Work Text:
Danny sugou o fantasma para dentro da garrafa térmica e pousou, respirando com dificuldade e segurando um corte raso na lateral de seu corpo. Lutar contra alguém com foices no lugar de unhas não era divertido, e era menos divertido ainda quando, antes, ele precisava expulsar esse alguém do corpo da sua diretora. Por sorte, no entanto, ele havia deixado a Sra. Ishiyama lá atrás, na escola, e ela não estava ali naquele beco para vê-lo se tornar humano novamente, com os anéis brilhantes de transformação varrendo o seu corpo, mudando seu cabelo branco e seus olhos verdes para preto e azul, respectivamente.
Ele gemeu e esfregou as pálpebras. O encontro com a falsa Ishiyama havia começado enquanto ele estava a caminho da detenção depois da aula. O Sr. Lancer ficaria... bastante insatisfeito com ele.
Sombras cruzaram a entrada do beco no momento em que Sam e Tucker passaram correndo e, logo em seguida, voltaram recuando. Danny acenou para eles, cansado, com a mesma mão que segurava a garrafa térmica.
— Como você sabia que ela estava sob sobreposição? — perguntou Tucker, sem fôlego, enquanto Sam se abaixava para examinar o ferimento de Danny.
— Como eu sabia? A pergunta certa é: como vocês não sabiam? Os olhos dela estavam completamente vermelhos. O olho inteiro! — Ele tirou a mão do machucado para agitá-la na frente do próprio rosto. Sam precisava de um acesso melhor, de qualquer modo.
— Do que é que você está falando? — perguntou Sam, tirando um kit de primeiros socorros de sua mochila. — Os olhos dela estavam normais.
— É verdade — disse Tucker, pegando a caixa das mãos de Sam para que ela pudesse vasculhá-la sem precisar colocá-la no chão imundo do beco. — Ela parecia do mesmo jeito de sempre.
— O quê? Sério? — perguntou Danny, atônito. — Esperem, parem um pouco. Vocês já viram outras pessoas sob sobreposição antes, não é?
— Sim? Claro que já vimos — disse Sam.
— Você já fez sobreposição em mim o suficiente — disse Tucker.
— E vocês nunca, sei lá, notaram que a cor dos olhos de uma pessoa muda quando ela está sobreposta? Que eles brilham?
— Não — disse Tucker, lentamente. — Porque isso não acontece. A cor continua a mesma. Do contrário, seria muito fácil perceber quando alguém estivesse sob sobreposição. Seria só olhar para os olhos da pessoa.
— Eu imagino que seja um poder que você não tinha percebido que era um poder — disse Sam. — Os olhos do Vlad parecem vermelhos para você o tempo todo?
— Não — disse Danny. — Ele parece normal. Esperem, vocês conseguem ver quando os meus olhos brilham, não é? Quando eu fico com raiva, ou quando uso meus poderes na forma humana?
— Sim — disse Tucker. — Nós conseguimos ver isso.
— Eu acho que isso é o suficiente por agora — disse Sam, dando um tapinha leve nos curativos. — Voe para a minha casa e nós podemos terminar de arrumar isso por lá. A menos que você tenha mais alguma coisa que eu não percebi?
— Não — disse Danny. — Você cuidou de tudo. E nós realmente precisamos testar esse negócio dos olhos.
O ferimento não exigiu muita limpeza, e o seu fator de cura fantasma já havia começado a agir na região no momento em que ele se encontrou com Sam e Tucker novamente, então o curativo ficou leve e imperceptível por baixo de suas roupas. O que era bom, porque ataduras muito óbvias tendiam a chamar a atenção de seus pais de um jeito ruim.
— Mãe? — ele chamou. — Pai? Cheguei!
— Ei, Danny! — gritou o seu pai, com a voz ecoando da porta aberta que levava ao laboratório no andar de baixo. — Desça aqui e veja no que estamos trabalhando!
Bem, aquilo foi o suficiente para causar um arrepio por todo o seu corpo. Danny não gostava de descer até o laboratório enquanto seus pais estavam ativamente trabalhando em alguma invenção. Quase sempre a coisa em questão acabava atacando-o.
Ainda assim, ele não gostava de decepcioná-los se pudesse evitar, então largou a mochila perto da porta e desceu as escadas tenso e com a postura curvada.
— O que é? — ele perguntou, assim que se aproximou do pé da escada.
— Um detector de possessão! — disse Jack, brandindo uma chave de fenda no ar. — Nós ainda não pensamos em um nome!
— Nós só começamos a trabalhar nele hoje — disse Maddie.
Na teoria, um dispositivo capaz de detectar uma sobreposição e impedir que as pessoas fossem feitas de reféns daquela forma seria ótimo... a menos que ele também pudesse detectar meio-fantasmas na sua forma humana. Aí não seria tão ótimo assim. Aquilo também tornaria sua recém-descoberta habilidade e vantagem um tanto inúteis, então ele não tinha muita certeza de como se sentia sobre aquilo tudo.
— Isso é legal — disse Danny, com um tom de voz neutro. Ele flexionou as mãos. — Como funciona?
— Nós vamos te mostrar! — disse Jack, puxando o aparelho semiacabado da mesa enquanto Maddie soltava um muxoxo de desaprovação. Ele enfiou o objeto na cabeça de Danny como um capacete, e o garoto tropeçou sob o peso inesperado, deixando escapar um ruído agudo de aflição pelos lábios. Algo brilhante iluminou seus olhos e ele recuou instintivamente antes de ser estabilizado pelo seu pai. — Viu só?
— Hum — disse Danny. — Não.
Ele ouviu Maddie suspirar.
— Depois de examinar alguns voluntários que alegaram ter sido possuídos recentemente, nós notamos que eles tinham um nível de ectoplasma nos olhos muito maior do que o normal, mesmo para pessoas que vivem em um ambiente com alta incidência de ectoplasma. Estudando o processo de trás para frente, nós percebemos que os fantasmas que os possuíam deviam estar manifestando fisicamente os próprios olhos até certo ponto durante o ato, provavelmente para reter a própria acuidade visual. Fantasmas, no geral, têm uma visão melhor do que a dos humanos.
— Aham — disse Danny. Ele tinha notado aquilo, na verdade. Sendo meio-fantasma e tudo mais.
Ele também estava realmente torcendo para que a máquina fosse não funcional. Talvez já tivesse passado tempo suficiente para que ele a tirasse da cabeça sem receber um sermão por isso?
— A questão é que nós achamos que devemos conseguir detectar essa possessão das camadas — disse Maddie. — Nós estamos testando diferentes comprimentos de onda de luz. O problema é que nós não queremos, por acidente, acusar pessoas como nós, que apenas possuem níveis relativamente altos de ectocontaminação, de estarem possuídas sem mais nem menos.
— Ou o Vladdy! — disse Jack. — Ele tem altos níveis de ectoplasma no sistema dele desde a faculdade! É por isso que ele vivia tendo aquela ectoacne!
Danny sentiu o seu olho tremer.
— Você consegue perceber como esse tipo de coisa poderia evoluir para uma caça às bruxas — disse Maddie. Ela ergueu a máquina, tirando-a da cabeça de Danny. — Está vendo? Você está apresentando leituras como as daquelas pessoas que acabaram de ser possuídas, mas nós sabemos que você não foi.
Ela mostrou um pedaço de papel parecido com um recibo para Danny, e ele assentiu com a cabeça, mesmo não conseguindo ler os dados.
— As nossas são assim também — ela terminou.
— Bem, seria muito legal se vocês fizessem isso funcionar — disse Danny, aliviado por não ter que lidar com os pais decidindo que ele estava “possuído”, mas também perturbado pelo fato de os olhos de seus pais aparentemente conterem uma quantidade de ectoplasma semelhante aos seus. — Eu provavelmente deveria subir e trabalhar na minha lição de casa.
— Combinado, Danno! — disse Jack, bagunçando o cabelo de Danny. — Vá acabar com ela!
Danny sorriu, já recuando para os degraus.
— Eu não acho que dê para fazer isso com a lição de casa, pai. Não é como os nossos cachorros-quentes. Ela não tem vida própria.
— Falando em comida — disse Maddie —, nós vamos pedir o jantar hoje à noite. Tem alguma coisa em particular que você gostaria?
— Comida chinesa? — pediu Danny, esperançoso, com um pé no degrau da escada. — Daquele lugar que faz a comida bem apimentada?
— Tudo bem, mas nós vamos pegar só uma tão picante assim. O resto de nós não aguenta.
— Certo! — disse Danny, correndo de leve pelo restante das escadas. — Eu amo vocês! Tchau!
Ele de fato subiu para o andar de cima, mas primeiro foi ao banheiro, e não para o seu quarto. Ele encarou a si mesmo no espelho, e deixou que um pouquinho de ectoplasma se infiltrasse em seus olhos, formando um fio verde e brilhante ao redor de sua íris. Os olhos dele eram realmente tão diferentes assim dos de todos os outros?
Ele balançou a cabeça. Tinha lição de casa para fazer. Talvez, se fizesse todas as tarefas de inglês, o Sr. Lancer não lhe daria mais uma detenção.
