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Language:
Português brasileiro
Series:
Part 2 of Estabilidade química , Part 1 of Geometria do Caos
Stats:
Published:
2026-01-11
Completed:
2026-02-24
Words:
102,301
Chapters:
5/5
Comments:
2
Kudos:
24
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1
Hits:
600

Geometria do Caos

Chapter 5: Tolerância adquirida

Summary:

Ches está acostumado a continuar, mesmo com o próprio corpo falhando

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Ches estava deitado em cima da van, observando o céu. Era tarde da noite e ele tinha fumado um baseado fazia pouco tempo, então estava naquela parte maravilhosa da brisa onde o cérebro parece formigar e te fazer cócegas, arrancando risadas bobas e sem sentido. O céu parece ainda mais infinito e as gotas de água manchando a roupa não incomodam — porque havia chovido bastante umas horas atrás, mas as nuvens já se afastaram.

Cada estrela e nuvem parecem interagir, criando histórias que ele nem se preocupa em ver o contexto. A ponta de seus dedos, das mãos e dos pés, estava bem gelada. Um momento de rara paz, mesmo ele sabendo que ia ter que arranjar algum trabalho informal nas próximas semanas para realmente ter dinheiro para comprar suas coisas no bar. Glam tem essa regra de que não se importa em dividir comida e espaço, mas não ajuda com as drogas.

Então, para não abusar da boa vontade, Ches ocasionalmente encontra coisas pra fazer que rendem um pouco de dinheiro — como quando era criança, vasculhando e consertando o lixo para vender em pontos de coleta; tocar em esquinas; fazer favores. Nada ilegal, apenas muito informal e sem registro.

Acendeu um cigarro, do tipo comum, que só arrisca o câncer de pulmão. Tragou lentamente, sentindo a paz descer por sua garganta e sair pelo nariz. É nestes momentos que o cérebro realmente colabora, no ritmo de uma máquina calibrada. Sem pensamentos intrusivos, ansiedade generalizada ou reatividade, apenas a paz. Um silêncio raro enquanto consegue encontrar notas musicais em sons ambientais.

Geralmente, nesse horário, o Dee daria o ar da graça, batendo na carroceria do trailer só para conferir se estava vivo, bêbado ou mesclado ao mofo do estofado. O antigo lar age como minúsculo apartamento para não ter que pagar aluguel — sua antiga casa, cujo motor obviamente não funcionava e que o forçou a realmente comprar uma van usada para ter locomoção, vender a parte que se mexia e ficar só com a carroceria. Ao invés de comprar uma casa, gastou seu tempo comprando uma vaga de estacionamento coberto pra poder deixar suas coisas sem medo de ser roubado.

O mundo é dos espertos.

Mas, hoje em específico, a família inteira de Glam foi viajar para ver as coisas de faculdade de Dee. Os moleques crescem rápido. Ches aproveitou o momento para realmente se permitir fumar um pouco mais abertamente — todos sabem que é um ex-viciado funcional, mas Glam e Victoria ficam realmente bravos se usa alguma coisa, que não seja o cigarro comum, perto das crianças, e ele é basicamente o mascote da família. Não poderia dizer que foi ruim, pois foi assim que passou de um baseado por dia para três ou quatro por semana, todos com concentração de CBD.

Ele provavelmente sempre vai usar alguma coisa, não vai parar de verdade, mas pelo menos não fica piorando. Essa paz é tão boa; nem parece que normalmente seu coração vai explodir, ou que a tensão muscular detona suas costas, ombros e pescoço. É tão mais fácil continuar na própria pele assim.

O telefone toca — o comecinho de “Smell Like Cherry” tocando. Um pouco distante dele, mais próximo de seus pés, mas ainda no teto da van. Ele se senta, de pernas cruzadas, para agarrar o aparelho. O identificador mostra um “V” e uma sequência de três emojis: uma pimenta, uma cara de brava e um dedo do meio.

É Victoria. Ele atende.

— Fala, chefa. — Uma risada borbulha do fundo da garganta, sentindo a cabeça oscilar, só um pouco. Que sensação boa. — Por que me agracia com a voz da nossa deslumbrante Rainha do Asfalto em plena… — Afasta um pouco o celular, para olhar as horas. É mais cedo do que realmente pensava. — Meia-noite e trinta e dois. Madrugou bonito, hein?

Ches!

Oh, certo. Não é bom. A urgência não combina com o toque suave e rítmico de “Smell Like Cherry”. O chiado é bem constante e a voz dela falhou, então deve ser uma zona de sinal morto. Ele franze a sobrancelha lentamente, tragando um pouco mais o cigarro entre os dedos, sentindo que a letargia típica do momento vai se tornar um inconveniente bem rápido.

— Fiz merda! Glam tá sem os remédios, o rádio é péssimo e…

Bom, ela realmente parece prestes a chorar. Se comentasse algo assim presencialmente, seria desculpa para pelo menos um soco. Ches traga uma última vez antes de apagar o cigarro, algumas cinzas caem acima da sua calça e ele as tira com a mão. É um pouco difícil se sentir ansioso agora, mas isso é uma situação ruim, então o frio parece um pouco mais real.

Apenas foque, Ches.

— Então… — Certo, organizar as informações. Uma coisa por vez. — Vocês estão em uma zona de sinal morto, sem os remédios e sem acesso a uma farmácia? Os remédios que mantêm o Guaxinim fingindo que é um lorde inglês? Porra.

Quando eram menores e nem tinham noção do que o cérebro bagunçado de Glam significava, o cara era simplesmente excessivo. Ficava ensaiando na guitarra até os dedos sangrarem, parecia pronto para ofender qualquer um que chegasse perto em um momento minimamente ruim e ficava mapeando a cidade obsessivamente, para ver cada prédio, rua ou detalhe. Nessa época, Ches também gostava de andar por aí para qualquer clube com música ao vivo, então invadiam periodicamente qualquer um que parecesse interessante.

Às vezes, mas nem sempre, acompanhados de Bob e Lordi.

Provavelmente era toda a energia acumulada que fazia a música de Glam ser tão boa, ele sempre tocava como se fosse espancar alguém com aquela guitarra cor-de-rosa e seus bracinhos finos.

Foco, Ches. Sem os remédios, é uma situação ruim. Toda vez que Glam mudou os remédios deu dor de cabeça de alguma forma, e ele tem 80% de certeza que o que ele toma é bem forte, e parar de tomar coisa forte de repente ferra com a cabeça.

— Posso pegar o estoque reserva na casa de vocês; me passa o nome do fim de mundo em que vocês se meteram. — Ele desfez as pernas cruzadas, escorregando de bruços para o chão, graças ao atrito molhado com o teto da van. Ficar de pé para descer seria um convite para um traumatismo craniano. Entra pela porta traseira, começando a vasculhar embaixo dos bancos, até encontrar a chave abandonada em um encaixe com o estofado.

Ótimo. Não perdeu. A chave reserva da casa deles. Vicky explica, parecendo tentar falar por detrás da estática da TV. Ele repete mentalmente o nome, várias vezes. Não esquecer.

— …Tem uma tempestade ferrada acontecendo no KM 60, e é o caminho que peguei pra chegar, então tem risco de morrer também. Se ficarmos ilhados, ferrou tudo.

Então aquela chuva ferrada foi pra lá. Bom saber. O que é mais um pouco de azar? Sua vida já é uma peça trágica e pouco elaborada, baseada unicamente em sua capacidade enorme de fazer merda, ser inconsequente e se foder antes de ter noção sequer do que fez. O que é se ferrar, só um pouco mais?

— Entendi, dou meu jeito. — Pegar o estoque reserva. Colocar o endereço no GPS, pelo comando de voz, porque mesmo com as letras aumentadas, ler é difícil pra caramba. Eles iam longe ontem, né? Vai precisar colocar gasolina. — Patroa, lembra de respirar.

Se matar acidentalmente tentando consertar algum erro parece uma forma bem chata de morrer.

— Tá achando que é a primeira vez que o loiro se ferra? Ele não nasceu previsível assim, embora goste de fingir que sim. A gente aguenta o tranco. Vai precisar que ligue para uma transmissão da maleta perdida?

Algumas vezes, no plural. Uma vez, estavam em um bar, Glam era o único sóbrio e ainda assim foi o único que convenceu todos eles a entrarem num ônibus de excursão que estava de passagem. Acordaram na praia, atrasados para uma apresentação. Outra vez ele se recusou a tomar a coisa do humor dele e parecia que ia ter uma convulsão depois de alguns dias. Sem contar nas várias vezes que não percebeu que vinha algum carro ou que a travessia não era segura, porque estava distraído demais com a própria cabeça.

Uma vez, Ches estava bêbado e puxou briga com um cara do triplo de seu tamanho. Glam foi o primeiro a correr pro seu lado e acertar o cara com uma cadeira de bar. O auge da juventude, com certeza. Aguenta o tranco.

— Perto da Cidade Universitária. Um engravatado idiota derrubou as tralhas perto do carro e a maleta foi junto. Estou indo na farmácia 24h a uns trinta quilômetros ver se eles têm estoque e tentar arranjar antes de voltar para a pousada. Glam tá dopado com as doses de emergência agora.

Entendido. Ele sai da van com a chave reserva na mão, tentando focar os olhos no caminho. Agora, o mundo balançando é realmente inconveniente, mas ele já está acostumado o suficiente. A casa deles fica a umas três quadras do espaço onde fica estacionado, não valia a pena tirar a van.

Bom, deve dar pra resolver rápido, não é? Eles estão um pouco longe, mas é só arranjar o remédio e voltar. Talvez abrir um B.O. Isso parece importante, pra ninguém implicar com a velocidade alta. E Ches conseguir chegar lá também, porque o GPS sempre falha nesses rumos com baixo sinal.

— Formaliza isso quando a delegacia abrir, beleza? Vai ser tipo um chafariz, já que não tenho sua localização em tempo real. — Chegou na casa deles, a chave girou na fechadura e então, o clique esperado. — Saindo agora; vou devagar pra não morrer, porque morto não entrego o remédio pra ninguém. Segura as pontas aí.

A casa deles é muito limpa, como se cada cantinho houvesse sido planejado. Mas não é minimalista, então tem quadros e rabiscos na parede, uma mancha desbotada no sofá e a marca de tinta de um dos meninos na parede. Vermelha. De quando estavam aprendendo a pintar com tinta guache nas coisas de escola deles.

Glam tem aquela tolerância calculada para o caos: desde que não incomode ou machuque ninguém, ou seja uma violação da boa higiene, tudo bem. Ches sabe, eles viveram juntos por um tempo e o loiro era chato pra caralho e ficava separando as coisas deles, até riscando o chão com giz pra ditar até onde a bagunça de Ches podia ir.

Então ele era chato em jogar comida e descartar o lixo no tempo certo, assim como lavar roupas, inclusive as roupas de cama, e em evitar que os cantos da casa acumulem poeira e mofo. Mas não se importava se a tinta manchou a moldura do quadro ou se a parede rachou. É… um traço dele.

Já tem poeira acumulando acima da televisão. Os tênis de Heavy estão caídos na escada — os dois para o pé direito, um vermelho e um verde. É bom esse maluco voltar pra passar o aspirador e citar dados entediantes sobre infecções respiratórias ou qualidade do ar.

Considerando o que sabe de Glam… Ches foi direto para o quarto do casal e para dentro do guarda-roupa. Subiu na cama para realmente alcançar. O amigo é idiota assim e usa a altura anormalmente alta para esconder o que não gostaria que os outros alcançassem, sempre nas prateleiras altas.

Ali. Uma bolsinha cinza com zíper. Ele a puxa pela alça, arrastando na ponta dos dedos para realmente agarrar. O zíper zumbiu quando abriu para conferir o conteúdo: quatro caixinhas de remédio, com o lacre intacto e faixas vermelhas ou pretas. Sinal de remédio pesado. Glam geralmente toma dois da faixa vermelha e um da faixa preta durante o dia. Embaixo das caixas, um receituário e um bloco de notas com dosagens escritas, que Ches identifica pelo “mg” e pelo “dia” no final da frase.

Glam sempre anota as coisas que usa. Ou escreve e estuda compulsivamente até entender o máximo possível. É muito inteligente. Ches fecha o zíper, coloca embaixo do braço e volta pelo caminho no qual chegou, lembrando de fechar a porta só depois de dar alguns passos para fora, então volta, tranca a porta e recupera a chave reserva para si. De volta para seu muquifo.

Fechou a porta da van com um baque surdo. O som ecoou no estacionamento vazio. Deixou a bolsinha no banco do carona, até prendendo com o cinto de segurança. O que lembrou que ele também deveria usar. No celular, o aplicativo com o marcador do Maps, repetiu o endereço que Victoria falou em voz alta. Demorou umas três tentativas para a voz realmente reconhecer um lugar a… dez horas de distância.

— Puta que pariu, Lady Marreta. Tu quer mesmo é me fuder. — Soltou um suspiro longo. A única coisa que o impede de realmente ficar com raiva é a brisa residual que deixa sua cabeça um pouco mais pesada.

Certo, hora de começar. Engata de primeira, gira a cabeça para olhar pra frente e firma o pé para o controle de embreagem assim que tira o freio de mão. O motor da van tossiu e se firmou em um ritmo que podia sentir na sola dos pés.

É estranhamente mais fácil dirigir ligeiramente drogado, os detalhes chegam nele na velocidade certa e o pânico não o impede de reagir quando algo inesperado acontece. Mas… Provavelmente não vai poder ficar assim pra sempre, já foi preso algumas vezes e perdeu a carteira de motorista nas vezes que estava com drogas na van, em viagens relativamente longas. Não se importa de ser preso, foi assim que conheceu a maior parte da galera que conversa, mas provavelmente não é um bom momento.

Sem drogas, então. Até resolver isso. Quando voltar, pode compensar o estresse de alguma forma.

— É, Zumbi. É um péssimo lugar pra fazer drama.

No céu, havia poucas nuvens. Estrelas tímidas e um clima fresco e ótimo para vagabundear e respirar — ironicamente, quando fuma, é um dos poucos momentos em que sente realmente estar respirando do jeito certo. Dá pra sentir cada costela expandindo para a entrada e saída de ar.

Fora dos limites urbanos, a estrada é agradavelmente calma. O motor vibra em seus pés. O frio entra pela janela, afastando a agradável paz, ar úmido e carregado de ozônio. Há mais nuvens pela direção que está tomando, mas por enquanto, não são tantas.

Liga o rádio, sintonizando nas notícias de estrada. O primeiro pedágio é quarenta e cinco minutos depois da cidade, e vai ser útil para ver o quanto a tempestade está causando estrago lá na frente.

Desabamento no KM 60, engarrafamento na divisa do estado; algumas ruas interditadas graças ao volume de carros tendo que parar ou mudar o caminho; buracos no asfalto, vazamento de esgoto. Parece ter sido um grande gatilho para desastres naturais, ou a pessoa que vistoria essas estradas faz um péssimo trabalho.

Os impostos são claramente apenas mais uma roubalheira.

Já viajou muito, é fácil visualizar o mapa com a imagem do Maps e o que puder adicionar de experiência em turnês. A construção do pedágio, com barras bloqueando o caminho, aparece. Normalmente é fácil de contornar por uma viela secundária, mas precisa de mais informações.

— Hey, Millie! — Ele chama, sorrindo de orelha a orelha e abaixando o vidro, assim que entrou na abertura prevista para os carros. Uma menina de cabelo preso, óculos, mastigando chiclete e com a expressão cansada, estava no guichê, pronta pra repetir pela milésima vez o mesmo mantra de cobrador. — Eu sei, uma moeda pra passar, Ogra da ponte. Me diz, a chuva tá causando muito estrago por aqui? Tá tendo uns avisos sinistros pra depois do KM 40.

— Você ainda não foi preso? — Ela focou nele, sobrancelhas franzidas. Ches uma vez aceitou fingir ser o namorado dela por causa de um cara suspeito seguindo a menina. Até levou pra porta da delegacia. A sorte é que não precisou brigar, porque ele é bem ruim em briga. — Começa a piorar a partir do 35, aquela área é toda cheia de espaço não asfaltado e pátio pra gado, a terra cai muito fácil. Vai precisar pegar o rumo das fazendas se quiser avançar, mas a lama deve tá terrível. Os KM 57 e 60 tão completamente interditados agora, vai levar dias.

— Maravilha, então. Nada como um passeio na chuva para clarear a cabeça. — Ele ri, distribuindo a moeda do pedágio para ter o caminho liberado.

Ele geme longamente assim que consegue pegar o ritmo de novo. Uma dor estranha em um ponto atrás dos olhos e a cabeça pendendo um pouco para o lado, precisa dar um pouco mais de força para as mãos manterem o volante imóvel. Consegue chegar até a divisa de estado sem problemas, então. Tem uma lanchonete caríssima em um ponto de parada lá perto, onde ele conhece o balconista. E um barzinho bacana cujo dono lhe deve uma desde que consertou o encanamento deles por um fardo de cerveja.

O bater de lata na suspensão do carro é constante e repetitivo. Um, dois, três, quatro…

Ele começou a cantarolar um toque do Aerosmith, por puro instinto, e para manter os olhos focados na rua. “Amazing”, ou coisa parecida. É uma música com teor suicida. Quando conseguiu realmente espaço para acelerar, a música mudou para “Vampire Girl”, com um toque mais pesado e intenso.

Os dedos tremem um pouco. O cotovelo tem um pontinho dolorido de manter a sustentação do braço. As bochechas estão mais geladas por causa do vento frio. O mal de lidar com o uso crônico de drogas é que a tolerância fica ferrada pra caralho. Ele quer segurar a sensação o máximo possível, mas seu corpo já se acostumou.

Nunca é como na primeira vez. A primeira vez foi foda pra caramba.

Ar entra e sai, os dedos se soltam do volante para uma batida invisível. Tudo bem, as coisas estão sob controle. Não há motivo para pânico. Apenas olho na estrada, uma coisa por vez. A van cheira a umidade, o estofado velho e cheio de mofo sendo uma praga persistente.

Para a tela do celular: há uma miríade de caminhos completamente vermelhos e amarelos pro rumo em que Victoria se meteu — cidades isoladas depois da divisa de estado. Algo sobre terreno instável, é uma zona perigosa em período de chuva. Por isso, não há quase nenhuma vizinhança além de alguns fazendeiros e vagabundos por muitos quilômetros.

Seus colegas que deram azar de passar na área no período errado todos reclamaram. Colegas, como: companheiros de cela, amigos de viagem e gente que conheceu em pontos de parada, bares, apresentações, grupos de apoio, acampamentos e trilhas. Até alguns policiais, funcionários públicos ou agentes da lei que o prenderam ou detiveram de alguma forma. Fazer o quê, ele é muito amigável.

É o tipo de informação que circula no boca a boca, não em pesquisas na internet. Faz sentido que Glam tenha perdido. Azar, puro e simples azar.

Isso… É na região da Sheila. Uma frentista de meia-idade de um posto movimentado que gosta do estilo dele. Tirou seu nome da boca de alguns policiais mais de uma vez. Vai servir. Coloca o número dela na discagem rápida.

— Sheila, minha luz! — Dramatiza, colocando a mão no peito como se ela pudesse assistir ao ato. — Grande Rainha, como estás? Assistindo o sol nascer quadrado?

— Porra, eu jurava que tu tinha morrido, arrombado! Nunca mais deu as caras. Que que cê precisa? É café, combustível ou advogado?

A voz sai ligeiramente eletrônica, com um chiado de fundo. Um som de passos esbaforidos de quem atendeu a uma ligação no meio do turno.

— Um milagre. — Ele ri com o nariz, o volante falha um pouco, então Ches coloca mais força nos braços. — Uma máquina do tempo ou portal para outro mundo. Então, tem em estoque, boneca?

— …Palhaço.

— Tá, tô precisando saber da movimentação das viaturas aí no pedaço. Tão fazendo bloqueio no acostamento ou a chuva tirou todos do ninho?

— Sabia, cê tá sempre precisando de alguma coisa… A maior galera tá focada no KM 60, o rádio tá frenético. Mas tem algumas vistoriando do KM 57 ao 64, que tão com engarrafamentos em zonas de risco. O rádio tá frenético, uma verdadeira novela. Patrulha subindo rumo ao morro do vigia também, tem que apagar farol.

— Tá querendo é me ver no caixão cedo, confessa. Na chuva e no escuro? Mas beleza. Se eu viver pra contar a história, te pago um jantar.

— Quando tu acabar de pagar o outro? Ah, vai sim.

Ele ri, desligando a chamada. Ela realmente tem boa memória. Uma bagunça que não deu tempo de limpar de um tempo atrás.

Certo. Caminhos oficiais são uma cilada, então. Engarrafamento sem previsão de retorno.

A cabeça dói. Só um pouco. Poderia parar para reabastecer seu estoque, ele sabe de uma loja de beira de estrada que vende — é até mais seguro. O Ches sóbrio definitivamente não deveria estar em trânsito. É só… arriscado. Ser preso agora seria ruim.

Melhor depois. Só algumas horas, tudo bem. Ches abre o porta-luvas para tirar um frasco de gomas amarelas em um potinho plástico e grudento. É quase como um placebo. Valeriana. Infelizmente as coisas naturais e permitidas pela lei costumam ser bem fracas. Tem gosto de gelatina e mato. Vai ter que funcionar.

O barulho do escapamento tem um ritmo próximo dos 130 bpm.

Like the dancing smoke that rose, we tried to find our way… — Cantarolou, só pra manter o foco. O dedo indicador tem vários anéis, então quando bate no volante soa um som mais seco e ritmado.

Bom, isso é bom. É fácil deixar o cérebro vibrar junto do motor.

A bolsa cinza fica quietinha no banco do carona. Ele mesmo quase nunca usa cinto de segurança, então é um acessório inútil para sua adorável casa móvel. É bom ter precaução às vezes. Só agora.

O vento úmido atinge suas bochechas, afastando o que sobrou da paz.

É gelado. O mundo não é mais nublado, lento e poético. É mais como um desses vídeos de rede social, rápido e barulhento, para prender sua atenção antes da próxima perda de foco.

Ele ri sozinho de uma comparação repentina. Não precisou da internet envenenar seu cérebro até a completa degradação; fez isso sozinho. Antes da febre dos computadores, videogames e TikTok: pelo menos os únicos testemunhos da sua autodestruição foram jovens igualmente bêbados e confusos, ao invés de ficar documentada para sempre no Facebook.

Pequenas vitórias em estar ficando velho. Não se considera um negacionista do avanço tecnológico, porque facilita muito a vida do preguiçoso, o que é ótimo; mas é a magia do tempo. Antes parece sempre melhor.

— Qual é, deu de querer feriado agora? — Em um desvio de um galho de árvore, a direção demorou dois segundos a mais para processar a alteração. — Tá saindo do ritmo, Muquifo.

O asfalto está molhado. A chuva ainda parece longe, mas o céu continua nublado e denso. Época de umidade. É o solo de escapamento, todo compasso; o sopro de junta do motor; o rádio e o bater de lata na suspensão. Uma banda de uma van só. Até lembra os velhos tempos.

O telefone toca. Ches clica para atender. É pimenta-raiva-dedo do meio. Victoria.

— Fala, patroa, como tá a situação?

Dessa vez, não há amortecedor ou airbags; o nervosismo e a ansiedade subiram direto por sua coluna e arrepiaram os cabelinhos da nuca. O coração treme, as mãos apertam um pouco mais o volante.

Esse tremor não para… É um pouco chato, sim. Antigamente sua coordenação era invejável. Principalmente no violão. Os males de sobreviver durante uma viagem ao além só para conversar com a mãe. Ches pensa que provavelmente era o purgatório, já que nem ele ou a mãe teriam créditos o suficiente para o paraíso.

Não tem nada na farmácia dois. — Hum. Ruim. Se ela encontrasse o caminho de volta, poderia dar meia-volta e terminar os eventos que planejou durante a noite: absolutamente nada. E Glam saía da zona de risco. Bom negócio. Mas não estamos no bom negócio e é hora de focar agora. — A primeira está bloqueada pelo KM 60. Avisei a polícia também sobre você, então limpa essa van, por favor. E tenta parecer sóbrio.

Que ousadia. Se envolver direto com a polícia. Nem parece sua conhecida Baronesa da Sucata.

— Fiz a reserva na terceira opção, mas fica a cinco horas daqui. Umas sete horas da pousada, devo conseguir chegar até amanhã de manhã. E você?

Sete horas. Ainda é melhor do que seu trajeto inicial, de dez. Mas agora com a interferência do rastro de destruição da parede d’água desabando lá na frente, é bem mais. Ches imagina que se pensar no número vai ficar nervoso, então simplesmente não pensa.

— Relaxa, é fim de mês. — E ele não tem tanta grana assim. — Meu estoque não é infinito, estou limpo para a vistoria. Até coloco o cinto de segurança e obedeço ao limite da velocidade.

Como se não fossem pará-lo por parecer um pinscher com parkinson. Despeja um punhado de gomas, grudentas e chatas, e tenta evitar mastigar para fazer durar mais na boca. É nojento. Placebo provavelmente não funciona se você sabe que é placebo.

— O vento fez uns estragos, mas não tá impossível. Pego um desvio pelo KM 55 para não atravessar o KM 60 direto.

É um plano sólido: contornar o desastre até entrar na zona de risco.

— …Mas vai adicionar umas três, quatro horas de viagem. O rádio está avisando de alguns desabamentos para o lado daí, então lembra de não morrer. — É uma ótima precaução.

Ches geralmente a considera opcional quando vai viajar.

O silêncio dura um pouco. Victoria é como dinamite e raramente faz silêncio, então considerando a situação, é melhor checar.

— …Victoria?

— Eu estava a uns cinco metros de distância, Ches. Eu não vi nada; a gente perdeu umas seis horas sem saber de nada.

Não seria justo julgar quando ele mesmo demorou seis segundos inteiros para processar o teor emocional da mensagem. Ou quando evitou a própria mãe por onze anos enquanto seguia um sonho de carreira fracassado onde esqueceu que a mortalidade é uma opção.

— Se tem uma coisa que aprendi em toda minha vida, Vicky, é que às vezes as coisas só acontecem. Merda acontece, e nem sempre precisa de um culpado.

Está bem. Na maioria das vezes ele realmente tem participação quando acontecem coisas ruins, mas ele não é o único bode expiatório. Só azar. Misticismo ou toda superstição típica que funcionaria para abafar que o ser humano não tem controle do acaso.

— O plano tá rodando, Rainha do Asfalto. É o que dá pra fazer.

Calma, tudo bem. O pânico não ajuda. Inspira por quatro, expira por cinco. O ar é gelado e seco.

— Certo, vou desligar. Estou dirigindo agora.

— E você me pedindo pra obedecer às leis de trânsito. Hipócrita demais, cunhada de consideração… — Antes de ele acabar de falar, a tela escureceu. Ela desligou mesmo, como avisou.

Que seja.

Um pé no acelerador, apenas o suficiente para a van rodar suavemente enquanto não há carros o suficiente na frente. Depois… improvisar. Quando ele faz um plano as coisas sempre dão errado mesmo.

A maioria das pessoas vê o amanhecer como algo bonito e poético; o céu ganhando um tom alaranjado, como uma mancha de tinta na água, e todo aquele frescor antes que o sol resolva fritar todos eles graças ao Aquecimento Global. É um período satisfatório do dia.

Para o contexto atual de Ches: o céu parece esfumaçado, mas são conjuntos e grupos de nuvens; não dá pra perceber que o sol nasceu graças à sombra permanente da tempestade iminente. A terra da calçada escorregou para o asfalto e ele tem que reduzir uns 50 km/h só para não perder o controle do freio. O sinal começou a ralear, então deveria definir o próximo passo antes de perder a conectividade.

Teclou com a mão livre, mantendo o controle do volante. O som de chamada veio, novamente. Tossiu duas vezes para modular a voz para um tom mais grave e lento.

— Fala, Brita. E a criançada? Muita sucata por aí ou a galera aprendeu a dirigir?

Brita trabalha no guincho oficial perto do KM 40. Já foi buscar sua van mais de uma vez quando por qualquer motivo ela parava de funcionar no meio do nada. O som do outro lado era de chuva intensa contra lataria, motores e estática. O deslizar constante do para-brisas como um metrônomo: um e dois, e um e dois…

— Ches? Tu de novo, arrombado? Te aviso: se a Federal confiscou o muquifo, eu não sou milagreiro pra arrancar ele do pátio.

— Sua fé em mim é encantadora, aquece o coração, viu? Mas a van tá comigo… agora.

Francamente, o que as pessoas pensam dele?

— Tu não liga nem pra dar bom-dia, só aparece quando a água bate na bunda ou o motor cospe fogo. Desembucha antes da ligação cair.

— Então, o atalho por trás da Fazenda Cafezal ou a natureza já retornou? Lembra daquela fuga de 94, quando a gente vazou do festival? A pontezinha de madeira ainda segura o tranco da van, ou é passagem pro outro mundo?

— Entrar lá é pedir para ser enterrado com van e tudo, seu coisa ruim. Tá querendo virar enfeite de fundo de rio? Seguinte: corta pelo pasto alto antes de bater na estrada velha. Vai margeando até o manguezal. Vai sair limpo direto no KM 42.

Estranhamente, a forma de comunicação da maioria das pessoas que conhece é baseada em insultos e jogos casuais. Não que ele esteja reclamando. É fácil de lidar com gente assim.

— E lá não tinha rio, não? Se isso for uma tentativa de assassinato, eu volto pra te assombrar.

— Virou saudade, secou. O chão tá úmido, mas é firme. Não vai te engolir, não. Só não pisa fundo como um lunático que dá certo.

Isso é bom. Vai economizar umas duas horas assim.

— Valeu. Vou te compensar um dia desses. Um fardo de cerveja, que manda? Um churrasquinho dos bons?

— Vai acabar é sendo acusado de dirigir alcoolizado.

— Não é acusação se eu assumir. Até a próxima, grandão. Boa sorte aí.

Ches desliga. O primeiro pingo de chuva bate na lataria. Um único: “Ploc”, então mais “ploc”... “ploc”... “ploc”... Espaçados, bem raros. O andamento é grave, menos de 40 “plocs” por minuto, mas é um grande indicador das nuvens cinzentas cada vez mais próximas. O vento do lado de fora fica querendo forçar a direção.

Picks up the rice in the church where a wedding has been…

O dedo médio acompanha o batimento contra o volante. Desacelerando o tempo predominante da suspensão solta.

Lives in a dream…

Os dedos vão na segunda e terceira corda. Mi menor — Mi, Sol, Si —, é um acorde básico e comum. Então, uma alteração para o Dó com grave em Sol. É uma transição rápida para ocupar mais quatro cordas, mas seu mindinho sofre um espasmo e Ches segura mais forte contra o volante, parando de dedilhar notas imaginárias.

Glam costumava detestar errar, em qualquer tipo de música. Ainda odeia, mas quem vê agora não imagina que quando ainda eram novos e Ches começou a ensiná-lo a tocar, tinha a completa disposição de continuar tocando a mesma mudança de acorde ou trecho da partitura até conseguir fazer direito. O grande problema é que geralmente os dedos dele sangravam e tremiam mais devido ao esforço, e ele só cometia mais erros. Era bem triste de ver depois de um tempo. Um pouco assustador também.

Fez mais sentido quando soube que o primeiro contato do amigo com a música foi através das aulas práticas e teóricas do seu doador de esperma.

Quando começaram a se agrupar carros o suficiente em fila, o andamento subiu um pouco mais. Um simples Adagio. Estupidamente, é o momento que tem que pisar nos freios e a suspensão começou a bater muito mais lentamente, não porque o andamento exige, mas porque há muitas notas amontoadas em uma corrida contra o tempo.

No retorno, é só descer direto para a vicinal, fácil.

Antes de começar na estrada de terra, ele encosta na grama e sai. A chuva cai forte e encharca rápido, e o som das gotas contra o asfalto e a lataria começou a soar realmente opressivo agora, uma caneta sem tinta na mão. A lama agarra seus sapatos, e ele ignora maravilhosamente.

God save the Queen — O andamento ficou realmente rápido, ele tem que gritar pra sua voz sobressair ao ambiente. Ches se abaixa perto dos pneus da frente. Só tirar a tampa de plástico da válvula e pressionar o pino central. O ar começou a esguichar pra fora. — We mean it, man! We love our Queen, God saves!

Quando fica próximo da metade do recomendado em vias asfaltadas, Ches tira a caneta e devolve a tampa, partindo para o pneu do lado.

…tourists are money, and our figurehead is not what she seems! Governo desgraçado. Esse fim de mundo por causa de uma temporada de chuvas teria sido evitado muito facilmente se tivessem terminado de asfaltar as estradas. Agora, um pobre fudido que nem ele tem que salvar o mundo. Impostos são uma piada, por isso que ele não paga. No olhômetro e no tato, parecem estar quase no mesmo volume, então vai servir. É… There is no future in England’s dreaming.

Seu braço dá um espasmo. De volta para dentro, na parte traseira. Começa o difícil trabalho de empurrar suas tralhas para o fundo da van — algumas caixas com besteiras que comprou em viagem, cadernos com letras de músicas que escreveu enquanto estava chapado. O estepe e os pneus reserva, a caixa de ferramentas, seu antigo amplificador, roubado do conservatório, que queimou e parou de funcionar faz dezoito anos. Durou muito ainda. Uma gaveta inteira de cabos, tralha de tomada e coisas inúteis que você só guarda porque sabe que vai precisar no instante em que jogar fora.

…Ele tem castanholas. Quando diabos comprou castanholas? Tem que parar de sair pra beber com dinheiro no bolso. Um violão triangular de três cordas também. Balalaika. Legal. A qualidade duvidosa mostra que pelo menos não gastou um rim comprando, mas ainda é muita burrice ter comprado outro instrumento de cordas — seus dedos não conseguem mais manter a pressão constante o suficiente para executar as notas ou acordes. No máximo em alguma rodinha hippie em que ninguém se preocupa se você faz um bom trabalho, mas não ao ponto de gastar dinheiro real comprando alguma coisa. Deu seu antigo violão para a coleção de relíquias de Glam.

A música mudou assim que foi agarrar um monte de tábuas de madeira e canos de ferro, que não têm função nenhuma que não seja alavancar a van pra fora da lama. Pesado pra cacete.

In the midnight hour, she cried more, more, more! — Soa como um ganido e seus joelhos tremem. Coloca encostado em tudo, só pra caso precisar. — With a rebel yell, she cried more, more, more! Wow!

De volta para o banco do motorista. A sensação de ligar a van é notoriamente diferente e bem mais lenta e pesada. Ele acelera descaradamente para entrar no tranco, só lembrando depois de começar a andar sobre o cinto de segurança.

A bolsinha no banco do carona, ele na direção e muito esquema de cansaço daí pra frente. Será uma viagem ótima. Dormir é para os fracos, há!

…She don’t like slavery, she won’t sit and beg — A lataria acompanha. É só barulho desorganizado mesmo. — But when I’m tired and lonely, she sees me to bed. What set you free and brought you to me, babe? What set you free? I need you here by me; because…

De novo, o refrão. A interação entre o rock e o sintetizador é fantástica, toda ajustada para não embolar o som. Muito difícil de reproduzir. O rádio já ficou desligado graças ao chiado inconstante da estática, dado o sinal ruim.

A terra fica mais funda e ele mantém a aceleração constante, os olhos estreitos e pesados. Fazer o contorno dos obstáculos sem margem para realmente parar, pra não gerar atrito nos pneus. As notícias não têm muito foco no KM 55, então deve dar pra chegar lá manobrando com jeitinho. De lá, consegue se infiltrar até o KM 60 e terminar o caminho, nem que seja andando. Fácil.

O cansaço se infiltrando ao redor dos olhos e pelas têmporas é bem-vindo. Reduz o espasmo muscular. Por algumas horas, o tempo se tornou uma nota sustentada e irritante: a visão dos dois metros de luz dos faróis e o som de galhos chicoteando a lataria. Teve que parar três vezes para arrastar troncos caídos, o que é um inferno para retomar o embalo sem atolar: a rotação tem que ficar alta, o motor girando em segunda marcha, porque senão a sucção do barro trava o chassi. Os pneus baixos ajudam, mas a van rabeia como um animal ferido.

A vontade é de deitar e deixar o mundo se resolver sozinho. Esperar o sol. Ches odeia o imediatismo, o que ironicamente só o faz querer consertar as coisas ainda mais rápido — só pra voltar pra paz de não ter que fazer nada. Ou procrastinar para sempre.

As mãos estão cortadas e sujas. Quando tem que virar, a traseira da van rabeia e ele tem que jogar o próprio peso em um golpe de contraesterço para não perder o controle. Alguns músculos já estão dormentes. Isso funciona como a paz artificial que ele persegue a vida inteira, queimando todas as reservas de energia que estar sóbrio produz.

É como uma estátua de barro. Se fosse jogado em uma parede, faria um retrato humano hiper-realista.

— Mantenha o ritmo, muquifo. Mais um refrão… — O murmúrio quase parecia uma oração. Não foi eficaz o suficiente, porque em alguns minutos, há um baque seco na frente da van que forçou o freio.

O que significa que a lama comeu os pneus.

Ches praguejou, tirou o cinto de segurança e foi pegar um dos canos da traseira da van, para cavar ao redor do pneu. Os pulmões parecem queimar e ele precisa impulsionar com o próprio peso para tirar o muquifo para fora do buraco.

O que ainda foi um esforço inútil — antes da antiga estrada, que dá caminho para algumas casas e fazendas rurais, no desvio que deveria cair “direto no 48”, há uma mancha de terra, pedras e árvores caídas. O túnel foi completamente soterrado e de jeito nenhum conseguiria escalar aquilo com a van. Mesmo se o fizesse a pé, a chance de morrer no caminho aumenta e, como bem disse para Vicky:

— É, morto não entrega remédio. Vamos ter que voltar, Muquifo.

Ou seja: manobrar a van em um espaço de três metros de largura, cercado de lama e pedra. E evitar patinar durante a manobra de retorno. Do lado de fora, o barro cobre seus pés quase até o joelho. O movimento de andar já é cansativo o suficiente, mas ele tem que usar as tábuas e os canos de ferro para criar uma base sólida para a roda de tração não deslizar fora.

— Muquifo, você tem sorte que eu te amo. Ou te vendia no ferro-velho e comprava um trator. Ou uma caminhonete. Só pra não dar perrengue. — Embora perrengues sejam a alma das aventuras, é muito inconveniente quando você precisa chegar em algum lugar em um limite de tempo predefinido.

O coração dispara aleatoriamente, mas tudo bem. A raiva contra a natureza é melhor do que simplesmente parar para comprar um cigarro. Francamente.

Depois de uma hora, estava sujo até o pescoço. Mãos esfoladas. O espasmo dos braços realmente parou, mas só porque seus músculos estão dormentes e moles. A água da chuva se acumulou na saliência do antigo rio e, apesar de não ter a profundidade de antes, ainda espalhou água pra todo canto que é uma beleza.

Geografia estúpida e inconstante. Governador lento pra caralho também. E os caminhões, com essas rodas imensas que enchem o caminho de buracos. A van parece que vai virar toda hora. Finalmente, reconhece o que deve ser a entrada para as construções rurais e espaçadas típicas. É mais longo que a sugestão de Brita e vai sair perto do KM 45, mas é melhor do que voltar até o 38, seu último vislumbre de asfalto, e enfrentar o engarrafamento.

Entrada por algumas propriedades rurais, então.

O silêncio — artificial, ele estava baforando e suando como um cachorro, a van faz todos esses barulhos, o motor parece estar sendo asfixiado e em absolutamente qualquer momento alguma coisa bate no chassi ou na lataria — é cortado pelo som de novas notificações pelo celular, abandonado perto da bolsinha cinza enquanto Ches fazia o trabalho sujo.

Uma ligação perdida de Victoria. Seu coração bate um pouco mais forte e ele leva alguns segundos para lembrar que não está morrendo de novo, então limpa a mão no cabelo, porque as roupas estão igualmente sujas, para pegar o aparelho e retornar a ligação.

A instabilidade do sinal é percebida logo, é como ligar uma TV estática no volume máximo.

— Fala, patroa. Foi mal, o sinal tá mais picado que fumo de corda. — Porra, ele quer muito fumar. Só um pouco. A voz sai falha e soltando muito ar.

— Me diga que você já cruzou a divisa. Onde você está?

Assim, tecnicamente vai ter atravessado a divisa assim que terminar esse caminho de terra, mas Victoria não reconheceria a descrição “Entre um monte de pedra e natureza, depois do KM 38”.

— Más notícias, Vicky. — Ele quer rir da situação por puro despeito. A van inclina perigosamente e, novamente, Ches joga o próprio peso no volante para estabilizar a direção. Pelo menos é fácil ignorar os músculos falhando. — A natureza é uma vadia. Teve um desabamento perto do túnel, tive que voltar uns dez quilômetros. Peguei um desvio por uma estrada vicinal, mas o rio transbordou. É uma piscina de lama, tô falando. Tô dirigindo a 40 por hora pra não virar a van.

Um pouco frustrante. Mas ele não tem energia pra colapsar ou ter um surto emocional agora.

— Quarenta por hora?! Desse jeito só vai chegar amanhã, Ches!

Que gentil, Victoria não gritou descaradamente. O pirralho deve estar dormindo. Seu primeiro instinto é querer discutir “Melhor do que não chegar, porra!”, mas recua visto que deve ser o mais equilibrado da situação.

Ele, e talvez Glam. O filho da puta vai manter a situação completamente engarrafada até ter um desfecho real, se o conhece bem — provavelmente o corpo dele desistindo ou um deles chegando no remédio; mas, ainda vai dormir e desligar por umas dezesseis horas assim que chegarem em algum lugar confiável. O cara não sabe expressar sentimentos.

— Tô ligado, mas morto não entrego nem aspirina. E o moleque? — Ele opta, ao invés de alimentar a frustração que todos estão sentindo.

Porque o viciado é um mestre em ignorar o pânico e o luto até acabar em uma cama de hospital. Isso provavelmente não deveria ser motivo de orgulho, mas é.

— Dormindo agora. Vou ligar para a Federal para ver a situação. Desligando.

Ches solta um som da garganta, uma risada aerada e zombeteira.

— Ouviu isso, Muquifo? Não um “Obrigada, Ches”, ou “Por favor não morre, Ches”, “Eu posso te xingar, mas quem mais ia catar o caminho no meio da lama pra gente?”, ela nem deu “tchau”. Essa mulher é delicada que nem uma britadeira, honestamente.

Quando isso acabar, vai cobrar alguns agradecimentos. Ou pelo menos a manutenção da van.

Uma das mãos resgata um pacote de salgadinhos de debaixo do banco, começando a mastigar distraidamente para afastar as manchas escuras da visão. O pacote já estava aberto, então a textura é murcha e chata. Deve ter um saco de pão velho, alguns pacotes de macarrão instantâneo e um resto de pizza que, se der sorte, não mofou ainda.

Em algum lugar.

Vai encontrar quando precisar. Tem 90% de certeza que comprou uma chaleira elétrica e que tem um galão de água filtrada em algum canto — ele, sinceramente, não come muito lá dentro. É mais pra larica eventual.

Demorou uns vinte minutos para a lama recuar o suficiente para ganhar um pouco de velocidade. Um rastro de trator que parece ser realmente usado algumas vezes, e que ele aproveitou descaradamente para o caminho até a entrada de um rancho particular. Como esse povo gosta de morar no meio do nada, ele não faz ideia.

O telefone toca outra vez, ao mesmo tempo que um cachorro começa a latir estridentemente, correndo para perto da van. Ches parou de frente para um portão fechado de propriedade privada. Ele ignora em favor de atender a ligação de Victoria. Dessa vez, ela não deu tempo para ele começar acalmando o clima.

— Ches, falei com a Federal. Eles vão ajudá-lo a chegar se pedir em um dos postos.

Isso parece uma ótima forma de ser preso — se você se parece com um viciado e tem tremeliques motores, eles primeiro vão te segurar e enrolar até confirmar sua intenção ou prender sua van. Arriscado demais, e de qualquer forma, o posto da PRF vai estar longe pra caralho agora.

— Claro, Rainha do Asfalto. Aqui, cê avisou que é pra eles não me prenderem? Vou ter que bancar o bom moço? — Ele ia continuar para validar suas preocupações, mas o som do telefone mudou. A ligação caiu.

Fantástico.

O cachorro do lado de fora continua latindo e fazendo barulho, acima até do barulho da chuva. Impressionante, ele abaixa o vidro. Um vira-lata de pelo curto e preto, mostrando os dentes, como um bom cão de guarda.

— Ei, rapaz. Voz potente a sua, deveriam te contratar para alguns shows. Seu dono tá em casa? — Ele desce da van, com absolutamente nenhum pingo de medo. Cansado demais para o medo. — Um barítono de respeito, amigão. Com um pedal de distorção, tu consegue até base de fãs.

O cachorro, que parecia prestes a morder ou avançar, ficou realmente confuso, ao ponto de esquecer de rosnar. Sempre funciona, eles não sabem como reagir quando o humano não sente medo. Ches sente um sorriso preguiçoso crescer de orelha a orelha. É realmente fofo. Ele gosta de bichos — uma vez quis levar um filhote para uma de suas turnês, no começo da carreira. Mas Glam se incomodou demais com os pelos soltos e o mijo fora do lugar. E o resto da banda concordou quando ele fez xixi em um amplificador alugado que queimou e deixou todos eles endividados por uns três meses.

Aí entregou para uma amiga da região cuidar. Deve ter ido pra uma fazenda ou abrigo, mas considerando todos esses anos, terá morrido de velhice. Ches só não pega outro animal porque já está em um ciclo de autodestruição próprio e não vai envolver mais nenhuma espécie voluntariamente. Autoconsciência ajuda a evitar situações ruins.

Ele não consegue evitar. Quer fazer carinho. Com essa cara de poucos amigos e enrugando o focinho. Tem um buraco cavado do lado do portão, o que justifica como o animal conseguiu sair da propriedade.

— Tira a mão do bicho, tá querendo perder o braço, maluco?!

Ah, o dono. O Ches e o cachorro se assustaram, o homem apareceu na varanda de casa, com uma espingarda. Ele tem quase certeza de que o porte de armas continua ilegal, mas ele é o invasor aqui. Usa a mesma tática do que com o cachorro, deixando as mãos à mostra e a expressão cansada visível. Um senhor de cabelo branco e pele bronzeada.

— Que diabos tu tá fazendo aqui?

— Ei, campeão! Prometo que não vim roubar teu cafofo. Ou bichos... Eu realmente não saberia o que fazer com um bicho. — Ele se aproxima do portão, se apoiando como se fosse a mesa de um bar, para olhar diretamente pro outro ser humano do pedaço. O cachorro se aproximou para cheirar sua calça e sapatos e não parece mais perto de morder do que antes. — Eu seria um bandido muito incompetente, senhor. Olha o estado do muquifo. — Gesticulou pra própria lata velha. Tem um pouco de fumaça escapando, vai ter que parar quando chegar no KM 50, tem uma oficina de um conhecido lá. — É mais fácil ser um espantalho, mas não me mata, não, que tô em missão importante.

— Que diacho tu quer invadindo minha terra? — O homem se aproximou. Ainda apontando a espingarda e com uma capa de chuva amarela. Inteligente, melhor do que Ches, que já se resignou a estar nadando em terra.

Ches realmente espera estar parecendo bagunçado o suficiente para não precisar levar um tiro. Mas que seja. Ele trabalha com o que tem.

— Vi uns rastros de trator, preciso do conselho de alguém da área. Ia entrar aí pra tocar sua campainha, foi mal. Sabe como é, preciso de um atalho. O resto do mundo virou uma piscina de lama e eu não vim acoplado com um submarino, infelizmente. Juro recompensar assim que der, cê conhece a Sheila, do posto? Se eu não voltar com no mínimo um fardo de cerveja, tu pode ir reclamar com ela, que ela tem meu contato. — A voz oscila e tem aquela cadência desenrolada e despreocupada.

O tremor diminuiu bastante graças à fadiga. Assim, no mínimo, não parece prestes a ter um treco. O coração colabora quando Ches fica cansado, e a exaustão é quase como a brisa que ele está acostumado. Dá pra lidar.

A ponta da espingarda baixou. A vida realmente é misericordiosa.

— Tu conhece a Sheila, é?

Em lugares assim, qualquer um conhece qualquer um. É impressionante e muito útil.

— Estou devendo um jantar pra ela, inclusive. Dois, na verdade. Então, meu bom homem, tá ligado em algum caminho pro KM 45 que não vá me engolir inteiro?

Ches sorri. O homem parece só um pouco confuso agora, mas realmente responde.

— Cê pode terminar de descer o barranco ali na frente e virar à direita no cafezal. A propriedade de lá tem um pomar de laranjas que vai até a beira da estrada, não atola nem caminhão.

Ches se ilumina, o que deve ser muito estranho considerando que deve parecer uma assombração de beira de estrada.

— Falou, meu patrão. Como que é o nome do meu salvador? — Ele se desencosta com um empurrão, firmando os pés na lama. O cachorro que estava cheirando seus sapatos recuou para ficar sentado, sem fazer nenhum barulho, o olhando com curiosidade.

— É Hugo. Mas rapaz, se meter no meio dessa tempestade, não é melhor esperar?

— Dá não, o mundo tá acabando, vai levar dias pra arrumar as estradas da maneira convencional. Tenho esse tempo não, tô com carga importante. — Ele dispensa facilmente. — Ok, Hugo. Eu sou Ches. Quando terminar de resolver a vida eu volto, te trago um fardo de cerveja e um quilo de carne, viu? Valeu mesmo.

— Isso aí eu dispenso, tu tá muito suspeito pra passar desse portão.

Touché. — Ches dá meia-volta. Aproveita meio segundo para se abaixar e fazer carinho na cabeça do cachorro, que nem reagiu em tempo, antes de voltar pra dentro da van em um passo rápido.

Mal ligou o motor e o bicho já começou a latir de novo. É amor demais.

Demorou cinco tentativas até o motor pegar, mas pegou. Novamente, faróis ligados, ele manobra de ré e gira o volante, pegando embalo na segunda marcha, para seguir seu caminho.

Victoria tinha mencionado pedir ajuda para a Federal. Não há nenhum posto realmente perto agora. De qualquer forma, ele sabe como parece. Vai demorar para sua identidade ser confirmada. E eles não têm teletransporte, no meio dessa parede de água, ainda vai demorar pra cacete pra alcançarem ele.

Por detrás do cafezal, realmente há laranjeiras de copa densa, o que reduz bastante o ruído na lataria. É como entrar em um novo mundo, já que as rodas param de tentar ser sugadas pelo chão. A direção ainda parece pesada. Não dá pra acelerar demais, o sistema de arrefecimento vai estar completamente entupido neste ponto. Precisa parar em uma oficina, não tem o luxo de esperar por Brita para rebocá-lo de algum fim de mundo.

Falando nisso, Ches deveria xingá-lo. O atalho dele foi completamente inutilizado.

Foi tentar discar o número no celular, mas a tela não acendeu. Nem quando segurou. Ou descarregado, ou completamente quebrado, o que é uma pena. Ches vai depender de sua memória de curto prazo, então. A van balança, passando por cima de raízes velhas que provavelmente são mais antigas do que ele.

Pegou o último salgadinho do saco. Portanto, amassou o lixo e jogou em uma sacola. Ainda com fome. A larica humilha, com certeza. Vai encontrar o macarrão instantâneo quando parar na oficina perto do KM 50; dá até pra usar o banheiro e trocar a camisa pra não virar uma estátua barroca assim que chegar.

O rádio voltou a pegar em um ponto, relatando engarrafamentos quilométricos dos quais ele não poderá escapar para sempre. A ansiedade não é bem-vinda, então seus dedos batucaram uma nova batida no tecido do volante, aproximadamente 110 batidas por minuto, para a barulheira da lataria acompanhar.

Don’t know that I will, but until I can find me… — É devagar. Bem simples. A frequência é fundamental, “boom-chicka-boom”. — …A girl who will stay, and won’t play games behind me. I will be what I am. A solitary man.

O acorde de Sol, então Dó, Sol de novo, Ré. Ele envia o comando para os dedos descerem em cordas imaginárias. Não funciona, eles demoram para responder. A sequência de acordes continua, Dó, Sol, Ré, Ré, Mi menor.

Tudo bem. A música não acabou. Se ele se afobar, vai estragar tudo. É só… continuar. E não morrer no meio do caminho.

A visão embaça periodicamente. Tudo bem, ele já dirigiu assim antes, mas vai precisar consertar antes de o cérebro resolver apagar de vez.

O maior obstáculo real é quando encontra galhos no meio da pista e tem que descer para movê-los para fora do caminho. Ou quando a roda encontra uma pedra ou buraco, que faz a van balançar e perder força. Cheira a embreagem e fluído de freio.

Não acompanha o horário, mas é descaradamente óbvio quando volta para as rodovias, porque a chuva reduziu o suficiente para os carros terem saído de seus pontos de parada, e os caminhões desencostarem, para tentar retomar viagem. É o momento em que os desvios oficiais ficam sobrecarregados pela quantidade de gente tentando evitar o problema. Ches nem tenta entrar na fila de carros, continuando pelo acostamento até a entrada de uma oficina de beira de estrada, manobrou pelo que parecia ser um estacionamento pequeno e imundo, mas coberto.

Ches buzina antes de abaixar o vidro, o bumbo de bateria que mascara as horas de estrada. Um sorriso descarado e exausto. Cristal estava debruçada sobre o motor de um Opala, rosto manchado de graxa e braços enormes tensos. Girou o trapo sujo na mão como um chicote antes de ver quem entrou.

— Ei, gata! — Ches se animou, afastando o cansaço de detrás dos olhos. — Tô precisando de um milagre de estoque aí. Pro muquifo não explodir e me levar junto pro quinto dos infernos.

Cristal caminhou até a van, avaliando o estrago com um olhar clínico e irritado. Ches desceu do banco, joelhos falhando por meio segundo antes de se firmar, cantarolando uma sequência de notas aleatória e sem sentido.

— Mas que porra é essa, Ches? — Ela apontou para a lama que escorria do radiador. — Veio por onde? Atravessou o rio nadando ou tá plantando arroz dentro do motor?

Ches olhou, mimetizando um ceticismo de quem realmente não sabe o que aconteceu. Desavergonhado, e naquele estágio de cansaço onde dá pra rir só pra não chorar.

— Quase isso. Muquifo tava querendo seguir carreira de submarino. Eu até falei “Vai dar ruim, Muquifo, tu não foi feito pra água”, mas carro velho é teimoso. — Deu de ombros, abrindo a porta traseira para vasculhar a bagunça. — Brita até me deu a letra de um atalho, mas o mundo caiu pra lá também. O túnel já era, desabou foi tudo. Lady sorte me abandonou, Cristal.

— O Brita é outro maluco também, veio com o camburão cheio de problema, achando que eu faço milagre. — Ela cruzou os braços, trapo de graxa sobre os ombros. — O que diabos você tá carregando para se enfiar nesse lamaçal de madrugada?

Ele finalmente encontrou. Gorjeia um “Eureka” assim que consegue desenterrar uma chaleira elétrica. Melhor ainda, um saquinho com dois pacotes de macarrão instantâneo e um copo de plástico com café em pó. Uma camisa quase limpa e o carregador do celular também. Perfeito, se sustenta por mais um dia inteiro assim.

— Carga importante, baby. Do tipo “vida ou morte” e eu não tô zoando. — Ele sai da traseira com seu combo de sódio e glicose pra não desmaiar no meio do caminho. — Consegue tratar essa velha senhora pra ela não me abandonar lá fora? E um favor de alma: deixa eu usar teu banheiro e uma tomada? Tô só o pó da rabiola e se eu apagar, o show termina.

A mulher olhou para o interior da van. Semicerrou os olhos para a bolsinha cinza presa no banco.

— Vai depender se a “carga importante” vai trazer a Federal pro meu portão. Eu trabalho com ferro, não com cana. Já falei, não é pra trazer tuas encrencas pra mim.

Ele gesticulou com ambas as mãos e para o próprio peito, empinando o nariz como se tivesse se ofendido, mesmo que fosse uma suposição muito real. Cheira a gasolina, álcool e graxa. A maior parte do interior é de pedrinhas e tijolos, então não é muito barrento. Apenas imundo.

— Ei, das minhas encrencas eu cuido sozinho, obrigado. — Ches estreita os olhos. — E eu já disse: eu só compro, não sou traficante. Isso aí é pra Girafa de Cetim que se meteu lá no fim do mundo. É remédio. Do tipo obtido legalmente. Cunhadinha ligou de madrugada, como é que eu ia dizer não?

Cristal arqueou as sobrancelhas. Foi checar o radiador, completamente cética.

— …Que seja. Vou ter que jogar água pressurizada nisso e rezar pra correia não ter estraçalhado. Duas horas, Ches. Nem um minuto a menos. Vai lavar essa cara de defunto lá no fundo.

Ele faz um coração com as mãos, forçando as gotinhas de adrenalina para passar uma imagem minimamente legal. Assim que ganhar energia para o próximo dia, ainda deve conseguir tirar um cochilo de 1h30. A própria abstinência vai alimentar seu ânimo depois disso.

Se não estivesse se esforçando, conseguiria ficar uns três dias sem dormir se decidisse ficar sóbrio. E depois ia desmaiar, porque é assim que acontece. Ele já tentou. Por isso seu tempo máximo de tolerância sem efeito de nada é de cerca de trinta horas corridas — depois de o efeito da brisa passar, mas contando o período de ressaca física e moral. Se forem dias bons e com pouco estresse, já chegou a ficar sem nada por quarenta e oito horas.

Sinceramente, o que mais o impede de parar é mais sua má vontade mesmo. O mundo é chato e deprimente e muito ruim de viver sem o filtro da embriaguez. Já saiu do fundo do poço, não é perfeito, mas funciona.

Tem uma pia de barro nos fundos, do lado de um banheiro pequeno com menos de um metro quadrado e uma salinha com uma mesa redonda e um único banco. É onde Cristal se esconde nas horas vagas. Ches só sabe disso porque é um penetra. Deixa sua sacolinha de sobrevivência na mesa da copa para ligar a água da pia e jogar a água no rosto.

Gelado. A pele arrepia enquanto ele esfrega os olhos com força pra tirar o grosso da sujeira que estava criando crostas nas suas orelhas e pescoço. O braço estava sujo até os cotovelos e ele tirou a camisa pra tirar a terra acumulada até a bainha da calça. Galhos e folhas caindo dos fios de cabelo.

Isso vai coçar tanto depois.

Quando fecha a água, se abana como um cachorro, mandando respingos molhados para o chão e a parede. É como se tivesse perdido dez quilos. Veste a camisa quase limpa e joga a imunda na sacola, um problema para o Ches do futuro. Enche a chaleira elétrica de água e liga na tomada pra esquentar.

Depois se joga no banquinho, respirando fundo e deliberadamente. Tudo bem. Pode ser inquietante parar para consertar alguma coisa, mas o Muquifo não ia conseguir pegar velocidade, aproveitar para se recompor é melhor do que apagar no meio da estrada. Ia ser pior se tivesse que andar.

Os dedos vão para um rádio antigo, posicionado acima do micro-ondas que, por sua vez, estava sobre um freezer pequeno e retangular, muito antigo, que emitia um zumbido constante de funcionamento. Gira o botão para as notícias.

Muitos engarrafamentos. Ele consegue usar o acostamento e a beira de estrada nas partes asfaltadas e mapeadas, mas vai precisar pegar mais uns dois desvios não mapeados se quiser chegar ainda hoje. Vai estar cheio de carro, e quase não tem largura para os carros, quem dirá acostamento. Ches não consegue fazer as manobras evasivas e elaboradas que Victoria costuma fazer.

Um relógio da parede. 60 bpm, um… dois… três… quatro… São três da tarde. Não parece, mas já gastou mais de quatorze horas. Se na primeira ligação eles já estavam atrasados em seis horas… São quase vinte horas. Mas ele tem aquelas doses de emergência no carro, então pode ser um pouco menos.

Porra, ele largou os estudos, não é hora de fazer conta.

— Vá a merda, Pink Floyd da Shopee. — Resmungou, colocando o macarrão instantâneo e o tempero na água quente. Tirou da tomada pra colocar o celular pra carregar. — Me passou inteligência por osmose. Nunca ouviu a frase de que os ignorantes são mais felizes?

Pedir ou não pedir ajuda pela PRF, eis a questão. Geralmente seus encontros são baseados neles tentando forçá-lo a confessar que estava bêbado, e em um ou dois dias de detenção. Como se fosse funcionar. No tempo em que ficou preso, foi até bem legal — tinha comida e espaço, regras de rotina, e um contato lá dentro que vendia suas drogas. Como férias. Mas provavelmente é só porque ele é a representação de “pequenas causas” e ninguém quer gastar dinheiro público só pra manter o vagabundo retido.

Ele nem é um perigo para os outros. Na maioria das vezes. Tem uma diferença enorme no tratamento do bêbado que dorme e do bêbado que puxa briga com os outros.

— Deviam usar o dinheiro que economizaram na detenção pra fazer a manutenção dessas estradas mequetrefes e não causar confusão em metade do mundo por causa de uma chuvinha, filhos da puta.

A voz sai rouca e amarga, trazendo aquele velho ressentimento com o capitalismo que nasce assim que você percebe que é pobre.

Enfia o garfo no macarrão instantâneo, na chaleira mesmo. Ninguém precisa de pratos aqui, ele só abriu a tampa. Enrolar e engolir. É salgado e quentinho, com gosto de câncer. Devagar, um passo de cada vez.

Só… adiar um pouco. Se for pra ganhar tempo no acostamento, consegue fazer sozinho. Talvez em algum trecho de lama que queira assassinar o pobre Muquifo, aí vai ser melhor. Os carros oficiais andam melhor na lama.

Precisa considerar o tempo que vai levar pra encontrarem uma viatura que possa levá-lo, já que a força total vai tá no controle de danos, o tempo para validarem sua identidade, e o tempo do transporte. Parece imprudente, e ele não sabe se está dizendo isso por trauma ou sensatez. Talvez os dois.

As vezes que viu o loiro sem as drogas legalizadas dele… Provavelmente é bem menos pior do que agora, porque naquela época ele não usava merda tão forte, é um desenvolvimento relativamente recente — uns dezoito anos, se bem se lembra. Depois de alguns arcos seguidos de readaptação medicamentosa até a coisa funcionar.

Glam tinha a tendência de evitar os remédios por causa do impacto na coordenação motora e atividade mental, só tomava pra não causar problemas reagindo demais. Definitivamente não saudável. Dois dias não seria tão ruim naquela época — se não fizesse nenhuma gracinha como beber, se drogar ou pular de uma ponte. Não foi um problema, depois das duas primeiras vezes quase morrendo por beber álcool, Glam ficou muito bom em dizer “Não”.

E quando não funcionava, Ches podia chamar a atenção com algum desafio do tipo “Quem beber por mais tempo, sem vomitar, ganha” ou inventar histórias dignas de um falastrão. Uma vez não foi o suficiente, então expulsou o grupo que estava sendo muito insistente em oferecer balinhas de ecstasy do camarim.

Insistir depois do “não” é chato pra cacete. Se o cara quer ficar sóbrio, é pra deixar ele sóbrio. Principalmente quando tem várias pessoas — tipo ele — dispostas a dizer “sim”.

Soprar, mastigar e engolir. Só agora ele percebeu que o corpo estava realmente frio depois de tomar toda aquela chuva — exceto as mãos. Tem vários novos pequenos arranhões de ficar arrastando coisa pra um lado e pro outro, então as mãos estão quentes. Pressionar uma das novas feridas afasta o sono temporariamente.

Podiam fazer uma dupla cover dinâmica: Os mortos-vivos; cantariam clássicos como Thriller do bom e velho Michael Jackson; ou Zombie, dos Cranberries. É uma ideia lucrativa, tocar na rua sempre dá pelo menos algumas moedas. Mesmo com os dedos ferrados, ainda manda relativamente bem se o lance for impressionar desconhecidos amadores. Só não em shows com gente que entende de música.

Vira o resto do caldo de uma vez com um gemido satisfeito. Definitivamente, estava com fome. Leva a chaleira pra frente da pia, passando água e um pano para tirar o gosto do macarrão, antes de encher e ligar na tomada de novo. O outro pacote vai ficar pra caso sinta que vai desmaiar até amanhã, mas é um ótimo momento para preparar o café instantâneo e guardar. Quando estiver saindo, vai precisar de um pique de cafeína para retomar o ritmo. Mistura o pó na água quente e recoloca a tampa no lugar com um clique satisfatório.

Encosta-se na parede para respirar fundo, enviando o comando manual para seus pulmões expandirem o máximo possível e relaxar os músculos das costas. Todo travado, estar ficando velho é terrível. Plano feito, ele deita a testa na mesa, só pra descansar um pouco. A mesa dura é ótima para aterrar os pensamentos.

As coisas vão funcionar, sim. É só um período ruim.

Os olhos pesam. Só um pouco. Só pra não desmaiar. O ar entra e sai.

— Seguinte, ô Zé Ruela. — Clonk. Ele levanta o corpo num solavanco, o coração batendo direto na garganta antes mesmo de os olhos processarem que ainda enxergam. — Radiador tá limpo, ajustei a correia e remendei uns cabos…

— Porra, Cristal. Tá doida?! — Reclamou, o lampejo de irritação brotando quando empurrou o cabelo para fora do rosto, com as mãos. Os dedos voltaram a tremer. Cristal tinha batido com uma chave de fenda na porta para chamar a atenção. — Não sabe que meu coração já morreu uma vez? Se eu tiver um treco agora, a culpa vai ser sua.

A mulher inclinou a cabeça, brevemente surpresa pela interrupção. Completamente cética.

— …Que seja. Enfim, o Muquifo vai andar, mas não força, ou o cabeçote te abandona. O tipo dele não foi feito para longas viagens. Sugiro que troque umas peças quando voltar pra casa. Não faço aqui porque é sob encomenda, até as peças chegarem você já desapareceu pra uma vala qualquer.

Ele respira, sentindo o peito expandir e mandando o comando manual para a adrenalina descer.

— Ok, entendi. Beleza, coloca na minha conta, mando a grana assim que conseguir.

Que conste: Ches não é caloteiro. Paga todas as suas dívidas. Com atraso e parcelas consideráveis, mas paga.

— Se tu aparecer aqui sem pagar de novo, te faço trabalhar pra mim por um mês, vagabundo.

— Cê que manda, gata. — Uma piscadela enquanto reúne suas coisas de volta na sacola. A chaleira vai na mão, pra não derrubar o café. O celular, com singelos 40% de bateria, vai na sacola também. — Cê vai direto pro céu, sabia?

Cristal responde com alguma provocação. Ches volta direto para a van, espreguiçando e alongando as costas para retomar o ritmo. Perdeu algum tempo, mas tudo bem. É gerenciável. Precisou de só duas tentativas para fazer o motor pegar e engatar para fora. O céu já tem aquele tom cinzento alaranjado de fim de tarde, que lembra o cronômetro sangrando cada vez mais.

Pena que se ele acelerar demais, ele para. O trânsito é um pouco mais tranquilo, mas a névoa subiu que é uma beleza. É como tentar enxergar através do vapor. O motor treme, atrapalhando o compasso musical. É difícil encontrar uma música que sintonize adequadamente.

Um passo por vez. O asfalto é úmido, a visão embaça, e há cada vez mais carros por perto. Naturalmente, agora que a parede d’água parou de cair, estão todos seguindo seus caminhos. Respira fundo, entra pelo acostamento, e segue viagem.

Victoria disse que abriu um boletim. Se a polícia realmente quiser pará-lo por isso, vai usar isso como justificativa. É o que funciona melhor, mesmo os caminhos para cortar estrada estão entupidos neste ponto. Liga o celular, só para checar se tem informação nova.

Duas ligações perdidas de Victoria, mas sem sinal para retornar. Do rádio só sai estática, fantástico. Cheira a terra molhada e fluído de freio, milhares de luzes vermelhas passando pela janela. Ches não olha para os lados, apenas para o corredor de asfalto livre.

— O mundo é todo descalibrado, Muquifo. — Um suspiro. Abre a chaleira para beber metade do conteúdo em um único gole. Gosto de plástico e de café barato. — Esses caras tão parados com o pisca-alerta ligado… Idiota. A gente não para até chegar, né? Pelo resto que essa estrada der.

É ruim de enxergar. Há alguns barrancos de pedra onde ele não pode cair, então mantém o pescoço esticado e os olhos abertos para olhar direito.

— Vamos lá, dona sorte. Não me deixa cair num buraco, faz favor.

Continua no mesmo ritmo pelo menos até a noite cair, oficialmente. O céu escurece e a única forma de enxergar se torna os faróis em movimento, de caminhões e carros bem maiores do que sua discreta van. Só significa que é ruim de enxergar o outro lado da pista.

Um dos pés bate ansiosamente no chão, engatando de terceira para quarta marcha. É como Floyd Rose, a afinação tem que ficar estável mesmo com a mudança de ritmo. Ches cantarola com a garganta, simulando as notas da guitarra — usar a alavanca como efeito percussivo é um truque barato, mas que funciona.

Skydive naked from an aeroplane… — É só seguir o ritmo. Seus dedos se movem tocando o volante, com uma precisão que já o abandonou. É só curtir. Música não tem que ser performance. No momento, pelo menos sincroniza com a própria ansiedade se tornando real. O coração parece bater cada vez mais forte no peito, levando espasmos para a ponta dos dedos. — Or a lady with a body from outer space; My heart, my heart, kickstart my heart…

Quase o lembra da imprudência juvenil de acelerar sem medo de morrer. Foi assim que Glam capotou o trailer, a quilômetros de qualquer posto de gasolina. Ninguém se machucou, mas não deu pra levantar a carroceria e tiveram que andar por quilômetros até um posto de gasolina para pedir reboque.

Naquela época, o celular não era tão conveniente quanto é agora.

Oooh, yeah, baby

Kickstart my heart, hope it never stops! Ooh, yeah…

Lá menor, para Sol maior, então Ré. Repete e termina em Fá. Pelo menos as noites que passou decorando cifras e letras não foram embora — era um hobby maravilhoso para uma criança desempregada. Agora, o coração acelerado não parece mais tão deslocado. Quase nem parece uma emergência, o que é, sim.

Mais um pouco de café para disfarçar.

…And I’d say we’re still kickin’ ass! — Novamente, para o refrão.

Então, alguma coisa bateu no vidro. “Kickstart my heart” soou mais como “...my heaaaaaaaarrrrrghhh!!”, quando pisa no freio. Em quarta marcha, é um solavanco terrível e seu coração parece parar por um segundo.

— Seja lá quem for o engraçadinho aí em cima, não é engraçado. — Sim, estava falando diretamente com Deus, independente de ele existir ou não. Porque foi um timing terrível e merecedor de algumas ofensas. — Puta que pariu, cês tão tirando o dia pra me infartar, bando de filha da puta!

A van parou. Pelo menos estava no acostamento e não causou nenhum acidente. Ches saiu para ver o que estava acontecendo, a adrenalina deixando suas pernas bambas. O cheiro de freio queimado vindo da van agora.

Um pombo. Morto. Uma das asas ficou presa no para-brisas e o impacto do bico arranhou seu vidro. Muito obviamente suicida e idiota, porque voou direto para seu vidro sendo que, bem, ele tem asas e pode só não entrar no caminho.

Pega o cadáver do bicho com a ponta dos dedos e deixou na beira da estrada. Algum outro bicho vai comer.

— Foi mal aí, carinha, cê não me deu tempo de desviar. E quase me matou, então estamos quites.

Ignorou o momento completamente para voltar para seu lugar.

— Puta que pariu, eu invadi o plano astral por um segundo. Posso morrer não, vou ficar preso no purgatório pra sempre. — Teoricamente ele sabe que a mãe dele também deve estar lá, mas parece tão chato.

Ele solta um gemido longo. Definitivamente o susto afastou qualquer resquício de sono.

Volta para a marcha neutra. Gira a chave. Não pega. Um engasgo e desistência.

— Oh, merda…

Segunda, terceira, quarta tentativa. Ainda não pega. Na oitava, o motor faz um som discreto de engasgo que pelo menos faz os lugares vibrarem.

— Não me abandona no refrão, Muquifo. Bora lá. — A velocidade vai muito reduzida agora. O medo muito real sobre seus ombros. — Não para, não é pra parar, eu ainda preciso de você, vamos…

O mantra quase religioso não funcionou de muita coisa. Provavelmente porque Ches não reivindica nenhuma religião como sua e estava pedindo ajuda para todas as entidades que existem. Deu interferência.

Não era nem um morro. Foi um quebra-molas medíocre e estúpido. O Muquifo tossiu uma nuvem de fumaça cinza e parou de funcionar. Encerrou a música em uma nota fora do tom.

Ches sente o instinto de chorar, mas a raiva vem primeiro. O calor sobe por suas bochechas enquanto salta da van para escancarar o capô: bafo de óleo quente e embreagem frita direto no rosto, mas o veredicto vem ao abrir a tampa do arrefecimento; é cor de café com leite.

O cabeçote já era. O ódio borbulhou violentamente enquanto tomava a decisão ilógica de chutar o pneu. Doeu, doeu pra caralho.

— Porra! — Berrou, segurando o pé e pulando numa perna só, porque agora os dedos também latejavam. — Qual é! Depois de tudo?! Agora?

Seu eu interior argumentaria que essa sequência de palavrões enquanto anda em círculos e gesticula agressivamente para a própria van foi essencial. Ches só quer gritar, xingar e chutar. Chutar deu errado, mas gritar e xingar dá certo.

— Vai todo mundo pra porra do inferno, que o mundo se exploda nessa caralha! Bando de filhas da puta! Puta que pariu, Muquifo! — É quase performático.

— Ei, amigo, tudo certo aí?

Ele travou, o braço ainda erguido num gesto nada gentil, para olhar para o outro lado do capô. O pescoço girou devagar, encontrando o cara que parou o carro logo atrás. O contraste foi imediato, porque ele logo respirou fundo, recompôs a postura e abriu um sorriso.

— Bom, meu cafofo acabou de cometer suicídio mecânico por causa de um pombo. Vai ser humilhante explicar isso pro mecânico depois, então eu diria que não muito. — É como se a raiva nunca tivesse existido, ele estende a mão. — Ches, prazer em te conhecer.

— …Marcos. — O cara estranha, olhando para a van fumegante e para o espantalho desnorteado de beira de estrada. Mas retribui o aperto de mão. — Quer um empurrãozinho no morro, pra chegar no posto? Tem um a uns dois quilômetros.

— Marcos, meu bem bom. Você caiu do céu. — Ches se encostou na porta, parecendo brilhar. — Posso te pagar com carne e cerveja quando a gente chegar na civilização. Dinheiro eu não tenho, já aviso, mas prometo que não sou assaltante, ok? É só o figurino desatualizado.

Marcos deu uma risada curta, desconfiado.

— Cê passou pelo acostamento por uns três radares, eu vi. Tem medo de multa não, Ches?

— Minha carteira tem tantos pontos vermelhos que parece que tá com sarampo, Marcos. — Ele deu de ombros, subindo no banco e segurando o volante com a ponta dos dedos. — Honestamente? Eu não devia nem estar dirigindo, sabe? Mas o dever chama, não dá pra recusar.

Camaradagem formada. Glam costuma se afastar dele quando ele age muito como uma borboleta social, mas é muito útil. É impressionante o quanto gente de estrada se compadece de ver um carro morrendo. Deve ser pra não atrair carma ruim.

Demorou uns trinta minutos para andar esses dois quilômetros, mas é principalmente por causa da neblina alta e da inclinação alta. O carro de Marcos colou na sua traseira, arrastando-o lentamente morro acima. O acostamento foi reduzindo para um trecho de mão única, mas não teve problemas em entrar no posto e puxar o freio de mão.

Marcos estacionou o carro e deu um último aceno. Ches baixou o vidro, sorrindo como um pateta, e desceu da cabine. Um agradecimento teatral que seu novo amigo pareceu achar divertido.

— Valeu mesmo, meu nobre! Te falar, meu anjo da guarda te enviou, só pode. — Pra compensar ter fudido tudo com um maldito pombo. Inclinou-se para dentro, sequestrando um lápis do porta-luvas e um pedaço de papel que tava dando bobeira no chão. Rabiscou o próprio número de celular e estendeu, como se fosse um cartão de visitas. — Guarda aí, bom homem. Qualquer dia desses te arranjo uma carninha da boa e um fardinho de cerveja. Só se esbarrar por aí, palavra de músico!

O frentista estava encostado em uma bomba de diesel. Ches aguardou as lanternas traseiras de Marcos se distanciarem um pouco para deixar o sorriso murchar, a expressão malandra substituída por uma urgência fria. Se arrastou para dentro da van de novo, tirando a bolsinha cinza do banco do passageiro e prendendo nos ombros. Bebe o resto do café na chaleira. Só o essencial. Lembrou do saco de pão duro na traseira da van e o pacote de macarrão instantâneo que ainda não comeu, o que vai funcionar bem para não deixá-lo desmaiar assim que a adrenalina baixar. Celular vai junto na sacola de comida.

— Eu volto pra te buscar, Muquifo. — Confidenciou num murmúrio. Então deixou a exaustão sair num sopro cansado e saiu da van pela última vez, trancando a porta. — Ae, colega, dá uma luz aqui!

Ele imagina como deve parecer. A calça é uma bagunça de lama seca, a roupa de cima úmida, suada e amassada. O banho de pia não faz milagre não, devia parecer um zumbi desnorteado — o que não é muito diferente do seu estado usual de músico de beira de estrada. Que seja.

O frentista parece adequadamente desconfiado. Cara inteligente ele.

— Onde que os cara tão patrulhando por aqui? Tão fazendo blitz na proximidade?

Ches não ajudou em seu caso. Deu pra ver as sinapses do frentista se conectando quando o homem arqueou a sobrancelha e foi buscar o rádio de bolso.

— Relaxa, chefia. Sou foragido não. — Dispensou com um gesto brusco, como se pudesse ajudar. — Tô é precisando falar com os caras, carga importante. Meu Muquifo, que Deus o tenha. Já era. Posso esperar eles chegarem aqui não, falando sério.

Olhando pela rodovia. Luzes vermelhas dos freios se estendiam como uma ferida aberta na neblina. As sobrancelhas franzidas em uma preocupação genuína. Já faz um bom tempo que está escuro.

— Tem um posto da Federal subindo o viaduto, uns três quilômetros. Tão parados lá por causa do bloqueio no desvio. — Ótimo, passou credibilidade o suficiente.

Três quilômetros… Não é muito longe. Exceto por seu corpo tremendo como uma vara seca. Até queria se dar ao luxo de não ter pressa, mas isso não daria certo. O tempo de não ter pressa já passou.

— Beleza. Muquifo fica aí de enfeite, depois te arranjo o aluguel.

Um passo após o outro. É isso, sem pirar demais. Ou a próxima coisa a dar defeito é ele. Não olhou pra trás, deixando o terreno do posto antes de se arrepender, com só a bolsa de remédios e sua sacola de energia para caminhar pelo barro de beira de pista.

Contou os passos, tentando sincronizar com a respiração. Um, dois, três, quatro — para dentro —, um, dois, três, quatro — para fora. É um compasso simples, quaternário. Só não pode parar. Nada de parar.

Os joelhos queimam pra caralho. Tem uma pontada desagradável no peito que sempre aparece quando ele se esforça demais. O calcanhar afunda no solo ainda úmido.

É importante continuar respirando. Atravessar a névoa quase parece com aquelas máquinas de gelo seco, para dar um efeito dramático no palco. É teatral. Um, dois, três, quatro… Não olhar pra trás, não dá pra voltar, não.

Blood red sky… — Não, não dá pra cantar. Seu fôlego não durou um único verso, quem dirá uma estrofe.

Puta que pariu, ficar velho é ruim demais. Bolsinha apertada perto das costelas, pés se movendo em um ritmo constante… O andamento original é de cerca de 104 bpm, mas se tentar seguir a risca, vai vomitar seus pulmões. Em 80 bpm, deve conseguir. Um, dois, três, quatro.

Se lembra bem do som, começa com um ritmo bem melódico e delicado, inspirado na Toccata e Fuga em Ré menor, de Bach. Alternando entre puxar e empurrar a palheta na progressão das notas. Blood red sky on a desert road; gotta make my way down to Mexico; For what I did, I know that it was wrong…

Fôlego. Inspira, um dois, três, quatro. Abre aquele pacote de macarrão instantâneo e mastiga a coisa crua, só pra ter alguma coisa para fazer com a boca. O pé escorrega, só um pouco, mas retoma o ritmo sem cair. The fire in my heart, it will never die; Everything I love will be left behind; No turning back, forever gone tonight…

Os solos de guitarra são sensacionais. Glam ainda deve conseguir reproduzir, é emocionante pra caramba. Tenta não pensar no pobre Muquifo ficando pra trás. Vai buscá-lo quando as coisas se resolverem, com certeza, mas ele infelizmente foi rebaixado a peso morto.

Pelo menos, a chuva não dá sinais de voltar.

Um, dois, três, quatro.

All my love, Anastasia; Anastasia, this may be our last goodbye; You can’t save me, I am fading; Blood is on my hands tonight…

É em Ré menor, embora a transposição da guitarra faça parecer em Dó sustenido menor. Mastigar e engolir. Respira, um, dois, três, quatro. Tudo bem, nada fora do controle. Um verso de cada vez. All I need is a miracle; lawmen got me running now forever more; they’ll hunt me down until the end of time…

Quais as probabilidades dele ser preso? Tecnicamente falando, a carteira dele está suspensa há alguns anos já, e ele nunca se preocupou em resolver isso. O Muquifo deve ter umas oitenta falhas mecânicas que não passariam em uma blitz, e talvez tenha um fardo de cerveja quente e vodka no porta-malas, que ele não bebeu, então só é triste pra hora que realmente quiser beber. O corpo deve tremer mais que um pinscher com Parkinson. Vão achar que é traficante, com certeza. Ou um viciado tentando conseguir carona, o que torna a decisão de procurar os caras muito, muito burra.

Não é como se fosse chegar lá a pé. Oh, my mama, now I’ve got to go; never love another how I’ve loved you so; I’m so afraid to leave this all behind…

Até lembra de quando saiu das asas da mãe. Não foi uma cena bonita. Coincidiu com a época que tinha ficado maior de idade e a mãe bebeu o suficiente para precisar ser internada e quase entrar em coma alcoólico. Eles brigaram quando ela acordou, Ches foi embora com as dóceis palavras: “Tu tá me arrastando pro mesmo fundo do poço que cê tá, desgraçada! Fica estragando tudo que toca, por isso ninguém quer ficar perto!”.

Ele pegou o trailer e saiu em turnê com a banda. Pensou que pagando as despesas médicas, a internação psiquiátrica e até um cuidador decente poderia compensar a separação desastrosa. Todo seu salário, por anos, tudo voltando para suas origens. Nenhum pedido de desculpas, nenhuma conversa. Ia voltar quando tivesse uma carreira de sucesso, quando pudesse realmente dar algum tipo de orgulho que não fosse o “filho que fugiu de casa e herdou os mesmos vícios e indiferença com a própria vida da mãe”. Não deu tempo.

Dá pra sentir o coração batendo no peito. Dói e acelera conforme o esforço físico continua. Respirar, deixar o pulmão expandir. Um, dois, três, quatro. Não é hora de surtar. Os ombros estão gelados da umidade e do suor, mas não sente frio nenhum graças a continuar se mexendo. Tudo bem. Quando acaba de mentalizar o solo agressivo e extraordinário de Anastasia, há um breve momento de silêncio e chiado mental, preenchido pelo barulho da sacola, respiração ofegante e mastigação.

O suficiente para sintonizar em outro som que não seja o do próprio corpo colapsando. Se tivesse a opção, rasgaria a própria pele para sair. É um desconforto arrepiante que o faz querer se mexer mais, mas que o próprio corpo não aguenta. Deveriam ser… 186 bpm. Ele não consegue sincronizar os pés assim. Talvez algo em torno dos 90 bpm, para sincronizar cada passo.

É só desacelerar onde consegue. Não é como se fosse uma audição. Warm yourself by the fire, son; And the morning will come soon; I’ll tell you stories of a better time; in a place that we once knew…

É um vocal rasgado muito potente. Alterna entre a melodia limpa e o drive agressivo, o que funciona bem no refrão e na ponte. Ches ouviu vezes o suficiente para preencher as lacunas com o instrumental, bumbo e caixa. Um, dois, três, quatro. Se parar, não vai conseguir retomar. Dói pra caralho, esse corpo traidor. Before we packed our bags; and left all this behind us in the dust; we had a place that we could call home; and a life no one could touch…

Lá vem, a explosão. Don’t hold me up, now; I can stand my own ground; I don’t need your help now; You will let me down, down, down…

Expira ruidosamente. Um, dois, três, quatro. Não é um ataque cardíaco, é apenas a exaustão. Você não vai morrer, Ches. Seu coração não te traiu de novo depois da primeira vez, e você sabe. Um, dois, três, quatro. Ele quer choramingar. Dói demais. We are the angry and the desperate; the hungry and the cold; We are the ones who kept quiet; And always did what we were told…

Deveria pedir para Glam ajudá-lo numa apresentação. Só pra compensar. Violino e guitarra chamam mais atenção na rua do que apenas a guitarra, e ele pode ofuscar sua coordenação motora falhando. Sempre consegue mais dinheiro assim. Às vezes tem até uma galera de comércios que pede para tocar para preencher o ambiente. É bem legal. But we’ve been sweating while you slept so calm; In the safety of your home; We’ve been pulling out the nails that hold up; Everything you’ve known…

Outra explosão. O contraste é muito bem feito. A música lançou em… 2006? Alguma coisa por aí. Vai da melodia limpa e dedilhada, para a base rítmica e contida direto para power chords abertos. Respirar, se ele esquecer de respirar, o coração se fode mais ainda. Um, dois, três, quatro. Dentro e fora.

So open your eyes, child; Let’s be on our way; broken windows and ashes are guiding the way; Keep quiet no longer, we’ll sing through the day; of the lives that we’ve lost and the lives we’ve reclaimed.

Não focou na passagem do tempo. Quando uma música passava, simplesmente mudava para outra, tentando mastigar e respirar ao mesmo tempo. O corpo sua e treme terrivelmente, mas vai seguindo, passo por vez. Passou por boa parte de sua playlist apenas mentalizando suas opiniões e tentando sincronizar os passos. As mais intensas primeiro, para ganhar terreno: Vampire Girl, God Save The Queen, Rebel Yell, Carry on Wayward Son, Rape Me, Last Cigarette, Neat Neat Neat, Youth Gone Wild… O objetivo foi alcançado quando estava chegando no verso de “Search and Destroy”.

Honey gotta strike me blind, Somebody gotta save my soul; Baby, penetrate my mind…

Um muro de luz difusa e cegante. É fácil saber que chegou, as luzes de emergência azuis e vermelhas das viaturas refletem na água e na neblina, tornando tudo insuportavelmente claro e urgente. Passou pelo pátio amplo de brita batida e pelos carros estacionados do lado de fora, contornando todo o caos que os engarrafamentos e abordagens causam do lado de fora. O som muda para o de geradores de energia e chiado de rádios, que não são os seus.

A mão treme tanto segurando a bolsinha que precisa usar as duas e abraçar o remédio contra o peito. O céu começou a clarear, o que só mostra que está perdendo tempo extraordinariamente rápido e as luzes oficiais são uma ofensa real para a penumbra das últimas horas.

Mal deu um passo naquele chão limpo, na primeira porta. É frio pra cacete e a lama no corpo fica mais dura. O som de rádio com códigos oficiais que ele não entende, mas pode teorizar “QAP na escuta”, “TKS Central”, é mecânico e impessoal. O policial de pé no balcão de atendimento o identificou em meio segundo e levantou a mão.

— Parado aí, cidadão. Mãos onde eu possa ver.

É por isso que ele não gosta desses caras. Ches suspirou, sentindo a exaustão bater nos ombros, o tremor não é nem abstinência. É cansaço. Ele gostaria de cavar um buraco e descansar até não sentir mais que pode rasgar a pele, camada por camada. Ele quer fugir. Anos de sobrevivência avisam: é pra correr rápido.

Outro cara se aproxima, igualmente trajado em autoridade: um uniforme azul-marinho tático, colete e cinto com armas.

— Documento de identidade. Nome completo e CPF. O que tem nessa bolsa?

A identidade… Ele não trouxe. Fantástico. Ches abre um sorriso exausto, exercitando a memória e a lábia.

— Não trouxe o documento, mas tenho ficha. Pode checar. É… Harvey Smirnov, mas pode me chamar de Ches. — Nem a sua mãe o chamava pelo nome. Geralmente era só “Filho”. A última vez que alguém realmente o chamou por algo que não fosse um apelido, tinha uns cinco anos. Ele tem quase certeza que era um parente. — Eu tô sóbrio, camarada. Não é intoxicação, beleza? Tô esquisito porque meu cérebro é todo fudido. — Estende a bolsinha, tentando realmente impedir as mãos de tremer. O sorriso carrega um certo constrangimento real. — É merda controlada. Eu não entendo de química, mas meu brother tá precisando disso naquela cidade depois do KM 60, e a esposa dele já deve ter aberto o berreiro no rádio de vocês. Eu pedi pra ela abrir um B.O. Ela abriu um B.O.? O nome dela é Victoria Bolshoi.

O policial mais perto dele arqueia a sobrancelha, pegando a bolsinha com o cuidado que ela merece, ele levanta as mãos, devagar. Olhou pro cara atrás do balcão, que colocou uma mão em um fone de ouvido e repetiu, para nenhum deles dois:

— Central, aqui é a UOP-02. Indivíduo alterado no balcão, alega ser portador da carga médica do protocolo de transbordo da 105. Solicito confirmação do B.O. de extravio de medicação. Câmbio.

Neste caso, Victoria fez o trabalho bem. A cela de detenção não parece uma ameaça tão imediata, neste caso. O ar condicionado é tão frio, por que diabos tem que ser frio? As mãos não param de ter espasmos. Ele não precisa se olhar no reflexo do vidro para entender: os policiais são treinados para deter gente tipo ele.

Enquanto o cara do balcão espera confirmação, o que está perto dele sinalizou para manter as mãos erguidas. Ches conhece o protocolo, abrindo um pouco as pernas e deixando as mãos atrás da nuca. É uma revista. Azar o dele, Ches vai estar fedendo pra caramba neste ponto. Seu último banho foi em uma pia de oficina, e nem foi de corpo todo. E ainda não foi na lavanderia este mês.

A busca em seus bolsos foi uma novidade até pra ele, que não se importava o suficiente com o que guarda na roupa. Uma caneta, farelo de pão, três presilhas de nylon, um anel, pulseiras de tecido, três moedas e uma agulha. Nada ilegal, que bom. A sacola realmente só tem o seu celular, a embalagem do macarrão e um punhado de pão endurecido que ele ainda pretende comer se a pressão baixar.

— Olha, cara, eu sei que sou uma bagunça, tá? Pode me prender, cercar o Muquifo, o que precisar pra fazer o trabalho de vocês. Mas meu amigo precisa das peças de reposição dele, então eu preciso de ajuda aqui.

— A informação é de que estaria em uma van bege, Harvey. — O cara de trás do balcão mencionou, Ches sente um arrepio e demora para entender que deveria responder. É um delay de processamento.

— O Muquifo ficou num posto, lá atrás. Suicídio mecânico, não liga mais não. Aí eu vim a pé.

Eles se olharam, trocaram códigos que ele não se importa em entender. O cara que o revistou se afastou e ele finalmente relaxa os ombros, aproveitando as mãos livres para alongar e estalar os dedos. Todos os músculos estão tensos, é tão desagradável. O agente perto dele apontou para um banco de metal fixado na parede, longe dos computadores.

— Senta ali, Ches. Um batedor vai confirmar sua van no posto. Vamos ter que esperar a viatura de apoio que vem do setor norte. Vai levar um tempo; o desvio está um inferno.

A desconfiança deu lugar para uma eficiência lógica. Que bom. Passou pela fase chata, e esse cara até usou seu apelido. É melhor assim. Ches não protestou, indo até o banquinho e deixando um rastro de lama meio seca pelo caminho. As roupas úmidas pareciam uma armadura de gelo.

O agente se compadeceu de seu estado deplorável. Aquele atrás do balcão. Se levantou e foi até a térmica de café, encheu um copo de plástico descartável e estendeu para Ches, mantendo uma distância prudente.

— Bebe isso. Para alguém que diz que está sóbrio, você parece que vai cair duro a qualquer momento… — Ele para, olha para a sujeira que Ches espalhou no chão, então retorna, com a voz um pouco mais dura. — Não se mexa muito, a perícia vai me matar por causa desse barro.

— Tô só o pó, chefe. — Ele riu, aceitando o copo. Quente. Calor contra os seus dedos, a diferença de temperatura é tanta que até dói um pouco. — Mas o remédio tá limpo. Não abri aquele zíper desde que peguei… Fala aí, qual é seu nome, camarada? Tô me referindo a vocês como “policial 1 e 2” desde que cheguei.

Há um crachá. Ele está usando um crachá e Ches poderia ler, mas entender letras agora parece impossível.

— É Gabriel. Aquele ali. — Aponta para o cara que fez a revista, parado perto da porta. — É Bruno… Tenta se recompor até a viatura chegar.

— Cê que manda, chefia. — Ele ri, um som com o nariz. Leva o copo para a boca, realmente deixando o café quente na boca por um tempo. Só para esquentar a gengiva gelada. É um pouco melhor agora.

Quando acabou o café, abriu a sacola com pão. Comprou na semana passada e é duro como pedra — do tipo que essa devia ser a coisa mais perigosa que ele estava carregando. Se chacoalhasse a sacola na cabeça de alguém, daria um traumatismo craniano, com certeza. Mas, para os padrões baixos de Ches, se não tem mofo, dá pra comer. Só deixar na boca e deixar a saliva amolecer o suficiente para engolir.

Uma mordida. Lenta, que seja. É só mastigar devagar. Ser a reserva de energia que seu corpo precisa para continuar funcionando. O tempo. Já passou tempo demais. Se Vicky realmente abriu o boletim, e esses caras ainda o tratam como prioridade, quer dizer que nenhum plano deu certo ainda.

Ches… só sabe que isso é ruim. Glam trata seus remédios com uma seriedade enorme, mas é difícil entender quando ele fica divagando sobre termos médicos complexos. Ele resumiu tudo em: o cérebro falha, e o resto do corpo vai junto.

Não pensa muito nisso. Ele não consegue detalhar a dinâmica da degradação e nem tem uma máquina de teletransporte. Fecha os olhos e massageia as têmporas. Não conseguiria dormir nem se quisesse, o corpo dói pra caramba. Tensão muscular acumulada e que os espasmos cutucam toda hora.

É mole o suficiente. Mastigar, engolir. Próximo pedaço.

Esfregar as mãos na calça. A fricção impede os dedos de virarem pedras de gelo. Resgata o celular da sacola. Outra ligação perdida de Victória. Há sinal o suficiente para retornar agora, já que é um posto oficial, mas ele hesita em ligar. Já sabe que ela entrou em transbordo oficial e que não chegou ainda. Vai ser só uma troca de notícia ruim.

Um, dois, três, quatro. Não tem mais que sincronizar os passos e o fôlego, então é mais fácil. Contém a voz para não ser um incômodo, mas a garganta começa a imitar os sons do instrumental de Youth Gone Wild. Essa música ser de 1989 é a prova de que essa juventude selvagem já passou, mas tudo bem.

145 bpm, entre Sol Maior e Mi menor. O acorde principal é um Mi com a quinta. O solo de guitarra… As notas variam rápido e com precisão, com vibratos amplos e harmônicos artificiais. Parece que grita. Perde o foco temporariamente para tentar emitir o som na nota certa, mesmo sendo apenas um som de garganta e sem forma. É uma distração bem-vinda. O vocal é muito bom, Ches não consegue atingir notas tão altas. Nunca conseguiu, o tom dele é mais algo entre contralto e barítono.

Só era o vocalista da banda porque entre os quatro era o que mais entendia de música. Não necessariamente canto, mas isso deu pra improvisar. Você perde a vergonha depois de levar o violão pro meio da rua pra conseguir esmolas.

— Harvey…?

— Pelo amor do bom Deus, cara. Me chama de “Ches”, acho que meu cérebro parou de reconhecer “Harvey” como meu nome. A última vez que alguém me chamou assim, eu ainda tava na pré-escola. Até minha mãe, ela me chamava de “Filho”, e eu realmente espero que não seja porque tinha esquecido meu nome… — Murmurou, automaticamente, um sorriso irônico crescendo no rosto junto com o fluxo de palavras. Então, o cérebro sintoniza e olha para frente. Bruno, o agente de antes, estava parado, com a bolsinha cinza da salvação e parecendo muito confuso. — E aí, meu chapa. Caminho liberado? Simbora, que o tempo é curto.

Apoiou a mão nos joelhos para se levantar. As costas doem, que inferno.

— Vamos por uma saída lateral. Te mostro o caminho. — Bruno pareceu profissional e neutro. Ches deu de ombros, seguindo atrás dele sem protestar.

— Eu sei que não é justo jogar toda a culpa na cadeira de vocês, mas minhas costas doem como um inferno. Talvez seja a idade chegando, mas já pensaram em apoio para os cotovelos? Acho que ia ajudar.

— …É apenas material padrão.

Ah, legal. Depois da portinha, dá direto no pátio e chão de brita. Tem poucas viaturas, e é fácil de saber qual é a deles, porque seu colega vai andando direto para ela.

— Aí, colega. Agora que não sou detento, posso ir na frente, ou o banco traseiro é para todos nós, reles mortais?

— Banco traseiro. É para evitar interferência nos comandos, Ches.

Ele realmente não se importa, desde que o motor funcione. Entra no carro ao mesmo tempo em que Bruno aciona o rádio do painel, falando com a voz técnica e neutra.

— VTR 201 para Central, iniciando transbordo de urgência, saindo via UOP-02. Destino: Posto de saúde regional. Código 3. QSL.

Ele entra, afivelando o cinto de segurança e fechando a porta. Mentalmente, considera uma vitória não ter sido preso.

A voz no rádio, que aparentemente é a de Gabriel, coloca em termos bonitos e mais chatos ainda: “Central para VTR 105, QSA 5. Localizado QRU no setor norte, posto de gasolina, KM 52. Veículo utilitário bege. Condutor identificado como Ches; QTH confirmado. Unidade de apoio regional em deslocamento para interceptação. QSL?”

Encontraram sua van. Bom saber.

E agora, a Baronesa da Sucata sabe dele. Melhor ainda. Só falta o grande encerramento.

Os pneus tremem nas pedrinhas do chão, o que faz os dentes tremerem. Tem muito mais força e estabilidade que seu Muquifo. Há caminhonetes caracterizadas e alguns carros legais, que passam em frente sem nem ponderar; entram pela faixa de aceleração exclusiva do Posto Policial. Mordomia demais, é como se fosse um príncipe.

Bruno parece focado em seu papel de motorista, a postura ereta. O chiado do rádio vem com palavras difíceis e acompanhado de estática neutra. O som é… limpo demais.

Ches tamborila com os dedos na calça, arranhando um pouco do barro seco. A perna assumiu um ritmo inquieto. Dormir parece… uma cilada. Ele localiza a térmica entre os bancos com café barato e assume seu papel de ladrão de cafeína. Tinha segurado inconscientemente o copo descartável onde bebeu antes, e dessa vez só estica o braço e serve o copo, novamente. O calor é bem-vindo.

— O chiado… É um Fá sustenido, quase um ‘drive’ de amplificador valvulado com a fiação toda fudida. — Toma mais um gole. A cafeína é fraca para quem já experimentou cocaína. — Esse colega, Gabriel… A voz é meio que barítono, né? Devia fazer locução, ou cantar algum blues pesado. Senti a emoção do Juízo Final, e ele tava só anunciando o número do B.O. da minha cunhada.

Bruno ri pelo nariz, checando o GPS acima do rádio. Ches sorri de orelha a orelha, a voz modulando em novos tons. O cara gosta de protocolos, mas não é robô. Dá pra conversar.

— Ele é só metódico… Você devia descansar. Mais um pouco de suor e eu pensaria que a pessoa colapsando é você.

— Eu? Há, jamais. — Ches dramatiza com um gesto de desdém. — Tá ligado na minha mão, Bruno? É o que sobrou do meu último colapso, e foi lá em 2003. Ela não para, nem se eu tomar todos os relaxantes musculares do mundo, um vibrato eterno. Não é frio. Só um pouco de abstinência. — É quase como um troféu, mesmo sendo o que o impediu de continuar na música. Tudo bem, aquela vida perdeu o sentido depois que a mãe morreu, tava arruinando toda a magia que o som deveria ter. — Fiquei fora do ar por uns… vinte minutos, eu acho. O médico tava me declarando morto e tudo. Aí eu voltei todo descalibrado. Já são uns vinte anos de controle de performance, e com base nisso, te digo: ia precisar de mais um dia brigando contra o volante, ou mais umas três horas andando no frio pra terminar de fritar meus neurônios.

Em tese. Ches se sente bem no limite agora, mas conseguiria empurrar mais um tempo. Não tem a visão escurecendo ou a dor agoniante do coração prestes a explodir. Só uma pontada do esforço físico que lembra que o músculo batendo no seu peito ainda é tecido cicatricial.

— …A gente vai chegar, Ches. — Bruno acionou os sensores de empatia, relaxando os ombros e a expressão. Só um pouco. — O transbordo tá como prioridade. A Central já limpou o acesso no KM 58.

— Eu nem percebi, mas era o loiro que tava nos meus contatos de emergência na época. E a gente tinha brigado feio, ele foi meio babaca, mas eu tinha estragado as coisas antes. Jovem exercendo o direito de ser imbecil pra cacete. — Ele sente a voz suavizar. Na época, tinha ficado muito puto, abandonado. Resignado ao mesmo destino que sua mãe. — É como se ele tivesse ido me buscar nas portas do inferno, vi até minha mãe lá. Tenho que retribuir o favor, saca? Sem ele eu não teria passado nem do primeiro dia fora do hospital.

Ches não alimenta ilusões de que se não tivessem discutido, não teria perdido a linha. Ninguém nunca o forçou a se drogar, nunca tiveram que pressioná-lo a dizer “Sim”. Talvez o colapso tivesse sido adiado, mas não dava pra ter evitado. O Ches daquela época não teria evitado nada; quase morrer foi o que o fez maneirar.

Teve que relembrar que ainda tinha medo da mortalidade. Que não podia ser invencível pra sempre. Foi um marco importante. Acabou de beber o café no copo descartável, respirando profundamente. Calor. O calor faz a inquietação diminuir.

Bate com as unhas na porta, tentando lembrar algum ritmo, ou sintonizar em alguma frequência. Só pra deixar o cara realmente focar no rádio por um tempo. Rápido, 163 bpm. Can you help me occupy my brain? Whoa, yeah; I need someone to show me the things in life that I can’t find.

— Cara, e esse estofado? É feito para durar mil anos, mas parece que suga a alma da lombar. Sinto daqui o peso do seu colete, Bruno. Meus pêsames. — Ele sente falta do assento do Muquifo. Fede a mofo e derrota, mas já estava acostumado ao seu corpo. Podiam capotar, mas ia ser confortável. Na medida em que capotar é confortável.

— É um equipamento padrão, a gente se acostuma.

— Acostuma nada, grandão. — Ri, seco. I can’t see the things that make true happiness; I must be blind. — Cê cria é calo no seco. Aposto que suas costas tão ferradas, não tão? Mas ó, sua postura é mó boa. Deve ajudar pra caramba. É raro ver alguém que respeita a transferência de peso nesse asfalto sabão.

O cara sorri, então se lembra de que está trabalhando e tenta se recompor. Tudo bem, Ches sabe que é encantador.

— Ah, mas a correia vai soltar. Tá frouxeando, tô sentindo. É bom olhar isso aí, ou vai deixar vocês na mão no meio de uma perseguição.

— ...Pior que tá mesmo. Você entende de motor? Ou é coisa de ouvido de morcego?

— Ouvido bom. E anos de experiência lidando com o Muquifo. — Demora um pouco, mas ainda tá em sua zona de conforto. — Eu morava num trailer quando era criança, tá ligado? Só eu e minha velha. Aquela coisa ainda se movia até um tempo atrás. Hoje em dia, só tenho a carroceria. Comprei uma vaga coberta, aí a carroceria é tipo um quarto móvel. Cê pode pensar que é coisa de pobre fudido, mas as outras crianças adoravam. Tipo, quem mais ia ter uma casa móvel? Comprei o Muquifo num ferro-velho, lá pros anos 2000, só porque o motor do trailer tava dando de arriar. Dá pra entender das coisas quando já deram todos os defeitos do manual de instrução na sua mão, mas sou mecânico não. Só entendo de gambiarra e perrengue, sexto sentido construído a partir do trauma.

Particularmente falando, ele está muito orgulhoso da própria capacidade de sobreviver com gambiarra. Quando criança, consertava e vendia lixo. Tinha uma tia e um avô materno que impediam sua mãe de morrer na própria inutilidade e arrastar ele junto, mas não eram muito úteis quando se tratava de hobbies supérfluos de uma criança com hiperfoco em música. Depois de um tempo, sua tia começou a entregar o dinheiro pra ele, porque ele compraria comida, e não cerveja, como dona Valdirene faria.

— …Ches?

Ele pisca algumas vezes, retomando o foco para olhar para Bruno. A cabeça saiu de frequência por um tempo.

— Desculpa, pode repetir? Viajei aqui.

— ...Você está conseguindo me ouvir com clareza? Ou o som do rádio está embolando com minha voz?

É um assunto completamente diferente. Ele estreita os olhos, organizando as informações na cabeça antes de enviar para a boca.

— Te ouço bem. É só coisa dos meus vinte minutos fora, às vezes a informação demora pra chegar. O que cê tinha perguntado antes?

— Esses vinte minutos… Foram overdose, ou o coração só parou? O médico te deu algum diagnóstico de sequela permanente?

— As duas opções. Fiquei internado por um tempo, sem acordar. Aí o coração parou… Um delay pra raciocinar, coordenação motora fina já era e, de quebra, agora o peito dói quando me exercito. Tô surpreso de ter cinquentado, na moral, vaso ruim não quebra. Mas não era isso que você perguntou, ou era?

— Sobre o Muquifo. Como você pretendia atravessar a divisa? O batedor disse que a van não passaria em uma vistoria básica nem em dia de sol.

— Cara, eu tava cortando o engarrafamento inteiro pelo acostamento e beira de estrada. Se um de vocês me parasse, eu ia usar a cartada do boletim aberto. Inclusive, só fui no posto porque um pombo acabou com o esquema. — Aqui, ele bufou, completamente insatisfeito de lembrar do incidente. — Um pombo, Bruno! Um rato com asas! Voou direto no meu vidro, como se quisesse morrer. Foi idiota pra caramba. Aí eu pisei no freio. Na quarta marcha. E o Muquifo me abandonou. Vou precisar trocar o cabeçote… E arranjar a grana pra isso. Merda. Era só não forçar, ir com jeitinho… Tenho certeza que tinha uns caminhos de brita ali perto do rumo do KM 54, já passei por aí.

— ...Você trabalha, Ches?

Ches estreitou os olhos. Não pela pergunta inesperada, mas justamente porque processou a surpresa e desconfiança. Um pouco ofensivo, se pode dizer bem. O cara tá achando que é traficante ou ladrão.

— Posso fazer pequenos consertos, trocas e favores na maior parte dos lugares por onde passo. Vender lixo no ferro-velho e fazer música de rua. Faço um pouco de tudo, colega. Sou muito bom no manejo financeiro, se não estiver bêbado… Eu comprei uma balalaika. Sabe o que é isso? É um violão triangular russo. Eu não consigo pressionar os acordes, por que diabos eu comprei uma balalaika?

Só não é registrado legalmente. Mas funciona.

Make a joke and I will sigh; And you’ll laugh and I’ll cry. Happiness, I cannot feel; And love to me is so unreal… Essa música. É uma das primeiras que tocou com Glam na rua, não é? Paranoid. Ele se lembra dos cartazes em seu quarto de infância, tinha um do Black Sabbath bem perto da cama. A boca para de se mexer por um tempo.

Um, dois, três, quatro. Ele para de olhar para o banco de motorista, focando no ritmo por alguns segundos.

— Você toca alguma coisa, Bruno? Seu movimento de pulso é bem preciso. Daria um bom baixista.

— Não tenho tempo pra isso, não.

Ches solta uma risada seca, amarga, reconhecendo o estereótipo. Ele não tem muito crédito para retrucar.

— O loiro, o que tá com o cronômetro ligado, é professor de música. A gente já teve uma banda, sabe? Nós dois e outros dois que eram meus amigos de infância. Bob e Lordi. Whoarethesefreaksonthestage; fui eu que dei o nome. A gente subiu no palco e eu percebi que a gente não tinha pensado em nada. — No começo, só iam tocar na garagem de Bob. Os pais dele vendiam discos, então tinha muito equipamento de música velho e dava pra vagabundear tranquilo descobrindo os novos lançamentos. Só virou uma banda depois que Glam entrou.

Aquele primeiro show… Foi fantástico demais. 14 de agosto de 1985… Menos de doze horas depois, Glam bateu na sua porta, uma mistura bagunçada de riso e choro histérico. Porque tinha brigado com o pai idiota.

Sinceramente, a mãe dele era uma alcoólatra completamente incompetente e eles tinham que se virar para conseguir comida e dinheiro. Só de Glam ter abandonado a vida rica dele pra morar com Ches e nunca ter demonstrado nenhum arrependimento real, já era uma bandeira de alerta enorme. Não tem playboy que queira trabalhar pra viver, mas ele quis.

Foram bons tempos, de qualquer forma.

— E como vocês se conheceram? — Ches quer comemorar. A primeira pergunta sem nenhuma relação com a situação, isso quer dizer que esse cara já tá na lista de seus contatos úteis no futuro. — Parecem bem diferentes.

— A gente se encontrou no lixo.

O mais divertido é que não é piada. Ele deixa a informação fermentar por uns segundos, porque a expressão das pessoas é sempre muito divertida.

— É sério, eu fui mijar atrás de uma caçamba de lixo e ele chegou chutando uma lâmpada quebrada. O cara é artista, tava fazendo uma maquete de lixo escondido da família. Depois, a gente foi estudar no mesmo conservatório, facilitou as coisas.

Desvia a atenção para olhar pela janela. O céu tá ficando um azul cada vez mais claro, com nuvens bem espaçadas e discretas. Não parece que o mundo caiu ontem. Às vezes a natureza só aparece para dificultar a vida.

— Sua cunhada, a Victoria… Ela é sempre direta assim? Ela tava dando ordem pro comandante do setor norte ontem cedo. Foi… Sinceramente, impressionante.

A grama… É bem verde depois da chuva. Bonito, quase poético. A sequência dos últimos dias daria um curta de ação bem movimentado, embora pudesse ser chamado “Como transformar uma viagem de dez horas em quase trinta horas e quase matar alguém”. Ah, certo. Teve uma pergunta aqui.

— Liga não, ela é delicada que nem uma coice. A única pessoa que ela respeita tá contando os segundos, então ela vai ficar possessa mesmo.

Dee deve estar sozinho agora. Com Glam, que vai estar piorando. Porque as peças de manutenção não conseguem chegar nele. É, vai demorar pra consertar isso.

Quieto. Ele não gosta do silêncio. Não estando no banco do motorista, o resto do corpo não tem mais o que fazer, vai servir outro copo de café, mas dessa vez Bruno bloqueou a térmica com uma das mãos, sem desviar o olhar do caminho.

— Ches, você já está todo inquieto. Adicionar mais café na mistura não vai ajudar seu coração.

Não foi uma pergunta direta. Ches suspirou pela enésima vez, recolhendo a mão. Precisava de algo para fazer, então simplesmente começou a desfiar o copo de plástico, tira por tira. O coração bate na garganta, o céu naquele tom de manhã só fica lembrando que o tempo continua correndo, sim. Independente do espasmo constante ou da crise iminente.

— Ele tem dois filhos, sabe? Vicky levou o mais novo com ela, mas o mais velho deve tá tendo que bancar o enfermeiro naquele fim de mundo. — Rasgar novamente, pela metade. Os olhos acompanham o plástico desfiar com um movimento constante. — São bons garotos. Você tem filhos, Bruno?

— Bom, minha namorada está grávida de uma menina. Mas tenho um mais velho também, com cinco anos.

Quando Glam fala dos filhos, Ches geralmente nota que parece mais empolgado. Como aquela pessoa que quer se gabar das suas conquistas, mas apenas evita pelo contexto social do momento. Ches percebeu o mesmo sorriso contido de um pai orgulhoso e secretamente babão. Parece ser uma constante para quem realmente consegue família. Riu pelo nariz, achando graça.

— Bom, meus parabéns, neste caso. Seu moleque deve estar quase na escola, né? Ansioso?

— Um pouco, sim. Ele não desgruda da minha namorada, vai ficar chateado tendo que ficar longe.

— Ah, eles acostumam rapidinho.

Ches nunca pensou nessa possibilidade em específico. Já cuidou dos meninos várias vezes, mas nunca quis arranjar um pra si. Flertar é quase um esporte e sexo é legal, mas não as mil maravilhas que a ficção promete. De qualquer forma, se não arranja nem um cachorro, quem dirá uma criança.

Embora… agora esteja realmente ficando preocupado com Dee.

Quando o copo virou um amontoado de tiras de plástico, voltou a batucar com as unhas na porta. Uma queimação desagradável no estômago que ele não sabe se é pelo café e pão seco, ou simples ansiedade. O rádio cospe coordenadas ou estáticas que raramente são um recado real para eles.

Ocasionalmente, Bruno fazia alguma pergunta. Ches frequentemente se distraía e demorava para responder, a cabeça sintonizando em outros ritmos para se distrair. Teve um momento em que até começou a focar nos exercícios de coordenação motora, levantando e abaixando cada dedo por um comando individual.

— Sabe, quando se trata do Kansas, as seções instrumentais complexas eram quase sempre ao vivo para manter o tchan da música. Eles ensaiavam demais pra não ferrar com as coisas. A ponte é toda técnica, os solos do órgão e da guitarra terminam numa sequência de convenções rítmicas para…

Tinha acabado de se embolar com curiosidades, especificamente para a música “Carry on Wayward Son” e sua influência no Rock Progressivo, quando parou de falar, o pescoço esticando como um suricato para prestar atenção adequadamente.

É uma sirene. Não muito longe, mas aguda demais para estar vindo da viatura. São quase nove e meia da manhã e pela primeira vez estava realmente perto de chegar. Mas o som… fez seu coração cair como uma pedra, afundando no estômago. Lá sustenido. A da viatura fica frequentemente no Sol bemol.

— Bruno… Usa esse rádio. A sirene lá na frente não é nossa, tá agudo demais.

Dá pra perceber o cara franzindo a testa, olhos alternando pelo retrovisor e painel. Ches perdeu toda a atitude sociável, olhos estreitos, tentando ver além da estrada. Já tinham passado por uma placa informando para onde seguir, tem até um pontinho no horizonte que ele sabe que é o objetivo. Perto demais.

Bruno apertou o botão, falando com aquela voz técnica que só é compreensível pelo rádio.

— VTR 201 para Central. Ouvimos uma sirene de emergência médica. Solicito atualizações de status para o Posto de Saúde regional, QSL?

Cinco segundos. O som está se afastando, até para seus ouvidos, mas Ches sabe o que ouviu. Seus ouvidos nunca o traíram antes. Há uma pontada constante no peito, acompanhando seu batimento cardíaco.

— Central para 201. USA-04 iniciou deslocamento prioritário há dez minutos. Alteração de quadro clínico. Vou transferir para o canal da unidade. Aguarde.

Nisso, o chiado mudou de tom. A voz metódica de Gabriel se foi, e agora o som vindo do rádio era o eco da sirene que ele acabou de ouvir, acompanhado de bipes metálicos e sons de aceleração.

Ches parou de batucar, toda sua energia focada em processar as novas informações o mais rápido possível. Demorou demais.

Aqui é o condutor da USA-04. Recebemos o paciente, Sebastian Bolshoi. — Claro, quando se trata de situações ruins, o mau pressentimento nunca é paranoia, apenas constatação de fatos. — Quadro de insuficiência respiratória, rigidez muscular e instabilidade cardíaca. Protocolo de ventilação assistida iniciado antes do deslocamento; não há margem para esperar no posto de saúde. Estamos indo direto para o Regional.

Ele fecha os olhos, conseguindo imaginar a situação com uma clareza nada invejável. Não entende todas as palavras, mas sabe que significa que o corpo está entrando em curto-circuito.

— Se estão ventilando… O pulmão parou de responder. — Ele sussurrou a conclusão lógica. Há uma dor nas têmporas agora conforme aperta o estofado do banco em um esforço real de não deixar as mãos tremerem.

Pensar. Ele precisa pensar.

— Ciente. — A sirene pareceu ficar mais alta. O carro acelerou, o motor rugindo. Ches não olhou para frente. — Central, 201. Mudança de curso. Vamos interceptar no Regional antes da chegada da USA. O transbordo do fármaco precisa ser feito no desembarque. Prioridade absoluta.

Foco. Apenas foco, Ches. As coisas não estão bem, então. Levou um dedo à boca, mordendo a dobra do indicador para forçar a cabeça a funcionar direito. Há um pouco de gosto de sangue na boca, mas funciona para evitar que o corpo entre em pânico unilateral.

— …Ches? — A voz estava mais baixa, quase respeitosa, carregando um tom de hesitação.

— Bruno, só pisa no acelerador. Eu preciso pensar.

Foi uma ordem. Ches não sabe de onde tirou autoridade para falar assim.

Chegando antes… Glam provavelmente vai entrar na emergência. O plantonista tem que ter os remédios, sim. As pessoas na recepção geralmente são uma barreira de burocracia… Vai precisar falar com alguém em posição maior. Nomes. Nomes são importantes.

É só… focar. As pernas balançam incansavelmente, os joelhos subindo e descendo em um ritmo frenético. Aquela velha tática de se imaginar mais ameaçador do que realmente é. Uma vez, um mendigo tentou assaltá-lo, quando tinha uns dez anos. Ches só quebrou uma garrafa de vidro na parede e apontou a coisa rachada pra virilha, que é mais fácil de alcançar. Qualquer cara ia hesitar. Ele… não poderia apontar uma garrafa de vidro quebrada para a equipe médica, iria preso. Preso não ajuda ninguém.

O metrônomo tá fora do tempo. Alguém precisa calibrar essa coisa, agora. Os dentes pressionam o machucado no dedo, um pouco mais forte. Ajuda a não se desviar para pensamentos inúteis. Mais rápido, eles precisam ser mais rápidos. Talvez rápido o suficiente para ter chegado ontem.

Acompanha o tempo passando pelo visor no painel, os chiados do rádio ganhando vida para notificações pouco relevantes. 9:32… 9:54… 10:02… 10:18… 10:41… 10:52.

Aqui, foi onde o rádio limpou a estática, e uma voz não técnica e precisa, a mesma que respondeu mais cedo, se pronunciou.

— USA-04 para Central e VTR 201. Atualização de status. Paciente entrou em Parada Cardiorrespiratória às 10:45. Manobras de reanimação bem-sucedidas, retorno de circulação espontânea às 10:51. Retomando trajeto, previsão de chegada: trinta minutos. QSL?

Por um único instante, toda a agitação motora se foi. Não há pensamentos, melodia, estática ou sons inconvenientes. Seis minutos. Glam morreu por seis minutos. As coisas estão piorando mais rápido do que consegue acompanhar.

Aquela ideia da banda dos Mortos-vivos parece bem mais realista agora.

— Seis minutos… Eu morri por vinte, ele ainda pode voltar inteiro.

O cansaço físico, a exaustão que o consumia desde o dia anterior, estava sendo completamente obliterado por uma ansiedade de produção que zumbia, esquentando seu corpo.

— QSL, Central, USA-04. — Bruno respondeu. O homem olhou para trás, apenas ligeiramente preocupado. — Ches, a gente chega no hospital em menos de dez minutos. A USA só encosta em trinta.

Ches expirou. Respirar é importante. Essa janela de oportunidade… É boa. Vinte minutos para armar o hospital, preparar o terreno. Victoria provavelmente ligou pra todo mundo se não chegou ainda, mas… precaução nunca é demais.

— Entendi, certo… Vai funcionar.

Limpar o terreno. É uma missão simples. O ritmo de processamento agora é acompanhado por um metrônomo seco — Um, dois, três, quatro —, sem melodia ou acompanhamento. Ches está hiperconsciente do corpo funcionando, internalizando a angústia para que possa sair de forma eficiente. Faça alguma coisa, Ches. É só focar. Você precisa estar no ritmo certo.

Um, dois, três, quatro. O show não pode acabar no primeiro set, independente da estupidez de pombos suicidas que atrasam seu caminho. Ele se inclina para frente, puxando a bolsinha cinza do painel do carro.

10:59. As rodas rasparam o asfalto da rampa de emergência do Hospital Regional. Ches liberou o cinto de segurança e saiu antes mesmo de o carro parar completamente — a energia nervosa subindo por sua coluna em uma necessidade inquietante de fazer algo. Bruno começou a falar alguma coisa no rádio, com a qual Ches não se importou. Ao invés disso, foi direto para o balcão de triagem.

— Ô de casa, tem uma ambulância chegando aí e tô precisando saber quem tá encarregado do Zumbi. — Não se importou com a fila, obviamente, e ao invés disso bateu apenas com as costas da mão na madeira do balcão.

Trêmulo, imundo e provavelmente parecendo um maníaco.

— Senhor, o plantonista está em outro atendimento no momento… — A moça tentou explicar. Tem um crachá. Tem um nome.

Ches bufou, tem um cara grande indo em sua direção como se pudesse realmente agredir alguém. A bolsinha apertada no peito, sentindo o batimento cardíaco espiralar.

— Que seja, onde fica a equipe de enfermagem? É lá pra dentro, não é? — Apontou para a porta lateral, apenas encostada. O segurança chegou perto o suficiente para barrar o caminho, mas ele apenas girou com um movimento fluido e completamente evitativo. — É merda oficial, beleza? O cara da farda tá lá fora. Eu tô indo lá pra dentro, falar com o manda-chuva do pedaço. Ô, Bruno! Vem atualizar essa galera!

Na hora de atravessar, tinha outro cara grande ali. Mas já esteve em um hospital antes, sabe como é a área de enfermagem: balcão comprido, porta de vidro, gente passando com uniforme verde. É sempre perto da porta lateral.

— Ei, senhor, você não pode…

Ches ignorou completamente os protestos, dando uma breve corrida para o ambiente quase familiar. É bom, quase faz parecer que o coração parecendo que vai explodir é um sintoma puramente físico.

— Aí, quem é que vai receber o negócio do transbordo? Merda controlada, do cara que tá morrendo no caminho pra cá?

Havia duas moças e um rapaz verificando a informação dos computadores. A mulher mais baixa só levantou, parecendo um pouco confusa e preocupada.

— Não pode atravessar a linha do balcão. O senhor já passou pela triagem? Quem está morrendo? O senhor não parece em condições…

— Condições? Isso aqui é pura dedicação, é tremor de gente saudável, garanto. Ô, Bruno, fala pra eles que eu tô são! Eu não fiquei sóbrio pra essa galera achar que eu tô pirado!

Bruno finalmente chegou, atravessando a porta com a dignidade que só um cara fardado consegue.

— Ches, por favor. Não pode ir na frente, vai acabar preso! — O cara murmurou, pouco profissional, antes de se voltar para a equipe confusa. Carregando uma prancheta com um documento que Ches nem viu de onde saiu. — Certo, não é uma avaliação clínica para o rapaz. Há um boletim de ocorrência aberto e a Unidade de Suporte está chegando. A vida do paciente depende do estoque. Onde está o encarregado da enfermagem? Ele deve ter sido avisado com antecedência.

Ches sorri, o que provavelmente parece muito histérico, mas quem se importa. É um aliado. Se move na ponta dos pés, jogando o peso do corpo de um lado e para o outro, tá na cara que essa galera é formiga operária. Ele precisa é da rainha da colônia, pra não ter desculpa.

— Ele deve… Um instante. — A mocinha saiu da ala quase fugindo, indo para outra porta no corredor para falar com um cara de jaleco verde e máscara na cara. Isso significa que é seu alvo.

— Aí, Zangão! Vem cá, carga médica chegou pra você!

O chefe parece estressado, ouve a sua subordinada e se aproxima, em passos lentos e cautelosos, olhando para Ches como se fosse um bicho selvagem que pudesse transmitir raiva, o que é profundamente ofensivo. As pessoas têm mais medo dele sóbrio do que drogado.

— O que está acontecendo aqui?

Haveria um sermão sobre área restrita ou tempo de espera, mas Bruno simplesmente entregou um papel preso em uma prancheta de madeira, com a paciência de quem já lidou com todo tipo de gente.

— É um transbordo oficial, senhor. Deve ter sido avisado pelas comunicações oficiais; há um boletim de ocorrência aberto e o paciente está a caminho na Unidade de Suporte Avançado.

Ches se coloca na ponta dos pés e joga o peso do corpo de um lado para o outro, sentindo-se agitado, como se estivesse de pé sobre um formigueiro, estendendo a carga como se tirasse o coração do próprio peito. O Zangão aceita a bolsa com clara resignação, mas sem resistir demais. Assina o papel. Ches tira o telefone do bolso e tira uma foto, bem rápido, tentando ser mais rápido que o tremor muscular para a foto sair mais nítida.

O rosto saiu um pouco borrado. Ches sabe que não vai conseguir fazer melhor sem alguma coisa no sistema.

— Que diabos? Quem te deu permissão para fotografar os funcionários?

— Não é só os funcionários, não. É um seguro de vida; sou pobre, mas não sou burro. Bruno, deixa eu ver o papel. A gente tá num contrato que vale uma vida aqui, irmão. — Ches não espera a permissão, inclinando o celular para tirar a foto do campo da assinatura. Como é difícil demais conseguir precisão, apoiou o celular no peito, onde treme menos. As letras têm que ser nítidas, pelo menos o suficiente para Dee, ou algum colega seu, ler. É um jogo de sincronismo, tem que apertar o botão no instante em que a tela fica mais clara.

Seu camarada policial parece resignado também, um pouco surpreso. As formigas operárias estão observando de uma distância segura.

— O civil está apenas garantindo a transparência, senhor. — Argumentou, em seu favor. O tom polido e profissional. Ches vai precisar recompensar esse cara depois. — Por favor, leve a medicação para o plantonista da emergência imediatamente.

— Você ouviu o cara da farda, capitão!

O suor escorre pela nuca. Ches sabe que não parece bem, a ansiedade superando a exaustão física de uma forma não natural. Assim que o encarregado começa a ir embora, ele concentra toda a força no diafragma para alcançar o corredor todo.

— Avisa pro Doutor lá dentro: se meu brother morrer, vou ser a assombração recorrente desse plantão! Vou machucar ninguém não, mas pode crer que vou ser chato pra caralho! Que nem agora! É, eu sei que sou insuportável, obrigado!

Ele solta uma risada engasgada de adrenalina. Se não estivessem em um hospital, seria o momento em que se envolveria em uma briga de socos. Ele acenou com a mão, quase satisfeito, e girou 180º imediatamente para ir até a saída antes que algum segurança realmente resolvesse intervir. Ele só se garante na lábia, é magro que nem um graveto.

As unhas coçam o pulso e os braços, apenas para ter alguma coisa para fazer com as mãos. A caminhada de menos de um metro parece mais uma corrida, em uma tentativa de enganar o corpo acelerado para que toda a agitação fosse realmente justificada como esforço físico e não como uma crise de ansiedade iminente. Devia ter pego os cigarros no porta-luvas do Muquifo. Ou as gomas de valeriana e camomila.

É fraco pra caralho, mas funciona como placebo. Victoria certamente vai ter alguns cigarros, é só esperar um pouco. Não vai chegar ao ponto da galera daqui ter que dopá-lo por estar quase tendo um piripaque.

Na verdade, é muito justificável. Glam morreu por seis minutos, ele pode sim estar ansioso pra caramba agora. Ches estaciona do lado de fora, na rampa que vai subir para a emergência. A ambulância vai desembarcar aqui. Encosta na parede e deixa a gravidade fazer seu trabalho, abaixando para sustentar o peso com os joelhos e manter uma pressão constante no torso e peito, de cócoras; a parede impede que realmente caia, apoiando suas costas. Arde um pouco e Ches vai ter que levantar logo para não acabar travando na posição, mas ajuda a deixar o pânico vazar, como o ar escapa de um furo em um balão.

Ao contrário do começo, agora ele parou de atrair atenção. Controle, ele precisa ter um pouco de controle. Dois pés uniformizados param em sua frente, e ele sabe que é seu camarada de farda.

— Então, já oficializei o transbordo. Agora, vou retornar para a Delegacia Civil mais próxima para prestar papelada. — Bruno informa, a voz pausada e um pouco hesitante. Ches olha para cima, o cara tirou a máscara do profissionalismo e tinha as sobrancelhas realmente franzidas em alguma preocupação. — Se estiver passando mal, tem que avisar um dos funcionários. Isso é um hospital, também funciona para você.

— É bom saber que somos comparsas agora, campeão. — Ele sorri, parecendo quase uma careta. — Relaxa, meu peito tá na mesma frequência de sempre. A matemática é simples: se eles chegarem correndo, é porque não fiquei muito fora do tempo. É só esperar.

Bruno ficou quieto por um breve instante, parecendo debater assuntos consigo mesmo.

— …Sua van foi guinchada para um pátio perto da Delegacia Civil, na entrada da cidade. É um ponto padrão.

Ches ergueu os dedos, polegar e indicador formando um círculo. Ok. A viatura foi embora, sem sirene ou aceleração. O mundo voltou a correr abaixo do tempo. Ele só esperou, a respiração quase suspensa. Dá pra sentir o coração no corpo todo, vibrando, em uma necessidade incessante de se mover. Mas o momento de se mexer passou.

Quando a sirene aparece, lá longe, em Lá sustenido, a visão imediatamente embaça. A adrenalina despenca e sua percepção espacial oscila, quase o fazendo cair. A única coisa que o impediu de só bater o nariz no chão é que já estava abaixado o suficiente para conseguir se firmar, equilibrando com a mão.

Porra, ainda bem. É uma vertigem automática que faz parecer que o chão poderia engoli-lo. Quando a visão foca de novo, é porque a ambulância já parou e começou a desembarcar. Um cara desce da frente, abrindo as portas e o camburão, um ritmo frenético, ágil e coordenado.

Seu foco foi no garoto na cabine do motorista. Uma miniatura de Glam com rímel borrado, palidez e carranca permanente. Dee saiu junto do motorista e parece ter sido encarregado de segurar a porta para descerem com a maca. Parecia receber ordens com relativa facilidade, mesmo parecendo uma bagunça. Segurando o soro, indo pro lado da triagem, acompanhando a galera frenética, sempre um passo atrás.

Ches levantou, se apoiando na parede. Quieto, tentando absorver o máximo de detalhes possível: Socorristas 2 e 3 saíram do camburão para desembarcar a maca. Lembra-o do acidente de 89, quando Glam acabou internado por seis meses em uma clínica psiquiátrica para confirmar o que todos já sabiam, embora não em nomes técnicos: a cabeça dele é desafinada.

Em algum momento, o Zangão apareceu nas portas da emergência, acompanhado do que deveria ser o plantonista local. A maca foi se aproximando, e com isso, Ches finalmente conseguiu um vislumbre, nas pontas dos pés.

— Parada cardiorrespiratória em Fibrilação Ventricular às 10:45. Seis minutos de manobra, 2 choques de 200 joules, retorno de circulação espontânea às 10:51. Atualmente sedado com Rocurônio, Fentanil e Midazolam. Intubado, ventilado, recebendo expansão volêmica e bicarbonato. Lesão renal aguda. — Informou, com a voz técnica e apressada. — Intoxicação por Lítio e rebote de Clozapina. Recebeu Sulfato de Magnésio devido ao risco cardíaco.

Glam tem a aparência cinzenta e molhada, com gaze molhada nos olhos. Sem camisa, com fios saindo do peito e um tubo na boca. Como um robô em manutenção. Nenhum movimento exceto o do peito, que parece estar sendo inflado artificialmente.

— Paciente em ventilação mecânica, TOT 8.0 fixado em 22 cm. Apresenta complacência diminuída e pico de pressão em 35. Ausculta com MV diminuído em bases e presença de estertores crepitantes à direita. Saturação em 91%, oscilando, com oxigênio a 100%. Gasometria da ambulância mostra acidose respiratória compensada.

Ches não entende nada do que está sendo dito. Julgando pela situação: não respira sozinho e a máquina tá sofrendo pra compensar. Tem um monitor apitando, muito rápido, não como uma música. É um alerta de erro.

— O garoto tem o prontuário doméstico completo, protocolou a última dose de benzodiazepínico e frequência respiratória antes da intubação. Escutem o que ele tem sobre o cronograma de Lítio, as informações batem com o quadro de intoxicação. — Uma breve apresentação. Gesticulou para o adolescente lá atrás, então continua, sem parar de falar por um segundo, até sair do alcance da voz. — Taquicardia Sinusal sustentada em 130 batimentos por minuto, pressão arterial de 170 por 110 e pressão arterial média em 130 mmHg. Intervalo QTc em 518ms e extrassístoles ventriculares frequentes. Buscando estabilidade hemodinâmica com suporte volêmico constante.

Dee parece… disperso. Responde e se mexe para ajudar, e provavelmente entende mais do que Ches da situação atual, segurando um dos cadernos marrons que Glam coleciona com as duas mãos. Não deve nem ter notado os ombros tensos e a postura de um animal encurralado. Ches segue atrás e para dentro, sentindo-se como uma nota dissonante, fora do tempo. Ninguém realmente o notou ali, então a situação deve estar perigosa mesmo. Um mendigo desnorteado geralmente chama a atenção.

Só interfere quando um dos socorristas impede Dee de entrar, fisicamente, por uma porta.

— Garoto, você fica na espera. Agora é com eles, você fez o que deu pra fazer.

— Dee? É… Oi.

Parece uma linha realmente estúpida de ser dita. Não existe frase pronta para momentos como este e o próprio Ches está ficando ativamente assustado, a abstinência não ajudando a controlar o corpo. Provavelmente teria sido preso se não fosse por estar acompanhado da polícia.

Dee percebeu sua voz. Virou a cabeça em 90º, saindo do conflito imediato com o enfermeiro, e imediatamente as bochechas começam a ganhar uma nova cor vermelha e furiosa. O socorrista parece surpreso por um instante, toda a compostura de acompanhante modelo simplesmente saindo, como se nunca tivesse existido.

— Mas que inferno, Ches! Quanto tempo leva pra tirar o rabo da lama e trazer umas caixinhas de remédio? Porra! — Começou a gritar, a voz oscilando entre o agudo rachado de quem segurou o choro por muito tempo e a histeria do pânico que a situação permite. Aproximou-se com passos pesados e brandindo o caderno de Glam como se fosse uma arma. — Você tá parecendo um espantalho que escapou de um aterro sanitário, puta que pariu! Trinta e nove horas sem essa porcaria, Ches! O cronômetro estourou faz tempo! Ele morreu, caramba, morreu por seis minutos inteiros!

Bateu a capa dura do caderno em seu peito. Não tem força real aplicada. Ches sabiamente cala a boca, enxergando a Victoria interior do garoto.

— Pra casa do caralho com essa cara de quem ‘fez o que pôde’. Meu pai é um projeto de defunto intubado agora! É uma falha crítica, e você só chega agora? Agora?! Porra, seis minutos! Você tem noção do que isso faz com um cérebro? Um dia e meio, você levou um dia e meio para atravessar o estado, mas que porra! Eu contei cada maldito minuto até o sistema dele fritar. Puta que pariu, eu assisti meu pai morrer. Ele parou! Porque você resolveu ser o “Ches” e se perder no caminho! Não é o momento de se atrasar! Ah, francamente!

É bom que Ches tenha chegado primeiro. Vicky provavelmente não tem tanta capacidade de aguentar a explosão de temperamento que o garoto herdou do lado dela da família. Ches deixa os insultos passarem sem impacto nenhum; apesar de toda a atitude, Dee parecia prestes a chorar e não conseguia sustentar nem mesmo um segundo de contato visual. Agarrou sua camisa como se realmente quisesse socá-lo. Ches olhou ao redor, percebendo os olhos de funcionários surpresos e curiosos. No segundo golpe do caderno, só segurou as mãos do garoto, sem muita força, apenas para impedi-lo de ficar se debatendo e gesticulando.

— Eu sei. Eu entendi, Dee.

Não adianta argumentar. Nesse estado, eles nunca querem ouvir. Dee parou de falar, a boca abrindo e fechando em novas ofensas, mas sem vocalizar nenhuma. No fim, só agarrou sua blusa para enfiar a cara e começar a gritar, as costas se mexendo em soluços convulsivos e assustados, abafados pelo tecido imundo. Ches hesitou, então deu alguns tapinhas em suas costas, em movimentos circulares, se movimentando um pouco para bloquear a visão dos outros, em uma paciência que não reservaria pra mais ninguém.

— Você foi bem, Dee. Cê fez tudo o que conseguiu. Agora, deixa com os profissionais.

Ficou alguns minutos assim, até os soluços pararem em uma respiração ofegante e exausta, sem soltar. Ches cantarolou, dando tapinhas nas costas e só esperando, o garoto parecendo ter envelhecido uma década em dois dias.

Uma enfermeira, jovem e muito limpa, se aproximou cuidadosamente. A equipe da unidade avançada já tinha ido embora.

— Com licença… — Falou, baixinho, tímida. Quando Ches olhou, seus ombros saltaram e desviou o olhar, claramente não querendo estar ali, a voz oscilando em um novo agudo. — Se vocês vão ficar, a roupa… É um perigo de contaminação.

Ches estreitou os olhos, pensando se valia a pena se irritar. A criança no seu peito fungou, soltando o abraço como se tivesse se queimado, e começando a esfregar os olhos obsessivamente para limpar as manchas de rímel e sombra e, agora, algumas manchas de lama seca.

— …Certo. Qual o seu nome?

Ela parecia cautelosa e prestes a gritar. Provavelmente efeito de sua pequena cena mais cedo. Tem um crachá, mas o cérebro dói o suficiente para não querer forçar a cabeça a fazer letras terem sentido.

— É Júlia…

— Entendi, Júlia. Vocês têm aquela camisola esquisita e descartável de paciente, né? Vou precisar de uma. E aquelas coisas de botar no pé também… Ah, e você me consegue um copo com água, sal e açúcar? Na verdade, dois. Posso pedir no refeitório também…

As palavras saem apenas ligeiramente emboladas. É um efeito da queda de adrenalina, Ches não pode dizer que está surpreso, é uma dança que ele já está acostumado a conduzir, embora não tanto em situações estressantes. Olha ao redor, procurando o familiar ícone que identifica os banheiros. Júlia murmura respostas que ele processa sem entender.

— Vamos, Dee. Seu pai me mataria se eu te deixasse assim. — Ele tenta segurar o pulso para guiar o moleque, mas há uma resistência automática.

— Não finja que é o herói aqui. — É, ele ainda parece guardar rancor. Parecia com vontade de plantar os pés na frente daquela porta e não sair por nada. Dói um pouco.

Ches vai ter que usar as armas deles, então.

— Dee, quando os caras vierem te dar notícia, tu quer parecer um zumbi ou alguém que realmente saiba do que tá falando? Porque eu sei que tu sabe, e sabe mais que eu. Eu aposto que cê não comeu, não é? E se tu desmaiar de pressão baixa e não conseguir falar as coisas? Bora, se mexe. Os caras não vão ser doidos de tratar teu pai mal.

Internamente, Ches está se vangloriando: Respeita minha história, rapaz. Lido com teu pai há trinta e oito anos. Ele se virou, começando a andar para seu novo alvo, até bem devagar.

A lógica parece funcionar. Dee suspira, indo atrás dele.

No espelho, Ches parece uma bagunça. Mais do que o normal — ele nunca parece realmente bem, mas geralmente está limpo e com as roupas apenas um pouco encardidas e amareladas, principalmente por não se importar. Hoje? A camisa que trocou na van durante a parada na oficina de Cristal já estava completamente manchada de suor, café e terra seca. As calças, que ele não se importou em trocar desde que atravessou a lama, parecem mais feitas de barro do que qualquer outra coisa.

A pele está amarelada, cinzenta, e com um brilho de suor constante. O cabelo parece um ninho de pássaros, frisado com terra e suor. Ele suspira, liga a alavanca da torneira e começa o trabalho pelo rosto.

Dee entra atrás dele, parecendo resignado. Parece envelhecido e exausto, mas não no nível contaminação hospitalar, exceto pela camisa e rosto, e só porque enfiou a cara na sua imundície mais cedo. Parece constrangido e não mantém nenhum contato visual, apenas usando a outra pia para lavar as mãos, o rosto e tirar a camisa. Usando uma regata por baixo, que conveniente.

— …Você trouxe o remédio?

Ches tinha acabado de secar o rosto com papel-toalha. Estava fazendo o check-in de segurança, inclinado contra o espelho, para checar se suas pálpebras e boca estão da cor certa, ou mais amareladas que o normal. A aparência feia é esperada, ele provavelmente não bebeu nem meio litro de água nas últimas quarenta e oito horas, sustentado por macarrão instantâneo, café e pão.

— Sim. Sua mãe também deve ter ameaçado eles por telefone, eu aposto.

— O pai disse que a Clozapina aumenta o tempo entre os batimentos do coração. E ele teve uma parada cardíaca.

Ches arranca a camisa imunda e usa o papel-toalha para tirar o pior da cobertura de barro das calças. O tênis, tira na mão para passar a água e secar. Fede como queijo, o tecido arriado e falho. Encontra Dee na visão periférica, o garoto molhando um pouco de papel para tirar o pior da maquiagem borrada.

É difícil sem demaquilante. Quando Glam tentou, o rosto ficou todo irritado, porque as maquiagens de hoje em dia são muito resistentes. Dee parece entender e focar só no pior, embora a linha da mandíbula esteja tensa e desagradável.

— Os códigos dos caras que chegaram tavam falando disso, não é? Então eles sabem.

— Eles deveriam estabilizar o pai antes de tentar outra coisa. Provavelmente com hemodiálise, mas a mãe ainda não chegou, então… — Ele hesita. Tira o elástico do cabelo para amarrá-lo e conter um pouco dos fios soltos. Ches o ajudaria com a trança, mas seus dedos não colaboraram tanto neste ponto.

Há uma dor espasmódica nas juntas das mãos, a necessidade constante de movimento. Impulsos elétricos que ele não controla de verdade, mesmo o corpo estando perto da exaustão.

— Eu falei que tenho dezenove anos. — Um tom mais baixo, como se tivesse medo de ser ouvido.

Ches para, processando a informação lentamente. Tinha acabado de jogar um monte de papéis-toalha no lixo.

— Entendi. Eles vão pedir autorização pra você, então?

Ele provavelmente teria a mesma barreira burocrática. Pode considerar Glam um irmão, mas legalmente é só um amigo da família.

— Ok, não vou te dedurar. Mas a Baronesa provavelmente vai chegar com o documento real de vocês.

— Aí já vai ter passado da fase crítica. Se passar. — Dee parece sombrio e temeroso, provavelmente fazendo jus à estética “dark” que ele sempre quis passar do que em todos os seus anos de vida. Ches duvida de que esteja realmente gostando disso.

Com eles, garantias geralmente não funcionam. Entendem melhor do que ele o que está acontecendo, e o cenário atual parece bem ruim. Ches tem uma curiosidade cética da reação de Dee quando Victória chegar, dificilmente vai ser tão reativo quanto antes. Tudo bem, ele é o saco de pancadas metafórico e literal, mas esse pirralho não saberia bater em alguém nem se a vida dependesse disso, então não vai doer.

— Sabe, não é a primeira vez que o grandão passa por uma dessas. Teve um rolê todo de adaptação e remédios antes de vocês, e mais ainda antes da Victoria…

Há sacos com o avental descartável e feio do hospital, apoiados na beira da pia. Ches não lembra de ter pegado, e nem de a enfermeira trazer, então a justificativa é que provavelmente alguém entregou a Dee antes de entrarem. O lapso de informação passou completamente despercebido.

Ches molhou mais um bocado de papel-toalha com álcool, daqueles frascos de higienização pras mãos, antes de pressionar atrás das orelhas, axilas e braço. Um banho de gato, muito improvisado.

— As crianças acham que a vida começou ao mesmo tempo que a nossa. Mas o loiro já aguentou perrengue ruim antes. E ele ainda tá aqui.

Isso funciona? É baseado em dados, mas se tiver que procurar na memória… Tem o incidente de 89, claro, antes dos diagnósticos oficiais. Pelo menos meia dúzia de vezes em que, mesmo sendo o cara sóbrio, entrava na onda dos bêbados ao redor pra fazer merda.

— Pra um cara que já tentou se matar, até que resiste bem à ideia de morte.

O primeiro instinto é concordar. Glam é como uma bactéria resistente a antibióticos, teimoso demais. Dee reagiu com uma risada seca e humor ácido, sem energia nenhuma. A limpeza dele foi muito mais rápida, então estava encostado na parede, braços cruzados sobre o caderno marrom, esperando. Ches demorou quase dois minutos para entender a implicação, jogando outro punhado de papel sujo no lixo. Está ficando cheio, e Ches tem certeza de que estava vazio quando entrou.

— Ele não tentou se matar, não.

Não que se lembre. Todos os quase encontros com o outro lado foram completamente involuntários. Parece importante esclarecer esse equívoco.

— A cicatriz maior, no pulso direito. Acima da artéria radial. O tamanho diz a intenção bem claramente, Ches.

O rapaz parece estar numa vibe completamente tóxica e propícia a enganos. Ches faz a associação, lenta e segura, de cicatrizes no pulso. Glam… estava sem as pulseiras, sim. Faz sentido. Precisa retroceder as memórias para encontrar a razão.

— Ah. Ele esqueceu, só. Que ficar sem sangue significa morrer.

Pega o avental. É até bem fechado e parece uma camisola em um tom de azul-bebê poroso e facilmente rasgável. O faz parecer um paciente da reabilitação. Vai precisar recuperar suas roupas no Muquifo, ou pegar alguma emprestada de Glam, eventualmente.

— Que diabos?

Ele pegou mais rápido, agora que já tem a associação pronta. Enfiou o que sobrava do papel-toalha nos tênis, para bloquear a umidade, antes de calçá-lo de volta e vestir o tecido descartável do hospital por cima. Como um paciente modelo que ele definitivamente não era. Só pra não ser preso ou expulso e deixar Dee sozinho de novo.

— Você tem alguém que odeia? Não precisa dizer. Só… pensa que essa pessoa te deu um presente. Aí toda vez que você faz alguma coisa, você lembra desse presente. É nojento, porque foi essa pessoa que te deu. Cê ia querer devolver ou jogar fora, né? Não faz sentido ficar.

— Eu realmente não sei como isso é relevante para o assunto agora, Ches. Tá tentando me enrolar?

— Só substitui o presente por sangue ou biologia. Ele bebeu um pouco, teve uma discussão mental com a coisa da cabeça dele e quis devolver o sangue. Não foi pra morrer, foi porque o sangue era nojento. Até pediu ajuda depois, porque lembrou que ia dar ruim sangrar até secar.

O incidente de 1989. Ches se lembra de reagir com o mesmo choque “Como diabos você esqueceu que sangrar demais te mata?!”, grogue e lento de álcool e do que quer que tenha usado na época, de tentar conter o sangue com papel higiênico enquanto Bob assumia o volante até um pronto-socorro. Porque não parava de escorrer. Hoje em dia, é só mais uma memória na coleção de acidentes que poderiam ter dado muito errado, mas não deram, arquivada na sua cabeça.

— Ele já superou isso. Por vocês. Porque não é o sangue do doador de esperma dele agora, é o de vocês. Ele sabe que a coisa da cabeça dele é mentirosa e filha da puta, então fica puto, mas não acredita. Glam não é suicida, nesse sentido, não.

Sua overdose em 2003 teria mais tendências autodestrutivas do que isso. Já que Ches sempre soube que as drogas faziam mal — era mais uma forma de tentar provar a superioridade com relação ao vício da mãe, que levou justamente para o mesmo buraco que ela. Pior, porque Ches tinha acesso a coisas mais pesadas do que simples cerveja e rum barato.

Quando Glam se machuca, é porque ele não percebe ou racionaliza. Nunca é intencional. Parece importante explicar isso antes que se torne uma crença.

Dee fungou e enxugou os olhos. Ches demora um pouco para se vistoriar, aparentando ter fugido da clínica psiquiátrica — avental por cima das calças e tênis úmidos, protegidos pelo tecido descartável do hospital. Parou de deixar rastro quando pisa, então vai servir.

Enfia as roupas sujas nos sacos em que veio a coisa descartável. Precisa de algumas tentativas para acertar o buraco e fechar direito.

— Você tá bem?

— Eu tô é sóbrio, garoto. Você sabe que minha abstinência só faz drama, mas não mata. Então tá tudo certo. Você lembra o que a mocinha disse sobre a água?

— ...Ela ia pedir para um auxiliar trazer. É pra gente ficar na espera.

— Bom, então. Cê comeu? Bebeu água?

O garoto tinha dessas de esquecer de comer ou fazer a manutenção do corpo se fica distraído. Ches pode ter presenciado isso acontecer, mas a maior parte dos dados é de Glam reclamando e tentando construir uma rotina em que Dee realmente comesse como deveria.

— E você, fez?

— Infelizmente para você, eu realmente comi pão e macarrão no último dia. Touché, mas passou direto. Sua energia vai tá baixa pra caralho, então. Tá querendo queimar esse cérebro grande mais cedo, é? Vou ver se descolo uma bolacha ou pedaço de pão pra ti, costuma sobrar na copinha dos funcionários.

— Eu comi. — Dee finalmente pareceu um adolescente defensivo agora, enrugando o nariz. — Três biscoitos, uma banana e meia fatia de maçã… ontem.

É, não vai servir.

Quando eles saem, de volta para aquela sala de espera, de frente para a porta vermelha. É um caminho curto. Há uma copeira parecendo perdida com dois copos descartáveis na mão e Ches sorri.

— Ei, Dona. Tudo certo? Tá procurando a gente? Desculpa a demora pra parecer um pouco menos mendigo. E aí, fui promovido a paciente fugitivo ou nem tchum? — Ela realmente responde. Parece divertida e reagindo por educação, mas Ches não processa realmente nenhuma frase longa. O cérebro parece vibrar na mesma frequência que o ar condicionado ou a barulheira no pronto-atendimento. Ele só responde, como já sabe fazer. Não precisa pensar ou raciocinar para ser simpático e pegar as coisas importantes. — Obrigado, isso vai ser meu elixir da vida. Tô me sustentando na base de café ruim e pão, mesmo que seja só sal e açúcar, ainda é um upgrade, não é?

Ele não tem certeza de como a conversa continuou, mas o nome dela é Valéria, tem dois filhos e é divorciada. Salário mínimo, mas o adicional de periculosidade do hospital compensa. Pareceu empática com a analogia do “saco vazio não para em pé, e eu só cheguei agora” e realmente voltou com dois pães de sal, infinitamente melhores do que o pão velho que comeu a manhã toda.

— Aqui, garoto. Sei que não sou o Glam, mas se tu não comer, te deduro pra tua mãe.

Dee parece tão chocado quanto Glam toda vez que Ches reúne e conversa com um grupo de pessoas de forma completamente espontânea. É o privilégio dos extrovertidos. Ches apenas entrega a parte dele e se concentra em terminar de beber o copo antes que a falta de coordenação motora derrube a maior parte. É suave o suficiente para conseguir segurar coisas sem deixar cair, mas ruim o suficiente pra não conseguir coordenar com a própria boca antes de derrubar.

O garoto parece inquieto. Senta em uma das poltronas de espera, depois levanta, tenta ver além da porta de emergência, como se pudesse ter visão de raio-X. Parece não conseguir decidir entre estar exausto ou irritado.

Infelizmente, a maioria dos que passam são formigas operárias, e a galera técnica fica lá dentro. Ches tem que cutucá-lo para lembrá-lo de beber água ou acabar de mastigar, porque não está focado o suficiente em comer para terminar aquele único pão.

Um doutor saiu em algum momento, alguns minutos depois de ter conseguido a proeza de ter feito Dee acabar de comer. Grisalho, óculos redondos, com uma prancheta. É o evento que o garoto avisou, porque ele começa a falar antes mesmo de o interrogatório começar.

— A acidose respiratória está compensada, mas a metabólica está saindo do controle. O quadro bate com a intoxicação por Lítio informada, precisamos de um acesso central para a diálise. Precisamos da autorização de um responsável legal, maior de idade. Você é o filho?

Ches se aproxima sutilmente para ouvir melhor, deixando o copo descartável vazio perto do bebedouro para poder cruzar os braços e não parecer uma vara de bambu instável e acabar atrapalhando o momento. Dee tira o celular do bolso, aberto em um documento digital.

— Sim, eu sou. Posso autorizar, tenho dezenove anos. — Entrega o celular, sem medo nenhum. Metódico como o pai. — Minha mãe vai chegar com a cópia física em algum momento. Só me diz: como está o nível de potássio? Se for rápido demais, o rebote cardíaco fica pior.

O Doutor olha pra ele. Ches levanta os ombros, sem nenhuma intenção de intervir. O garoto é quem sabe do que está falando, Doutor.

— Alto. Estamos gerenciando a hipercalemia e os eletrólitos para mantê-lo em uma zona segura durante a diálise. — Neste caso, Dee apenas estende a mão para a prancheta. O doutor entende, mostrando o papel e entregando a caneta, apontando com os dedos para os lugares certos. — Este é o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Você assina aqui, e aqui embaixo também.

— E a reintrodução da Clozapina? Imagino que não dê para colocar de uma vez se ele acabou de ter uma parada. Aumenta o intervalo entre os batimentos, que estão muito altos. Uma zona QTc de 597 milissegundos não seria ignorada, certo?

— Vamos corrigir a intoxicação primeiro. A reintrodução só acontece depois de fortalecer o músculo cardíaco, em doses mínimas e gerenciáveis.

O médico não parece assustado.

— Entendi. Não posso fazer nada se for só azar, mas se as coisas derem errado por erro de vocês, terei certeza de lembrar seu nome, Doutor… Nogueira, CRM 0000. — Apesar da ameaça suave e polida, Dee apenas devolve a prancheta com a cortesia de quem apenas comentou sobre o clima.

Aqui, dá pra ver a linha irritada do médico. Mandíbula tensa e narina dilatada. Apenas um pouco.

— É claro…

Talvez o garoto tenha se tornado bom demais em debates passivo-agressivos. Não que seja uma coisa ruim. Victoria os ameaçou no telefone, Ches fez um escândalo na frente e Dee parece ser uma barreira real e interessada. E o único que realmente vai entender um pouco dos termos explicados. Tem sido um cerco bem eficiente, mesmo que nenhum deles realmente queira fazer nada, já que isso implicaria direto no cenário ruim de Glam não sobrevivendo.

Seus dedos cavam hematomas nos próprios braços, arranhando e pressionando repetidamente, mesmo tentando manter as mãos firmes. Ches vai recuperar o copo descartável e encher com a água gelada do bebedouro, agindo como forma de manter as mãos ocupadas.

Ele bebe muita água, neste caso. Às vezes interage com qualquer auxiliar que esteja passando para pedir um sachê de açúcar ou sal, só para contornar a pressão atrás dos olhos ou a falta de equilíbrio que sente se mexendo. O corpo queima tudo muito rápido. Encosta na parede, porque não conseguiria ficar sentado.

Não sente sono, mas sabe que está fisicamente exausto. É só a abstinência e o estresse tentando mantê-lo alerta, sentindo cada batimento cardíaco. Não é tão metódico quanto Glam, mas entende suas bandeiras vermelhas.

É só respirar. O pé bate, uma batida por segundo, 60 bpm. Contabilizando. Não está morrendo. É só esperar. Cheira a ozônio, éter e morte; apurando seus sentidos. Não dá para apressar a biologia.

Seu corpo tensiona, procurando pelo som de passos. Na maioria das vezes é movimentação real, mas conforme os minutos se passam, alguns alertas falsos se tornam mais reais também. É como se Dee falasse uma língua completamente desconhecida, abordando qualquer um que passe pela porta de emergência por novas notícias. Não vale a pena tentar entender, são palavras complicadas que não fazem parte do seu vocabulário.

Quieto. É para esperar. Respira — Quatro para dentro e quatro para fora. Pediu um copo de água morna para aterrar as mãos. Ches só faz um esforço real de novo quando um enfermeiro de branco sai, com uma prancheta, quase como o Doutor de mais cedo, parecendo igualmente cansado. Não tem uma única pessoa que tenha encontrado hoje que pareça realmente descansada.

— Responsáveis por Sebastian Bolshoi? Certo. — Ele parece duvidoso quando Dee levanta a mão, como se estivesse na escola. É puramente condicionado e o próprio Dee gasta alguns segundos olhando para o próprio braço, como se estivesse se perguntando “Que porra foi essa?”.

Provavelmente é um nível de exaustão perigoso. Segura o copo, observando, tentando ter os detalhes mais cedo para reagir em tempo.

— O primeiro ciclo da hemodiálise foi concluído. Conseguimos estabilizar a pressão arterial média dele e ele respondeu bem à remoção de fluidos. O pH sanguíneo está subindo, o que é um sinal de que a acidose está cedendo…

Parece bom. Palavras como “estabilizar” e “respondeu bem” significam coisa boa, no geral. Significa que ele tá parando de morrer ativamente.

— E a litemia? Qual o valor exato pós-filtração?

Dee parece ter mordido um ponto sensível. O enfermeiro troca o peso entre os pés, hesitante.

— Então, como nós somos um hospital regional, exames de toxicologia específicos, como o nível de Lítio, são terceirizados para um laboratório central. Já colhemos uma amostra dele quando chegou e outra ao término do primeiro ciclo, mas o resultado oficial leva de doze a vinte e quatro horas para ser processado e enviado…

— Não pedi um inventário de suas limitações técnicas, pedi uma solução! Se você é incapaz de medir a litemia aqui, o que faz para mitigar a falha renal iminente? Vocês têm um ventilador mecânico de última geração, mas não conseguem quantificar um cátion monovalente básico?

Ches estreita os olhos, pensando. Isso… É uma birra, certo? Como quando o bebê começa a chorar por estar brigando contra o sono. Ele tem quase certeza de que a coisa da hemodiálise é justamente para mitigar essa “falha renal iminente”. Quase. Tipo 65% de certeza. O enfermeiro parece perceber também, estreitando os olhos e a boa vontade e eficiência evaporando graças à grosseria.

Ele deveria intervir, sim. Falar alguma coisa para mediar — algo sobre apenas alertar se estão olhando os resultados certos, mas que o moleque ficaria quieto agora. Pedir pelo resto das informações; mas então, antes de o comando realmente atravessar sua boca ou dar passos para perto, percebeu um novo peso nas calças e cintura.

Há um breve instante de constrangimento baseado em “quando isso chegou aqui?”, já que as outras pessoas do lugar parecem ter notado um pouco antes o embrulho soluçando e o abraçando unilateralmente. A intervenção teve que ser pausada momentaneamente..

— Ah, ei, carinha…

Foco, Ches. A informação está chegando em tempo real. Heavy. Heavy está aqui, isso significa que o lado de Victoria chegou. E o pirralho está chorando e soluçando abertamente, então, sobrecarga, certo? Ataque de pânico ou ansiedade. O moleque só quer um abraço. Ches provavelmente deveria ter percebido isso mais cedo. Não derrubar o copo, também.

— Você parece ter vindo nadando pelo ribeirão, sem ofensa.

Sem brincadeira, se Ches estava um desastre quando chegou, Heavy parece mais um pontinho de terra seca, oleosidade e bagunça. E agora, com lágrimas e catarro adicionados à mistura. Quase gritando, o agarrando com força e com soluços convulsivos que parecem balançar o corpo todo. Ches descarta o copo em uma cadeira primeiro.

— Calma, calma. Você tem que respirar, moleque… — Ches está realmente ficando um pouco preocupado aqui, os soluços não tão dando tempo do garoto inspirar direito. — As drogas só matam lentamente; não sou um exemplo disso? O cérebro dele é só um pouco dramático, daqui a pouco ele mesmo vai reclamar, você vai ver.

— A gente trouxe… Eu… O remédio tá aqui! O pai, ele… — Heavy começa a balbuciar. É como quando era menor, quebrava alguma coisa e ficava com medo antes mesmo de contar, tentando justificar o mais rápido possível para arrancar empatia dos pais. Ou ter um pesadelo e pedir colo. O rosto todo vermelho e irritado. — As maletas… Eu troquei as maletas. Então o pai… eu não quero ficar órfão!

Ah, Ches se lembra de Victoria explicando, no dia anterior. Alguma coisa sobre esbarrar em alguém? Um engravatado, que provavelmente está tendo um dia muito esquisito agora. Ruim, não. Ruim é o dia deles. Mas esquisito, sim. Não dá pra saber quando os mil planos de Glam atingem uma limitação, já que ele é melhor que todo mundo em ser paranoico.

Alguma coisa para acalmar… É um pouco inconveniente tentar acalmar uma crise de ansiedade com a cabeça nadando em gelatina.

— Ah, não fode, Heavy!

Oh, isso é Dee. Ches esqueceu, por um instante, que ele tava intimidando o pobre enfermeiro que veio dar as atualizações. O alvo mudou, aparentemente; mas o lado bom é que a hostilidade do funcionário recuou bruscamente para dar lugar a alguma preocupação genuína. E Heavy se assustou, então parou de soluçar. Logo, está respirando direito de novo.

— O mundo não gira ao seu redor, cacete! — É como assistir Victoria tomando lugar do adolescente, porque estes são os genes dela se manifestando em uma situação de estresse. O foco voltou para o enfermeiro. Ches vai ter que se desculpar depois. — O nefrologista leu o prontuário? Um neurologista? Se a mãe realmente avisou vocês, sabem que o caso dele é complicado?

Essas crianças precisam tomar banho e dormir. Ou vão ser expulso pela baderna em menos de uma hora. Ches suspirou profundamente, as frases estão vindo rápido demais para ele simular uma intervenção coerente. Ele não sabe como se mexer direito: manuseando o peso do corpo, gesticulando e ficando na ponta dos pés. Ao invés disso, focou no moleque menor, que realmente largou o avental descartável para esfregar o rosto com os punhos e costas da mão. Alguns tapinhas nas costas, para dar um pouco de apoio.

— Seu irmão tá intimidando qualquer um que passe por ali nas últimas três horas… E não acho que dormiu muito antes disso; só releva, ele tá assustado. — Falou, um pouco mais alto. Só para alguns funcionários ouvirem também. Logo, um pouco mais baixo: — Tamo passando da fase ruim agora; então a galera é um pouco rude.

É o trabalho deles no fim do dia. Desde que não façam um mau trabalho lá dentro, não é intolerável.

— O pai… Eu… Foi um acidente, isso não devia…

Ches estava ponderando se deveria pegá-lo no colo e levar para o banheiro para lavar o rosto. Ou usar o tecido descartável para ajudar a limpar a sujeira que só estava espalhando mais e mais com as lágrimas. Ou tentar acalmar o fluxo de desespero com alguma frase inteligente; ele sabe ser inteligente. Coisas como “Tu não tinha como saber” e “Não é sua culpa” raramente funcionam sozinhas.

Mas é difícil esperar que ele pare de chorar, porque, tipo, Glam deve tá meio bagunçado lá dentro. Sua mãe não era grande coisa e ainda assim Ches entrou em uma espiral depressiva muito longa quando ela morreu.

Heavy provavelmente deveria chorar, sim. Então, levar pra fora?

— O mundo não muda por causa do seu melodrama, Heavy. Tinha um monte de gente lá, não foi só você que não viu. — Oh, o enfermeiro que estava atualizando as coisas foi embora. Bom, não foram expulsos ainda. O garoto puxa o tecido da regata, tentando fazer isso de forma que não perca o caderno.

Suas digitais já devem estar entalhadas nesse caderno. Não o soltou uma única vez.

— Nem consegue soletrar a maior parte das variáveis multissistêmicas que contribuíram aqui e acha que pode assumir a culpa sozinho; arrogante pra caralho. A mãe chegou? Preciso de peso-pesado para estes imbecis me levarem a sério.

Definitivamente vão ser expulsos. Mas a grosseria parece ter funcionado com Heavy, que está acostumado ao consolo bruto de Victoria. Ainda assim, é bom lembrar um pouco de limites aqui.

— Garoto, sua mãe avisou o hospital. Tenho certeza de que ela já ameaçou o suficiente para levarem seu trabalho a sério.

Xingar a galera que está mantendo seu pai vivo de “imbecil” não é uma forma muito inteligente de lidar com a situação. Ninguém foi realmente repreensível por enquanto. Nunca ouviu falar que não se ofende quem serve sua comida? Sim, ele está em pânico, mas vai ser difícil consertar depois. O corpo doendo e a cabeça agitada estão contribuindo para eliminar sua capacidade de ser paciente.

Um policial derrapa na entrada, ofegante, atraindo a atenção de todo mundo. O barulho de Victória, lá fora, ganha destaque. Ele estreita os olhos, tentando acompanhar a situação em tempo hábil. É como ter vários instrumentos tocando músicas diferentes, em alturas e intensidades diferentes, e ter que identificar aquele que está tocando em escala natural. A cabeça dói.

— O garoto deve ter ouvido a gente, não fez por mal. Desculpa a correria, camarada.

Ele identificou a voz da brutamontes atravessando o corredor, suave como dinamite.

— Como diabos alguém perde uma criança inteira? O sistema de segurança daqui é completamente inútil?

Que inferno, ele precisa de um cigarro. Não precisa ser nada ilícito, mas alguma nicotina cairia muito bem. Ou álcool. Mas o álcool nubla o julgamento e ele tá precisando ser sensato agora. Passou as mãos no cabelo, enxugando o suor acumulando acima das sobrancelhas. Foco, foco, foco. Um, dois, três, quatro. Qualquer coisa que faça o zumbido diminuir. O Muquifo, Ches adoraria se isolar no Muquifo agora.

A próxima coisa que sabe é que a configuração de pessoas mudou. Victoria tinha chegado, tão destruída quanto Heavy, parecendo ter voltado da guerra. O policial novo parece ter voltado à sua compostura, indo para o balcão para falar com alguém e conseguir oficializar o fim do transbordo. Victoria foi na direção dele. Os garotos… Porra, os garotos não estão visíveis e a porta da emergência estava balançando.

— Ei! — A voz sai um pouco mais rouca, um pouco graças ao susto. Ele tem que tossir para tentar de novo, mais alto. — Os moleques, eles entraram lá.

Victoria se interrompeu no meio de uma frase. Ches nem entendeu o que ela estava perguntando para ele, olhando para a porta ao mesmo momento que os outros funcionários. A mulher detrás do balcão e o segurança começam a se mexer, mas em menos de um segundo a porta abre de novo.

Dee saiu puxando Heavy pelo braço, e pareceu realmente pequeno ao encontrar o olhar de todos os adultos, a agressividade e reatividade de antes parecendo recuar pelo instinto que uma criança tem quando faz alguma coisa errada.

— Eu… Vi ele entrando. Fui tirar. — Deu de ombros, não olhando para ninguém.

Ches bateu as mãos, pigarreando antes que o barulho pudesse recomeçar.

— Ok, intervenção! — Primeiro, ajoelhar no chão. Heavy parece muito perdido e ainda não falou nada. — Garoto, pra cá. Deixa eu ver você.

A mãe em Vicky parece reagir, testa franzida e falando alto, direto para Dee.

— Que porra? Por que diabos vocês entraram? E como? A segurança é tão ruim assim? O moleque escapou duas vezes! — É acusatório e completamente ofensivo.

— Eles teriam notado se você não estivesse fazendo uma cena! A equipe toda tá tentando se conter, porra! Já pensou em parar de fazer ele fugir?! — Dee rebate, mimetizando a mãe maravilhosamente.

É tão óbvio que são mãe e filho. Os mesmos genes. A mesma capacidade de deixar a música estrondosa e insuportável.

Ches assobia, sem se preocupar em gritar nada. Só um som agudo que atrai a atenção pra ele, então repete o nome de Heavy gesticulando com a mão para lembrar do primeiro comando. Victoria afasta, revirando os olhos com o bufo de um touro descontente, parecendo pronta para pular no pescoço de alguém; Dee gesticula, exasperado, como se tivesse chance de ganhar na mão contra Victória.

Heavy demora, mas obedece. Bom, ainda responde ao ambiente então. Ches segura suas bochechas, verificando o rosto com cuidado, antes de desistir de conservar o avental e rasgar uma parte limpa para enxugar a sujeira e ranho acumulados na bochecha e nariz. É para ser descartável, de qualquer forma. A mão aperta tanto uma sacola que estava carregando, com provavelmente os remédios deles, que começou a ficar vermelha e machucada. Ches segura seu pulso, sem força real, só para guiar o raciocínio.

— Você tá com o remédio, não é? Missão cumprida, então. Tira a força da mão, coisinha, a gente tem que entregar para os funcionários pra eles poderem fazer o trabalho deles. Certo? — A sua voz sai um pouco brusca e gaguejada, mas funciona bem o suficiente. Heavy não fala nada, mas afirma com a cabeça e relaxa os músculos da mão. Ches entende, puxando a sacola para fora. — Certo, chefia. Cê tem que entregar isso pra enfermagem, não é? — Ele olha para o novo policial, um sorriso breve e simpático. Estende a mão com a caixa para o alto, até alguém pegar. Ches não presta atenção em quem.

A pele tá… um pouco mais fria, sim. Não no nível hipotermia. É choque, ele assustou. Ches olha para Victoria, pela primeira vez nos últimos minutos parecendo hesitar em fazer algo, olhando entre o garoto e o pequeno grupo, do policial com o Zangão e uma das meninas do balcão. Quando eles chegaram ali?

— Vicky, rainha. Sua agressividade é deslumbrante e geralmente muito útil, mas, por favor. Não seja presa. Dee autorizou uma hemodiálise e parece que os primeiros resultados foram ok. Não entendo porra nenhuma do que acontece aqui, mas acho que ele parou de morrer, tá bom? Não dá pra apressar mais. — Ele solta uma nota cansada e aerada, jogando o peso nos joelhos para levantar, as costas doendo. Apoia uma das mãos nos ombros de Heavy. — Onde que é o fim de mundo em que vocês passaram a noite? Os garotos precisam de banho e comida. Você também, mas vou esperar te vencer pelo cansaço. Cê assume aqui, beleza? Tu precisa se recompor, mulher.

A voz oscila, uma cadência ensaiada.

— Diálise? — Victoria cambaleia, raciocinando em partes. Tudo bem, porque o raciocínio de Ches também é lento, e isso força o caos a desacelerar. Ela olha para Dee, o rapaz não saindo de perto da porta de emergência, finalmente parecendo a criança que é. — Moleque, você vai me matar antes do seu pai, puta que pariu. Bom trabalho, mas porra.

— Foi necessário. — Dee justificou, baixinho, quase sem força. Então, um pouco mais forte. — Não dava pra esperar e você não estava aqui. — Aqui, há pelo menos um décimo da hostilidade que originalmente foi dirigida para Ches. Um rancor que não estava sendo completamente ofuscado pela lógica.

Victoria recua, como se tivesse sido um coice. Agressividade recuando enquanto se volta para Ches.

— Se eu for presa, tu vai ter que pagar minha fiança com aquela van destruída tua. Eu realmente duvido que aquela coisa valha mais do que uma bala.

— Isso é ofensivo, meu Muquifo tá em ótimas condições, muito obrigado. Quem faz a manutenção dele é você! E o cabeçote já era, vou cobrar quando a gente voltar pra casa.

— Como tu detonou o cabeçote? Tem pouco morro pra chegar aqui, tua direção não é tão ruim.

— Um pombo suicida muito idiota. — Sim, ele ainda está chateado. Aquele pombo vai receber suas maldições até o dia em que Ches morrer, porque é estúpido pra caralho. — E as estradas vagabundas que não recebem manutenção há décadas, o Muquifo tem seus limites, veja bem…

A mulher olhou mais uma vez para as crianças, inspirando profundamente. Fechou os olhos com força, tentando forçar a racionalidade de volta. Então, tirou um cartão de plástico de um bolso interno.

— Tá. Quarto 213, fim da Avenida Principal. Tô com paciência pra consolar ninguém agora, não. Aqui, vou te emprestar meu cartão de crédito. Se precisar comprar alguma coisa para os meninos… Deve ter um ponto de ônibus ou táxi aqui perto, o Marshmallow ficou do outro lado da lama. Dei a chave pra um cara da federal, mas vai demorar para recuperar.

— Você quer dizer que conseguimos perder os dois carros que poderiam nos tirar daqui? — Ele ri, sem energia nenhuma para entrar em pânico. Aceitou o cartão e enfiou no bolso da calça. — Dou meu jeito, que seja. Volto depois, aí tu que vai se cuidar.

— Eu estou ótima, Ches, você que tá parecendo outro internado. Não vem tentar agir como se eu fosse um dos meninos. Já aguentei tranco pior, um plantão não é nada.

— Ótima que nem o Muquifo. E eu aposto que eles vão te fazer vestir um pra ficar também, então eu realmente não tô ofendido agora, a gente tá na mesma merda, patroa. Agora, observa a mágica que tratar as pessoas com carinho faz, devia usar como exemplo.

Uma breve checada em Heavy. Ainda de pé, ainda sem responder. Dá um breve empurrão em suas costas para esperar perto de Victoria, então dá meia-volta, andando para onde o Zangão e o novo camarada de farda conversavam com expressões sérias e profissionais.

— Ei, gente inteligente. — Ele cantarola, o sorriso tosco voltando pro rosto. — Liga pra leoa ali não, ela geralmente é um pouco melhor, mas a única pessoa que ela respeita tá respirando por um tubo, então dá um desconto. Vamos parar de causar problemas, então não me chuta pra fora, faz favor. Vou tirar os garotos daqui antes que alguém desmaie no corredor. Querida, flor de primavera, doce de mel, posso ter a graça de saber seu nome? — Para a balconista, o tom de voz fica mais grave. Geralmente dá pra fazer alguma palhaçada com as mãos, mas dessa vez Ches só as esconde nas costas. Tremem demais. — Vou revezar com o fogaréu ali atrás pra ter notícias. Que horas eu posso voltar? Em condições melhores, é uma promessa. Palavra de músico.

— Bom… Considerando que é um paciente adulto, a visita social geralmente é de duas vezes ao dia, por sessenta minutos no máximo… — A mulher responde, parecendo um pouco receosa, mas confiante, já que tava literalmente do lado de um policial. — Podem tentar conversar com o Doutor pra alguém ficar aqui, costuma ser às oito da manhã, duas da tarde ou oito da noite. Mas você vai precisar que ela autorize se for ficar, só é permitido um acompanhante. Em situações extremas…

Justificando demais, Ches gesticula com as mãos, tentando ser suave e falar baixo. Ele não é como Vicky, não vai agredir ninguém. Um tapa do segurança quebraria suas costelas.

— Relaxa, eu não mordo. Ela tem que falar com o Doutor, então. Qual o telefone daqui? O sinal tá péssimo pros rumos de cá, mas como é saúde, é independente, né? Vou ligar pra saber se posso vir, isso funciona, certo? Tem um cartãozinho? Panfleto educativo? Senhorita…?

Ele inclina a cabeça, esperando.

— Ah, é Kaila. Aqui. — Ela se afasta do grupo e volta com um cartão e um pedaço de papel, agora, também sorri com um pouco de boa vontade. — Tem as regras da internação também. Se quiser, pode passar na assistente social antes, ela vai explicar melhor seus direitos e opções.

— Vou deixar essa opção pro Ches descansado. Ou depois que a nossa explosão residente tomar um banho e tirar um cochilo de no mínimo três horas, para evitar coisa intensa. Muito obrigado, Kaila. E pede desculpa para os funcionários que o garoto ofendeu por mim, por favor. Assim que as coisas ajeitarem, compro uma lembrancinha pra mandar pra cá. Pode saber que é do seu amigo “Ches”. — Agora, se vira para o policial. O homem tem a sobrancelha arqueada graças à breve interação. — Amigo, você que trouxe a grande ursa, não é? Aqui, o Bruno, lá do posto do KM 54, me trouxe aqui, mas ele já vazou. Cê já quebrou o grosso trazendo a patroa, não rola um favorzão agora, não? Cê vai ter que descer até a delegacia civil pra sua papelada, não me ajuda a levar os moleques? Ou eles vão começar a criar raiz, e tenho certeza de que o pirralho tá em choque. Vai precisar nem desviar o caminho. Preciso mesmo apresentar eles pra cama e comida boa. Sabe, o encontro já tá atrasado…

O policial pareceu um pouco surpreso. Olhou para um ponto atrás dele, onde Victoria tinha se abaixado para lidar com Heavy. Dee tinha cruzado os braços e estava esperando encostado na parede, o queixo teimosamente erguido.

Enfim, levantou a mão em um aperto formal.

— Claro. Meu nome é Mathias, é um prazer conhecer, Ches.

Ches sorri, de orelha a orelha, e aperta a mão.

— Valeu, rapaz. Até que tô tendo sorte com os fardados do dia, bacana. Cê é meu novo melhor amigo entre os polícia, não me prende e ainda dá carona. 10/10, te amo, camarada.

Volta para perto das crianças, passando a mão no cabelo para se recompor e pensar em algum tipo de plano. Algo gerenciável. Victoria murmura algo para Heavy, bagunçando seu cabelo e arrancando um tipo de reação insatisfeita, mas reação.

— Ok, moleques. Vocês vão com o Ches tirar esse cheiro de desgraça; eu fico aqui, descubro o que tá acontecendo e acampo na frente da porta.

— Nem ferrando. — Dee responde, rápido. Sem olhar pra eles. — Eu assinei os papéis, sou o responsável legal agora. Nenhum de vocês sabe ler um prontuário, não vou pra uma pousada dormir enquanto o coração dele tá tentando decidir se volta a bater direito ou não.

Ches dá alguns passos para perto, na intenção de tocar o ombro e conduzi-lo com alguns argumentos mais tranquilos e lógicos como “Tá tentando entrar no quarto como paciente também, cara?”. Mas Dee afasta sua mão com um tapa, dando alguns passos pesados para longe. Só um pouco.

— Porra, Ches! Cê tá agindo como se fosse a voz da razão, mas nem tava lá! Quem contou os segundos e ouviu a costela dele estalar fui eu, tá bom? Quem foi chamar ajuda fui eu, porque nenhum de vocês tava lá! Nem vem tentar me jogar fora, não preciso de comida, não preciso de banho, não preciso de porra nenhuma que não seja esse lugar funcionando, e eles não funcionam sem pressão!

É um pouco desrespeitoso. Provavelmente significa que ele está chegando perto do segundo colapso do dia. Pelo menos, no que Ches presenciou.

— Ok, então me responde uma coisa. — Ches respira fundo, jogando toda a ofensa recebida para fora da cabeça, levantou a mão, em aparente rendição. — Cê toma decisões melhores quando não dorme? Não é pra responder rápido, tô te desafiando a pensar.

Dee quer xingar, dá pra ver no rosto dele. Ches está cansado demais para uma conversa profunda sobre sentimento de abandono, traição e fracasso.

— Bora, seu cérebro inteligente tá fritando. Vai ajudar mais não desmaiando, ou vai fazer companhia pro teu pai no lado errado dessa porta.

— Garoto, tu não é nenhum médico. Só ficou lá porque a gente deu o azar de acabar ilhado longe de casa! Se o coração dele parar, não é seus bracinhos finos que vão fazer a manobra. Tu pediu ajuda, manteve ele vivo até aqui. Seu papel acabou, porra! Tá vibrando de nervoso! Se tu ficar, vai cometer erros, e a gente não tem margem de erro aqui!

Delicada como um vulcão em erupção. A explosão serviu para deixar as coisas quietas, então Ches aproveita para puxar Dee — que, como Victoria disse, parecia vibrar de energia nervosa e pronto para pular no pescoço de alguém. Ofendido demais para argumentar. Dessa vez, Dee não argumentou. O clima é tão denso que poderia ser cortado com uma faca.

O Heavy ele segura pelo pulso. Teria carregado, mas não tem tanta força assim — talvez ontem, antes de a abstinência real se instalar. Agora, mal consegue manter a preensão direito. Dirigir seria um inferno. Para manter o som, assim que Mathias finalizou as anotações do relatório e guardou sua papelada, no caminho para a viatura, começou a conversar.

— Uns amores eles. Então, como que tão as estradas por aí? Tava tudo um caos cedinho, e ontem também. Passaram por muito perrengue pra chegar?

— Ah, estão liberando o caminho da maior parte agora. Os desabamentos, quero dizer. Tem muita área interditada ainda, mas até o final do dia deve resolver. Um caminhão atolou no caminho pra cá, bloqueando a passagem, mas dona Victória resolveu antes mesmo do guincho. Ela é bem… proativa, não é?

— Demais. Ela que faz a manutenção do meu Muquifo, e eu comprei ele faz uns vinte e sete anos, como seminovo. Sem brincadeira, aquela van tem quase minha idade. Passa por uns perrengues, claro, mas a Vicky consegue fazer continuar rodando. Mas agora meu fluído tá puro café com leite, então vai dar ruim por um tempo. Tenho… que tirar ele do pátio, sim. Daqui a pouco a grana não vai tá nem gerenciável. Se a estrada não cair de novo, arranjo um guincho bacana para a oficina de uma conhecida. Devo dever até o rim lá, mas ela é muito boa. Não tanto quanto a Vicky, mas tenho certeza de que vai ter um contato pra substituir as peças do motor… Aqui, o salário da Federal compensa? Porque no momento eu tô me sentindo muito é pobre. Despesas de estrada te ferram quando cê menos espera, tá entendendo? Bom que a maioria dos meus contatos aceita cerveja como pagamento. Uma pena que eu ainda vou ter que comprar a cerveja. Ou carne. Ou brincar de faz-tudo para alguém.

Continuou conversando. O tom bem baixo, quase chapado. Quando entrou no carro, sentou no banco da frente, para os meninos poderem ir atrás. Não tem sirene ou iluminação colorida agora, porque a emergência acabou. Consegue liberar os nós musculares e só apoiar a cabeça no encosto, os olhos um pouco fechados.

— Mas que diabos… — Dee finalmente começou a acordar para falar, mas o impulso de antes já tinha passado. Era mais uma fala incrédula e chocada.

— Dee, novo objetivo, tenta fazer teu irmão responder.

— Vocês são inacreditáveis, sinceramente. Ridículo… — O garoto bufa, braços cruzados. Então cutuca Heavy na bochecha com um único dedo. — Heavy, ouvindo aqui?

Na terceira tentativa, realmente há uma resposta. Um “...Sim” bem hesitante e baixo. Ches inclina a cabeça para visualizar: punhos fechados no tecido da calça; coluna tensa, e olhando teimosamente para os próprios pés. Neste ponto, Ches desiste de manter a conversa aleatória, apenas focando em puxar o garoto para fora do choque.

— Bem-vindo ao mundo dos vivos, pirralho. Vamos brincar. Eu vejo com meus olhinhos uma coisa… bom, verde. O que acha que é?

— Ahm… Árvore? — Não parecia muito a fim de responder ou conversar, mas sempre é muito colaborativo para jogar. É mais fácil assim.

— Culpa minha, facilitei. Sua vez.

Dee apoiou a cabeça na janela. Apesar da teimosia, começou a dormir. Mesmo que Ches não tenha calado a boca desde que começaram, puxando conversa do lado de Mathias ou Heavy a qualquer momento. É só pra distrair. Depois de duas rodadas, o garoto pareceu cansado. Não o tipo doentio que tava parecendo antes, mas como uma criança que realmente teve alguns dias muito estressantes.

Uma hora de trajeto, e os dois garotos estavam dormindo. Nada mau. Exceto que ainda vão ter que acordar, porque Ches não é Victoria e sua capacidade muscular é muito limitada.

— Você é… Bem cuidadoso.

— Eu sei, sou a babá oficial deles desde que nasceram. — Ches cantarola para o policial, que parece até um pouco surpreso. — Não parece, eu entendo. Geralmente eu moro numa vaga coberta, então é uma grande prova de confiança deles deixarem um quase sem-teto cuidando de dois moleques. Eles são exóticos, cê viu. — Ele próprio fechou os olhos, tentando aliviar a dor constante e manter as mãos quietas. — O pai deles que me tirou do fundo do poço. Ele não precisava, mas tirou. Já teria morrido há muito tempo se não fosse por essa galera.

Cantarola com a garganta, buscando um padrão de som específico. Grave, médio, agudo. Mínimas, semínimas e colcheias. Só para preencher o comando que o corpo precisa enviar. Fecha os olhos, mas não dorme. Há muita eletricidade pinicando por debaixo da pele apesar da exaustão. Ao contrário de Dee, se Ches dormir agora, vai perder o privilégio do cansaço mascarando a irritabilidade e o pânico. Acordaria com o coração pulando para fora do peito por pura descarga de adrenalina.

Um, dois, três, quatro. Quatro para dentro, cinco para fora. Não alimentar o pânico da abstinência. É um bom mantra. O mundo não é bonito, é cinzento e a gravidade se multiplica a cada segundo, forçando o ar para fora dos pulmões e a capacidade de racionalizar. É só ignorar, já esteve aqui antes.

Tudo vibra, como ele. É como se fosse explodir.

Um, dois, três, quatro. Mantenha o ritmo, Ches.

Escala natural. Então sobe um semitom, depois baixa mais um tom, oito notas em sequência, subindo e descendo. Os pneus rodam em um ritmo constante e não tem barulho ou pressa para nublar os pensamentos, apenas a estática da aceleração química atravessando os ouvidos.

É tarde, bem tarde.

Só abre os olhos quando o carro para. Não em frente a uma delegacia cinza e chata, mas em um prédio rústico com mau acabamento e uma placa decorativa. Dentro da cidade. Chegaram.

— Tenho quase certeza que esse é o prédio de que a Dona Victória falou.

Ches ri com o nariz.

— Isso não é desvio de função? — As mãos tremem demais. O riso bem-humorado é atrapalhado pela frustração de apertar o botão para se livrar do cinto de segurança, a força de preensão e mira falhando. Ele continua falando para disfarçar a situação. — Você é um cara legal, Mathias. Muito legal mesmo, obrigado. Se a gente se encontrar de novo, prometo te compensar. Cê gosta de que tipo de carne? Ou é mais do tipo peixe? Conheço um cara que faz até churrasco vegano, não excluo ninguém. A gente comemora igual. O importante é ter música e comida.

Mãos estúpidas. Dedos inúteis pra caramba.

— Pode me compensar se mantendo seguro o suficiente para não precisar mais dos nossos serviços, Ches. — O cara tem a decência de desviar o olhar para a janela. Ches morde a ponta da língua, o polegar escorregando, por pouco. Sexta tentativa, finalmente consegue pressionar o suficiente para vir o “clique” sinalizando sua liberdade.

— Ah, mas isso aí é com vocês. Se continuarem implicando com meu Muquifo, quando ele ressuscitar, a gente se encontra rapidinho. Já sei, vou deixar um fardo de cerveja na mala, etiquetado para vocês. — Abre a porta, cambaleando para fora com um bocejo.

As crianças, certo. Mathias ri, parecendo preocupado.

Puxa a alavanca da porta traseira e balança os dois pelos ombros.

— Bom-dia, flor do dia. Vão andando com os próprios pés, cês tão grandes demais pra mim já.

Dee abriu os olhos. O pouco sono aparentemente derrubou o estado de adrenalina de antes, e agora parecia realmente atordoado e grogue, com os olhos vermelhos e inchados. Soltou o ar entredentes e, sem dizer uma palavra, desembainhou o cinto com a precisão que só alguém jovem ou medicado teria. Desviou dele como se fosse invisível e seguiu para dentro, sem esperar por ninguém.

Heavy balançou a cabeça, acordando fácil. Não parecia tão perdido agora.

— Onde a gente tá? — Bom, talvez um pouco. Mas, ei, ele tá falando agora. É um sinal bom. Ele tira o cinto cambaleando para fora.

— No seu merecido banho de loja, garoto. Sei que dizem que banho de lama é bom para a pele, mas acho que já deu o tempo de tirar essa craca.

— ...Banho de lama é bom para a pele?

— Nem ideia. Não me leva a sério, faz favor.

Fechou a porta atrás do pirralho, acenando para o policial lá dentro. Há algo parecido com um “Boa Tarde” e a viatura sai, calmamente, quando começa a andar para dentro, segurando o pulso de Heavy para não perdê-lo.

Naftalina, terra e madeira úmida. É um cheiro estranhamente natural em comparação ao ambiente asséptico do hospital. É como renovar os pulmões completamente. Ches geme, visivelmente se adaptando ao novo paradigma, então visualiza seu novo alvo, atrás do balcão do recepcionista. Luz amadeirada e um cara calvo parecendo muito petrificado, olhando na direção deles com os olhos arregalados.

— Ei, mestre. Ignora o figurino, é a moda de Paris, não chegou aqui ainda. “Vivendo com ursos” que chama. — Se aproxima, sem tocar no balcão. Por experiência, sabe que a boa vontade das pessoas diminui muito quando começa a sujar as coisas, mesmo que tenha tirado o grosso da sujeira há algum tempo. Heavy ainda deixa terra cair por todo lado. — Não sei se a patroa ligou pra avisar, sou o encarregado da creche. O moleque subiu as escadas?

O recepcionista olhou para Ches, então para a estátua de barro o seguindo. Desconfiado, mas não surpreso. Bom, a novela começou quase dois dias atrás, é tempo suficiente para o pessoal se informar. A fofoca é bem completa nesses lugares. O cara tem um arrepio só de pensar em Dee, o que quer dizer alguma coisa.

— Seja lá o que ele tiver ameaçado, ignora. Ele é dramático, herança genética. Família de artistas, sabe? O pai é professor de música, toca como um maníaco a vida toda, e a mãe tem a expressividade de uma onça com cólica. É fantástico, a vida parece uma novela 24h por dia, todos os dias da semana.

— Isso tem a ver com a ambulância de hoje cedo? Alguém morreu?

O sorriso endurece um pouco. Ches expira, um pouco insatisfeito. Pessoal curioso. Se não fosse uma situação delicada, com crianças perto, não se importaria de dar detalhes e fazer da própria vida um seriado digno de Oscar. Mas, dessa vez, realmente não funciona. Heavy ainda está perto dos seus pés.

— Ninguém morreu, não. Mas os pombinhos vão ficar no hospital por um tempo. Vou te pedir pra perdoar a falta de educação, eles geralmente se concentram em não traumatizar ninguém, mas é uma situação de “vida ou morte” que não veio no panfleto da reserva. Me fala, chefia, o garoto tá com a chave ou preciso pegar contigo? Quarto 213, reserva de Sebastian Bolshoi.

— Ele… Não devolveu a chave quando saiu.

— E se não veio reclamar, tá com ele então. Eu realmente devia ter confirmado isso no caminho, teria sido muito ruim ter deixado a chave acampada no hospital, né? Que nem minha roupa suja. Caramba, eu não peguei minhas roupas. — Um estalo. Ele esqueceu desse detalhe. Deve estar em uma das cadeiras da sala de espera. — Obrigado, logo eu volto aqui. Tô precisando saber onde conseguir comida boa aqui, e cê tem jeito que conhece bem os lugares, beleza? Mas aí vou tá parecendo um cidadão modelo de novo, vai nem reconhecer.

Dispensou, o brilho malandro nos olhos e um sorriso vitorioso. Há escadas e… sim, um elevador. Não quer disputar com sua resistência física para ver quem morre primeiro, a dorzinha surda e constante no peito já tem sido absurdamente constante.

— A ambulância veio aqui?

Ches desviou o olhar para Heavy, dando de ombros enquanto entravam no elevador.

— Você aperta o botão. É segundo andar. — Pede, mas sem realmente dar brechas. Acabaria clicando no botão errado. Ches esfrega as mãos, aumentando a circulação nos dedos para tentar reduzir a falta de coordenação. Heavy arqueou a sobrancelha, mas obedeceu. — Provavelmente seu irmão foi chamar eles no posto de saúde quando seu pai piorou.

— O pai vai sair de lá? Ele tava bem ruim. Cinza. E num saco.

Hora das perguntas difíceis. Ches quase achou que escapou, perdendo o ar dos pulmões. É uma pergunta lógica e que ele já estava esperando.

— Se eu pudesse prever o futuro, já estaria rico, Heavy. Faria um programa de TV e tudo. — A porta abriu, Ches foi olhando as portas. 201, 203… Números ímpares, até o 213. — Seja o que for, a gente lida com isso, ok? Mas tem que esperar acontecer. Sofrer com antecedência não ajuda.

Testa a maçaneta. Aberta. Pelo menos Dee não trancou eles para fora.

O quarto… é um portal para outro mundo. A cômoda e os móveis foram afastados da porta. Uma poltrona estava arrastada para perto da cama de casal e tinha um beliche no canto do quarto. Ches tem certeza que é uma pilha de roupa suja saindo por debaixo da cama, mas é extraordinariamente organizado. Alguns aparelhos de hospital, mantimentos de farmácia e caixas de remédios organizados na madeira do móvel.

Dee, previsivelmente, tinha entrado já. Os sapatos estão no pé da cama e se jogou na cama. Sem banho real, porque o resto de maquiagem que só a água e álcool do banheiro não conseguiram tirar ainda está ali. Não largou o caderno, ainda segurando firmemente, como um amuleto.

— Banho. Agora. Esfrega até a alma. — Ordenou, empurrando Heavy até a porta do banheiro. Tem uma pequena divisória no canto do que deveria ser a cozinha, mas tudo parece muito escuro. Há vedações nas brechas das janelas e portas, então a luz natural não entra.

Ches acende uma lâmpada menor no canto. Para conseguir enxergar. Heavy está acordado, então vai precisar de roupas. Ele também. Heavy ainda parece relutante em argumentar, ou agoniado o suficiente com a própria sujeira. Seja o que for, foi para o banheiro e acendeu as luzes sem muita briga.

Passou de frente à cômoda com os remédios. Para o guarda-roupa, onde as malas maiores estavam encostadas. Um alarme acendeu e Ches não identificou qual era, mas seu corpo reagiu virando a cabeça imediatamente. Um condicionamento que anos de gerenciamento de danos permitiram. O som do chuveiro começou, constante, de pressão de água.

Ches parou de cantarolar. O zumbido nas têmporas parece atravessá-lo, um ritmo acelerado e sem melodia acompanhando.

Essas caixas… Tarja vermelha. O desenho. É Diazepam. 10mg.

Ele quer rir, alívio real em muitas horas. Isso vai servir enquanto não voltar para casa. Um único comprimido, pela metade, pra não apagar. Só pra continuar racional. O limite desse corpo quebrado já foi atingido há muito tempo.

Engole seco. Amargo parecendo entalar contra sua garganta, uma sensação de sufocamento pontual. Ches pegou a cartela e deixou separada, então, como se nada houvesse acontecido, segue o caminho até o guarda-roupa. Cheira ao amaciante neutro e chato que Glam usa e é fácil de identificar os conjuntos guardados.

Um pijama para Heavy. Para ele… uma camisa e calças limpas. São grandes demais e inadequadas para ele, mas toleráveis na sociedade. O peito dói, só um pouco.

Inspira. Um, dois, três, quatro. Expira. Um, dois, três, quatro.

Está tudo bem. As coisas vão continuar seguindo. É só… não cair agora.

Notes:

Eu demorei mais de mês para escrever essa história. E EU AMEI

Notes:

O capítulo ficou maior do que eu esperava, mas cada informação é essencial. Para quem não entendeu:

Glam usa medicações de uso contínuo (Para controle sintomático do autismo e Transtorno Esquizoafetivo). Interromper o consumo abruptamente pode e vai dar muito errado.
A tremedeira não é por causa de lesão ou crônica, mas pelo consumo do Lítio, que é um sal no organismo.

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