultou o relógio no painel e o mapa mental que traçara, pacientemente. Sinalizou e trocou de faixa para pegar a primeira entrada para um posto de gasolina.

— Parada técnica, então. Cinco minutos para cada. — Seu celular começou a bipar no painel do carro. Glam desligou o alarme com um movimento. — Dee. Beba água também, hidratação ajuda na clareza mental — solicitou, a voz polida e constante.

A necessidade de Glam de se hidratar para que os medicamentos não atingissem um nível tóxico em seu organismo, e de Dee, o qual esquecia de comer ou beber água por pura distração, tornava a interação dos dois muito mais pontual e constante. Não havia espaço para questionamentos. De qualquer forma, ele também precisa. Beber muita água exige seu preço.

— Podemos comprar algo para comer, Vicky. Estamos três minutos adiantados. — Isso de acordo com seu planejamento ansioso, que prevê que cheguem ao seu destino com tempo de sobra para comer e tirar conclusões sobre a cidade e a faculdade. O que é umas duas horas antes da entrevista agendada com um representante comercial que vai mostrar o lugar.

Vicky bufou, olhando para Glam com os olhos semicerrados de sono.

— Você também precisa, não é? — Afinal, Victoria não gosta de paradas. É um fato conhecido dos dois há muito tempo. Glam confirma com a cabeça; ela olha para as garrafas vazias na sacola antes de bufar, rendendo-se. Resmungou algo sobre homens e sua incapacidade de segurar o xixi. É particularmente divertido. Heavy começou a parecer angustiado, pulando no lugar.

Glam manobra, estacionando o carro em uma vaga perto do posto. Espera todos saírem antes de fechar o carro. Alguns minutos depois, o sino sobre a porta da loja de conveniência tocou — um tilintar metálico e oco —, anunciando a entrada da família no ambiente saturado de cheiro de café requentado e gordura velha.

— Precisamos comprar água. As crianças podem pegar uma guloseima cada, desde que não sujem o carro. Vai querer alguma coisa, Vicky? — Glam foi na frente, tomando atitude quanto às necessidades da família.

— Eu quero aquele salgadinho — Heavy apontou para um saco em uma das estantes.

— Nem fodendo, você derruba ele no carro inteiro, Heavy. Se eu sentir cheiro de chulé no estofado, você vai limpar essa merda com a língua — Vicky latiu, antes de se virar para Glam com um suspiro. — Vou lá fora fumar e colocar um pouco de gasolina.

Interessante como o vício opera — Glam não pode fumar, ou tomar café, bebidas alcoólicas, nem selecionar um antialérgico que funcione sem considerar sua medicação e os efeitos colaterais; Vicky sabe disso, então, desde que começaram a namorar, ela começou a fumar exclusivamente fora de casa e em ocasiões dispersas, mesmo que a fumaça residual não seja um grande problema.

— Inteligente, querida. Nos encontramos no carro, então?

Dee não parecia muito interessado em nada, acomodando-se em uma das mesas vazias enquanto esperava a família. Heavy parece interessado em um dos salgados do painel em cima do balcão, então Glam o pede, junto a duas latinhas de refrigerante para as crianças. Também embrulha uma coxinha e um sanduíche de carne para entregar para Vicky quando saírem. Ela só está mal-humorada porque uma viagem com muitas pessoas costuma exigir muitas paradas não planejadas.

Ele vai para a mesinha redonda perto do filho, entregando o salgado que escolheu e uma das latinhas. Dee olhou para ele, desinteressado.

— Não estou com fome.

— Você nunca está com fome — Glam corrige. — Você quer falar sobre o que te incomoda?

— Sinceramente, não.

Glam dá de ombros, chamando Heavy para se sentar. Do lado de fora, Vicky acendeu um cigarro e foi falar com o frentista. Ao invés de obedecer, Heavy pareceu entretido o suficiente tentando pegar um pacote de batatas de uma prateleira alta. Logicamente, o único que ele vai alcançar causará um efeito avalanche desagradável. Ele se levanta, indo atrás do filho — com treze anos, Heavy já tinha crescido bem, mas Glam é anormalmente alto e o filho ainda é o mais baixo da família. Portanto, com uma casualidade natural, Glam simplesmente o segura por debaixo dos braços, levanta e o leva para a mesinha onde Dee estava.

— Coma rápido, antes que Vicky se estresse — repreendeu, empurrando o salgado para seu lado.

— É sério, pai? Eu não sou uma criança — ele reclamou, provavelmente mais constrangido por ter sido pego no colo como um bebê.

Dee riu. Glam olhou para ele, para o salgado intocado e de volta para ele novamente, o que fez o filho finalmente entender o sinal de que não sairiam enquanto ele não comesse pelo menos uma mordida. Talvez seja parte do motivo pelo qual ele quer sair de casa. É um ponto de vista interessante. Vai ter que ligar para ele quando finalmente entrar na faculdade, algumas vezes ao dia, para lembrá-lo de comer. Ele confia no filho o suficiente para saber que não morreria de inanição, mas é um hábito seguro. De qualquer forma, se conseguiu esperar até a maioridade antes de sair de casa, já é um ponto positivo em comparação ao próprio Glam. Ele deve estar fazendo alguma coisa certa.

— Dee, você vai levar aquela tralha toda do seu quarto pra universidade? Eu posso usar seu quarto pra jogar?

— Não, você não vai usar meu quarto.

— Cê vai continuar com o teu “negócio”? Imagina a cena: o gótico sendo preso no primeiro dia por tentar invadir o sistema da faculdade e alterar as notas. — Oh, sim, isso.

Claro, ele sabe que Dee tem um negócio semi-ilegal vendendo cola, atividades feitas e alteração de notas para os colegas. Parece um ponto de preocupação válido se for um ambiente novo, principalmente com ele alcançando a maioridade e podendo legalmente ser preso ao invés de simplesmente advertido. Seria prudente ser discreto. Glam não consegue encontrar uma forma de repreendê-lo pelo negócio sem soar profundamente hipócrita — a sua guitarra favorita ainda é, tecnicamente, produto de um roubo de Ches na época do conservatório e eles têm uma oficina ilegal na garagem. Não porque ele não tenha todos os cálculos do imposto de renda encadernados e o dinheiro reservado para o assunto guardado. Mas porque, toda vez que algum inspetor federal passa para ver o assunto, acabam se assustando com um dos membros da família e fugindo.

— Ninguém vai me prender se tu não abrir este esgoto que tu chama de boca — Dee sibilou para Heavy, alterado.

— Então tu tá admitindo que é ilegal! — Pelo som e movimento embaixo da mesa, Glam imagina que Heavy chutou Dee. — Vou contar pra mãe que o “filho gênio” dela é um traficante de nota!

Glam tomou um gole de seu suco. Dee olhou para ele cautelosamente antes de voltar para o próprio salgado — deu cerca de três mordidas e o comeu pela metade. Bom o suficiente para ele. Vai embrulhar e deixar no carro.

— Mantenham o nível de decibéis controlados — repreendeu, apenas ciente dos olhares dos poucos clientes e funcionários passando. Heavy amassou uma bolinha de guardanapo e a jogou diretamente entre as sobrancelhas de Dee. Ele provavelmente deveria intervir.

— Ops, caiu — Heavy riu, eufórico. — Dee, você vai levar seu delineador? Ou vai economizar, agora que tá por sua conta? Cê pode usar carvão!

— Eu juro: no momento em que me mudar, vou bloquear teu número e fingir que sou filho único — Dee pegou a bolinha de guardanapo no canto da mesa.

— Mas então, quem vai te lembrar que tu é um esquisitão? Admite, você me ama. Sem mim, vai acabar virando um daqueles velhos que falam com as paredes.

Certo, já chega.

— Heavy. Acabe de comer, agora. — O tom de voz mudou. As coisas iriam começar a ficar mais sérias e não estavam nem no meio da viagem. — Silêncio.

— Pelo menos as paredes não ficam me chutando… — Dee resmungou. Glam olhou para ele, então o filho baixou o olhar, terminando seu suco obedientemente.

Ótimo.

Voltaram para o carro em menos de dois minutos. 


Glam continuou dirigindo até a Cidade Universitária. O campus da primeira universidade atendia aos seus critérios básicos — o gramado é limpo e aparado. As plantas não parecem ser tóxicas e os prédios são de tijolos, o que dá um ar rústico e individual. Glam nunca frequentou uma faculdade. Ou terminou o ensino médio — fugir de casa enquanto ainda menor de idade faz isso. Apostou tudo na música.

Assim que estacionou, seu mais velho saiu do carro, sem esperar o motor esfriar — ajustou a pasta fina sob o braço, que devia conter seu tablet e papéis que julgou úteis. Glam não se importou, tomando seu tempo para observar as coisas pacificamente. Há alguns estudantes andando, inclusive um que estava entregando panfletos informativos.

— Olha esse pessoal, Glam. Um bando de playboy. É bom o Dee não começar a usar drogas indo pra longe de casa — Vicky comentou, olhos semicerrados enquanto esperava Heavy sair para fechar o carro. Dee já estava a uns bons cinco metros, mas andando em rumo ao prédio principal. Para o auditório.

— O refeitório é grátis? — Heavy perguntou. Não esperou a resposta antes de correr em direção a Dee, cumprindo seu papel de caçula. — Dee, tem tanta gente estranha aqui! Olha — apontou descaradamente para alguém de óculos e que parecia inteligente. — Ele vende dever de casa também ou é só um nerd comum?

Dee acelerou o passo, tentando deixar Heavy para trás.

— Se alguém vier de gracinha, eu… — Glam interrompeu Vicky, colocando a mão em seu ombro brevemente antes que ameaçasse os jovens.

— Vai ficar tudo bem. — Ele sorriu. Vicky corou.

Os apoios do prédio pareciam sólidos. Glam tirou uma fita métrica e um transferidor dos bolsos para checar o ângulo da base. Assim que chegaram na parte coberta, havia um estande com barraquinhas de vários alunos divulgando seus cursos e formações. Dee passou direto e entrou no auditório. Heavy finalmente foi despistado, cativado por uma mesa do curso de Gastronomia com aperitivos feitos pelos alunos.

Glam foi para uma mesa com algumas maquetes do curso de Arquitetura. O material é de qualidade, mas a proporção de tamanho de casa, prédio e árvore está errada. Uma coceirinha no cérebro o induz a consertar, mas este não é um trabalho dele. Faz muito tempo que não constrói maquetes.

— Gostou do curso de Arquitetura e Urbanismo, senhor? — Um veterano o viu e começou a conversar sobre a importância do curso.

— Se a escala é de um por cem, estas árvores teriam trinta metros de altura. Não é um projeto urbano, mas uma floresta pré-histórica em um centro comercial. — Simplesmente não obedece à lógica funcional; é incômodo. Ele apontou para outra. — A proporção da via de rodagem e o passeio público ignora o fluxo humano. Dois pedestres não poderiam cruzar o caminho sem uma colisão física. É uma falha aritmética de convivência.

Ele riu, tentando soar amigável e falhando, porque agora sua cabeça continua recitando as ofensas que estes modelos amadores estavam cometendo.

— O ângulo do bloco ignora a incidência solar. Em um ano, a face Norte estará coberta de fungos por absoluta negligência geométrica. Eu não entendo o que estão ensinando neste curso…

Ele pega o guardanapo para rabiscar um cálculo.

— Se o tamanho na maquete for cinco centímetros, o objeto real deveria ter quatro metros. — Ele rabiscou a conta simples, entregando-a para o veterano com um gesto gentil. — A precisão é o único alicerce que impede a arte de se tornar um amontoado de entulho.

O veterano tem um sorriso rígido. Por algum motivo, o estudante olha diretamente para Victoria e não para ele. Então, quando Glam olhou para a esposa, viu-a gesticulando o movimento de “corte” com o polegar na garganta. O rapaz parecia pálido.

— Claro, senhor… — o estudante gaguejou lentamente, entre dentes. Um coordenador passou, olhando para a interação com curiosidade. Terno limpo e de cor bege, cabelo grisalho e óculos.

— Interessante. Os alunos do quarto período levaram semanas para perceber a falha da cobertura vegetal, mas o senhor a identificou em tempo surpreendentemente hábil. Trabalha na área?

Glam inclinou a cabeça. O homem é polido e amigável, então mimetizou o mesmo comportamento.

— Apenas estou zeloso com a educação do meu filho… Embora aprecie o rigor técnico-profissional.

O coordenador estendeu a mão para um aperto formal.

— Doutor Aris, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Ensino na área de Restauração.

Heavy deu alguns passos para frente, olhando a interação com curiosidade.

— O urbanismo da faculdade prevê lugar para esconder cadáveres?

"Um cadáver é uma variável biológica instável que exige gerenciamento de resíduos, controle de odor e isolamento técnico", pensou Glam. É uma pergunta interessante: como esconder um cadáver em um projeto urbanístico? O processo de decomposição gera gases, o que pode causar microfissuras estruturais ou alterações químicas no solo ao redor da base. Considerando o próprio prédio como um alvo, a circulação de ar espalharia o odor de putrefação por todo o bloco administrativo em menos de dois dias, o que seria inaceitável.

Glam olhou para o teto e para a maquete, deixando a interação humana de lado por alguns instantes. Vicky repreendeu Heavy com um tapa na nuca, fazendo-o reclamar abertamente. Provavelmente seria melhor selar em um local isolado — entre paredes estáveis, baixa variação de temperatura e interação com o ambiente. Só precisaria de polímeros de alta aderência. O corpo permaneceria indetectável até a próxima reforma estrutural.

O Doutor habilmente ignorou a pergunta, mas Glam se virou para o filho, expressão calma e analítica.

— Heavy — a voz soou calma e constante, como seda. — O Urbanismo se ocupa em dar vida às cidades e manter o fluxo funcional da civilização. O que você sugere pertence à Patologia Forense ou à gestão de resíduos biológicos.

O Doutor hesitou um pouco, recolhendo a mão e rindo de forma curta e nasal. Incerto.

— Ah, sim… Muito perspicaz, senhor…? — O Doutor limpou o suor com um lenço.

— Ah, é Glam. Sou professor de música. — Ele sorri. O Doutor tateia rapidamente o próprio paletó e puxou um cartão de visitas.

— Se o seu filho decidir por nossa instituição… bom, certamente prestaremos atenção no comitê de seleção. Adoraria discutir mais em uma situação menos… apressada.

Glam aceitou o cartão, pegando-o entre os dedos.

— Claro. Vamos entrar agora.

O auditório é grande. Ar-condicionado configurado em 22 ºC, o que parece adequado para manter o cérebro alerta. Dee havia se sentado na última fileira e estava imerso, com o tablet no colo, prestando muita atenção no conteúdo da tela. Em um ato de misericórdia, Glam escolhe o meio da fileira para se sentar, deixando várias cadeiras livres entre eles. Adolescentes costumam gostar de privacidade, e o limiar social do filho parece especialmente baixo, então é melhor dar um pouco de espaço. Há um certo volume de outras pessoas, principalmente pais ansiosos e jovens entediados.

Parece suficientemente limpo. Os alunos que parecem participar da apresentação sobem e descem do palco, tratando de seus problemas independente do público e com informações sussurradas. Um dos guias está com a pupila dilatada e inquietude motora, uma provável privação de sono ou excesso de cafeína. Talvez os dois. Precisa verificar o isolamento acústico dos dormitórios. O comportamento errático de terceiros poderia prejudicar sua saúde em algum momento. Há um extintor visível e perto do palco, fácil de acessar. Os protocolos de proteção contra incêndio parecem sem impedimentos. Ergue a cabeça para verificar Dee, ainda na exata mesma posição.

Fez o que conseguiu para explicar a alta complexidade da própria biologia, mas o medo da predisposição familiar é uma nota dissonante de seu concerto mental. Teve o azar de herdar todos os problemas dos pais, enquanto Lydia saiu perfeitamente normal, o que, em um dado momento de sua história, causou muita raiva.

Vicky pareceu rosnar e ameaçar com o punho alguém que passou. Glam percebe uma pessoa mais velha desviar o olhar e acelerar para outro lugar.

— O que aconteceu?

— Estavam olhando o delineador do Dee — Heavy respondeu, do seu lado. — A mãe é tipo uma guarda-costas.

— Vou mostrar a bendita restauração que vão precisar fazer se ficarem buscando gracinha… — Victoria resmungou, rosto enrugado de raiva e o tom um pouco mais baixo. Glam buscou sua mão, acariciando-a com o polegar.

O reitor sobe no palco e começa a falar. São todas as informações do panfleto, embora delibere um pouco mais. Glam faz anotações mentais sobre o ritmo e sua interação com os estudantes: a maioria parece privada de sono e ansiosa. Realmente espera que Dee não desenvolva muitos maus hábitos; o jovem adulto tende a se achar invencível.

— Se as aulas forem aqui, o Dee vai morrer de tédio até o segundo semestre! — Heavy reclamou, em voz alta, atraindo alguns olhares. Glam o cutucou, sem falar, mas apontando para a própria boca no gesto universal de silêncio. Vicky sinaliza fechar a boca com um zíper, mas depois sussurra para Glam, em voz muito mais baixa:

— Esse cara fala demais. É muita ladainha pra uma coisa que já tá escrita.

Ele não responde, acariciando a mão dela com o polegar. É interessante, informativo até. Glam quer fazer perguntas, mas provavelmente vai ter tempo depois.

— Agora, para que os jovens possam explorar adequadamente, pedimos que sigam nossos embaixadores estudantis. Senhores pais, nos acompanhem para uma palestra sobre segurança, saúde e infraestrutura financeira.

Glam e Vicky tiveram comportamentos opostos, pois Glam se animou. É este o momento que estava esperando. Vicky gesticulou, exasperada, para o ar. Dee levantou, praticamente correndo para o guia do curso que escolheu. Heavy também, e Glam realmente espera que não seja barrado por não estar em idade de se matricular. Ele localiza Dee na fila, apenas fazendo um pequeno sinal com a cabeça. Provavelmente vai se sair bem.

Os adultos foram conduzidos para uma sala menor, mais funcional. Tinha o cheiro estéril de carpetes novos e ar-condicionado em potência máxima. Glam pegou um panfleto informativo que estava na mesa, folheando-o cuidadosamente. Seu olhar passeou pela sala, encontrando os sensores de fumaça e inspecionando a qualidade da vedação das janelas. Razoável. O palestrante projetou um slide na parede oposta enquanto os pais se acomodavam em cadeiras individuais.

— Nossa prioridade é o bem-estar psicossocial. Temos psicólogos de plantão e um sistema de triagem rápida para qualquer intercorrência de saúde… — o palestrante explicou.

Um pouco ineficiente se não houver acesso ao histórico genético. É um pouco preocupante que falem tanto sobre bem-estar com os veteranos parecendo em privação de sono. Provavelmente seria precipitado mandar o histórico médico da família se o Dee acabar por aqui, principalmente sem saber da conduta profissional de cada funcionário do local.

O slide passa para um de prevenção às drogas. Glam já passou essa parte para seus filhos, explicando pausadamente sobre a predisposição genética da família à desregulação dopaminérgica e como usar psicoativos não é apenas uma questão de escolha moral, mas um erro de cálculo químico que as crianças poderiam não saber controlar. Depois, Dee teve que traduzir para Heavy em termos simples: seu cérebro pode fritar se você for estúpido.

Glam explicou o máximo que podia assim que fizeram onze anos, para que não chegassem à adolescência desinformados. Inclusive problemas de saúde e sintomas para se ficar atento. A faculdade é só outra variável. Previsível.

— Glam. As câmeras do corredor têm muitos pontos cegos. Não gosto disso — ela sussurrou, a voz rouca e baixa. — Os seguranças só vão limpar os restos se rolar briga.

— Eu notei — ele respondeu, então passou para outra página do panfleto, a de prevenção e combate aos incêndios. — O sistema de combate a incêndio usa gás inerte nos laboratórios de química. É um investimento considerável em preservação de patrimônio.

Há uma tensão invisível começando a nascer na base do pescoço. Ele olhou para o relógio na parede, fazendo os cálculos mentais necessários: o propranolol da manhã estava começando a perder a curva de pico. Discretamente, juntou suas mãos, um dedo entrando debaixo do bracelete para sentir o próprio pulso. Não gosta de usar aquele relógio inteligente porque exige o contato com a pele do braço e não cobre completamente suas cicatrizes. As pessoas perguntam muito. Não se importa de responder algumas vezes, mas é uma interação desgastante, já que na maioria das vezes não se lembra do que realmente as causou — seu cérebro apagou preventivamente a maior parte do tempo em que viveu com o pai antes de fugir de casa.

Cerca de 78 bpm, não sente sede. O corpo não está colapsando, mas Vicky vai ter que dirigir no próximo turno. Qualquer espasmo muscular pode ser desastroso segurando um volante.

Exatamente às onze e meia, a palestra se encerrou. Assim como o informado no panfleto. Uma satisfação genuína que realmente o deixou de bom humor. Saíram da sala de segurança e prosseguiram para encontrar os meninos no pátio central.

— Vamos precisar alertá-lo sobre os pontos cegos das câmeras se ele vier. Também, a triagem psicológica não deve ser muito eficiente. A segurança e infraestrutura parecem adequadas, embora pareça haver falta de tempo de reação; os alto-falantes têm alcance menor no prédio dois… — divagou, pensativo. É razoável, mas não impecável. Victoria não respondeu, uma vez que Glam só precisava organizar os pensamentos. Os meninos estavam de pé perto de um banquinho, discutindo sobre alguma coisa.

— Alguém tentou te vender drogas ou te convidar para um culto ou suruba? — Vicky cruzou os braços, indo direto para Dee.

Ele não parecia tão tenso; um pouco satisfeito e sonolento, se muito. Provavelmente vai dormir o resto da viagem. Glam se pergunta se conseguiu romper a segurança cibernética do lugar — se o fez sem alertar ninguém, é impressionante.

— Não, mãe, credo — o garoto pareceu devidamente enojado, ajustando a alça da pasta. — Foi informativo, só isso.

Ótimo.

— Eu comi um bolinho com gosto de papelão! — Heavy anunciou, correndo até Glam. — Pai, a gente vai comer comida de verdade agora? Eu poderia comer um urso!

Dificilmente, mas tudo bem.

— Temos quarenta e cinco minutos até precisarmos sair. Tem um restaurante de serviço rápido em duas quadras que parece ter normas de higiene em dia — tem a localização em mente. — Vicky, você dirige. Te mostro o caminho.

Começaram a caminhar de volta para o carro. Vicky pareceu preocupada por um instante, mas concordou sem fazer alarde. Foi um trajeto realmente curto, menos de dois minutos. O restaurante estava lotado de acadêmicos, executivos locais e famílias em trânsito — o barulho de talheres e conversa fiada formando um ruído estático e desagradável. Glam parou na entrada, olhou para a quantidade de pessoas e mentalmente se repreendeu por não pensar que um restaurante perto da faculdade estaria tão lotado. Ele olhou para Dee, uma expressão um pouco séria enquanto estabelece o protocolo de funcionamento comum novamente.

— Abafadores de ruído?

— Estou bem — Dee terminou de entrar, então Glam não ponderou mais, seguindo Victoria e Heavy em busca de uma mesa livre. Conseguiram próximo do centro do estabelecimento, uma mesa perto da janela com vista para o estacionamento. Esperou enquanto todos decidiam o que queriam antes de seguir para o balcão e recitar o pedido em voz alta, acrescentando acompanhamentos para que todos tenham a dose de nutrientes necessária. Vicky assumiu o papel de interrogadora enquanto Glam revê o caminho que fariam nas próximas horas.

— Aquela loirinha que te deu o panfleto na entrada… parece o tipo que gosta de “caras misteriosos” ou qualquer coisa que a cabeça dela projetou quando criança. Mas mandando a real: vai levar proteção ou me ligar em seis meses dizendo que vou ser avó de uma criança que tem a sua cara de defunto?

Vicky falou em voz alta, gesticulando de forma dramática. Felizmente, sua comida ainda não chegou, porque Heavy começou a rir alto — a quantidade de pessoas no ambiente sendo a única coisa a impedi-los de causar uma cena acidentalmente.

— Mãe! — Dee repreendeu, o rosto ficando vermelho. Heavy não parou de rir.

Glam se lembra de ter a idade dele — de ter chegado à conclusão de que era assexual por não ter interesse real em ninguém. Uma vez quase sentiu algo platônico por Ches, mas só estava emocionado porque foi o primeiro cara que o tratou como ser humano. Então, com vinte e oito anos, acabou conhecendo Vicky — logo após um episódio de depressão graças ao estresse do fim da banda e entrando em estado de mania. Arriscou tudo só para devolver um chaveiro — mas realmente se apaixonaram no hospital depois, então, final feliz.

— E se teu colega de quarto for um daqueles pestes que não lavam a cueca por meses? Eu não criei tu pra ser capacho de ninguém. Tu joga o lixo fora antes de limpar, tá me entendendo? Precisa de atitude nos seus bracinhos de macarrão, atitude!

Os pratos chegaram. Glam sorri para o garçom, indiferente. Dee revirou os olhos, parecendo querer ser engolido pelo chão.

— Eu já entrei num dormitório masculino, cara. Eles são nojentos, deixam a pizza da semana anterior acumulando mofo debaixo da cama, mesmo que cheire mal pra caralho. O chão inteiro vira o maldito cesto de roupa suja, e cheira mal pra cacete. Uma vez entrei num banheiro masculino e tinha um tolete de bosta no chão! Eu achei que era barro, mas era merda; um filho da puta cagou no chão e ninguém se preocupou em chamar alguém pra limpar. E eles sempre mijam em todo lugar, menos no vaso. Seria mais simples simplesmente sentar pra mijar, não é? Mas os filhos da puta deixam o vaso imundo, aí não dá pra sentar… — reclamou constantemente, então Glam colocou o prato dela em sua frente. Ela pareceu mais bem-humorada na hora, pegando um pedaço grande de carne. — Enfim, o que eu quero dizer é que: homens são porcos e você tem mania de limpeza.

Que dia profundamente pacífico. Vicky mastiga um pedaço de carne ruidosamente do seu lado.

— E te contar: seu pai já falou contigo, mas vamos reiterar. Se eu souber que tu fumou um baseado com esses hippies de faculdade e começou a ver duendes, eu mesma te interno em um hospício antes que a polícia chegue, capiche? E tu é inteligente e tudo, mas seu celular não vai te proteger de uma facada, só chamar uma ambulância depois, então anda com um spray de pimenta ou coisa assim. Francamente, não sei como nenhum de vocês sabe brigar direito. Um soco ou joelhada no nariz, garganta ou virilha é o que funciona melhor. Qualquer outro lugar não é bom o suficiente.

Glam mastiga calmamente enquanto o filho parece cada vez mais desconfortável com a intervenção alta e direta de Victoria. São alertas válidos, então ele espera alguns minutos antes de intervir.

— Vicky, querida. Acha que o carro aguenta o resto da viagem? — Ele inclinou a cabeça, gesticulando para o filho comer. O prato de Dee estava intocado desde que chegou. Heavy estava adquirindo um curioso tom de roxo de tanto rir. — Acho que o som parece diferente. Deveríamos aproveitar que paramos para checar se o nível de óleo e água estão bons o suficiente.

— Você acha? Chequei isso antes de sairmos, mas vou dar uma olhada… — Automaticamente, o foco de Victoria se desviou, então Glam continuou no assunto.

— Parece diferente desde o último quebra-molas, fazendo um som mais grave. Talvez seja a embreagem?

Dee parece uma mistura entre aliviado e cansado. Glam o incentivou a continuar mastigando enquanto ele mesmo termina o prato. Ainda tinham dez minutos de manobra quando todos terminaram de comer. O caminho para o caixa era cheio de uma seção de lembrancinhas de viagem realmente fofas, mas fundamentalmente inúteis. Vicky foi para o estacionamento verificar o motor como Glam induziu. Realmente não tem nada errado e, assim que o carro der partida, Glam vai confirmar que o som está normal novamente e que talvez só precisasse esfriar por alguns minutos. Dee foi usar o banheiro e Heavy seguiu a mãe para o lado de fora.

Ele vê, pelo vidro, Heavy entrar no banco do passageiro, acidentalmente derrubando sua maleta de remédios e os travesseiros no chão do lado de fora, do outro lado. Um empurrão descuidado graças a ter aberto a outra porta para retirar o lixo e jogá-lo na lixeira do restaurante. Seu olho treme um pouco, principalmente visto que Heavy saiu apressado para limpar a bagunça e esbarrou em um homem que estava entrando no carro com algumas sacolas de lembrancinhas. O homem reclama, mas Glam não entende o quê. Vicky sai da frente do carro para defender Heavy e, assim como começou, a situação se resolve rapidamente: o homem pegou suas sacolas e o filho jogou os travesseiros e a maleta de volta dentro do carro. Do ângulo em que estava, não podia enxergar o chão perfeitamente, mas o modelo é inconfundível.

Ele paga. Dee está voltando do banheiro, então todos entram no carro. Desta vez, Glam entra no lado do passageiro, abrindo o mapa em seu colo. Vicky dirige consideravelmente mais rápido, mas evita ultrapassagens quando está sem moto. Provavelmente por não ser a única passageira.

— Dee, e se você for o primeiro aluno da história a ser expulso antes da matrícula? Pode entrar em um livro de recordes, não ia ser foda? Sair no jornal: "Aluno invade segurança da escola e é preso antes de uma aula sequer".

Heavy começou a provocar. Dee está com os fones de ouvido e ignorando o irmão mais novo habilmente enquanto tateava o tablet.

— Cale a boca, estou trabalhando — pediu friamente, sem olhar para Heavy. Glam acompanhou a interação pelo retrovisor.

— “Trabalhando”? Tá com medo, cara. Medo do professor perguntar alguma coisa e tu não saber. Aí imagina: "Isso eu não sei, mas posso apagar suas multas de trânsito se me der dez pratas".

Heavy gesticula, então ri demais e dá tapinhas no ombro de Dee, como se estivesse consolando-o de alguma forma. O mais velho moveu o olho lentamente, tirando-o do tablet para direcionar para o mais novo.

— Se não tirar suas mãos de mim nos próximos três segundos, vou apagar todos os dados de jogo que estão no roteador de casa. É uma promessa.

Heavy reagiu tirando a mão, como se tivesse sido queimado.

— Não ousaria, é negligência emocional!

— Isso ou te jogo pela janela aqui e agora. E aí, qual vai ser?

Felizmente, não teve que intervir. O silêncio no carro foi absoluto pelos próximos minutos; então Vicky ligou o som, até o alarme de Glam tocar.

— Água, por favor. Dee.

Ele não oscila. Recebe a garrafa de água com um movimento mecânico e dá exatos três goles. Devolveu a garrafa sem olhar para trás.

— Heavy, não provoque seu irmão. Dee, o açúcar do refrigerante que ele tomou vai causar um pico de insulina seguido de irritabilidade; antecipe o problema.

Glam olhou pela janela, relativamente calmo. Fecha os olhos, apenas para descansar um pouco. A última coisa relevante que escuta antes de dormir é o Dee reclamando do sinal de internet sumindo.


Ele acordou meia hora antes de chegarem ao destino: o sol já havia se posto, então o céu é laranja e violeta. Precisariam parar em uma pousada de uma cidade rústica até seguir viagem no dia seguinte. O painel já exibia um “Sem serviço” definitivo, então a música parou de tocar. A tensão na base do seu pescoço se tornou um latejar constante, como se, naquele breve período, houvesse sido interceptado pela Medusa e transformado em pedra.

Vicky estacionou o carro com um solavanco diante de uma construção simples que parecia ter parado no tempo — o motor esfriando sendo o som mais alto do ambiente. As crianças dormiram no banco de trás, trazendo uma calma rara para os momentos de família. Ele saiu do carro primeiro, sentindo a leve dormência na ponta dos dedos. Abriu a porta do banco traseiro, tocando o ombro dos filhos para acordá-los.

— Ajudem sua mãe com as malas. Vou fazer o check-in.

Provavelmente Vicky poderia carregar todas as malas sozinha, a julgar pela força muscular, mas os travesseiros, sacolas e maletas menores teriam exigido várias viagens inconvenientes. Assume o papel de diplomata, adentrando o prédio direto para a recepção.

— Boa noite. Temos uma reserva no nome de Sebastian — disse ao recepcionista, um homem lento que parecia indiferente ao seu desconforto.

Vicky foi ao seu lado, carregando a maior parte das malas com facilidade. A pousada cheira a madeira úmida e naftalina.

— Dá pra agilizar aí, colega? A gente viajou o dia todo e preciso de um lugar que não tenha cheiro de naftalina — disparou de repente, ignorando o breve olhar que Glam lhe lançou para não procurar problemas. — Só entrega a chave do quarto pra gente levar as malas, caramba.

Felizmente, isso pareceu dar certo. O homem entregou a chave assim que encontrou a reserva deles. Vicky subiu com as crianças e as malas enquanto ele confirmava os documentos e a data de check-out. Que desagradável. Há uma pressão atrás dos olhos que simplesmente não vai embora. Ele precisa dormir.

Chamou o elevador porque não confiava em si mesmo para subir as escadas sem escorregar e bater a cabeça, não importa quanta força aplique ao corrimão. É no segundo andar, quarto 213. A porta foi deixada destrancada por Vicky, que agora parecia verificar se o banheiro tem papel higiênico e toalhas — embora Glam tenha colocado as deles nas malas. Ela ia seguir o protocolo vendo se as janelas estão travadas enquanto os meninos disputavam a cama de cima do beliche.

Uma cama de casal e um beliche em um quarto pequeno e modesto, mas limpo. Há uma janela com a cortina em tiras e um grande guarda-roupa, assim como uma portinha que dá para o banheiro, mas nada além do básico.

— Pai, não tem TV a cabo! Como eu vou viver? — Heavy já estava com metade do corpo em uma das camas, testando a maciez e bagunçando os lençóis.

— É só uma noite, Heavy.

A maleta foi deixada sobre a mesa de cabeceira. Ele não a abriu imediatamente, a sensação de erro aparecendo assim que seus dedos tocaram o fecho. A textura é ligeiramente diferente, mais áspera e grossa. Parece mais pesado. Glam tem a sensação de que é melhor verificar o conteúdo sentado. Acionou os fechos; o “clique” metálico soou como um tiro. Não havia os frascos âmbar de Lítio, as cartelas de Clozapina ou o seu medidor de pressão. Apenas plantas arquitetônicas dobradas, catálogos de revestimentos cerâmicos e um tablet de marca desconhecida.

Glam manteve a expressão controlada enquanto fechava a maleta, embora a descarga de adrenalina tenha subido seus batimentos cardíacos, o coração martelando contra as costelas. Os pulmões parecem que poderiam implodir e as mãos deram um solavanco muito visível pela primeira vez em anos. Respirou profunda e lentamente; entrar em pânico só vai piorar as coisas agora. Tudo bem, ainda tem a dose de emergência no carro; provavelmente este lugar deve ter uma farmácia. Não tem uma prescrição recente porque seu estoque deveria durar o resto do mês ainda, mas ainda tem a papelada da sua condição e uma prescrição alternativa para casos de perda.

— Pai? Tá tudo bem? — a voz soou perto dele. Glam nem percebeu quando fechou os olhos e começou a massagear o ponto entre os olhos para pensar adequadamente. O corpo parece tão pesado. Ele abriu os olhos: o Dee estava bem à sua frente, a expressão indiferente e melancólica tinha desaparecido para dar lugar às sobrancelhas franzidas e mandíbula tensa.

— Vicky, precisamos sair. Agora. — Glam desviou o olhar do filho, sem responder realmente. Não há uma resposta boa para a pergunta dele. Victoria olhou para ele e para a maleta em seu colo, desconfiada, antes de o rosto empalidecer rapidamente.

— Não me diga que…

Glam se levantou, sentiu a cabeça zonear em uma quase queda livre, mas não caiu. Ainda tem controle o suficiente do próprio corpo para não se desequilibrar ou tombar de verdade. Dee pegou a maleta que abandonou no colchão, abrindo-a por conta própria para ver o conteúdo. Glam não ficou para ver a reação. Pegou as chaves do carro e saiu, só ouvindo Victoria gritar para as crianças se comportarem e não abrirem a porta para ninguém antes de correr para o seu lado.

— Parou de mistério, Glam — Victoria repreendeu, alcançando-o rapidamente para exigir explicações. Ele finalmente parou de andar quando alcançaram o elevador. — Tu tá com cara de quem viu um fantasm...

— Catálogos, Vicky. Tem catálogos de cerâmica e plantas de arquitetura! — Se permite deixar um pouco da histeria vazar, exasperado, a voz oscilando brevemente. — Não é minha maleta, porra. Não é minha maleta… Aquele esbarrão fora do restaurante, o coeficiente de erro é cem por cento. Tem papelada de um desconhecido e ele tá com minha sobrevivência literal a caminho de algum lugar que não é aqui!

Houve um segundo de silêncio absoluto enquanto sua esposa processava a informação.

— Aquele filho da puta! — ela gritou, veias do pescoço saltando. — Eu vi essa merda. Devia ter moído a cara daquele engravatado no asfalto, puta que pariu! E agora? A gente volta? Posso caçar aquele carro e tirar ele da estrada — Vicky parecia realmente capaz de fazer isso, gesticulando e batendo o pé com raiva.

— Não temos tempo. — Inspirou profundamente pela terceira ou quarta vez, a adrenalina bombeando em um ritmo constante, mas quase gerenciável. — Tem uma dose de emergência no porta-luvas. A gente precisa de uma farmácia, tenho algumas receitas de contenção na carteira. Não vão resolver o problema, mas… Eu sinceramente duvido que este lugar tenha minhas medicações usuais.

Vicky parou a agressividade no meio do caminho, olhando-o de forma mais atenta — as mãos tremem visivelmente.

— Entendi. Farmácia, então — ela forçou a voz a baixar, embora tremesse de adrenalina. — Onde fica a porra da farmácia mais próxima dessa vila de merda?

— No Centro, seis minutos.

O elevador abriu no primeiro andar, onde fica a recepção. Passaram diretamente pelo homem lento e para fora da pousada, entrando no carro. Glam abriu o porta-luvas, procurando o maldito remédio no fundo de suas coisas, junto com um saquinho com duas bolachinhas de água e sal que o lembraram de que não deveria consumir o Lítio em jejum. O carro ligou com um rugido violento. A partida fez os dois terem um pequeno solavanco para frente.

— A gente precisa pelo menos da Clozapina em menos de um dia, os remédios só vão conseguir ganhar tempo, não é o tratamento. Depois disso… o rebote colinérgico será inevitável — informou. Pensou um pouco antes de engolir as bolachas e a dose do Lítio. A Clozapina vai ter que esperar acabarem de formular um plano.

— A gente consegue essa merda nem que eu tenha que arrombar a delegacia e usar o rádio deles para parar o estado inteiro — ela olhou para ele, a expressão feroz, mas com um fundo de desespero bem escondido. — Tu aguenta o tranco?

— Eu sou um mestre em mascarar, Vicky — Glam tentou sorrir, guardando o comprimido do porta-luvas para mais tarde, mas foi apenas uma contração labial. Levou o braço até o peito em um gesto instintivo, agarrando o tecido da camiseta como se pudesse forçar o coração a bater mais devagar. — Mas vou precisar de ajuda nas próximas horas. Silêncio e eficiência, entende?

— Tu vai ter os dois — Victoria pisou no acelerador. O carro deu um pulo e um rangido saindo em disparada da frente da pousada. — O primeiro farmacêutico que me disser “não” vai aprender como é que se faz uma traqueostomia com uma caneta Bic.

Há ruído branco atrás de seus ouvidos, ameaçando abafar a realidade. Glam sabe que provavelmente é sua pressão subindo e um efeito residual do pânico, mas precisa resolver isso logo.

A farmácia local é um cubículo entediante e de luzes apagadas — a porta de aço completamente abaixada. O turno já tinha sido encerrado. Mas Glam realmente já frequentou muitas farmácias, então localizou uma lâmpada solitária acima de uma pequena abertura retangular com grades. Havia alguém lá dentro. Victoria estacionou o carro com um movimento apressado e estranhamente preciso — o pneu raspou o chão com um ruído desagradável, mas o automóvel estava perfeitamente alinhado à calçada.

A grade parece uma ofensa imperdoável à sua necessidade biológica imediata. Foram para a frente do grande portão de metal. Vicky não apertou a campainha apenas uma vez, mas a manteve pressionada enquanto socava o portão, criando um estrondo que ecoava pela rua deserta. Glam estava gastando suas reservas de energia tentando controlar a respiração e organizar seus pensamentos adequadamente para a sessão de perguntas e respostas que sabe que vai vir. A pasta de documentos e prescrições de emergência já estavam em sua mão.

— Acorda, porra! — ela gritou, e provavelmente toda a cidade escutou. — Tem gente morrendo aqui, cacete!

Lá dentro, ouviu-se o som de passos arrastados e um resmungo sonolento. A portinhola de ferro deslizou para o lado com um rangido estridente. Um homem de meia-idade, com olhos inchados de sono e um conjunto de pijama por debaixo do jaleco, apareceu pelo vão.

— Que escândalo é esse? — disse, a voz rouca. Os olhos se estreitaram em desconfiança ao ver o casal. — O horário de atendimento acabou às 18h. Se não for urgência, voltem amanhã.

Antes que Vicky pudesse xingá-lo, Glam tomou a dianteira, ajustando a postura e a voz, apertando a papelada com força em uma tentativa de conter o tremor.

— Boa noite — a voz saiu polida, mas com uma cadência acelerada. — É uma emergência. Tivemos um incidente logístico com minha medicação de uso contínuo. Preciso validar estas prescrições de emergência e verificar a disponibilidade de Clozapina e Lítio em seu estoque.

Ele enfiou os documentos pela grade. O farmacêutico não reagiu ou segurou os papéis inicialmente.

— …Clozapina? — O homem repetiu, a voz arrastada e carregada de dúvida. Através das grades, observou novamente o casal. Glam está pálido, as mãos tremendo e quase completamente tenso. — O senhor tá suando, tremendo… Tem certeza que não é “outra coisa” que você quer?

— Eu não sou um viciado, senhor.

— Só lê a porra da receita e vê se tem o remédio — Vicky interrompeu ao mesmo tempo que ele.

Finalmente o homem aceitou o papel, lendo-o com os olhos estreitos.

— São remédios controlados. O CRM é de outro estado, não posso abrir o estoque de controlados no meio da noite para um desconhecido sem confirmar o registro.

Vicky está bufando ao seu lado, segurando a grade como se fosse arrancá-la.

— Abre essa merda, Doutor. Ou eu juro que entro pelo telhado só pra te arrebentar a cara!

— É uma prescrição de validade nacional, senhor. Pode verificar o código de autenticidade no rodapé — Glam corrigiu antes de se aproximar um pouco mais e segurar a grade. — Entenda: minha condição exige manutenção ininterrupta. Se eu não tomar a dose certa nas próximas horas, o estado de abstinência causará convulsões e surtos psicóticos. Se o senhor acha que somos um problema agora, te garanto que não vai querer lidar com as consequências de um surto psicótico.

O farmacêutico engoliu em seco, hesitante. Olhou para Vicky, que poderia agarrar seu pescoço ou invadir sua loja para encontrar o maldito remédio, e para Glam, que tinha uma expressão polida, um sorriso cortês, mas todos os sinais de alguém que está prestes a perder o controle.

— Vou ver o que consigo. Mas vai ter a taxa de conveniência por estar fora do horário comercial — informou, o medo de um processo ou uma cena violenta começando a superar sua má vontade. O homem desapareceu para dentro da loja.

Um pouco de alívio o atravessou, cambaleando só um pouco. Vicky passa a mão por suas costas, apoiando-o no corpo dela para que não acabasse caindo.

— Aguenta aí, loirinho. Se ele demorar demais, eu entro lá e pego eu mesma.

Glam ri um pouco, cansado demais para fazer muita coisa agora. Felizmente, o farmacêutico volta com algumas opções em uma sacola.

— Não tem Clozapina e Lítio em estoque. Consigo o Propranolol, Haloperidol, Biperideno e Diazepam… — O homem para de falar por um instante. — Isso aí é coisa de segurar bicho bravo, senhor. — Ele devolve os papéis por debaixo da grade, junto a uma nota com o valor e dosagem de cada. — Se estiver passando mal, sugiro visitar o Posto de Saúde.

— Eu sei, eu sou o bicho — Glam retruca, verificando a nota. Vicky pega sua carteira para poder pagar; então, finalmente, o pacote com os medicamentos está em suas mãos.

É como se estivesse pegando o Santo Graal — só seria melhor se realmente tivessem seus antipsicóticos padrão. Há um tempo de silêncio tenso enquanto voltam para o carro e Glam busca sua última dose de Clozapina no porta-luvas. Engole com um resto de água morna que ainda estava no carro desde mais cedo. Demora um pouco para realmente fazer efeito, mas apenas o fato de ter engolido já é um grande alívio.

— Certo… — ele expira, murmurando baixo. — Tenho vinte e quatro horas, então. Depois, os sedativos.

Comparativamente a mais cedo, desta vez Vicky liga o carro normalmente e não acelera o triplo da velocidade permitida nas ruas da cidade. Parece inquieta.

— Amanhã, vou precisar que leve o Heavy para o posto policial. Deve ter algum sinal ou rádio independente para ver se alguém devolveu a maleta em algum lugar do estado. Se não houver, pelo menos vão te informar onde achar. Se conseguir usar o telefone, pode tentar ligar para o Ches para que traga as medicações que tenho em casa. Uma farmácia também é uma opção, posso conseguir os números em uma lista telefônica...

As engrenagens estão girando — enferrujadas e com muito desperdício de energia, mas girando. A próxima cidade universitária fica a quatro horas; não seria tão impossível. Mas é duvidoso que consigam arranjar as providências e ainda sair dentro do cronograma. É mais provável que fiquem ali até resolverem o problema.

— Cê tá maluco? Não posso te deixar aqui apagado, só com o Dee! E se tu travar? Parar de respirar? Eu não vou sair do teu lado pra brincar de detetive com o moleque.

Ele parou de pensar por um instante. Há o som de um metrônomo no fundo, o cravo acompanhando com uma escala de Sol. Glam sabe que não é real; vai passar. Pelo menos por hoje.

— Vicky, eu sei o que acontece quando uma criança precisa carregar o fardo de um pai descompensado. Eu já estive lá. Não posso deixar o Heavy ver o que vai acontecer quando o Haloperidol bater; ele é novo demais para ser um enfermeiro de hospício.

Uma sensação de déjà vu. Provavelmente refletindo seus pensamentos sobre a relação com a própria mãe — Mary às vezes ia ajudá-lo depois de ser corrigido pelo pai. Mas ela estava tão sob pressão quanto ele. Um dia percebeu que era menos danoso simplesmente aprender a limpar as próprias feridas.

— E sobre o Dee? Ele também é teu filho, porra — Vicky desviou o olhar, mãos tremendo enquanto segura o volante. A mandíbula tem uma linha muito tensa e dolorida. — Por que ele tem que ficar?

— Eu não posso morrer engasgado no meu próprio vômito se tiver uma convulsão enquanto vocês estão fora. É uma questão de gerenciamento de danos, querida.

Victoria demora a responder, olhando para o trânsito com um olhar perdido e resignado.

— Vou anotar tudo o que precisarmos de manhã — murmurou ele, a cabeça pendendo para se apoiar na porta do carro. Ainda não deu o tempo para ser efeito do remédio, mas o pico de adrenalina quase nunca desce gradualmente. — Dee… não deixe ele sentir que é culpa dele. Vai ser só… seguir as anotações.

Vicky não responde. Pisa no acelerador, os olhos fixos na estrada. Glam fecha os olhos, sentindo que a conversa acabou. Ele não percebe quando voltam para a pousada.